WhatsApp agora é do Facebook.

O WhatsApp é do Facebook: por que, o que muda e para onde correr (se quiser) com essa venda


20/2/14 às 10h40

Entre morangos cobertos com chocolate no último Dia dos Namorados, a venda do WhatsApp para o Facebook foi consolidada. Jan Koum, co-fundador e CEO do WhatsApp, não poderia ter aparecido na casa de Mark Zuckerberg em hora mais inoportuna, mas para quem estava disposto a gastar uma bolada com a aquisição da startup, o que é um Dia dos Namorados, certo Zuckerberg? Priscila Chang não deve ter ficado chateada em dividir seus morangos com o novo colega de trabalho do marido.

Essa é apenas uma das histórias surreais que envolvem o WhatsApp, app de troca de mensagens comprado ontem pelo Facebook por astronômicos US$ 19 bilhões — US$ 4 bi em dinheiro, US$ 12 bi em ações e US$ 3 bi, ainda pendentes, em ações restritas a serem distribuídas aos 55 funcionários do WhatsApp nos próximos quatro anos. Isso é quase 10% do valor de mercado do Facebook.

O WhatsApp nunca teve muita divulgação formal e seus fundadores sempre foram discretos, recusando aparições na mídia. Nem uma assessoria de imprensa eles tinham. De acordo com Brian X. Chen, do New York Times, Koum e o outro co-fundador, Brian Acton, dois ex-executivos do Yahoo, encaravam sua startup como a antítese do Vale do Silício. E essa imagem ia muito além do trato com a imprensa.

Em um universo recheado de apps gratuitos, a maioria bancada por anúncios, o WhatsApp despontou como um caso raro de app pago e sustentável. A estrutura é enxuta, os funcionários, poucos e comprometidos. O modelo de negócios dele se baseia em assinaturas anuais de US$ 1, com o primeiro ano (e, em vários casos, até mais) grátis. Parece funcionar bem.

O WhatsApp não é apenas diferente, ele é agressivamente contrário ao modelo predominante baseado em anúncios. Uma das “aparições públicas” mais emblemáticas da empresa se deu neste post do blog oficial, de junho de 2012, em que Koum explica por que o app não veicula anúncios.

“Lembre-se: quando anúncios estão envolvidos você, o usuário é o produto.”

Sem anúncios, sem jogos, sem truques.
Foto: Sequoia Capital.

Em sua mesa, Koum mantém um post-it escrito por Acton (foto ao lado) onde se lê “Sem anúncios, sem jogos, sem truques”. Até agora, eles têm seguido religiosamente esses mandamentos.

A ideia é que, mesmo com o negócio fechado com o Facebook, esse discurso não mude. Veremos essas implicações com mais detalhes a seguir, mas antes, tem a pergunta que não quer calar.

Por que o Facebook pagou tanto pelo WhatsApp?

O WhatsApp era independente, livre de anúncios e super popular, especialmente nos mercados em desenvolvimento. No ano passado, Charles Golvin, da Forrester, disse ao BuzzFeed que “em locais como Brasil, México, Espanha… 25% do tempo que as pessoas gastam nos smartphones, são gastos no WhatsApp. O número varia em cada desses países, mas é dessa magnitude”. Isso é muita coisa.

De lá para cá o ritmo de crescimento do WhatsApp não diminuiu. Continua acelerando, ganhando um milhão de novos usuários por dia. Dependendo dos seus critérios, ele se configura como a rede social que cresceu mais rapidamente na história, superando com folga Twitter, Instagram e o próprio Facebook. Com 450 milhões de usuários, 70% deles ativos diariamente, a curva de crescimento comparada às de outras redes populares impressiona:

Gráfico compara o crescimento do WhatsApp ao de outras redes sociais.
Gráfico: Facebook.

Parece loucura, mas vendo esses números fica claro que o WhatsApp representava uma ameaça ao domínio do Facebook. E o Facebook, como o histórico recente mostra, não dá margem a ameaças. O Instagram, a rede social de fotos preferida de quem tem e fotografa com um smartphone, foi comprada em 2012 por US$ 1 bilhão. O Snapchat também foi alvo dos cofres de Zuckerberg, mas resistiu à oferta US$ 3 bilhões.

