O Facebook anunciou hoje a função salvar. É como o Pocket, ou o Instapaper, mas fechado na rede social, com separadores para cada tipo de conteúdo (links, locais, filmes) e lembretes. Para Android, iOS e web, com liberação gradual — aqui já aparece o botão “Salvar” em eventos; o link para acessar os itens salvos, não.
Embora prefira soluções agnósticas, como o já citado Pocket (que uso), a exposição que qualquer coisa que o Facebook faz em seu serviço principal pode apresentar esse conceito, até hoje meio de nicho, a um público enorme. O que pesa contra é a posição do botão de salvamento: na seta do canto superior direito, bem escondida.
Além de ser um adianto na curadoria de links e indicações que pulam na timeline, há dois desdobramentos que podem ser interessantes e só possíveis dentro do Facebook.
Primeiro, avisos contextuais. O anúncio diz que esporadicamente os apps e o site web lembrarão o usuário dos itens salvos. Se os lembretes se aproveitarem da mobilidade dos apps móveis e utilizarem dados como localização e horário, pode acabar sendo um diferencial e tanto. Imagine salvar um restaurante indicado por um amigo e, num dia qualquer, passando perto dele dentro do horário de funcionamento, o app emitir uma notificação? Do ponto de vista técnico não é impossível, tanto que outros apps, como o Google Keep, já fazem isso.
A outra é a alimentação do algoritmo. O Pocket faz algo assim, colocando rótulos em posts populares e/ou de qualidade. Novamente, a exposição maciça do Facebook pode fazer com que bons posts emerjam do lamaçal de conteúdo raso que é publicado por lá, sendo mais um sinal (e um poderoso) no rankeamento gerado pelo algoritmo da timeline. Se o Facebook quer mesmo ser o nosso jornal, dar preferência às melhores histórias, não necessariamente as mais populares, é imprescindível.
Resta ver se o recurso será usado já que para fazer diferença, é necessário que haja uma grande base servindo dados brutos para a otimização do algoritmo.
Um grupo de amigos e eu temos tentado criar o hábito de usar o Slingshot, que tem algumas interações magníficas, um design visual bacana e vários pequenos detalhes esplêndidos (acho os sons agradáveis), sem muito sucesso. Minha namorada apagou ele depois de alguns dias, não por que ela está cheia de apps em seu smarthone, mas porque ele [o Slingshot] a irritava ativamente com suas demandas.
“Por que eu usaria isso?”, ela me perguntou. Não tive resposta. Dizer a alguém que algo é divertido é, normalmente, evidência de que esse algo não é.
Uso bastante o Snapchat e dei uma chance ao Slingshot, que está aqui, instalado, desde que foi lançado. Até agora recebi cinco mensagens, e dessas, três continuam bloqueadas esperando que eu mande alguma para vê-las. A mecânica básica do app, que inverte a ordem do diálogo (reação antes da ação), é desestimulante. Ter a assinatura do Facebook não ajuda também.
No texto, Mills Baker ainda diz que o que guia o Snapchat é o desejo genuíno de naturalizar a comunicação multimidiática via smartphones, e que a apresentação do app e seus recursos foram todos criados com esse intuito em mente. Não colocaria a minha mão no fogo por isso (vá saber o que se passa no escritório do Snapchat); seja genuíno ou não, pelo menos ao usuário essa impressão se sustenta. O Snapchat é todo sobre descompromisso e desinibição.
Críticos disseram que o Facebook deveria obter o “consentimento” [dos usuários] para um estudo desses — perguntar às pessoas se elas aceitariam ser parte de um estudo e então dizer a elas posteriormente o que estava sendo estudado. Defensores disseram, “Hey, o feed de notícias é manipulado o tempo todo. Qual a novidade?” Ambos apontaram que a “permissão” do Facebook veio da Política de Uso de Dados, que entre suas milhares de palavras informa as pessoas que suas informações podem ser usadas para “operações internas”, incluindo “pesquisa”. Entretanto, estávamos todos confiando no que a política de dados do Facebook diz hoje. Em janeiro de 2012, a política não dizia nada sobre usuários sendo potencialmente transformados em ratos de laboratório para terem um dia miserável em nome da ciência, nem que “pesquisa” era algo que poderia ocorrer na plataforma.
Ao final, uma citação bem clara de Pam Dixon, do Fórum Mundial da Privacidade, sobre o principal problema de toda essa polêmica envolvendo o estudo conduzido pelo Facebook:
“Eles na verdade fizeram um teste para ver se teria efeitos nocivos em seus usuários. Isso não é teste A/B. Eles não queriam apenas mudar o comportamento dos usuários, eles queriam mudar o humor deles.”
Pesquisadores do Facebook publicaram um paper em que dizem terem manipulado o conteúdo visto por mais de 600 mil usuários em uma tentativa de determinar se isso poderia afetar seus estados emocionais. O paper, “Evidências experimentais de contágio emocional em larga escala através de redes sociais”, foi publicado no The Proceedings Of The National Academy Of Sciences. Ele mostra como os pesquisadores de dados do Facebook modificaram o algoritmo para determinar quais posts apareceriam nos no feed de notícias dos usuários — especificamente, os cientistas alteraram o número de termos positivos ou negativos vistos por usuários escolhidos anonimamente. O Facebook então analisou as publicações futuras desses usuários pelo período de uma semana para ver se elas respondiam com um aumento positivo ou negativo por conta própria, respondendo a questão de se os estados emocionais podem ser transmitidos por uma rede social. Resultado: eles podem! O que é uma boa notícia para os pesquisadores de dados do Facebook ansiosos por provar um ponto sobre psicologia moderna. [A notícia] é menos boa para as pessoas, que tiveram suas emoções manipuladas secretamente.
Dizer que o Facebook está sendo creepy é lugar comum, mas acho que eles conseguiram se superar. Isso é apavorante.
Há quem argumente que daria para fazer a mesma análise com uma abordagem de somente leitura, sem interferir no comportamento do feed e, em última instância, nas emoções das pessoas. Seria uma saída melhor, de fato. Mas da forma como foi conduzido, o estudo levanta questões maiores do que o ponto que procura validar: ele prova que o Facebook tem muito poder nas mãos, o poder de fazer que com a gente se sinta melhor ou pior.
Quão maluco é isso? Se o Facebook pode nos fazer mais felizes, por que não o faz? E se fizesse, isso seria de certa forma (de alguma forma) antiético?
Mais um (bom) motivo para diminuir o tempo gasto no feed de notícias — a receita, você já sabe.
Você já deve ter visto o vídeo acima, provavelmente no Facebook, compartilhado por alguém que aproveitou a deixa para reclamar de como todo mundo é superficial e aumenta as coisas que publicam no site. (mais…)
A última atualização do Facebook Messenger para iPhone e Android trouxe a gravação de vídeos de até 15 segundos segurando um botão, um recurso parecido com os existentes no Snapchat, Vine e Instagram. É algo que se esperaria do vindouro Slingshot, o (segundo) concorrente ao Snapchat que está em produção por lá, mas apesar da implementação e dessa conexão nos bastidores, ele nem é a coisa mais interessante aqui.
