Waiting, foto de Aimee McFarlane.

As redes sociais estão nos deixando mais solitários. Como resolver esse problema?


16/10/13 às 10h05

É bem provável que você já tenha se pego rolando páginas sem fim de redes sociais no computador ou celular em uma noite de sexta-feira. E o pior é que, por um bom momento, aquilo bastou. Mas cedo ou tarde a insatisfação ou o cansaço, o que veio primeiro, bateu forte e você foi para a cama dormir. Deprimido, provavelmente.

Gasta-se muito latim para tentar entender por que a tecnologia tem nos deixado mais tristes e solitários. Um dos trabalhos mais amplos no assunto é o livro Alone Together: Why We Expect More From Technology and Less from Each Other, da socióloga norte-americana Sherry Turkle.

Fruto de centenas de entrevistas feitas com pessoas de todas as idades nos últimos quinze anos e de um trabalho ainda mais extenso da autora na pesquisa sobre a relação entre psicologia e tecnologia, o livro soa às vezes meio apocalíptico. Estamos, segundo Sherry, caminhando para um futuro pior do que ficar sexta à noite olhando o Facebook. Imagina só a situação.

Onde tudo começa

O legal de estudar História é que muita coisa tida como de vanguarda se revela, com pequenos nuances diferentes, reciclagens de problemas de outrora.

Toda nova tecnologia disruptiva assusta. Se você acha que o debate em torno da depreciação da mensagem desencadeado pelo limite de 140 caracteres do Twitter está datado, acertou em cheio. Mas ele é apenas mais um capítulo de uma longa história que, bem condensada no xkcd, mostra que no passado outras tecnologias então recentes, da imprensa ao barateamento do envio de cartas, foram encaradas como temerosas. No final do século XIX a velha ladainha do “no meu tempo é que era bom” já assolava as discussões do tipo. Na Grécia Antiga, no século IV a.C., Platão já demonstrava preocupação com a introdução da escrita nas escolas atenienses.

A Internet não é muito antiga, a Internet comercial, menos ainda. As redes sociais na acepção moderna do termo (pense em Twitter ou Facebook), um dos principais alvos da crítica de Sherry, são novinhas. O problema da solidão decorrente da tecnologia, porém, ultrapassa todas essas tão recentes.

Erich Fromm, em seu livro O Medo à Liberdade, atribuía ao capitalismo o entristecimento do homem moderno, dopado por algumas liberdades conquistadas às custas da ascensão da individualidade. Alguns trechos da obra, que data de 1941, continuam tão atuais que se me dissessem, antes, que tinham sido escritos hoje, eu acreditaria.

“Em uma palavra, o capitalismo não só libertou o homem dos grilhões tradicionais como igualmente contribuiu, de forma tremenda, para o incremento da liberdade positiva, para a ampliação de um ego ativo, crítico e responsável.

Não obstante, se bem que este fosse um efeito do capitalismo sobre a marcha da liberdade em expansão, ao mesmo tempo tornou o indivíduo cada vez mais isolado, solitário e imbuído de uma sensação de insignificância e impotência.”

Indo mais para trás, temos Isaac Asimov, em 1939, discutindo o dilema de uma criança que é cuidada por um robô-babá e as implicações disso em seu desenvolvimento:

“(…) Eu não quero confiar minha filha a uma máquina. E não me importa o quão esperta seja. Ela não tem alma, e ninguém sabe o que pode estar pensando. Uma criança não foi feita para ser guardada por uma coisa de metal.

(…) Ela não brinca com ninguém mais. Há dúzias de meninos e meninas com quem ela poderia fazer amizade, mas ela não quer. Ela nem chega perto deles, a menos que eu a leve lá. Isso não é jeito de uma menina crescer. Você quer que ela seja uma pessoa normal, não quer? Quer que ela tome parte na sociedade, não quer?”

Os receios de Grace, mãe da pequena Glória, sobre como a presença do robô Robbie, do conto homônimo que abre seu livro Eu, Robô, afetaria o crescimento da filha é uma questão posterior, mas que Sherry aborda logo de cara para embasar melhor seu ponto sobre o estar “sozinhos juntos”.

