Zune HD: hardware icônico, software marcante, timing horrível


15/9/15 às 12h58

Considero-me um consumidor consciente — quem não, né? Mesmo assim, reconheço que às vezes sucumbo aos impulsos, aos desejos que o marketing e a publicidade tentam criar em nosso âmago, e acabo comprando algo meio idiota. Há seis anos eu fiz uma dessas compras que acabou sendo marcante por motivos alheios aos costumeiros: um Zune HD.

Lançado em 15 de setembro de 2010, inicialmente apenas nos EUA, o Zune HD foi o ápice, técnico e mercadológico, de uma tentativa falha da Microsoft de bater de frente com o iPod no momento em que ele estava no auge, um ano antes do lançamento do primeiro iPhone dar início ao seu lento declínio. Zune, num sentido mais amplo, foi uma linha de players de música atrelada a uma rede social e a uma loja de músicas digitais. Basicamente o que a Apple tinha feito quase dez anos antes.

Aquela sensação de que falta bom gosto em Redmond foi muito reforçada com os dispositivos Zune. Cores esquisitas, formas ovaladas-porém-inconstantes e outros detalhes estéticos deram o tom (e motivos para chacota) das primeiras versões da linha, de 2006. Por isso, também, que o Zune HD foi marcante: ele era bonito. Você podia torcer o nariz para a Microsoft ou achar a ideia como um todo suicida, só não podia negar que era um pedaço de metal e vidro bem bonito.

Marca na lateral do Zune HD.

Zune HD na mão.

Imagem de divulgação do Zune HD.
Foto: Microsoft.

O Zune HD estava disponível num dourado sutil e numa versão toda preta — a minha era essa última. Ele tinha uma tela AMOLED de 3,3 polegadas e, numa época em que a Microsoft insistia no arcaico Windows Mobile, ainda dependente de touchscreen resistiva e aquelas stylus horríveis, usava tecnologia capacitiva multitouch. Era leve, tinha capacidades de 16, 32 ou 64 GB, e um software muito fluído e gostoso de usar. Era o player perfeito, saído de mentes criativas em capacidade de criação máxima no pior momento possível para um produto daquele tipo chegar ao mercado.

O software do Zune HD estava a par do hardware. Ele inspirou todo o trabalho do Windows Phone, que só sairia dali a um ano. A interface majoritariamente preta combinava com o AMOLED usado na tela. Os textos grandes e painéis horizontais, neste caso em que as funções eram limitadas, brilhavam. O grande problema da linguagem de design Metro no Windows Phone é ter que abarcar múltiplas situações e incontáveis apps. No Zune HD, ela só precisava cobrir uma tela inicial, um player de música, o navegador e um ou outro app. Funcionava.

WinAjuda aberto no navegador do Zune HD.

Apps, aliás, foram uma eterna promessa não cumprida. Ele tinha um navegador, chegou a ganhar Twitter e Facebook, um app de piano e alguns jogos, como versões simplificadas de Audiosurf e Project Gotham Racing. O SoC, um Tegra APX 260, da Nvidia, lidava bem com um projeto bem amarrado e sem third parties capazes de publicar diretamente na plataforma — todos os apps e jogos passavam por uma (excessivamente) criteriosa seleção da Microsoft. E com a iminência do Windows Phone, poucos acabaram lançados, todos antes da chegada do sistema para smartphones da Microsoft.

A produção de dispositivos com a marca Zune foi encerrada em outubro de 2011, dois anos depois do lançamento do Zune HD. Todas as marcas Zune foram convertidas para Xbox Music e os usuários, incentivados a migrarem para o Windows Phone. No final de 2012 o download direto de músicas pelo Zune HD quebrou e a Microsoft não se deu ao trabalho de corrigir o problema. Era o fim melancólico de um projeto tardio, talvez natimorto, mas até então sem igual dentro da empresa.

Hoje, o Zune HD ainda funciona. O Zune Software, pesado como sempre, continua passando músicas para os dispositivos da linha. Existem alguns em uso por aí. O meu, vendi em 2011 a um amigo que meses depois sofreu um acidente de moto. Ele saiu ileso, já o Zune HD ficou com sequelas visíveis na carcaça de metal. Já deve ter quebrado.

Parafusos do Zune HD à mostra.