Nas notas da versão 6.0, o segundo tópico chama mais a atenção:
Grandes curtidas: Mantenha pressionado para enviar um polegar ainda maior quando você curtir demais alguma coisa.
Essa novidade se refere àquele botão de polegar no canto inferior direito da tela que você só aperta sem querer e, toda vez, acaba mandando um curtir totalmente aleatório e fora de contexto no meio da conversa. Agora, dá para mandar curtidas gigantes, medianas ou apenas uma curtidinha.
Sou totalmente a favor dessas experimentações com interface de apps, mas isso só pode ser de zuera:
E ainda dizem que o Facebook parou de inovar. Pfff…
Nota do editor: há cerca de duas semanas notei um comportamento padrão: sempre que abria o Facebook para fazer alguma coisa pontual, como publicar um link na página do Manual do Usuário, perdia um tempão dando uma olhada no Feed de notícias. Resolvi, então, experimentar a extensão Kill News Feed, que elimina essa parte da rede social sem comprometer as demais. Estava planejando um texto sobre o assunto quando fui surpreendido por este, escrito pelo Fabio Bracht no Medium, que praticamente bate em tudo o que pretendia falar, das motivações aos resultados alcançados na prática.
Fiz um negócio esquisito: instalei uma extensão do Chrome para desativar o Feed de notícias do Facebook.
Após dois anos de hiato, a f8, conferência para desenvolvedores do Facebook, voltou a acontecer ontem, em San Francisco, EUA. No evento deste ano, os anúncios tiveram um objetivo: tornar a plataforma hegemônica em dispositivos móveis.
O Facebook dividiu as novidades em três áreas: estabilidade para desenvolvedores, prioridade para pessoas e serviços e ferramentas multiplataforma. Existem mudanças positivas para usuários finais, mas quem mais se beneficiará com o caminhão de anúncios serão aqueles que criam apps, serviços e soluções baseados no Facebook.
Olhando de fora, falando como não desenvolvedor, a sensação é de que a plataforma está madura. Só isso viabiliza a promessa, do Facebook, em garantir suporte mínimo de dois anos para produtos básicos a desenvolvedores através do versionamento da plataforma. São aspectos bem técnicos que, indiretamente, tornam a experiência dos usuários mais confiável – apps quebrarão menos e se comportarão como o esperado com mais frequência.
Poder e privacidade nas mãos do usuário
À audiência da f8, composta por cerca de 1500 desenvolvedores, Zuckerberg disse que “algumas pessoas têm medo de clicar no botão azul. Se estiver usando um app em que não confia totalmente ou teme que possa fazer spam para seus amigos, você não dará a ele um monte de permissões”. Para diminuir a rejeição do botão azul, nada mais que o botão de login do Facebook, ele foi repensado.
Agora, as permissões dos apps poderão ser ajustadas individualmente. No modelo ainda vigente, o acesso a um app é questão de “tudo ou nada”, o que gera situações desconfortáveis como a proliferação automática de perfis de homens no Lulu via permissões de amigas que usavam o app.
No novo sistema, dá para editar as permissões. Elas são granulares. Se já existisse na época do Lulu, seria possível entrar, ver e atribuir notas aos homens sem comprometer seus amigos; bastaria desativar o compartilhamento da lista de amigos na hora de fazer login, a saída que na época cogitei por aqui mas que se mostrava impossível. As únicas informações obrigatórias continuarão sendo as que já são atualmente – nome, faixa etária, sexo, foto de perfil e outros detalhes técnicos. Todas as demais ficam a critério do usuário compartilhar ou não com o app.
Imagem: Facebook.
Novos apps precisarão ser aprovados pelo Facebook em um processo que, segundo a documentação, levará de 7 a 14 dias úteis. Eles deverão, ainda, prever todos os cenários onde um tipo de permissão não é concedido pelo usuário. Essa postura, bastante legal, é similar à da Apple com o iOS.
Outro temor generalizado, o de apps que publicam na linha do tempo e mandam mensagens para contatos sem que o dono do perfil fique sabendo, também recebeu atenção. Agora, o login do Facebook traz uma tela à parte que destaca bastante esse comportamento, incluindo um seletor para que o usuário decida com quem permite que o app compartilhe conteúdo.
O Facebook incentiva bastante os desenvolvedores a exigirem o mínimo possível de permissões. O site diz que apps que pedem mais de quatro permissões veem uma queda abrupta no número de logins completados.
Imagem: Facebook.
Se parasse aí, já estaria de bom tamanho. Mas tem mais. Apps que usam o login do Facebook poderão oferecer, agora, um modo anônimo. É como se o usuário fizesse login no app normalmente, só que por essa via ele não compartilha nada com o app, podendo usá-lo como se tivesse fornecido as informações pedidas pela via tradicional sem o risco de que façam mal uso dos seus dados. Uma degustação sem compromisso. Depois, quando e se estiver confortável com a aplicação, ele pode conceder devidas permissões para ter uma experiência mais rica.
Embora existam ganhos reais em privacidade, é preciso ainda confiar no Facebook – ele sempre sabe quais apps você usa. Na prática isso garante o uso dos apps, em modo anônimo, em vários dispositivos sem que seja preciso refazer o login a cada sessão.
Não é só por benevolência e por acreditar na privacidade que o Facebook trouxe essas mudanças bem-vindas ao seu sistema de login – todas em testes com parceiros, com previsão de disponibilidade geral para os próximos meses. Por trás das boas intenções está o interesse em incentivar as pessoas a usarem mais apps de terceiros através do Facebook, deixá-los mais confortáveis e confiantes em logar com o Facebook em vez de fornecer e-email e senha ou, pior, usar a solução do Google. Dessa forma, o Facebook garante os dados das nossas vidas que são, no fim do dia, o alimento básico que faz a rede social crescer.
A cola que une a Internet móvel
E teve mais coisas. Algumas, isoladamente, são promissoras. Juntas, todas elas representam uma investida digna de nota.
A maior delas parece ser o App Links. Não ficou muito claro, pelo menos na página que apresenta o serviço, como ele funcionará na prática, mas a ideia geral é que essa solução unifique e viabilize a inclusão de links profundos entre apps, inclusive multiplataforma, da mesma forma que serviços se linkam facilmente na web.
Ainda vimos o botão Curtir nativo para iOS, um novo formato para conteúdos de apps compartilhados através do Facebook Messenger, o envio instantâneo de apps logados na web para um dispositivo móvel e a Audience Network, a rede de anúncios do Facebook para terceiros, apps e sites, um ataque direto ao Google e seu AdSense. No último relatório divulgado a investidores, o Facebook revelou que 59% de todo o faturamento com publicidade veio de dispositivos móveis. A expansão dos anúncios para terceiros deve elevar ainda mais essa porcentagem.
