Snapchat e Facebook: como dizer “não” a US$ 3 bilhões


13/11/13 às 19h27

O Facebook tem um app para iOS chamado Poke. Não é a cutucada que existe há eras na rede social, é um app que permite enviar mensagens, fotos e cutucadas que expiram em poucos segundos. Igualzinho o Snapchat.

Criado no final de 2012 para bater de frente com o Snapchat, o Poke foi concebido em apenas 12 dias. Era um recado do Facebook a startups inovadoras: vocês têm uma boa ideia? A gente faz igual, e faz rápido.

O único problema é que ninguém deu muita bola para o Poke e, sem surpresa, o app acabou caindo no esquecimento. Nem o próprio Facebook parece ter levado sua cria a sério, sensação que se fortaleceu com a divulgação pelo Wall Street Journal de que a rede social tentou comprar o Snapchat por US$ 3 bilhões e ganhou um não como resposta.

Você recusaria US$ 3 bilhões?

Por que o Facebook quer o Snapchat?

Telas do Snapchat.

Há um ano e meio o Facebook comprou o Instagram por um terço do valor oferecido ao Snapchat. De lá para cá o mercado de apps mudou um pouco.

Se antes o Instagram era visto como o El Dorado da fotografia digital, hoje ele divide espaço com concorrentes menos óbvios — Snapchat e WhatsApp, para citar dois. Se considerarmos a quantidade de imagens trocadas nesses serviços por dia, o Instagram some: dados levantados por Benedict Evans indicam que por ali passam diariamente 55 milhões de fotos. No Snapchat? 350 milhões, a mesma quantidade que o Facebook recebe.

O Facebook ainda sofre com a saturação junto a um público muito especial, o dos adolescentes. Mês passado, ao revelar os números do trimestre como toda boa empresa aberta faz, a empresa admitiu uma queda no engajamento dos jovens. Esse público estaria migrando para redes mais privadas, sem a presença de adultos; o Snapchat se posiciona como um paradigma dessa nova safra — não há legado, não há pai, mãe e tia, você manda uma foto e ela some rapidamente.

Em evento relacionado, uma pesquisa da PiperJaffray indicou que 26% dos jovens americanos veem o Twitter como a rede social mais legal. Em um ano o Facebook perdeu a liderança nessa pesquisa, sendo agora a resposta de 23% dos entrevistados — mesma porcentagem dos que indicaram o Instagram como sua rede social preferida. A aquisição do Instagram se justifica e esses dados todos dão base para o interesse no Snapchat.

Por que o Snapchat recusou a oferta do Facebook?

Bobby Murphy e Evan Spiegel.
Foto: Lightspeed Venture Partners.

É a pergunta que todos se fazem. Evan Spiegel e Bobby Murphy, co-fundadores do Snapchat, parecem ter planos ambiciosos para o app. Novos recursos, como as Histórias, melhoraram a experiência e o uso vem numa crescente já faz algum tempo.

Mas ainda que o cenário seja dos melhores, o grande problema é que o Snapchat não gera um centavo. Nada. Zero. Pela natureza privada do serviço e a sensibilidade do público a esse respeito, qualquer investida no sentido de gerar renda se torna difícil. Incluir anúncios? Complicado. Mediar a entrega de snaps? Também. Você consegue imaginar alguma forma de ganhar dinheiro com isso? Nem Evan e Bobby conseguem.

Em tom de brincadeira, Will Oremus tentou imaginar como o Snapchat faria dinheiro. Entre sequestrar imagens e extorquir usuários e outras ideias malucas,  surgiu a de vender itens virtuais, como chapéus e outros enfeites para as fotos. Parece (e deve ser!) piada, mas pode ser uma boa. O Line, um app de mensagens japonês nos moldes do WhatsApp, faturou US$ 132 milhões no segundo trimestre de 2013 vendendo jogos, stickers (adesivos virtuais) e oferecendo stickers patrocinados.

Claro, adesivos não são a resposta absoluta e certeira para o problema do Snapchat. Não é tão simples assim, não é uma receita de bolo. Qualquer mudança no modo de funcionamento do app, que é dos mais simples, precisa ser estudada — mais ainda uma que envolva pedir dinheiro dos usuários.

Segundo o Wall Street Journal, Spiegel, que também é CEO do Snapchat, disse que recusou a oferta do Facebook por acreditar no crescimento da base de usuários, visando uma valorização ainda maior para 2014. É bom reforçar que toda essa discussão se funda na declaração de “pessoas inteiradas do assunto”. Pode ser que nada disso tenha rolado no fim das contas.

Considerando que, sim, houve as negociações e elas não avançaram, para os usuários a manutenção dessa independência é boa. O Snapchat é a antítese do Facebook, quase uma ode à privacidade que a rede social tanto castiga em prol de dados dos usuários e anúncios direcionados. São serviços incompatíveis; tenho comigo que um dos motivos de o Poke ter afundado é essa desconfiança inerente em relação ao Facebook.