Mesmo tendo um app similar (e bom!), o Facebook Messenger, o WhatsApp parte de premissas diferentes das do Facebook e, mais importante, já caiu no gosto do povo. O Facebook Messenger também permite a troca de mensagens diretas a partir da lista de contatos do celular, mas é mais comumente usado para se comunicar com contatos do Facebook, a rede onde estão seus amigos. E seus parentes. E gente que você não vê há décadas e/ou adicionou por mera formalidade. No WhatsApp, na sua lista de contatos do celular, estão pessoas mais próximas, com quem se conversa de fato. Pesa a favor também a disponibilidade: ele funciona em um punhado de plataformas, até no Symbian.

A aquisição também reforça a ideia de apps distintos que o Facebook começou a colocar em prática nesse ano com o Paper. Facebook Messenger, Instagram, Paper e WhatsApp formam um quarteto e tanto. Fragmentar o uso do smartphone em diversos apps não parece ser problema para o Facebook, desde que esses apps sejam do Facebook.

E para quem achou US$ 19 bilhões muita coisa, é interessante contrapor esse valor ao que o SMS, aquele sistema arcaico de troca de mensagens das operadoras, fatura. Em 2013 o SMS teve faturamento recorde de US$ 120 bilhões no mundo inteiro. As previsões mais negativas, como a da Informa, dizem que até 2018 haverá uma queda nesse número, mas mesmo ela se concretizando, o faturamento será de US$ 96,7 bilhões. Em vários locais, para muita gente, o WhatsApp substituiu o SMS. Não é preciso refletir muito para ver o potencial que o WhatsApp tem.

Corram para as colinas? Muita calma

Conversa via WhatsApp.
Mais um.

Não demorou muito para surgirem artigos, tuítes e recomendações para que todos pulemos do barco e procuremos alternativas ao WhatsApp. Elas existem, aos montes — o segmento é um dos mais ativos atualmente, com vários players disputando a atenção dos usuários e seus amigos, ainda que nenhum deles supere o WhatsApp em números brutos.

Mas… calma. Não colocaria a minha mão no fogo pelo futuro do WhatsApp, não diria, agora ou em qualquer outro momento, que nada mudará. Ninguém sabe. Por ora, porém, o tom das declarações oficiais tanto do WhatsApp, quanto do Facebook, é ameno. Eles sabem que não existem muitos fãs que confiam cegamente no Facebook, que a maioria de nós temos um pé atrás com as políticas agressivas de (falta de) privacidade da rede.

No blog oficial do WhatsApp, Koum garantiu:

“Eis o que muda para vocês, nossos usuários: nada.

O WhatsApp continuará autônomo e operando independentemente. Você pode continuar a usufruir do serviço por uma pequena taxa. Você pode continuar usando o WhatsApp não importa em que lugar do mundo esteja, ou qual smartphone estiver usando. E você pode contar com absolutamente nenhum anúncio interrompendo suas conversas. Não haveria uma parceria entre nossas empresas se tivéssemos que comprometer os princípios basilares que sempre definiram a nossa empresa, nossa visão e nosso produto.”

No Facebook, Zuckerberg reforçou a mensagem:

“O WhatsApp continuará a operar independentemente dentro do Facebook. O roadmap do produto permanecerá inalterado e a equipe continuará em Mountain View. Ao longo dos próximos anos, trabalharemos duro para ajudar o WhatsApp a crescer e conectar o mundo inteiro.”

O que pode acontecer depois que a euforia passar e os (supostos) planos maquiavélicos de Zuckerberg forem postos em prática? Nada muito drástico, imagino. Diferentemente do Instagram, que passará a exibir anúncios, o WhatsApp já tem um modelo de negócios que funciona.

Talvez, e lembre-se que estamos no terreno das suposições, aconteça alguma integração discreta e indireta entre as plataformas, como a que ocorreu com o Instagram. O WhatsApp tem um “asset” importante: 450 milhões de números de celular. O Facebook, e não é de hoje, sempre pede esse número aos seus usuários, para facilitar o resgate da conta caso ela seja comprometida e também para somar esses dado ao extenso banco que tem de cada um de nós, usuários.