Em texto publicado na Quartz, Leo Mirani disse acreditar, com argumentos de sobra, que o Facebook está posicionado para ser na Internet móvel o que o Google é na web, ou seja, a cola que mantém tudo funcionando. Para a estratégia da empresa, não é imprescindível que todo mundo use o app (ou os apps) do Facebook se, ao usar outros, as pessoas continuem interagindo com o Facebook. Com login, curtir, compartilhamento, links profundos, anúncios e uma nuvem para desenvolvedores (que, por sinal, ficou mais barata e ganhou funções offline), esse cenário se desenha com contornos fortes.
Entre morangos cobertos com chocolate no último Dia dos Namorados, a venda do WhatsApp para o Facebook foi consolidada. Jan Koum, co-fundador e CEO do WhatsApp, não poderia ter aparecido na casa de Mark Zuckerberg em hora mais inoportuna, mas para quem estava disposto a gastar uma bolada com a aquisição da startup, o que é um Dia dos Namorados, certo Zuckerberg? Priscila Chang não deve ter ficado chateada em dividir seus morangos com o novo colega de trabalho do marido.
Essa é apenas uma das histórias surreais que envolvem o WhatsApp, app de troca de mensagens comprado ontem pelo Facebook por astronômicos US$ 19 bilhões — US$ 4 bi em dinheiro, US$ 12 bi em ações e US$ 3 bi, ainda pendentes, em ações restritas a serem distribuídas aos 55 funcionários do WhatsApp nos próximos quatro anos. Isso é quase 10% do valor de mercado do Facebook.
O WhatsApp nunca teve muita divulgação formal e seus fundadores sempre foram discretos, recusando aparições na mídia. Nem uma assessoria de imprensa eles tinham. De acordo com Brian X. Chen, do New York Times, Koum e o outro co-fundador, Brian Acton, dois ex-executivos do Yahoo, encaravam sua startup como a antítese do Vale do Silício. E essa imagem ia muito além do trato com a imprensa.
Em um universo recheado de apps gratuitos, a maioria bancada por anúncios, o WhatsApp despontou como um caso raro de app pago e sustentável. A estrutura é enxuta, os funcionários, poucos e comprometidos. O modelo de negócios dele se baseia em assinaturas anuais de US$ 1, com o primeiro ano (e, em vários casos, até mais) grátis. Parece funcionar bem.
O WhatsApp não é apenas diferente, ele é agressivamente contrário ao modelo predominante baseado em anúncios. Uma das “aparições públicas” mais emblemáticas da empresa se deu neste post do blog oficial, de junho de 2012, em que Koum explica por que o app não veicula anúncios.
“Lembre-se: quando anúncios estão envolvidos você, o usuário é o produto.”
Em sua mesa, Koum mantém um post-it escrito por Acton (foto ao lado) onde se lê “Sem anúncios, sem jogos, sem truques”. Até agora, eles têm seguido religiosamente esses mandamentos.
A ideia é que, mesmo com o negócio fechado com o Facebook, esse discurso não mude. Veremos essas implicações com mais detalhes a seguir, mas antes, tem a pergunta que não quer calar.
Por que o Facebook pagou tanto pelo WhatsApp?
O WhatsApp era independente, livre de anúncios e super popular, especialmente nos mercados em desenvolvimento. No ano passado, Charles Golvin, da Forrester, disse ao BuzzFeed que “em locais como Brasil, México, Espanha… 25% do tempo que as pessoas gastam nos smartphones, são gastos no WhatsApp. O número varia em cada desses países, mas é dessa magnitude”. Isso é muita coisa.
De lá para cá o ritmo de crescimento do WhatsApp não diminuiu. Continua acelerando, ganhando um milhão de novos usuários por dia. Dependendo dos seus critérios, ele se configura como a rede social que cresceu mais rapidamente na história, superando com folga Twitter, Instagram e o próprio Facebook. Com 450 milhões de usuários, 70% deles ativos diariamente, a curva de crescimento comparada às de outras redes populares impressiona:
Gráfico: Facebook.
Parece loucura, mas vendo esses números fica claro que o WhatsApp representava uma ameaça ao domínio do Facebook. E o Facebook, como o histórico recente mostra, não dá margem a ameaças. O Instagram, a rede social de fotos preferida de quem tem e fotografa com um smartphone, foi comprada em 2012 por US$ 1 bilhão. O Snapchat também foi alvo dos cofres de Zuckerberg, mas resistiu à oferta US$ 3 bilhões.
Mesmo tendo um app similar (e bom!), o Facebook Messenger, o WhatsApp parte de premissas diferentes das do Facebook e, mais importante, já caiu no gosto do povo. O Facebook Messenger também permite a troca de mensagens diretas a partir da lista de contatos do celular, mas é mais comumente usado para se comunicar com contatos do Facebook, a rede onde estão seus amigos. E seus parentes. E gente que você não vê há décadas e/ou adicionou por mera formalidade. No WhatsApp, na sua lista de contatos do celular, estão pessoas mais próximas, com quem se conversa de fato. Pesa a favor também a disponibilidade: ele funciona em um punhado de plataformas, até no Symbian.
A aquisição também reforça a ideia de apps distintos que o Facebook começou a colocar em prática nesse ano com o Paper. Facebook Messenger, Instagram, Paper e WhatsApp formam um quarteto e tanto. Fragmentar o uso do smartphone em diversos apps não parece ser problema para o Facebook, desde que esses apps sejam do Facebook.
E para quem achou US$ 19 bilhões muita coisa, é interessante contrapor esse valor ao que o SMS, aquele sistema arcaico de troca de mensagens das operadoras, fatura. Em 2013 o SMS teve faturamento recorde de US$ 120 bilhões no mundo inteiro. As previsões mais negativas, como a da Informa, dizem que até 2018 haverá uma queda nesse número, mas mesmo ela se concretizando, o faturamento será de US$ 96,7 bilhões. Em vários locais, para muita gente, o WhatsApp substituiu o SMS. Não é preciso refletir muito para ver o potencial que o WhatsApp tem.
Corram para as colinas? Muita calma
Mais um.
Não demorou muito para surgirem artigos, tuítes e recomendações para que todos pulemos do barco e procuremos alternativas ao WhatsApp. Elas existem, aos montes — o segmento é um dos mais ativos atualmente, com vários players disputando a atenção dos usuários e seus amigos, ainda que nenhum deles supere o WhatsApp em números brutos.
Mas… calma. Não colocaria a minha mão no fogo pelo futuro do WhatsApp, não diria, agora ou em qualquer outro momento, que nada mudará. Ninguém sabe. Por ora, porém, o tom das declarações oficiais tanto do WhatsApp, quanto do Facebook, é ameno. Eles sabem que não existem muitos fãs que confiam cegamente no Facebook, que a maioria de nós temos um pé atrás com as políticas agressivas de (falta de) privacidade da rede.
