Google, Meta e X decidem que usarão nossos dados e conteúdo para treinar IAs

O acordo entre pessoas e empresas da chamada web 2.0 já não era dos melhores: em troca de espaço para publicar na internet, conexão e alcance, cedemos nossos dados mais íntimos para que elas lucrassem horrores direcionado anúncios invasivos.

A explosão da inteligência artificial gerativa, liberada pela OpenAI e seu grande sugador de dados da internet, piorou os termos para o nosso lado.

De maneira unilateral, as big techs que veiculam conteúdo gerado pelos usuários alteraram seus termos de uso, garantido a elas o direito de usar os nossos dados para treinar IAs.

Google, Meta e, em breve, X (antigo Twitter). Não houve grandes anúncios nem nada do tipo. Coube à imprensa e aos ativistas pró-privacidade jogar luz nessas alterações faustianas.

A Meta disponibilizou um formulário que (supostamente) permite às pessoas excluírem dados pessoais de fontes/conjuntos de terceiros obtidas ou comprados pela empresa para treinar IAs.

Note a engenhosidade do texto: em momento algum a Meta diz que os dados em suas plataformas abertas (Facebook e Instagram) estão no pacote. Você usa Facebook? Instagram? Parabéns, você está treinando as IAs da Meta.

Esse “trabalho forçado” invisível não é novidade. Há mais de uma década, o Google treina seus algoritmos de computação visual com CAPTCHAs — aqueles desafios que nos pedem para identificar pontes, faixas de pedestres e carros em pequenas imagens borradas.

Quando muito, essas empresas pagam uma mixaria a trabalhadores precarizados em países do Sul Global.

A diferença desta nova fase de exploração generalizada com a IA gerativa, é a (falta de) transparência, abrangência e escala.

Até então, as big techs “apenas“ lucravam com os nossos dados. Agora elas querem mais que isso; querem nos usar para criar novos produtos que, depois, pagaremos para usar.

O experimento das redes sociais

Em julho, conduzi um experimento: participei do maior número de redes sociais possível pelo Manual do Usuário.

Planejava fazer uma análise bem objetiva, pautada por dados e estatísticas, ao final desse mês imerso em uma parte da internet que não costumo frequentar.

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Moderação em camadas nas plataformas digitais, com Iná Jost

Mande o seu recado ou pergunta, em texto ou áudio, no Telegram ou por e-mail.

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Neste episódio, recebo Iná Jost, coordenadora da área de liberdade de expressão do InternetLab, para falar do novo relatório de lá sobre sistemas de moderação em camadas para redes/plataformas sociais. O que são? Quais as vantagens e os desafios? Trata-se de uma lista VIP, onde já figuraram nomes controversos como Neymar e Donald Trump, ou é algo mais complexo, cujo potencial ainda não foi realizado?

Baixe o relatório aqui e inscreva-se na newsletter semanal do InternetLab.

Desde o último episódio, uma leitora/ouvinte tornou-se assinante, a Nanda. Obrigado!

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X (antigo Twitter), a rede social de Elon Musk, processou o Center for Countering Digital Hate (CCDH), uma organização sem fins lucrativos que analisa e publica relatórios sobre discurso de ódio, extremismo e comportamento nocivo em redes sociais. A empresa alega que o grupo de pesquisadores viola seus termos de uso ao coletar dados para análise e, sem provas, de que são financiados por governos estrangeiros e empresas concorrentes da X.

Desde que Musk assumiu o controle do Twitter/X, o CCDH publicou vários relatórios apontando pioras em indicadores da rede, como o aumento do discurso de ódio anti-LGBT+ e do negacionismo climático.

Dado o histórico recente de Musk e a postura da X em relação a temas delicados — como restaurar a conta de alguém que compartilhou imagens de abuso sexual infantil —, acho que já é seguro colocar a X no mesmo balaio de outras redes extremistas, como Gab, Truth Social e Gettr. Via Associated Press (em inglês).

Obrigado, Elon, por trocar o nome do Twitter por X

Letra X, novo logo do Twitter, contra um fundo preto com alguns glitches.

Não é de hoje que o Twitter apodrece em praça pública, sabotado pelo próprio dono. A última grande ideia de Elon Musk foi jogar no lixo a marca “Twitter”, rebatizando o serviço de X. Sim, a letra X.

Fiquei incrédulo, como em muitas ocasiões desde outubro de 2022, ao saber disso. Hoje, gosto da mudança. Ela põe um fim à degradação agonizante do Twitter e ajuda a separar o legado de uma empresa imperfeita, mas que acertou bastante, do caos instaurado por Musk.

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Marca do Twitter será aposentada; Musk mudará o nome do serviço para X

Teorias da conspiração não costumam resistir aos fatos, por isso a ideia de que Elon Musk estaria destruindo intencionalmente o Twitter para livrar-se da dívida enorme que criou com a compra da empresa não me parece plausível.

A favor dessa postura está o fato de que não é a primeira vez que ele tenta emplacar um “app de tudo” chamado X — o novo nome do Twitter, já em processo de mudança com logo provisório em todo lugar e x.com redirecionando para o Twitter.

No final dos anos 1990, Musk tentou a mesma coisa com o PayPal. Na época, perdeu a disputa com um sócio. Walter Isaacson, que escreveu a biografia do bilionário que sai em setembro, compartilhou essa passagem no Twitter, digo, no X.

Hoje, a fortuna de Musk é maior e não há ninguém no Twitter (ou fora dele) capaz de tirar da cabeça que queimar a marca do Twitter, passarinho azul e tudo, é uma decisão estúpida. Via @lindayacc@twitter.com, @WalterIsaacson@twitter.com (ambos em inglês).