A filosofia por trás do design do Zune HD não lembra em nada a que está em voga na Microsoft de 2015 — ironicamente, ela voltou a produzir hardware com o sistema sucessor do Zune desde que comprou a divisão de smartphones da Nokia. Os Lumia são coloridos, divertidos, despojados. O Zune HD era sóbrio, se levava a sério e, o que é sempre mais difícil, conseguia ser levado a sério por consumidores e concorrentes. Seu design era tão sedutor que a gente ignorava suas origens conturbadas, o fato dele tentar ser o “iPod da Microsoft”. Detratores chegaram a apontar os parafusos à mostra na tampa de trás (!) como sinal de desleixo, mas era apenas uma escolha estética pautada pelo utilitarismo que, anos depois, a Apple, paradigma de design, validou com o iPhone 4 e sua estética inspirada por Bauhaus — com parafusos à mostra também.

Compras por impulso raramente se justificam quando a adrenalina baixa e a razão volta à cena, mas mesmo não tendo aproveitado muito o Zune HD, foi bom vê-lo de perto, poder ter usado um negócio que jamais chegou ao Brasil e teve uma morte prematura a despeito das suas qualidades. Há seis anos a Microsoft chocou o mundo com um player bonito, um software que ditaria seu padrão de design nos anos que se seguiriam e um timing incrivelmente ruim. Não é sempre que isso acontece.

P.S.: Repare o que seis anos de prática, boas referências e algumas leituras complementares fizeram com o meu olhar fotográfico. As fotos do Zune HD que ilustram este post foram feitas em setembro de 2009 e são… bem, ruins. Perdão pelo vacilo do meu eu fotógrafo de 2009.

Revisão por Guilherme Teixeira.

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45 comentários

  1. Tive um Nokia Lumia 800 preto.Lembrava muito o Zune.Era tão bom mexer nele…sua interface metro era incrível!Nem fazia falta a total ausência de recursos.Muito bem feito pela Nokia,em policarbonato sólido brilhante.Adeus,Interface metro!Mas foi bom usa-la por 3 anos??

  2. Bem que a MS podia resgatar um pouco desse design nos Lumias. Ultimamente estão lançando cada aparelho feio (os rumores dos próximos high end confirmam isso – muito plástico e pouca inspiração).

  3. Que post legal…e ”triste”.Meu primo tinha um desses e quando mexi pela 1ª vez,meus olhos brilharam.Realmente foi um gadget lindo,com uma interface INCRÍVEL,MAS COMO VC FALOU: O TIMING FOI PÉSSIMO.Sei lá,era para MS ter ”esperado” um pouco para lançá-lo.
    Eu realmente fiquei triste com o fracasso do ZUNE.Um gadget BEM legal e estilo ”APPLE”.

    1. eu acho que devemos esperar até o fim do ano que vem. se não “vingar” até o natal de 2016 pode não pegar mais. vai virar produto de nicho. =/

      1. Assim acredito. W10M não será popular. E sim de nicho. A Microsoft precisa estar no mobile pois é o ~~~ futuro.

  4. O Zune HD foi meu ápice de esperança na Microsoft, era o primeiro produto “sexy” para usuários domésticos. Talvez no que seja o ápice da Apple, com iPhone 4 e iPad em 2010, a Microsoft mostrou algo bem diferente (e bom!) no mundo mobile.

    Por mais que a virada tenha sido com o Nadella, era pelo menos era o começo do fim de uma das má-famas da Microsoft: incompetência técnica em produtos para usuários domésticos.

  5. Eu não cheguei sequer perto do hardware, mas rola uma lágrima ao lembrar da lindeza que era o player do Zune para Windows. Acho que foi um dos últimos suspiros da minha vida pré streaming.

    1. Eu ainda assino o serviço de streaming da microsoft, que funciona pra baixar músicas no Zune Software e faz streaming pelo Groove nos celulares e Xbox Music no Xbox.

    2. Eu ainda assino o serviço de streaming da microsoft, que funciona pra baixar músicas no Zune Software e faz streaming pelo Groove nos celulares e Xbox Music no Xbox.