“Eis o que muda para vocês, nossos usuários: nada.
O WhatsApp continuará autônomo e operando independentemente. Você pode continuar a usufruir do serviço por uma pequena taxa. Você pode continuar usando o WhatsApp não importa em que lugar do mundo esteja, ou qual smartphone estiver usando. E você pode contar com absolutamente nenhum anúncio interrompendo suas conversas. Não haveria uma parceria entre nossas empresas se tivéssemos que comprometer os princípios basilares que sempre definiram a nossa empresa, nossa visão e nosso produto.”
“O WhatsApp continuará a operar independentemente dentro do Facebook. O roadmap do produto permanecerá inalterado e a equipe continuará em Mountain View. Ao longo dos próximos anos, trabalharemos duro para ajudar o WhatsApp a crescer e conectar o mundo inteiro.”
O que pode acontecer depois que a euforia passar e os (supostos) planos maquiavélicos de Zuckerberg forem postos em prática? Nada muito drástico, imagino. Diferentemente do Instagram, que passará a exibir anúncios, o WhatsApp já tem um modelo de negócios que funciona.
Talvez, e lembre-se que estamos no terreno das suposições, aconteça alguma integração discreta e indireta entre as plataformas, como a que ocorreu com o Instagram. O WhatsApp tem um “asset” importante: 450 milhões de números de celular. O Facebook, e não é de hoje, sempre pede esse número aos seus usuários, para facilitar o resgate da conta caso ela seja comprometida e também para somar esses dado ao extenso banco que tem de cada um de nós, usuários.
Não acredito em uma intervenção mais drástica. O público é sensível a mudanças, ainda que muito dessa sensibilidade se reduza a gritaria nas redes sociais — lembra da revolta do Instagram? Não se culpe se não lembrar, ela se foi com a mesma rapidez com que veio e contabilizou poucas baixas. Ainda assim, é melhor não arriscar. E ainda tem Koum, co-fundador e CEO do WhatsApp, que agora é parte conselho do Facebook. Ele seria uma voz forte contrária a mudanças que forem contra a filosofia do app que criou.
Não interessa, não quero saber mais de WhatsApp
Ok, então. E, novamente, não tem culpo: para além do Facebook, o WhatsApp nunca foi um modelo de segurança e privacidade. Protocolos de segurança fracos (ou até inexistentes) são comuns em sua história, ainda que não haja registros de grandes vazamentos.
Existem vários serviços similares por aí, e você deve conhecer alguns mais famosos, como WeChat, Viber, Line e ChatOn. Tem os das antigas também, como BBM e Skype, e o negócio entre Facebook e WhatsApp apenas reforça o quanto BlackBerry e Microsoft se acomodaram nesses últimos anos. Mas, falando de futuro, que tal dar um passo adiante? Já que é para mudar, que mudemos para algo superior.
Existem dois apps que focam em privacidade e têm, nesse apelo, seu diferencial.
Foto: Hemlis/Reprodução.
O primeiro é o Hemlis, que significa “segredo” em sueco. Ele tem entre seus co-fundadores Peter Sunde, um dos caras por trás do The Pirate Bay, maior site de compartilhamento de arquivos piratas do mundo.
O Hemlis apareceu durante as revelações do escândalo de espionagem da NSA como uma resposta à falta de privacidade na Internet. Bancado por uma campanha de crowdfunding, a promessa é de um app, com versões para iPhone e Android, que permita a comunicação nos moldes do WhatsApp, mas criptografada. Até agora, mais de sete meses desde o seu anúncio, ele segue como uma promessa.
[insert]Imagens: Telegram/Reprodução.[/insert]
O outro, a que fui apresentado ontem (valeu, Rafa!), é o Telegram. O app foi lançado em agosto de 2013 pela Digital Fortress, empresa de Pavel Durov, chamado pela Reuters de “Zuckerberg russo”. Explico: é dele a rede social Vkontakte, a maior da Rússia.
O Telegram, também disponível para iPhone e Android, tem algumas premissas interessantes e faz da privacidade a sua bandeira. A comunicação é criptografada e Durov confia tanto no seu taco que, no começo do mês, ofereceu US$ 200 mil em Bitcoins para quem quebrasse a segurança do serviço.
Mais que isso, o Telegram possui API e protocolo abertos. Os clientes oficiais são de código aberto e, em 2014, Durov prometeu abrir o código que roda no servidor também. Não dá para classificar o Telegram como software livre porque algumas partes do código que permite ao serviço funcionar na nuvem são proprietárias. Aliás, além da comunicação com o intermédio da nuvem, que possibilita acompanhar as conversas em múltiplos dispositivos, o Telegram também possui um modo secreto, em que a comunicação é de ponta a ponta, sem intermediários.
O Telegram parece (não o testei a fundo ainda) uma oferta muito polida e bem desenhada para a troca de mensagens de texto. Pode substituir o WhatsApp? Poderia, mas como migrar essa base de um serviço para o outro? Um app de mensagens, assim como uma rede social não é nada sem pessoas e, no momento, sou o único da minha lista de contatos com o Telegram instalado.
No mundo dos negócios, um tanto de sorte, uma pitada de timing e pequenas doses de outras características que não podem ser compradas ou achadas por aí pesam bastante. O WhatsApp e os US$ 19 bilhões que conseguiu na maior venda de uma startup já registrada estão aí para provar isso.
Na véspera de completar 10 anos1 o Facebook liberou um novo app para iPhone chamado Paper. Com uma apresentação de cair o queixo e apostando na mistura do conteúdo gerado pelos seus amigos ao de curadorias especializadas, ele talvez seja um pequeno vislumbre do que será a rede social amanhã.
O melhor jornal personalizado do mundo
O app do Facebook para smartphones nunca foi um exemplo de design, nem a personificação de boas práticas de desenvolvimento. Na tentativa de replicar em telas pequenas tudo o que pode ser visto na web, criou-se um espaço caótico — e a presença de anúncios só piora essa sensação.
O Paper consolida o desejo de Mark Zuckerberg de transformar o Facebook no “melhor jornal personalizado do mundo.” O app, por ora exclusivo para iPhone, lembra muito agregadores de artigos como o Flipboard e o Pulse, e consegue, com animações suaves, gestos espertos e eliminando distrações, botar ordem naquele caos. Ele conserva, além do Feed de Notícias, algumas outras áreas da rede, como notificações e perfis, embora não dê tanta ênfase a elas. Eventos, jogos e algumas outras ficam de fora.
O Feed de Notícias, no Paper, é um dos “cadernos”, ou seções que você pode acrescentar à sua lista de interesses. A semelhança a um jornal não parece ser acidental: ao abrir o app pela primeira vez, depois de passar pela bela introdução guiada (uma voz feminina o ensina a usar o app), pode-se escolher entre vários cadernos, ou editorias, para receber conteúdo.