Robôs e inteligência artificial

Sherry Turkle, foto de Jean-Baptiste LABRUNE.
Foto: Jean-Baptiste LABRUNE/Flickr.

Robôs? Também fiquei surpreso ao constatar que a primeira metade de Alone Together se fecha em robôs sociais. Do primeiro com quem Sherry teve contato, o ELIZA do MIT, no início da década de 1970 (pense em uma vesão rudimentar do Robô Ed), até os modelos comerciais concebidos para fazer companhia a crianças e idosos, perfis que adultos produtivos não têm lá muita paciência para cuidar.

O que mais intriga Sherry é como as pessoas, mesmo sabendo das limitações de um robô, se deixam encantar e se envolver por eles. Mesmo os modelos mais simplórios, cuja capacidade se restringe a reformular frases ditas pelo interlocutor humano conseguem isso — ela relata que vários alunos se confidenciavam com o ELIZA mesmo cientes de que ele sequer era capaz de disfarçar estar entendendo ou se importando.

Carentes de emoção, basta que os robôs consigam fingir se importarem com as pessoas para que elas se apaixonem. É uma relação fácil e sem ônus para o ser humano. O robô nunca se cansa, não contraria, está lá para agradar e ser agradado. Ah, e pode ser desligado quando convir.

Dia desses encontrei um cão Spock jogador de futebol em uma loja de departamentos na minha cidade. Esse cachorro responde algumas perguntas pré-estabelecidas. Em vinte minutos ali, vi quase uma dúzia de pessoas interagindo com o brinquedo.

E isso porque ele é rudimentar: o reconhecimento de voz só compreende perguntas pré-determinadas e as respostas não variam.

Em uma espécie de mantra repetido diversas vezes ao longo da leitura, Sherry diz que o grande perigo dos robôs sociais se manifesta “quando o bom o bastante se torna o melhor”. E eles vão além de quem entra em contato direto com eles. Terceirizar trabalhos inerentemente humanos relacionados a crianças e idosos quebra vínculos que, por mais chatos ou desprezíveis que sejam, moldam aquele senso de conexão que temos com quem depende da gente. Ao almoçar com um robô, como uma criança conseguirá desenvolver empatia e associar isso a estar com outras pessoas, à socialização?

Evidenciado por representantes como Paro, Furby, My Real Baby e Roxxxy, a questão dos robôs sociais se revela quando o mínimo de atenção que eles dispensam aos seus donos humanos (ou de quem tomam conta), somado à falta de reações negativas a partir de nós passa a ser tão reconfortante que dispensa interações mais complexas — com outras pessoas. Um problema que começa a se desenhar, no contexto de Alone Together essa é, enfim, a ponte com a Internet e como tudo isso pode nos deixar pra baixo.

A Internet me deixou triste, muito triste demais

Livro Alone Together, de Sherry Turkle.
Foto: Reprodução.

Sherry se apega a alguns problemas principais detectados em sua pesquisa e que perpassam toda a obra. Segundo ela, boa parte das interações online se dilui em efeitos colaterais derivados delas próprias e, pior, ainda respinga em outros aspectos das nossas vidas.

O contato ininterrupto, o estar sempre ao alcance de outras pessoas impossibilita a atenção completa — você conversa com alguém no Skype enquanto lê um site, vê um vídeo ou conversa com outro amigo em outra janela/aba do seu computador. As pessoas se tornam descartáveis. Esse mesmo contato com gente de toda a sua vida cria uma pressão surreal em performance na rede: você não quer parecer bobo, ou ficar para trás, então floreia seu perfil, publica fotos se divertindo, se esforça para que sua persona online seja legal. E isso raramente funciona, pois a grama do vizinho é sempre mais verde. O legado online, os rastros da nossa presença digital nos tornam reticentes na hora de nos expressarmos, e esse é um bom indício do motivo que faz com que apps como WhatsApp, Snapchat e Whisper, todos sem conteúdo público ou, ainda, apenas com conteúdo efêmero, sejam tão populares.

