É impossível sair do Tubby e do Lulu sem deixar resquícios


3/12/13 às 23h14

Luluzinha gritando -- provavelmente com o Bolinha.

Lulu, Tubby, revanchismo, machismo, sexismo, brincadeira, coisa séria… Independentemente da forma com que você encare esses dois apps que trazem para o século XXI a inesquecível Guerra dos Sexos do Faustão, a fofoca de bar, um ponto é unânime: é bem chato se surpreender listado num dos dois sem ter sido consultado antes.

No Manual já falei de um outro problema do Lulu, de ordem mais filosófica do que prática, e no último podcast abordamos o app com um enfoque mais “vida real” — como ele é recebido em rodas de amigos e que estragos causa ou pode causar. Apesar de eu encará-lo como algo mais em tom de brincadeira do que um destruidor de homens com a masculinidade sufocada, é indefensável como a dinâmica do app, de preencher o mural das meninas com os perfis dos seus desavisados amigos no Facebook, é agressiva.

As consequências dessa abordagem se dividem em duas. A primeira, imbróglios jurídicos. O Ministério Público já investiga o app e ações individuais começam a pipocar pelo Brasil.

A segunda, cheia de boas intenções, lotada de desinformação, é a onda de tutoriais ensinando a cair fora do Lulu — e, como medida preventiva, do Tubby, o equivalente masculino do Lulu que está sendo feito a toque de caixa por um trio de brasileiros. Eles não funcionam porque ignoram o modo de funcionamento da API do Facebook, os pedaços da rede que ela libera para que desenvolvedores criem apps e serviços em cima desses dados.

Entendendo a privacidade no Facebook

O passo a passo mais comum para sair do Tubby e do Lulu é um que leva o usuário às configurações de aplicativos no Facebook e pede para que ele desmarque um punhado de caixas de seleção. Este aqui, por exemplo. Não perca seu tempo seguindo-o, ele não tem utilidade alguma porque não alcança as informações de que o Lulu e o Tubby precisam. No caso, seu nome, foto e lista de amigos.

É preciso entender como o Facebook funciona. Nossos perfis são compostos por diversos campos. Alguns, esses listados na página que o tutorial acima menciona, opcionais e ocultáveis. Outros, públicos. A ajuda do Facebook lista quais são esses:

  • Nome.
  • Foto de perfil.
  • Sexo.
  • E número identificador (ID) da conta.

O Facebook se justifica dizendo que elas são essenciais para que as pessoas se encontrem lá dentro e, nessa mesma ideia, a lista de amigos é uma forma de facilitar esse contato. Até dá para editar a visibilidade da lista de amigos, mas ela se refere apenas à forma com que seus amigos a veem. O Lulu e o Tubby não são afetados, eles pedem acesso à lista de amigos pela API e, para isso, não existe configuração no Facebook capaz de bloquear. (O bom senso, talvez, mas é querer demais que as pessoas leiam uma caixa de diálogo, reflitam sobre o que ela pede e, mais que isso, desistam de dar uma olhadinha e, de carona, ceder seus amigos para os apps.)

Sendo uma rede social, onde a interação entre as pessoas é o que a faz funcionar, é uma justificativa válida. Infelizmente, ela dá brechas a ações menos nobres, como as dos já citados apps. Esses quatro pontos são suficientes para que eles coloquem você em suas listas — graças à autorização de um amigo qualquer, concedida no momento em que ele entrou em um dos apps com autenticação via Facebook.

Como sair do Tubby e o Lulu?

Não dá.

Eu sei que é chato, mas não dá mesmo — não sem deixar rastros. Eu e o Bruno Briante, que levantou essa bola no Facebook, quebramos a cabeça em busca de uma saída, mas com exceção dos meios oficiais (e obscuros), não rola mesmo.

Aviso às mulheres que não querem estar no Tubby.
A mensagem de mau gosto do Tubby para as mulheres que quiserem remover seus perfis do app. Imagem: Tubby/Reprodução.

A princípio imaginei que bloquear o app pudesse impedi-lo de me alcançar. A estratégia não funcionou porque bloqueio não impede que seus amigos, ao acessarem o app, cedam suas informações públicas, as mencionadas acima, através da permissão de acesso às listas de amigos.