Com exceção do Feed de Notícias, as demais seções são mantidas por editores profissionais contratados pelo Facebook. Elas são bem variadas e não visam prender o usuário dentro do ecossistema do Facebook, uma abordagem meio estranha dado o histórico claustrofóbico da rede. Não que eu esteja reclamando, longe disso. Outro efeito colateral dessa intereferência humana é o aumento da serendipidade, aquelas descobertas gostosas de textos, fotos e outros conteúdos agradáveis em momentos inesperados.
O design brilhante do Paper aponta para um futuro repleto de apps
Ainda é cedo para dizer se a curadoria, somada ao trabalho dos seus amigos e dos algoritmos do Facebook serão suficientes para fazer o usuário médio recorrer ao Paper como nossos pais abriam o jornal impresso à mesa do café da manhã. Mas uma coisa é segura de dizer: temos aqui um exemplo de app bem feito.
Diferentemente dos outros apps do Facebook, o Paper foi concebido no Creative Labs, um novo grupo restrito criado dentro da empresa para dar flexibilidade e dinamismo a novos projetos. O do Paper foi encabeçado por Chris Cox, VP de Produtos do Facebook, e conduzido por Mike Matas, que coleciona trabalhos magníficos em design e teve sua empresa, a Push Pop Press, comprada pela rede social em 2011.
Existem algumas diferenças pontuais entre o Paper e o que se esperaria de algo com a marca Facebook, começando pela ausência daquela azul característico do site. A estética do Paper é mais refinada.
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O app usa fotos em tela cheia, tipografia acertada e animações suaves para apresentar o conteúdo. Fotos grandes são manuseadas inclinado o iPhone para as laterais. Há menos botões e mais gestos, todos bem intuitivos. A navegação é horizontal, a rolagem vertical é reservada para a exibição de conteúdo. Quando se abre uma página web, aliás, ela ocupa a tela inteira, sem molduras. A tela de edição de “histórias” também ganhou atenção especial, é bem mais atraente que a sua contraparte no app principal do Facebook.
No geral, o Paper se parece com o Facebook Home do Android, só que mais refinado e menos ambicioso — ele não tenta mudar o jeito que você usa o smartphone, apenas oferece um outlet extra mais bonito e com boas fontes para quem deseja se manter informado.
Há muito em gestação, o Paper chega no momento em que o Facebook anseia por diversificar sua presença no espaço móvel2. Na última conferência com investidores Zuckerberg disse que em 2014 veremos mais apps dedicados a funções isoladas do Facebook. O novo e redesenhado Messenger foi o primeiro dessa safra, o Paper, o segundo. Se os próximos apps seguirem esse padrão de qualidade e foco, será cada vez mais difícil se livrar das garras do Facebook.
Pois é, 10 anos! Para celebrar, o Facebook criou um vídeo personalizado de um minuto para cada usuário da rede, mostrando as fotos mais curtidas, as primeiras e algumas aleatórias dos últimos anos. Clique aqui para ver o seu. Eu gostei um bocado do meu! ↩
É na palma da mão que o dinheiro se encontra. No último relatório fiscal referente ao quarto trimestre de 2013, o Facebook anunciou que 53% do faturamento veio de dispositivos móveis. O Paper ainda não exibe anúncios, mas deve ser questão de tempo até eles aparecerem no app. ↩
Lulu, Tubby, revanchismo, machismo, sexismo, brincadeira, coisa séria… Independentemente da forma com que você encare esses dois apps que trazem para o século XXI a inesquecível Guerra dos Sexos do Faustão, a fofoca de bar, um ponto é unânime: é bem chato se surpreender listado num dos dois sem ter sido consultado antes.
No Manual já falei de um outro problema do Lulu, de ordem mais filosófica do que prática, e no último podcast abordamos o app com um enfoque mais “vida real” — como ele é recebido em rodas de amigos e que estragos causa ou pode causar. Apesar de eu encará-lo como algo mais em tom de brincadeira do que um destruidor de homens com a masculinidade sufocada, é indefensável como a dinâmica do app, de preencher o mural das meninas com os perfis dos seus desavisados amigos no Facebook, é agressiva.
As consequências dessa abordagem se dividem em duas. A primeira, imbróglios jurídicos. O Ministério Público já investiga o app e ações individuais começam a pipocar pelo Brasil.
A segunda, cheia de boas intenções, lotada de desinformação, é a onda de tutoriais ensinando a cair fora do Lulu — e, como medida preventiva, do Tubby, o equivalente masculino do Lulu que está sendo feito a toque de caixa por um trio de brasileiros. Eles não funcionam porque ignoram o modo de funcionamento da API do Facebook, os pedaços da rede que ela libera para que desenvolvedores criem apps e serviços em cima desses dados.
Entendendo a privacidade no Facebook
O passo a passo mais comum para sair do Tubby e do Lulu é um que leva o usuário às configurações de aplicativos no Facebook e pede para que ele desmarque um punhado de caixas de seleção. Este aqui, por exemplo. Não perca seu tempo seguindo-o, ele não tem utilidade alguma porque não alcança as informações de que o Lulu e o Tubby precisam. No caso, seu nome, foto e lista de amigos.
É preciso entender como o Facebook funciona. Nossos perfis são compostos por diversos campos. Alguns, esses listados na página que o tutorial acima menciona, opcionais e ocultáveis. Outros, públicos. A ajuda do Facebook lista quais são esses:
Nome.
Foto de perfil.
Sexo.
E número identificador (ID) da conta.
O Facebook se justifica dizendo que elas são essenciais para que as pessoas se encontrem lá dentro e, nessa mesma ideia, a lista de amigos é uma forma de facilitar esse contato. Até dá para editar a visibilidade da lista de amigos, mas ela se refere apenas à forma com que seus amigos a veem. O Lulu e o Tubby não são afetados, eles pedem acesso à lista de amigos pela API e, para isso, não existe configuração no Facebook capaz de bloquear. (O bom senso, talvez, mas é querer demais que as pessoas leiam uma caixa de diálogo, reflitam sobre o que ela pede e, mais que isso, desistam de dar uma olhadinha e, de carona, ceder seus amigos para os apps.)
Sendo uma rede social, onde a interação entre as pessoas é o que a faz funcionar, é uma justificativa válida. Infelizmente, ela dá brechas a ações menos nobres, como as dos já citados apps. Esses quatro pontos são suficientes para que eles coloquem você em suas listas — graças à autorização de um amigo qualquer, concedida no momento em que ele entrou em um dos apps com autenticação via Facebook.
Como sair do Tubby e o Lulu?
Não dá.
Eu sei que é chato, mas não dá mesmo — não sem deixar rastros. Eu e o Bruno Briante, que levantou essa bola no Facebook, quebramos a cabeça em busca de uma saída, mas com exceção dos meios oficiais (e obscuros), não rola mesmo.
A mensagem de mau gosto do Tubby para as mulheres que quiserem remover seus perfis do app. Imagem: Tubby/Reprodução.