Como dito, Sherry pinta um cenário bem terrível para a tecnologia de consumo encrustada em nossas vidas. Sabendo disso, por que não nos afastamos?

Porque é tudo muito legal.

Não é à toa que o Facebook sempre mostra coisas diferentes, o Twitter sempre apresenta conteúdo novo alinhado com o que você gosta e toda rede, jogo ou interação online social se esforça para mantê-lo entretido. Somos ratinhos tomando choques elétricos na esperança de receber algumas migalhas de satisfação que, no caso, se traduzem em pequenas doses de dopamina, a substância dos prazeres imediatos. É um videogame de adultos.

Existe uma relação latente entre redes sociais e vício. Embora a analogia caiba aqui, as soluções comumente utilizadas para combater o alcoolismo, o jogo de azar e outras mazelas do tipo não se aplicam aqui por um motivo muito simples: não dá para cortar a fonte do vício, não dá para cortar a Internet.

“A metáfora do vício cabe em uma experiência mundana: quanto mais tempo passado online, mais a pessoa deseja ficar online. Mas embora a metáfora seja válida, não podemos nos dar ao luxo de aplicá-la. Falar em vício subverte nossas melhores ideias porque sugere que existe apenas uma solução. Para combater o vício, você precisa se livrar da substância que vicia. Mas não dá para ‘jogar fora’ a Internet.”

Seria bom se fosse simples assim, se internar “viciados em Internet” (e coloquemos mais algumas aspas no termo) em locais livres da rede resolvesse todos os problemas do mundo. Não é o caso.

E para além do social, o eu introspectivo também se lesiona nesse contexto hiper conectado. Diversos casos de pessoas que não conseguem se desconectar são relatados no livro e, imagino eu, devem se repetir facilmente em seu círculo de amizades. Essa disponibilidade constante tem, nas palavras da própria Sherry em entrevista à NPR, consequências bem ruins:

“As crianças estão recebendo celulares cada vez mais cedo. São épocas em que elas precisam desenvolver a capacidade de ficarem sozinhas, esta capacidade de se sentirem completamente sós. Se você não consegue ficar isolado, você estará sempre sozinho, e a minha preocupação é de que as crianças conectadas nunca têm aquela sensação de estarem bem consigo mesmas; converso com acadêmicos que cresceram com o hábito de estarem sempre em contato com seus pais, cinco, dez, quinze vezes por dia.”

A esperança que virou vilã?

(O vídeo acima, produzido por Shimi Cohen como projeto final na Universidade de Engenharia e Design Shenkar, em Israel, mostra vários conceitos de Alone Together em uma animação ágil e bem sucinta. Em inglês e, infelizmente, sem legendas.)

Em 1995, Sherry publicou outro livro chamado Life on Screen. Nele, a autora vislumbrava todo o potencial que a web com suas múltiplas possibilidades, em especial a de se reinventar enquanto ser, abria. O sentimento era o exato oposto do que dá o tom de Alone Together.

Quando surgiram em meados da década passada os primeiros esboços de uma coisa chamada Lifestreaming, lembro de também ter ficado empolgado. No caso, a ideia de Lifestreaming era documentar e publicizar a sua vida na Internet. O FriendFeed despontou nesse novo universo, depois foi comprado pelo Facebook que hoje, quer queira, quer não, é o mais próximo daquele ideal que se tem. E eu, já repensei mais de uma vez o meu posicionamento sobre Lifestreaming, tendendo atualmente para uma visão bem mais negativa do que aquela empolgação de anos atrás.

Passada a euforia inicial, é de se questionar até que ponto essa exposição é válida, é benéfica, da mesma forma que vale questionar até onde a Internet nos ajuda. Esse fascínio inicial com a tecnologia soa meio como início de namoro, desprovido de brigas, puro amor, só alegria. Não conhecemos os defeitos de quem está ao nosso lado; não conhecemos, ainda, a Internet.