O app não se relaciona com seu perfil, ele simplesmente chega até ele através de outros amigos. O bloqueio só age na relação usuário-app, que não precisa ser estabelecida no caso do Lulu para que alguém apareça lá. Ele pega todo mundo que está no Facebook por tabela, através de quem entra.

Uma saída seria não ter amigos no Facebook, mas aí… né? Outra, que ninguém usasse o app, o que é complicado também.

Sair do Tubby e do Lulu pelos métodos oficiais significa sacrificar seus amigos — e dados pessoais

A única forma de remover seu perfil no Lulu e no Tubby é através dos links que os dois sites oferecem — sair do Lulu; sair do Tubby.

Ocorre que a remoção do perfil é condicionada à “instalação” do app no seu perfil, o que significa que, ao sair, você precisa entrar e, nessa, conceder ao Lulu e/ou ao Tubby acesso à sua lista de amigos (muito provavelmente para inclui-los no app) e um punhado de outras informações pessoais.

Para se descadastrar, Lulu pede informações do usuário.

Não se sabe exatamente como o Lulu e (imagino) o Tubby mantêm esse controle de quem não deve aparecer no site, ou seja, de quem solicitou a remoção do perfil.

O Bruno acredita que eles montam uma lista com as IDs do Facebook e batem com as listas de amigos dos usuários que chegam, excluindo as que aparecerem nas duas. É uma tática simples e que, em tese (reforçando), permite que os privilégios do Lulu/Tubby sobre sua conta no Facebook sejam removidos depois sem que com isso você volte a figurar neles.

A única saída possível

Como lidar? Não sei. Uns podem argumentar que é uma falha de design do Facebook, outros que a vida assim, quem se sujeita à rede social tem que arcar com alguns ônus. É, sem dúvida, uma situação desconfortável, talvez passível de sucesso nas incursões que alguns usuários do Facebook, indignados com ela, estão fazendo à justiça brasileira — existe o posicionamento, não muito difícil de colar, de que o Facebook é co-responsável por esses cenários que se formam em torno do Lulu e do Tubby.

Pedir para sair é um exercício de fé cega e irrestrita: ninguém garante o que os dois farão com os dados dos usuários. Pode ser um golpe, pode ser, no caso do Tubby, um artifício para obter acesso aos perfis de milhares de mulheres (por mais que eles digam que não), qualquer coisa. É muito poder para um app que se impõe com tanta força e, ao mesmo tempo, dá sucessivas demonstrações de imaturidade, como soltar um EITA PORRA em comunicado público.

No fim, a única saída reconhecidamente eficaz para não aparecer no Lulu, Tubby e outros aplicativos duvidosos do gênero é uma só, esta aqui.


Agradecimentos ao Bruno Briante, que trouxe à tona esse insight esperto sobre a API e opções de privacidade do Facebook e se dispôs a tirar várias dúvidas a respeito. Valeu!

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26 comentários

  1. esses apps levou um monte de gente à remover permissões de apps de terceiros. Um desenvolvedor fez um desabafo sobre isso no grupo do tecnoblog: isso castrou a experiência de vários apps…

  2. Tenho uma duvida sobre o Tubby,só amigos conseguem “dar notas” no perfil das mulheres?Ou qualquer um consegue?

    1. Não sei, e acho que enquanto o app não for lançado, ninguém pode dizer com certeza. Nada impede que o app retorne mulheres que estão fora do círculo de amizade do usuário. Uma vez que os dados estão em posse deles, a forma como usarão passa a ser uma incógnita.

  3. Também devemos pensar nas consequências que esses apps trarão para menores de idade. Pelo que vi, no pequeno “Termos de Uso” do Tubby (http://www.tubbyapp.com/termos-de-uso) não há menção sobre o assunto. No Lulu, há o aviso de que o app não deve ser utilizado por menores de 17 anos e que os dados referentes a eles serão apagados caso haja notificação por parte dos pais.

    1. Sim, e ainda tem essa. Não deve ser difícil restringir o funcionamento do app a menores, mas daí a se preocupar com esse detalhe é uma outra questão.