Um advogado do Twitter enviou uma carta à Meta ameaçando processar a empresa pelo lançamento do Threads. Diz o texto que ex-funcionários do Twitter, contratados pela Meta, teriam desviado propriedade intelectual para criar a nova rede social.

Só que, segundo Andy Stone, diretor de comunicação da Meta, ninguém da equipe de engenharia do Threads já trabalhou no Twitter. Via Semafor (em inglês).

Atualização (7/7, às 8h30): A fonte anônima do Semafor agora tem nome e cargo. A nota foi atualizada.

Como desgraça pouca é bobagem, o Twitter avisou que em 30 dias vai fechar o TweetDeck para assinantes do Twitter Blue (R$ 42/mês) e começou a forçar a “nova” versão (em testes há dois anos), que é basicamente um Twitter web com colunas — bem pior que a antiga. Via @TwitterSupport/Twitter (em inglês).

Não me surpreenderia saber que os eventos desastrosos do Twitter no fim de semana precipitaram o lançamento do Threads. Se sim ou não, não importa: ele vem aí. O novo app da Meta já aparece agendado para a próxima quinta (6) na App Store e na Play Store de alguns países, como a da Itália. Traz “Instagram” no nome e zero menção a ActivityPub ou Mastodon, como era de se esperar.

Ao rolar um pouco a página do Threads para iOS, chama a atenção o tanto de “dados vinculados a você” listados, bem como o tamanho do app (254 MB). É um contraste chocante com outros apps “first party” do mesmo tipo, como Bluesky (3 tipos de dados, 24,8 MB) e Mastodon (nenhum dado coletado, 57,9 MB).

Desde outubro de 2022, os fiascos do Twitter beneficiaram sobremaneira o Mastodon/fediverso. O último — limitação de posts nos feeds dos usuários — está ajudando o Bluesky a bombar. A rede teve que fechar para novos cadastros no domingo (2) e, ao reabrir, nesta segunda (3), a demanda por convites parece ter aumentado um bocado. Via @bsky.app/Bluesky (2) (em inglês).

Temos uma conversa no Órbita para distribuir convites. (Não é para pedir; é para distribuir.) Se você tem um sobrando aí, considere compartilhá-lo lá.

Manual em um universo alternativo

Várias pessoas segurando celulares, uma ao lado da outra, em um ambiente com iluminação fraca.

Em meados de 2019, publiquei algumas matérias em uma série que batizei de “Universo alternativo”. Eram histórias de aplicativos e ambientes digitais populares no Brasil, até então ignorados pela imprensa.

Em julho, farei um experimento no Manual do Usuário que me remete a algo de um universo alternativo: ao longo do mês, usarei todas as redes sociais, até as mais tóxicas, como Twitter, Facebook e Instagram, para espalhar os textos, vídeos e tudo mais que produzir aqui.

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Elon Musk limitou a quantidade de posts que alguém pode ver no Twitter para combater a raspagem de dados da plataforma. Usuários não verificados (leia-se: não pagam a assinatura) podem ver 800 posts por dia. (Antes, o limite era 600.) Do ponto de vista do Twitter, é uma das decisões mais estúpidas que a direção poderia tomar — ver posts é a base de todo o negócio. Para os usuários, é uma boa notícia, meio que um tratamento de choque para reduzir o vício em um ambiente tóxico. Via @elonmusk/Twitter (2) (ambos em inglês).

O Twitter bloqueou o acesso a perfis e posts sem estar logado. Não houve comunicado algum da mudança, o que pode significar uma de duas coisas: é um erro/problema no site, ou apenas Elon Musk sendo covarde outra vez. (Em janeiro, o Twitter quebrou apps de terceiros sem aviso prévio.) Considerando que dia desses ele estava reclamando da Microsoft supostamente usar dados do Twitter para treinar IAs, talvez seja a segunda opção.

Com essa “mudança”, nossa instância do Nitter, no PC do Manual, quebrou. Vamos acompanhar a situação para ver o que fazer com ela.

Atualização (1º/7, às 8h46): De acordo com Musk, o bloqueio é uma medida temporária devido a “várias centenas de startups” coletando dados do Twitter para treinar inteligências artificiais.

Minha lição do Twitter e de Elon no Twitter é que [ele] está reafirmando que podemos construir um negócio muito bom neste espaço em nossa escala.

— Steve Huffman, CEO do Reddit.

E, de repente, tudo faz sentido. Via NBC News (em inglês).

Às vésperas das eleições na Turquia, nesse domingo (14), o Twitter passou a censurar a oposição ao candidato à reeleição, Recep Tayyip Erdoğan, por determinação do governo turco.

O Twitter não resistiu, não recorreu, apenas cumpriu a determinação e seguiu a vida. Como todo valentão, quando alguém maior gritou com ele, enfiou o rabo entre as pernas e não fez nada.

O jornalista Matthew Yglesias questionou abertamente a decisão, uma contrariedade flagrante ao discurso do “absolutista da liberdade de expressão” Elon Musk. Musk mordeu a isca e tentou justificar-se:

Seu cérebro caiu da sua cabeça, Yglesias? A escolha é ter o Twitter limitado em sua totalidade ou limitar o acesso a alguns posts. Qual você deseja?

Jimmy Wales, da Wikipédia, deu a letra em resposta a Musk:

O que a Wikipédia fez: defendemos nossos princípios e lutamos até Suprema Corte da Turquia e ganhamos. É isso que significa tratar a liberdade de expressão como um princípio e não como um slogan.

Musk não respondeu.