Não acredito em uma intervenção mais drástica. O público é sensível a mudanças, ainda que muito dessa sensibilidade se reduza a gritaria nas redes sociais — lembra da revolta do Instagram? Não se culpe se não lembrar, ela se foi com a mesma rapidez com que veio e contabilizou poucas baixas. Ainda assim, é melhor não arriscar. E ainda tem Koum, co-fundador e CEO do WhatsApp, que agora é parte conselho do Facebook. Ele seria uma voz forte contrária a mudanças que forem contra a filosofia do app que criou.

Não interessa, não quero saber mais de WhatsApp

Ok, então. E, novamente, não tem culpo: para além do Facebook, o WhatsApp nunca foi um modelo de segurança e privacidade. Protocolos de segurança fracos (ou até inexistentes) são comuns em sua história, ainda que não haja registros de grandes vazamentos.

Existem vários serviços similares por aí, e você deve conhecer alguns mais famosos, como WeChat, Viber, Line e ChatOn. Tem os das antigas também, como BBM e Skype, e o negócio entre Facebook e WhatsApp apenas reforça o quanto BlackBerry e Microsoft se acomodaram nesses últimos anos. Mas, falando de futuro, que tal dar um passo adiante? Já que é para mudar, que mudemos para algo superior.

Existem dois apps que focam em privacidade e têm, nesse apelo, seu diferencial.

Hemlis, o app de mensagens focado em privacidade.
Foto: Hemlis/Reprodução.

O primeiro é o  Hemlis, que significa “segredo” em sueco. Ele tem entre seus co-fundadores Peter Sunde, um dos caras por trás do The Pirate Bay, maior site de compartilhamento de arquivos piratas do mundo.

O Hemlis apareceu durante as revelações do escândalo de espionagem da NSA como uma resposta à falta de privacidade na Internet. Bancado por uma campanha de crowdfunding, a promessa é de um app, com versões para iPhone e Android, que permita a comunicação nos moldes do WhatsApp, mas criptografada. Até agora, mais de sete meses desde o seu anúncio, ele segue como uma promessa.

[insert]

Telegram, app de mensagens russo.
Imagens: Telegram/Reprodução.
[/insert]

O outro, a que fui apresentado ontem (valeu, Rafa!), é o Telegram. O app foi lançado em agosto de 2013 pela Digital Fortress, empresa de Pavel Durov, chamado pela Reuters de “Zuckerberg russo”. Explico: é dele a rede social Vkontakte, a maior da Rússia.

O Telegram, também disponível para iPhone e Android, tem algumas premissas interessantes e faz da privacidade a sua bandeira. A comunicação é criptografada e Durov confia tanto no seu taco que, no começo do mês, ofereceu US$ 200 mil em Bitcoins para quem quebrasse a segurança do serviço.

Mais que isso, o Telegram possui API e protocolo abertos. Os clientes oficiais são de código aberto e, em 2014, Durov prometeu abrir o código que roda no servidor também. Não dá para classificar o Telegram como software livre porque algumas partes do código que permite ao serviço funcionar na nuvem são proprietárias. Aliás, além da comunicação com o intermédio da nuvem, que possibilita acompanhar as conversas em múltiplos dispositivos, o Telegram também possui um modo secreto, em que a comunicação é de ponta a ponta, sem intermediários.

O Telegram parece (não o testei a fundo ainda) uma oferta muito polida e bem desenhada para a troca de mensagens de texto. Pode substituir o WhatsApp? Poderia, mas como migrar essa base de um serviço para o outro? Um app de mensagens, assim como uma rede social não é nada sem pessoas e, no momento, sou o único da minha lista de contatos com o Telegram instalado.

No mundo dos negócios, um tanto de sorte, uma pitada de timing e pequenas doses de outras características que não podem ser compradas ou achadas por aí pesam bastante. O WhatsApp e os US$ 19 bilhões que conseguiu na maior venda de uma startup já registrada estão aí para provar isso.

Assine o Manual do Usuário

Ao acessar este blog, você não é rastreado ou monitorado por empresas como Google, Facebook e outras de publicidade digital. A sua privacidade é preservada. O Manual do Usuário tenta viabilizar-se por métodos alternativos e éticos. O principal é o financiamento coletivo. Colabore — custa a partir de R$ 9 por mês:

Assine no Catarse