Facebook f8: controle aos usuários, poder aos desenvolvedores

Conferência f8, do Facebook.
Foto: Facebook.

Após dois anos de hiato, a f8, conferência para desenvolvedores do Facebook, voltou a acontecer ontem, em San Francisco, EUA. No evento deste ano, os anúncios tiveram um objetivo: tornar a plataforma hegemônica em dispositivos móveis.

O Facebook dividiu as novidades em três áreas: estabilidade para desenvolvedores, prioridade para pessoas e serviços e ferramentas multiplataforma. Existem mudanças positivas para usuários finais, mas quem mais se beneficiará com o caminhão de anúncios serão aqueles que criam apps, serviços e soluções baseados no Facebook.

Olhando de fora, falando como não desenvolvedor, a sensação é de que a plataforma está madura. Só isso viabiliza a promessa, do Facebook, em garantir suporte mínimo de dois anos para produtos básicos a desenvolvedores através do versionamento da plataforma. São aspectos bem técnicos que, indiretamente, tornam a experiência dos usuários mais confiável – apps quebrarão menos e se comportarão como o esperado com mais frequência.

Poder e privacidade nas mãos do usuário

À audiência da f8, composta por cerca de 1500 desenvolvedores, Zuckerberg disse que “algumas pessoas têm medo de clicar no botão azul. Se estiver usando um app em que não confia totalmente ou teme que possa fazer spam para seus amigos, você não dará a ele um monte de permissões”. Para diminuir a rejeição do botão azul, nada mais que o botão de login do Facebook, ele foi repensado.

Agora, as permissões dos apps poderão ser ajustadas individualmente. No modelo ainda vigente, o acesso a um app é questão de “tudo ou nada”, o que gera situações desconfortáveis como a proliferação automática de perfis de homens no Lulu via permissões de amigas que usavam o app.

No novo sistema, dá para editar as permissões. Elas são granulares. Se já existisse na época do Lulu, seria possível entrar, ver e atribuir notas aos homens sem comprometer seus amigos; bastaria desativar o compartilhamento da lista de amigos na hora de fazer login, a saída que na época cogitei por aqui mas que se mostrava impossível. As únicas informações obrigatórias continuarão sendo as que já são atualmente – nome, faixa etária, sexo, foto de perfil e outros detalhes técnicos. Todas as demais ficam a critério do usuário compartilhar ou não com o app.

Dá para definir o que não compartilhar com os apps.
Imagem: Facebook.

Novos apps precisarão ser aprovados pelo Facebook em um processo que, segundo a documentação, levará de 7 a 14 dias úteis. Eles deverão, ainda, prever todos os cenários onde um tipo de permissão não é concedido pelo usuário. Essa postura, bastante legal, é similar à da Apple com o iOS.

Outro temor generalizado, o de apps que publicam na linha do tempo e mandam mensagens para contatos sem que o dono do perfil fique sabendo, também recebeu atenção. Agora, o login do Facebook traz uma tela à parte que destaca bastante esse comportamento, incluindo um seletor para que o usuário decida com quem permite que o app compartilhe conteúdo.

O Facebook incentiva bastante os desenvolvedores a exigirem o mínimo possível de permissões. O site diz que apps que pedem mais de quatro permissões veem uma queda abrupta no número de logins completados.

Login anônimo: teste apps sem revelar seus dados.
Imagem: Facebook.

Se parasse aí, já estaria de bom tamanho. Mas tem mais. Apps que usam o login do Facebook poderão oferecer, agora, um modo anônimo. É como se o usuário fizesse login no app normalmente, só que por essa via ele não compartilha nada com o app, podendo usá-lo como se tivesse fornecido as informações pedidas pela via tradicional sem o risco de que façam mal uso dos seus dados. Uma degustação sem compromisso. Depois, quando e se estiver confortável com a aplicação, ele pode conceder devidas permissões para ter uma experiência mais rica.

Embora existam ganhos reais em privacidade, é preciso ainda confiar no Facebook – ele sempre sabe quais apps você usa. Na prática isso garante o uso dos apps, em modo anônimo, em vários dispositivos sem que seja preciso refazer o login a cada sessão.

Não é só por benevolência e por acreditar na privacidade que o Facebook trouxe essas mudanças bem-vindas ao seu sistema de login – todas em testes com parceiros, com previsão de disponibilidade geral para os próximos meses. Por trás das boas intenções está o interesse em incentivar as pessoas a usarem mais apps de terceiros através do Facebook, deixá-los mais confortáveis e confiantes em logar com o Facebook em vez de fornecer e-email e senha ou, pior, usar a solução do Google. Dessa forma, o Facebook garante os dados das nossas vidas que são, no fim do dia, o alimento básico que faz a rede social crescer.

A cola que une a Internet móvel

E teve mais coisas. Algumas, isoladamente, são promissoras. Juntas, todas elas representam uma investida digna de nota.

A maior delas parece ser o App Links. Não ficou muito claro, pelo menos na página que apresenta o serviço, como ele funcionará na prática, mas a ideia geral é que essa solução unifique e viabilize a inclusão de links profundos entre apps, inclusive multiplataforma, da mesma forma que serviços se linkam facilmente na web.

Ainda vimos o botão Curtir nativo para iOS, um novo formato para conteúdos de apps compartilhados através do Facebook Messenger, o envio instantâneo de apps logados na web para um dispositivo móvel e a Audience Network, a rede de anúncios do Facebook para terceiros, apps e sites, um ataque direto ao Google e seu AdSense. No último relatório divulgado a investidores, o Facebook revelou que 59% de todo o faturamento com publicidade veio de dispositivos móveis. A expansão dos anúncios para terceiros deve elevar ainda mais essa porcentagem.

Em texto publicado na Quartz, Leo Mirani disse acreditar, com argumentos de sobra, que o Facebook está posicionado para ser na Internet móvel o que o Google é na web, ou seja, a cola que mantém tudo funcionando. Para a estratégia da empresa, não é imprescindível que todo mundo use o app (ou os apps) do Facebook se, ao usar outros, as pessoas continuem interagindo com o Facebook. Com login, curtir, compartilhamento, links profundos, anúncios e uma nuvem para desenvolvedores (que, por sinal, ficou mais barata e ganhou funções offline), esse cenário se desenha com contornos fortes.

Sua vez, Google.

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3 comentários

  1. Ficou interessante a investida do Facebook, principalmente no mundo móvel. Mas me incomoda ainda ter que usar a versão web no meu Nexus 10 por que o aplicativo funciona como um aplicativo de celular, ou seja, fica uma merda.

    Não utilizo login via Facebook por que é mais fácil deixar apenas uma empresa saber tudo sobre mim, o Facebook chegou depois e dei esse “benefício” ao Google já.

    Sei que estou nadando contra a corrente, que o Google+ é um deserto, não é Ghedin? :p. Mas gosto de lá e me sinto mais a vontade mesmo no mundo móvel, o aplicativo para celular do Google+ é mais rápido e mais agradável, pelo menos no Android e para tablets o aplicativo não tem cara de adaptado nas coxas…

    De qualquer forma é uma atitude que tende a fortalecer ainda mais o Facebook facilitando o trabalho dos desenvolvedores e dando mais tranquilidade aos usuários para escolherem e terem conhecimento do que o aplicativo saberá e fará com suas informações e acessos concedidos.

    Ponto para o Facebook, tenho que concordar.

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