Em pouco mais de dez anos, a rede se transformou a uma velocidade incrível. Hoje se fala muito em computação vestível, Google Glass, pulseiras que monitoram nossos passos, Internet das Coisas. A Internet é uma plataforma aberta a infinitas possibilidades; quebrá-la em partes e analisar o que importa no contexto é essencial à discussão. Sherry ataca redes sociais e o discurso de que elas aproximam e enriquecem o lado social das pessoas. É hora de pararmos para refletir se, na prática, esse discurso funciona.

Antes da TV, dizem por aí que as pessoas se reuniam nas ruas após o expediente para colocar o papo em dia, conversar, ver as crianças brincarem. Antes da Internet, a TV reunia as pessoas na sala de estar, criando um lugar comum para os membros de um domicílio. Como eram as conversas antes das redes sociais? Lutar contra essa mudança não me parece a melhor abordagem. Compreendê-la e usá-la da melhor forma, isso faz mais sentido.

Há muito, muito chão pela frente até que o acesso à Internet se estabeleça como algo tão trivial e, regra geral, inofensivo à psiquê humana como a certeza da energia elétrica, ou do saneamento básico. Em alguns países, como Estônia, França e Costa Rica, ela já é um direito humano básico — e a ONU recomenda que assim seja em todo lugar. Na medida em que esse acesso se dissemina e se universaliza, as urgências de certas situações, dentre elas as relações sociais empreendidas em ambientes online, se revelam com mais força. Novos problemas demandam novas abordagens, novas hipóteses.

Em um artigo da New Yorker que analisa alguns estudos sobre os efeitos psicológicos do Facebook, Maria Konnikova encerra suas reflexões dizendo que o Facebook não é o problema, é um sintoma. Tal ideia me parece mais acertada, ainda que careça de desdobramentos.

Também no campo das hipóteses, a ubiquidade talvez seja o caminho para que, como comenta Jonah Lehrer no New York Times, a Internet passe a ser encarada como “apenas uma ferramenta qualquer, um acessório que nos permita fazer o que sempre fizemos: interagir com os outros.” Talvez, mas reduzir a discussão a isso é simplificar demais o problema. Tanto que Sherry refuta de pronto, logo no início do livro, essa comparação da Internet a uma ferramenta.

Como disse Descartes, “O bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo: todos pensamos tê-lo”. Se fosse apenas uma questão de colocar a mão na consciência e usar o bom senso, essa medida moral que parece tão óbvia, onipresente, mas com acepções tão particulares na cabeça de cada um de nós, os problemas da humanidade deixariam de sê-los.

Leia Alone Together

(Palestra de Sherry Turkle, autora de Alone Together, no TED, uma boa introdução ao tema. Se preferir ver com legendas em português, no site oficial existe essa opção.)

Embora passível de críticas, e há muitas que confrontam as ideias apresentadas em Alone Together, o estudo de Sherry é válido. A robótica doméstica ainda está na sua infância, a Internet, mal chegou à adolescência. É preciso muito papo, muita discussão para que essas invenções, indubitavelmente incríveis para a humanidade, não sejam deturpadas e acabem por nos transformar em zumbis adoradores de tecnologia bitolados em telas brilhantes que se satisfazem com migalhas de atenção humana — ou, pior, de alguma inteligência artificial rasteira.

Por mais contraditório que pareça, Alone Together tem um título sublime, adequado ao conteúdo que traz e à discussão que suscita. A leitura fica um pouco maçante na metade da segunda parte, acredito que pela sua estrutura pautada por entrevistas, mas nada que o torne, em absoluto, uma obra ruim.

Ainda voltarei a alguns pontos que me chamaram a atenção no livro, como os robôs sociais e a avalanche de apps sociais que fogem da trinca Facebook-Twitter-Google+, em posts futuros. De qualquer forma, Alone Together é uma leitura agradável e para quem trabalha, se interessa ou está envolvido de alguma maneira com Internet e tecnologia, obrigatória.

Capa do livro Alone Together.

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Foto de capa: Aimee McFarlane/Flickr.


Agradecimentos ao Pedro Burgos, que leu uma versão preliminar deste artigo e deu valiosos apontamentos para enriquecer a discussão, e ao Prof. Fabio Viana pelas várias indicações de leitura e as belas sacadas sobre bom senso em um papo recente.

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