A princípio imaginei que bloquear o app pudesse impedi-lo de me alcançar. A estratégia não funcionou porque bloqueio não impede que seus amigos, ao acessarem o app, cedam suas informações públicas, as mencionadas acima, através da permissão de acesso às listas de amigos.
O app não se relaciona com seu perfil, ele simplesmente chega até ele através de outros amigos. O bloqueio só age na relação usuário-app, que não precisa ser estabelecida no caso do Lulu para que alguém apareça lá. Ele pega todo mundo que está no Facebook por tabela, através de quem entra.
Uma saída seria não ter amigos no Facebook, mas aí… né? Outra, que ninguém usasse o app, o que é complicado também.
Sair do Tubby e do Lulu pelos métodos oficiais significa sacrificar seus amigos — e dados pessoais
A única forma de remover seu perfil no Lulu e no Tubby é através dos links que os dois sites oferecem — sair do Lulu; sair do Tubby.
Ocorre que a remoção do perfil é condicionada à “instalação” do app no seu perfil, o que significa que, ao sair, você precisa entrar e, nessa, conceder ao Lulu e/ou ao Tubby acesso à sua lista de amigos (muito provavelmente para inclui-los no app) e um punhado de outras informações pessoais.
Não se sabe exatamente como o Lulu e (imagino) o Tubby mantêm esse controle de quem não deve aparecer no site, ou seja, de quem solicitou a remoção do perfil.
O Bruno acredita que eles montam uma lista com as IDs do Facebook e batem com as listas de amigos dos usuários que chegam, excluindo as que aparecerem nas duas. É uma tática simples e que, em tese (reforçando), permite que os privilégios do Lulu/Tubby sobre sua conta no Facebook sejam removidos depois sem que com isso você volte a figurar neles.
A única saída possível
Como lidar? Não sei. Uns podem argumentar que é uma falha de design do Facebook, outros que a vida assim, quem se sujeita à rede social tem que arcar com alguns ônus. É, sem dúvida, uma situação desconfortável, talvez passível de sucesso nas incursões que alguns usuários do Facebook, indignados com ela, estão fazendo à justiça brasileira — existe o posicionamento, não muito difícil de colar, de que o Facebook é co-responsável por esses cenários que se formam em torno do Lulu e do Tubby.
Pedir para sair é um exercício de fé cega e irrestrita: ninguém garante o que os dois farão com os dados dos usuários. Pode ser um golpe, pode ser, no caso do Tubby, um artifício para obter acesso aos perfis de milhares de mulheres (por mais que eles digam que não), qualquer coisa. É muito poder para um app que se impõe com tanta força e, ao mesmo tempo, dá sucessivas demonstrações de imaturidade, como soltar um EITA PORRA em comunicado público.
No fim, a única saída reconhecidamente eficaz para não aparecer no Lulu, Tubby e outros aplicativos duvidosos do gênero é uma só, esta aqui.
Agradecimentos ao Bruno Briante, que trouxe à tona esse insight esperto sobre a API e opções de privacidade do Facebook e se dispôs a tirar várias dúvidas a respeito. Valeu!
A imagem do cara de mochila nas costas à beira da estrada fazendo um joinha para os carros que passam é coisa do passado. Os caroneiros modernos usam não um, mas todos os dedos na hora de procurar transporte, e em vez do acostamento, recorrem à Internet. Os grupos de caronas no Facebook se proliferam e com uma mecânica simples e direta, baseada na confiança, têm servido de alternativa ao transporte convencional.
Os grupos costumam ser fechados e populares em cidades universitárias. Como muitos estudantes vêm de fora, boa parte deles de cidadezinhas próximas, a demanda é grande e encontra respaldo na oferta, também generosa.
Na cidade onde moro, Maringá, no interior do Paraná, há diversos grupos. Temos aqui a Universidade Estadual de Maringá e algumas outras particulares. Existem grupos específicos para as cidades próximas e alguns gerais, como o Caronas UEM. A dinâmica não varia, porém; em geral o interessado publica a origem, o destino e o horário de saída; quem se interessa pela carona ou deixa um comentário, ou manda uma mensagem privada. O inverso, ou seja, pessoas procurando caronas também existe.
Os valores são convencionados. Para Paranavaí, onde costumo ir com certa regularidade, o custo é R$ 10. A natureza desse pagamento, se é que pode ser chamado assim, é primordial para a análise dos aspectos jurídicos da prática. Afinal, os grupos de caronas no Facebook constituem uma ilegalidade?
“É proibida a cobrança de qualquer preço para fazer transporte de pessoas, se não for licenciado. Ainda que o objetivo seja apenas cobrir os custos do carro.”
O Código Brasileiro de Trânsito prevê como infração de trânsito o transporte remunerado de passageiros sem a devida licença:
Art. 231. Transitar com o veículo:
VIII – efetuando transporte remunerado de pessoas ou bens, quando não for licenciado para esse fim, salvo casos de força maior ou com permissão da autoridade competente:
Infração – média;
Penalidade – multa;
Medida administrativa – retenção do veículo;
O que está em jogo aqui é a própria natureza dessa “remuneração”. É consenso entre os caroneiros, pelo menos os com quem tenho contato na região, que o valor pago por quem pega carona serve para ajudar no pagamento das despesas da viagem — combustível, eventuais pedágios, depreciação do veículo. Embora nem todos se conheçam, é raro alguém sem amigos em comum e bastante recorrente a consulta a esses antes do aceite de uma carona, o que desvincula ainda mais a carona da ideia de prestação de serviço, onde não se faz diferenciação de clientes e tem-se por objetivo lucrar.
O Código Civil disciplina o contrato de transportes de forma complementar ao Código Brasileiro de Trânsito. No artigo 736, estabelece a exceção da carona:
Art. 736. Não se subordina às normas do contrato de transporte o feito gratuitamente, por amizade ou cortesia.
Parágrafo único. Não se considera gratuito o transporte quando, embora feito sem remuneração, o transportador auferir vantagens indiretas.
Argumentar que as caronas são gratuitas é um exercício complicado, ainda que o rateio não implique em lucro a quem oferece a carona. O que nos leva à figura do referido artigo e, consequentemente, à possível infração de trânsito. Está formada a confusão.
Conversei com alguns amigos advogados e entre eles não houve consenso. Uns acham que a carona não constitui ilegalidade, porém está sujeita às convenções do contrato de transporte do Código Civil. Uma minoria é mais taxativa e acredita que a carona, nesses termos, ou seja, envolvendo dinheiro (ainda que não de forma lucrativa), cai na tipificação de infração de trânsito do CBT.