      Uma das justificativas do Tubby para terem adiado em 48h seu lançamento é que estão melhorando a documentação legal do app. Tomara que a nova versão contemple isso.

  4. Ghedin, não tenho como acessar agora no trabalho, mas vi recentemente uma opção nas configurações de privacidade referente às informações que amigos levam para apps de terceiros.
    Chegaram a dar uma olhada nisso?

    1. É o tutorial que cito no primeiro subtítulo — este. Não resolve nada com o Tubby/Lulu.

      Como explicado no texto, as informações que esses apps precisam para incluir alguém nas suas listagens são públicas na API do Facebook. Não há escapatória.

    2. EDIT:
      Consegui acessar pelo app do Android as configurações.
      Pelo que parece, não tem como bloquear o acesso das informações públicas por essa opção.
      Mas parece que há como desativar a “plataforma de apps”, o que impediria qualquer app de acessar seus dados. Nesse caso, nem mesmo tu poderia se utilizar do Login via Facebook.

      1. Isso não vai funcionar. Dá na mesma que bloquear o app na sua conta. Não é essa relação (você-app) que é explorada, é o contato que você tem com amigos que usam o Tubby/Lulu. Se um amigo seu logar no Tubby/Lulu e ceder a lista de contatos para os apps, já era, você está dentro.

        Mesmo que funcionasse, desativando o Facebook Platform, você ainda perde a integração com outros apps/serviços, algo não tão desejável…

        O Lifehacker já mostrou essa opção, e um dos comentaristas disse exatamente o que expliquei acima.

        1. Ghedin, pelo o que eu li e pelo link que você enviou, eu entendo que a desativação da plataforma garante que seu ID não vai ser fornecido se um amigo acessar um app. Eu testei e realmente o meu perfil deixou de aparecer na lista de amigos do “Candy Crush”, por exemplo. A parte chata é que você não faz o link com mais nenhum app (por exemplo publicar foto do instagram para o facebook), porém é melhor isso do que ficar sofrendo avaliações e bullying por esses apps…

          1. Mas o Candy Crush é um lance diferente, não? Você instala ele para aparecer na lista do jogo, imagino — nunca instalei, não tenho certeza como é.

            No Lulu, o app acessa informações públicas, como explicado no texto. Pode ser que desativar o Facebook Platform dê certo, mas é preciso alguém testar especificamente com ele.

            Se nenhum aventureiro aparecer até sexta, crio um dummy user para verificar isso aí.

        2. Retirado deste link de ajuda do Facebook: https://www.facebook.com/about/privacy/your-info-on-other#friendsapps

          “Quando você desativa todos os aplicativos da Plataforma, seu número de identificação de usuário não é mais fornecido aos aplicativos, mesmo quando seus amigos os utilizam. Mas você não poderá mais usar qualquer jogo, aplicativo ou site por meio do Facebook.”

          “Se você quiser impedir completamente os aplicativos de obter suas informações quando seus amigos e outras pessoas os usarem, desative todos os aplicativos da Plataforma. Isso significa que você não poderá mais usar quaisquer jogos, aplicativos ou sites integrados do Facebook de terceiros.”

          Pelo que parece, da sim para impedir o uso das informações. Mas como tu comentou, isso gera um grande contra, já que não poderemos usar mais nenhum app/site com o Facebook.
          De qualquer forma, me disponibilizo para fazer o teste, se estiver interessado.

          1. “Porém o link de ajuda do facebook ao falar da desativação dos aplicativos da plataforma diz que:
            Se um aplicativo solicitar permissão de outra pessoa para acessar suas informações, ele será autorizado a usar as informações somente relacionadas à pessoa que concedeu a permissão e a ninguém mais.
            Por exemplo, alguns aplicativos usam informações, tais como a lista de amigos, para personalizar sua experiência ou mostrar a você quais dos seus amigos usam esse aplicativo específico.”
            Minha dúvida é, se o “amigo” do face, se cadastrar no Tubby, o app não terá acesso as minhas informações, pois desativei a plataforma de apps, mas estarei na lista de amigos e mesmo assim estarei no Tubby?