  6. Eu sinto falta do meu Zune HD até hoje!
    Foi a partir do meu primeiro Zune, um preto de 30Gb em 2007, que me apaixonei por essa interface “Moderna”, diferente. Foi de lá que me apeguei tanto ao Windows Phone. Uma pena muito disso ter morrido atualmente, inclusive minha esperança na plataforma…

    Era quase uma semana de bateria, uma tela com preto perfeito, um sistema de sincronia wireless perfeita (bastava “quebrar um coração” no Zune Software para que uma música fosse automaticamente removida do meu Zune hardware, praticamente no mesmo momento). Eu tinha uma coleção de músicas perfeitamente organizada, nada faltava, nada estava errado. Adorava ir no perfil dos meus pouquíssimos amigos da rede (desses, apenas realmente conhecia um) para ver as músicas que eles estavam ouvindo e também ouvir. O Zune Pass era perfeito, e ainda me “dava” 10 músicas todo mês…

    Ah, tinha um kit muiltimidia, com uma base que se ligava na tv. Era lindo colocar as músicas para tocar numa tv de LCD e ver os nomes dos artistas, dos álbuns e das músicas, pipocando na TV! E tudo era controlado por um controle remoto perfeito!

    Ah, que saudade.

  7. O meu ainda vive, e uso todo dia.
    Comprei de uma loja que o tinha como mostruário em 2013 no ebay, zerado.

    Coisa linda. Bateria dura no minimo 3 dias.

  8. Posso tá falando besteira, mas eu acho que existe espaço pra um Zune, principalmente em mercados emergentes como o Brasil. A MS poderia fazer o seu “iPod” bem mais barato do que a Apple vende. Lançar com apps de streaming (Deezer, Spotify, Rdio) além do Xbox Music. Embalar com fones decentes com controle, além de uma bateria boa. Lumia Zune?

    1. Concordo. Não sei se financeiramente iria vingar, mas a ideia de um player para serviços de música em streaming (com a possibilidade de ouvir offline), enxuto e com bateria legal me interessaria.

      1. Poisé, eu vejo assim: acho que as músicas no celular só ocupam espaço e consomem a bateria. SE pudesse compraria um iPod, mas pelo preço que a Apple pratica é inviável. Não precisava nem ter uma interface complexa como a de um smartphone, só pra reprodução de música e vídeo. Uma versão simplificada do WP10.

    2. Considerando que nos últimos tempos já se tem pouco motivo para se comprar um ipod, levando em consideração que comprar logo um Smartphone compensa mais. um exemplo é a Samsung que lançou um aparelho chamado Galaxy player, a uns 3 anos mais ou menos e nunca vingou.

      1. Quando ela lançou o Galaxy Player o iPod ainda era bem forte, timimg tão ruim quanto da MS. O hardware era podre, um Galaxy Pocket com nome Player sufocado pelo Android que era recheado de problemas naquela época. Além disso é Samsung né…

          1. Exato.

            “Prefiro ouvir musica no meu telefone.” todo mundo diz :)

          2. A pergunta não é “por que fazer?”, e sim “por que não compram?”: o preço é surreal. Eu realmente prefiro ouvir música no meu celular se tiver que pagar R$1.429,00 num iPod de 16gb (R$2.699,00 no de 128gb). Esse preço não é praticável. tá deslocado da realidade. Mas, se a MS se empenhasse em fazer um player decente (boa bateria e armazenamento) e moderno por 1/3 desse valor, eu compraria fácil.

          3. É mais complexo que isso. O setor mid-range é difícil porque é onde o equilíbrio de custo e faturamento é mais complexo. No low-end a fabricante enfia o que tem (sem ligar para qualidade) e extrai lucro na quantidade; no high-end, dependendo do produto, dá para cobrar mais em cima, dá para cobrar pela marca e outros elementos subjetivos do tipo.

            Um player mais barato possivelmente seria direcionado a camadas mais sensíveis a preço, ou seja, gente que tem grana contada e, em regra, não gasta com luxo. O smartphone quebrou essa barreira — e, guess what, é um ótimo player de música. Esse pensamento, aliás, se estende para os outros níveis (para baixo e para cima), de modo que o mercado potencial de players de música é pequeno. (O concreto, então, menor ainda e minguando.)

            É clichê dizer isso, mas a convergência do smartphone fez muitas vítimas. Uma das primeiras, não por acaso (era das mais vulneráveis), foi a categoria de players. Não faz sentido, não dá lucro, fazer por quê? Para mil pessoas comprarem? Mesmo que a margem seja enorme, é possível que sequer cubra os gastos — P&D, linha de montagem, logística, pós-venda.

            Eu vejo alguma possibilidade de algo assim surgir via crowdfunding, mas por ser um dispositivo miniaturizado (dependendo de plantas/fábricas), as chances de alguém comprar essa encrenca são mínimas.