Na minha visão, o contrato de transporte é um instituto diferente do da divisão de gastos, do rateio. O G1, nesta matéria sobre uma universidade do Piauí, consultou Ítalo Cavalcante, advogado especialista em leis de trânsito. Ele tem uma opinião parecida e a justifica dizendo que a prática se beneficia de uma interpretação mais extensiva da lei:
“Como os próprios participantes afirmam que não se trata de uma atividade com fins lucrativos, o grupo oferece apenas uma ‘solidariedade’ com a divisão da gasolina. As redes sociais ampliaram as formas já conhecidas de amizades e quando se interpreta a lei é preciso considerar essas novas formas de relações. A sociedade mudou e ao interpretar a lei é preciso levar isso em consideração.”
Não existe jurisprudência específica sobre esse cenário e, reforçando as palavras de Ítalo, parece que a nossa legislação ainda não prevê essa situação específica da carona solidária sem intuito de lucro que, em grupos de carona no Facebook, é regra.
Além da legalidade, importa ainda essa distinção para saber como lidar com eventuais imprevistos. Em caso de acidente, por exemplo, vale o que apregoa o Código Civil ou a Súmula 145 do STJ, que livra o condutor da responsabilidade civil caso o dano decorra de culpa simples?
O mais chato nessa história toda é que a carona compartilhada é um negócio bom para todo mundo. Diminui a quantidade de carros na estrada, propicia novas amizades ou contatos, é mais rápido e cômodo que viajar de ônibus. E é incentivada pela mídia porque… bem, porque é um negócio bacana em essência.
Na pesquisa inicial que fiz para esta matéria, o único alerta que encontrei sobre o aspecto jurídico dos grupos de caronas no Facebook foi o da já citada reportagem do Estado de Minas e nesta outra, da Tribuna de Minas — o DER mineiro parece obcecado com o assunto. De resto, só alegria:
O tema caronas no Facebook chama tanto a atenção nos polos universitários que serviços online que organizam as caronas têm surgido com certa rapidez. Minha Carona, UniCaronas, Carona Fácil, Caroneiros… Todos ilegais? Talvez aqui sim, não pela institucionalização do ato, mas porque alguns usam como bandeira o lucro possível de auferir na oferta de caronas. É um desdobramento da problemática principal tratada aqui e que, no momento, deixo de lado.
Apenas para traçar um paralelo com um mercado similar, porém, amadurecido, vejamos o Zaznu, outro que será lançado em breve no Brasil. Em entrevista ao A Crítica, os fundadores dizem que o serviço se posiciona como alternativa a táxis, comparando-o ao Lyft e seus carros de bigode rosa de São Francisco, EUA. Além do Lyft, o Uber, que conta com investimentos do Google, é outro já bastante popular e que, por isso, passa por conflitos jurídicos constantemente. Há muitos interesses envolvidos aí, de muitas partes distintas.
As caronas compartilhadas são mais um ponto de disruptura proporcionado pela tecnologia, um que empurra o legislativo e o judiciário contra a parede e mexe com instituições estabelecidas — taxistas e empresas de transporte, por exemplo. A nossa lei positivista deve tratar o tema de forma objetiva, especialmente na esfera penal, que não dá brecha a analogias. Ele ainda não ganhou uma dimensão tão grande a ponto de incomodar (à exceção do DER de Minas), mas deve ser questão de tempo até isso ocorrer. E aí, nessa hora, nos restará ver de que lado nossos representantes no Congresso ficarão, ou se será possível chegar a uma solução que agrade a todos os impactados. Apostas?
O Facebook tem um app para iOS chamado Poke. Não é a cutucada que existe há eras na rede social, é um app que permite enviar mensagens, fotos e cutucadas que expiram em poucos segundos. Igualzinho o Snapchat.
Criado no final de 2012 para bater de frente com o Snapchat, o Poke foi concebido em apenas 12 dias. Era um recado do Facebook a startups inovadoras: vocês têm uma boa ideia? A gente faz igual, e faz rápido.
O único problema é que ninguém deu muita bola para o Poke e, sem surpresa, o app acabou caindo no esquecimento. Nem o próprio Facebook parece ter levado sua cria a sério, sensação que se fortaleceu com a divulgação pelo Wall Street Journal de que a rede social tentou comprar o Snapchat por US$ 3 bilhões e ganhou um não como resposta.
Você recusaria US$ 3 bilhões?
Por que o Facebook quer o Snapchat?
Há um ano e meio o Facebook comprou o Instagram por um terço do valor oferecido ao Snapchat. De lá para cá o mercado de apps mudou um pouco.
Se antes o Instagram era visto como o El Dorado da fotografia digital, hoje ele divide espaço com concorrentes menos óbvios — Snapchat e WhatsApp, para citar dois. Se considerarmos a quantidade de imagens trocadas nesses serviços por dia, o Instagram some: dados levantados por Benedict Evans indicam que por ali passam diariamente 55 milhões de fotos. No Snapchat? 350 milhões, a mesma quantidade que o Facebook recebe.
O Facebook ainda sofre com a saturação junto a um público muito especial, o dos adolescentes. Mês passado, ao revelar os números do trimestre como toda boa empresa aberta faz, a empresa admitiu uma queda no engajamento dos jovens. Esse público estaria migrando para redes mais privadas, sem a presença de adultos; o Snapchat se posiciona como um paradigma dessa nova safra — não há legado, não há pai, mãe e tia, você manda uma foto e ela some rapidamente.
Em evento relacionado, uma pesquisa da PiperJaffray indicou que 26% dos jovens americanos veem o Twitter como a rede social mais legal. Em um ano o Facebook perdeu a liderança nessa pesquisa, sendo agora a resposta de 23% dos entrevistados — mesma porcentagem dos que indicaram o Instagram como sua rede social preferida. A aquisição do Instagram se justifica e esses dados todos dão base para o interesse no Snapchat.
É a pergunta que todos se fazem. Evan Spiegel e Bobby Murphy, co-fundadores do Snapchat, parecem ter planos ambiciosos para o app. Novos recursos, como as Histórias, melhoraram a experiência e o uso vem numa crescente já faz algum tempo.
Mas ainda que o cenário seja dos melhores, o grande problema é que o Snapchat não gera um centavo. Nada. Zero. Pela natureza privada do serviço e a sensibilidade do público a esse respeito, qualquer investida no sentido de gerar renda se torna difícil. Incluir anúncios? Complicado. Mediar a entrega de snaps? Também. Você consegue imaginar alguma forma de ganhar dinheiro com isso? Nem Evan e Bobby conseguem.
Em tom de brincadeira, Will Oremus tentou imaginar como o Snapchat faria dinheiro. Entre sequestrar imagens e extorquir usuários e outras ideias malucas, surgiu a de vender itens virtuais, como chapéus e outros enfeites para as fotos. Parece (e deve ser!) piada, mas pode ser uma boa. O Line, um app de mensagens japonês nos moldes do WhatsApp, faturou US$ 132 milhões no segundo trimestre de 2013 vendendo jogos, stickers (adesivos virtuais) e oferecendo stickers patrocinados.