  5. Ghedin, você já parou pra pensar em bandidos se cadastrando para ter acesso a informações pessoais e usando isso para extorquir, intimidar, roubar, etc?

    E hackers tendo acesso ao banco de dados do app? Já imaginou o estrago?

    1. Sim, são possibilidades. Mas teria que ser algo de fachada, já que para chegar a essas informações algum usuário precisa logar no app/serviço usando suas credenciais do Facebook. Pode ser o caso, aliás, do Tubby — por isso a recomendação temporária às mulheres para que não se descadastem usando o link fornecido por eles.

  6. É curioso essa paranoia com esses dois apps em específico, sendo que, praticamente todos os apps para Facebook já lançados antes também têm acesso a esses dados.

    1. A diferença é que nesses dois apps em específico, mesmo quem não quer acaba sendo incluído, sendo um “produto” deles.
      Não me lembro de outro app que faça algo parecido, a maioria usa a lista de amigos para mandar convites ou mostrar amigos que também os usam, facilitando a conexão entre usuários.

      1. Mas a preocupação demonstrada nesse post claramente não é sobre o “produto” oferecido pelo app, visto que a remoção deste pode ser facilmente confirmada.

        O suposto problema retratado pelo autor é de que é impossível sair sem deixar rastros, dando a entender um certo FUD de que os apps podem fazer uso dos dados para fins diferentes daqueles que são esperados pelo escopo do “produto” dos apps.

        O que não deixa de ser verdade. Estes dados realmente podem ser usados para outros fins. O que eu quero esclarecer é que todos os apps lançados para o Facebook até então que tiveram acesso aos mesmos dados enfrentam o mesmo problema, no entanto apenas esses dois são alvos de desconfiança.

        1. Não vai adiantar muito eu dizer que a ideia do post não é fazer FUD, né? :-)

          Sim, o Facebook sempre funcionou dessa forma. O ineditismo que vejo no Lulu e no Tubby é a criação de perfis de pessoas que sequer acessaram esses apps.

          Um Candy Crush da vida colocá-lo num ranking ou para mendigar vidas com seus amigos do Facebook depois que você concede acesso a ele à sua conta, ok. Agora um terceiro me levar para uma outra rede social onde outras pessoas poderão interagir comigo, tudo isso sem o meu conhecimento, é uma situação diferente. Talvez esteja deixando alguma passar, mas não lembro de situação parecida.

          1. Não. :-) Eu sei que não foi essa a ideia, mas foi o que acabou fazendo.

            O Candy Crush tem uma tela de convidar amigos onde ele mostra os dados de todos os seus amigos que ele tem acesso, independente deles usarem o aplicativo ou não.

            Os Lulubby usam exatamente esses mesmos dados para montar os perfis, o que eles fazem de diferente é que esses perfis são o próprio fim do app, e não um passo intermediário.

            Mas, para mim, o que este post quis destacar não é que os apps usam esses dados ‘sem o consentimento’ de seus donos. Isso todo mundo já sabe. E até onde eu saiba o Manual do Usuário não é de ficar repetindo informações que todo mundo já sabe. :-)

            O que o post quis dizer, no meu entendimento, é que mesmo quando os usuários se inscrevem nos apps para utilizar a opção de removerem seus perfis, ainda que estes apps aparentemente removam o perfil público, não se sabe o que eles realmente fazem com esses dados por baixo dos panos. Isso fica bem claro nos últimos parágrafos.

            O meu ponto é: Não se sabe o que nenhum app do Facebook realmente faz com os dados que ele tem acesso, e esses dois não têm nada de especial nesse sentido.

          2. O problema é que antes do app pedir autenticação via Facebook ele meio que já quebra a confiança do usuário que não queria estar ali expondo-o às avaliações de outros, sem o seu consentimento.

            Quis publicar esse post para dar uma chamada em todo mundo que estava compartilhando aquele tutorial de limitar os campos do perfil acessíveis via API — e que em nada ajuda a ficar foca do Lulu/Tubby.

            Relendo o final aqui, talvez tenha exagerado no tom, mas novamente: os apps começaram o jogo meio errado, minando qualquer possibilidade de confiança por parte de quem se sente prejudicado…