            O capitalismo é selvagem.

          4. Olha, independente dos contra-argumentos eu vou continuar tendo a necessidade de um Player como descrito. Por que ela é independente da viabilidade do produto. Mas vamos lá, a linha de produção da Apple ao meu ver demonstra muito bem como esses “espaços”, “mercados”, “demandas” não são definidos “preto no branco”, eles se mesclam. Produtos diferentes que invadem o mercado um do outro. Mas porque dá certo? Por que as pessoas tem necessidades específicas, diria até únicas. Player, smartphone, tablet, notebook, desktop, smartTV e sabe-se lá o que. Por que comprar um iPad PRO c/ teclado ao invés de um novo Macbook ou vice-versa? Não existe resposta certa. Porque depende das necessidades de cada um. Muita gente se preocupa que o iPad seja canibalizado pelo iPhone Plus, ai eu pergunto quanto de dinheiro a Apple perderia se isso acontecesse? Nenhum. O Ghedin foi um pouco exagerado ao dizer que venderiam mil unidades. Não, não seria o sucesso que o iPod foi. Mas eu, Administrador que sou, só me convenceria do impossível mediante um estudo de mercado profissional. PS: Disqus é ruim com mobile mesmo ou só comigo? Primeira vez que uso por aqui.

          5. Mas esse mercado já existiu! Precisa de estudo algo que já foi rechaçado pelo consumidor? Até a década passada havia um monte de players, do iPod a outros, em várias categorias de preço. E todos sumiram, não porque as empresas são más ou querem nos enfiar smartphoens goela abaixo, mas porque a demanda baixou a um ponto em que não compensava mais fabricar.

            A Apple se canibaliza porque é esperta, e raramente perde dinheiro com isso. O iPhone tem margem de lucro maior que o iPad e vende mais. Sem pensar muito, o único caso recente em que a Apple trocou margem por participação foi com o iPad mini.

            PS: Muita gente reclama do Disqus mobile, mas comigo sempre funciona ok, mesmo em Android mid-range.

          6. A gente vai desgastar os dedos enquanto você continuar avaliando a viabilidade comercial e eu a necessidade do consumidor, por isso vou parar por aqui. E que fique claro que não é que eu não entenda o que você quer dizer, mas interpreto por uma ótica diferente. PS: ele funciona satisfatóriamente, mas o cursor fica um pouco lerdo pra posicionar ele. Tem aplicativo?

          7. É que, nesse caso, a inviabilidade comercial deriva diretamente da (não) necessidade do consumidor. Em outros termos: o produto já estava no mercado; o consumidor passou a vê-lo como supérfluo/desnecessário; o mercado aposentou o produto.

            Enfim, numa coisa concordamos: os lados expostos e explicados, não será a continuidade da discussão que fará um de nós mudar de opinião. Também paro aqui :)

            PS: tem app só para Windows Phone (pasme), mas um para iOS está em testes e deve sair logo.

          8. Agora que tu falaste eu me lembrei que já tinha lido aqui sobre o aplicativo dele. o/

    3. mas olha o mercado: já é dificil achar um bom mp3 player da sony ou philips.
      de uns meses pra cá sumiram! o mercado mais baixo foi dominado pelos players genéricos e o pessoal já te explicou: pra que vou comprar um mp3 player se tenho o smartphone….?

      1. Eles explicaram o raciocínio deles em relação ao mercado. Das minhas necessidades sei eu. Como disse, eu compraria.

  9. Posso tá falando besteira, mas eu acho que existe espaço pra um Zune, principalmente em mercados emergentes como o Brasil. A MS poderia fazer o seu “iPod” bem mais barato do que a Apple vende. Lançar com apps de streaming (Deezer, Spotify, Rdio) além do Xbox Music. Embalar com fones decentes com controle, além de uma bateria boa. Lumia Zune?

  10. Muito bonito, tanto o aparelho quanto o software dele. E funcional. Nessa época eu tive um iPod touch que fazia as funções “smart” (músicas, calendário, email, arquivos na nuvem, jogos, apps diversos) enquanto um dumbphone ficava quase esquecido no bolso. Vendi o iPod a um amigo quando comprei meu primeiro smartphone. Hoje é impensável carregar dois dispositivos, como eu fazia naquela época.

  11. Seu “eu fotógrafo” não era ruim, não.

    O Zune me lembrava o HTC Diamond. Eu tive um depois do HTC Tynt. E eu adorava.