Claro, adesivos não são a resposta absoluta e certeira para o problema do Snapchat. Não é tão simples assim, não é uma receita de bolo. Qualquer mudança no modo de funcionamento do app, que é dos mais simples, precisa ser estudada — mais ainda uma que envolva pedir dinheiro dos usuários.
Segundo o Wall Street Journal, Spiegel, que também é CEO do Snapchat, disse que recusou a oferta do Facebook por acreditar no crescimento da base de usuários, visando uma valorização ainda maior para 2014. É bom reforçar que toda essa discussão se funda na declaração de “pessoas inteiradas do assunto”. Pode ser que nada disso tenha rolado no fim das contas.
Considerando que, sim, houve as negociações e elas não avançaram, para os usuários a manutenção dessa independência é boa. O Snapchat é a antítese do Facebook, quase uma ode à privacidade que a rede social tanto castiga em prol de dados dos usuários e anúncios direcionados. São serviços incompatíveis; tenho comigo que um dos motivos de o Poke ter afundado é essa desconfiança inerente em relação ao Facebook.
Ninguém sabe muito bem como tornar o Snapchat lucrativo, mas os co-fundadores parecem confiantes de que isso é possível. E convenhamos: eles disseram “não” a US$ 3 bilhões. Tamanha coragem e sangue frio merecem, no mínimo, um crédito de confiança. Estou curioso para saber no que o Snapchat se transformará.
Atualização (4/9/2014): Se você chegou aqui por causa do “desafio do RG” que está rolando no Facebook, um aviso: o post abaixo não trata disso. E um pedido: tudo bem mostrar a foto 3×4, mas não divulgue outros dados do seu documento, nem por brincadeira. Isso pode acabar em problemas.
Imagine estar usando o Facebook quando, de repente, o site trava a sua conta e, para liberá-la, exige um documento oficial. Complô com a NSA? Parceria com o IBGE para fazer o próximo Censo? Nada disso: é apenas a verificação de identidade em ação.
Não sei a dimensão dessa onda de verificações, mas pelo menos nos meus círculos de amizades, ela atingiu bastante gente. Horas depois, porém, o Facebook informou por meio de um porta-voz que um erro motivou a disparada de verificações desnecessárias para uma pequena parte da base de usuários. Nesses casos, bastava esperar que a conta era reativada sem que fosse preciso fazer nada.
Ainda assim, o pedido de documento oficial é real e pode acontecer uma hora ou outra. Quando esse obstáculo surge, ele se apresenta da seguinte forma:
O Facebook pede um documento de identificação que “deve incluir seu nome, data de nascimento e foto”, sugerindo em seguida alguns aceitos, como RG, passaporte e CNH.
Por que isso? Devo me render ao sistema ou resistir e ir para o Google+? Calma, a situação é menos alarmante do que parece à primeira vista.
Por que o Facebook quer saber meu RG?
A primeira reação é de indignação, e é compreensível. A exigência de um documento oficial é exagerada, especialmente para quem não faz negócios no Facebook e está ali só pelo aspecto de rede social do serviço, pelo entretenimento. É seguro mandar essa cópia de documento para lá? Não sei, mas não é bem isso que é pedido.
Como se sabe, o Facebook exige o uso de nomes reais. A política nesse sentido é bem rígida por motivos claros — a veracidade das informações, ali dentro, é um ponto de venda da rede para anunciantes e um fator importante para os seus objetivos. Há indicações de sobra ressaltando esse cuidado, os termos de uso dizem explicitamente que é preciso ser honesto pelo menos nessas três informações:
“Os usuários do Facebook fornecem seus nomes e informações reais, e precisamos da sua ajuda para que isso continue assim.”
Na página inicial/de cadastro, uma caixa suspensa explica por que a exigência se estende à data de nascimento:
Fornecer sua data de nascimento ajuda a assegurar que você receba a experiência certa para sua faixa etária. Você pode optar por ocultar essa informação de sua linha do tempo mais tarde se desejar.
Embora essa abordagem focada em nomes, data de nascimento e documentos oficiais não seja muito antiga (o mais longe que cheguei foi a este post de 2010), desde o principio existia a preocupação de lidar com gente real, de carne, osso e número de identificação. Antes, porém, o mecanismo usado para esse controle era o email universitário.
Como dizer ao Facebook que você é você mesmo
Existe uma página de ajuda no Facebook para elucidar exclusivamente essa dúvida. Ali, o site diz que a forma mais simples de ter sua conta verificada é atrelando-a a um número de celular. Isso explica, talvez, por que não recebi esse pedido de documentação.
A minha conta está atrelada ao meu número e, pela autenticação em duas etapas que isso permite, recomendo que você faça o mesmo — basta ir nas configurações de mobilidade e ativar o recurso. A verificação é um efeito colateral que o poupará dessa dor de cabeça envolvendo RG e outros documentos. E não se preocupe, ocultar o número de todos os estranhos e até mesmo seus contatos é fácil.
Mas ok, você não fez a tempo e agora estão te pedindo um documento. O que fazer? Envie-o, mas tome precauções antes. Mesmo com a promessa de que as fotos são destruídas após a verificação ser concluída, nunca se sabe. E é um mandamento básico não compartilhar seus dados pessoais com qualquer um, certo? Muito menos o Facebook.
A própria rede social pede para que toda informação que não as três exigidas (nome completo, data de nascimento e foto) seja ocultada. Use o Photoshop, o Paint, qualquer editor simples para ocultar informações mais sensíveis. Há até um modelo na já referida página de ajuda:
Imagem: Facebook/Reprodução.
Esta página traz algumas diretrizes sobre formato, tamanho e outros detalhes da foto.
Isso demora?
Pode demorar. Há relatos de gente que teve que esperar até nove dias para ter a conta restabelecida. Ouvi, ainda, pessoas falando em três dias, mas também outras dizendo que tiveram que esperar algumas horas apenas. Imagino que hoje a espera não tome tanto tempo, mas mesmo que seja o caso, aguarde.
Não faça outro perfil/conta, isso não adiantará muito. Ela também exigirá verificação e, além de se deparar novamente com esse problema cedo ou tarde, haverá ainda a agravante da duplicidade — o item 4.2 dos termos de uso diz que “você não deve criar mais de uma conta pessoal”.
É chato esperar? Imagino que sim. Mas é o preço que se paga, além dos anúncios na cara o dia todo, para usar o Facebook.
É bem provável que você já tenha se pego rolando páginas sem fim de redes sociais no computador ou celular em uma noite de sexta-feira. E o pior é que, por um bom momento, aquilo bastou. Mas cedo ou tarde a insatisfação ou o cansaço, o que veio primeiro, bateu forte e você foi para a cama dormir. Deprimido, provavelmente.
Gasta-se muito latim para tentar entender por que a tecnologia tem nos deixado mais tristes e solitários. Um dos trabalhos mais amplos no assunto é o livro Alone Together: Why We Expect More From Technology and Less from Each Other, da socióloga norte-americana Sherry Turkle.