Ninguém sabe muito bem como tornar o Snapchat lucrativo, mas os co-fundadores parecem confiantes de que isso é possível. E convenhamos: eles disseram “não” a US$ 3 bilhões. Tamanha coragem e sangue frio merecem, no mínimo, um crédito de confiança. Estou curioso para saber no que o Snapchat se transformará.

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8 comentários

  1. Tudo que o Facebook compra é pra alimentar essa rede, o Facebook lê os contatos e não contatos do whatsapp e os oferece como amigos no FB, privacidade zero;
    no Instagram começou agora essa moda facebookiana de oferecer gente pra seguir, são os seus conhecidos e colegas de infância, de escola, trabalho, gente que você detesta, contatos de Facebook, somos obrigados a manter o instagram fechado pra pessoas indesejaveis não verem nossas fotos, quando o App tinha privacidade era possível interagir com pessoas desconhecidas que gostam das mesmas coisas que você, trocando likes naturalmente…
    Todo app que o Facebook compra ele estraga.

  2. Acho que esta recusa pelos US$ 3bi foi mais para chamar atenção da mídia e com isso conseguirem alavancar a base de usuários. Mas, também acho que o Facebook e outros que possivelmente estavam de olho na empresa, perderão o foco e vão começar olhar outros apps que não o snapchat.
    É aquela história, bobeou perdeu a vez. ¯_(ツ)_/¯

  3. Eu não vejo sentido nenhum em recusar essa oferta, esse mercado é extremamente dinâmico, nós temos inúmeros casos de empresas que um dia valiam horrores e depois foram vendidas por miséria.

    A única explicação pra mim é que os fundadores simplesmente não precisam de dinheiro pro resto da vida e não olham pra empresa com esse objetivo, querem simplesmente fazer algo diferente e deixar algo diferente para o mundo.

    O problema nisso é que pra manter o serviço em si eles precisam de dinheiro e precisam de muito dinheiro, principalmente se a base de usuários crescer tanto quanto eles esperam. A quantidade de gasto com desenvolvedores e servidores é gigante. Até quando eles vão tirar dinheiro do próprio bolso pra bancar tudo isso?

    Por isso tudo que eu falei eu considero uma loucura gigante por parte deles a recusa dessa oferta. Pelo futuro do serviço eu teria vendido.

    1. Eles não tiram do bolso para manterem o serviço no ar, essa grana vem de investidores. São pessoas e empresas especializadas em bancar startups para, lá na frente, lucrarem com uma venda ou a consolidação de um modelo de negócios. Essa é a dinâmica do Vale do Silício.

      Ainda assim, o caso do Snapchat é peculiar porque não existe um meio claro de se fazer dinheiro com ele. Pesa a favor a base, crescente e ativa, que é o ponto onde muitos serviços, alguns bons, empacam — o Everpix é o exemplo mais recente.

  4. Pra mim sob nenhuma hipótese faz sentido o Snapchat recusar US$3bi. Basta dar uma olhada pro passado pra ver como este mercado é inconstante. O que hoje está fazendo muito sucesso, daqui há seis meses pode ser esquecido. Até o Orkut, que foi rei soberano no Brasil e diria até que entrou para cultura POP brasileira, lançou termos como orkutização e orkuticídio, teve o seu fim.

    E não é só isto: o Snapchat não sabe nem como se tornar rentável, e possivelmente não encontrará um caminho que agrade aos usuários (só penso no momento em três: modelo freemium, assinatura ou publicidade).

    E, pra finalizar, uma frase que li em algum canto da internet hoje: “Nós não sabemos nem se o próprio Facebook estará valendo R$3bi em dez anos”.

  5. Saudações Ghedin,

    Muito bom esse post. Bem na linha mais reflexiva do Manual do Usuário.

    Quanto à oferta de US$ 3 bilhões, mesmo a empresa não gerando nenhuma renda, é importante lembrar que o valor de uma empresa não se mede pela renda gerada no passado e/ou no presente, mas pelas possibilidades de lucros futuros. Claro que o histórico de lucro de uma empresa pode ser um bom indicativo das possibilidades futuras, mas é apenas isso, um indicativo.

    Por isso esse valor tão elevado pelo Snapchat. Ele pode não dar lucro nenhum agora, mas tanto o Facebook (que quer comprar) quanto os donos do Snapchat (que recusaram a oferta) tem tanta confiança que o Snapchat gerará lucros vultosos no futuro que estão dispostos a apostar US$ 3 bilhões.

    Mas é apenas isso. Uma aposta. Pode estar embasado em estudos de mercado, projeções de demanda, estudos disso e daquilo, etc, etc, etc, mas no fundo continua sendo uma aposta. Somente o tempo dirá se os donos do Snapchat se arrependerão amargamente de terem recusado a oferta ou não.