Black Mirror: discutindo o hoje com histórias sobre o amanhã

Abertura de Black Mirror.

Em um bom texto para o Guardian (onde assina uma coluna), Charlie Brooker comentou as motivações por trás da sua última série para a TV, Black Mirror. Ela estreou em 2012 na Inglaterra pelo Channel 4 com uma proposta ousada: apenas três episódios por temporada, todos independentes entre si, todos inquietantes. Histórias embaladas em futuros distópicos que, na verdade, tratam de problemas bem atuais.

Brooker parece ser um sujeito fantástico. Já havia topado com seu trabalho antes de Black Mirror, no caso, em outra série, Dead Set. O formato enxuto (uma temporada, cinco episódios) e o plot pouco usual são tentadores: Dead Set conta a história de participantes de um Big Brother-like que se veem isolados do mundo enquanto o apocalipse zumbi começa do lado de fora da casa. É inusitado e recomendado.

Mas o papo aqui é Black Mirror, cujo nome, segundo Brooker, “é aquele [espelho negro] que você encontra em toda parede, em cada mesa, na palma de todas as mãos: a tela fria e brilhante de uma TV, de um monitor, de um smartphone”. É uma série de contos fantásticos sobre os caminhos que a humanidade parece estar traçando.

Black Mirror fala do hoje com histórias do amanhã

Charlie Brooker, a mente por trás de Black Mirror.
Foto: BBC Comedia/Flickr.

Brooker relaciona sua série a The Twilight Zone (no Brasil, Além da Imaginação), uma dos anos 1950~1960 idealizada por Rod Serling. Vi alguns episódios e a semelhança é evidente, resguardada a ingenuidade, temática e técnica, de meados do século passado. Na época, para burlar a forte censura e o puritanismo dos anunciantes, Serling usava a ficção científica para tratar de temas então contemporâneos.

Esse artifício não é raro. Black Mirror também se aproveita dele para tocar fundo em problemas decorrentes da tecnologia de consumo.

“Se a tecnologia é uma droga — e ela se assemelha a uma droga –, então quais são, exatamente, seus efeitos colaterais? Essa área, entre o deleite e o desconforto, é onde Black Mirror, minha nova série dramática, está situada.”

A estrutura de Black Mirror é bem direta. Brooker diz que a decisão de tornar cada episódio independente tem um motivo: embora a censura da época de Serling não exista mais, as saídas para explorar o drama na TV diminuíram com o tempo. É por isso que ele compartimenta cada história em seu próprio universo, para quebrar essa familiaridade com personagens, cenários e situações tão comum nas séries atuais.

Cutucando-as, Brooker diz que “elas [as séries atuais] trazem os mesmos rostos da semana passada, as mesmas locações, com os mesmos infortúnios. Você sabe que vai curtir — porque você já viu isso antes. (…) [em Além da Imaginação] Toda semana você mergulhava em um mundo levemente diferente. Havia um tom, uma assinatura nas histórias, a mesma cobertura de chocolate — mas o recheio era sempre uma surpresa.”

O mesmo vale para Black Mirror. Depois de dois ou três episódios, a única certeza sobre os próximos é a de que eles baterão em cheio em algum dilema moderno levado a consequências extremas. Cada um deles funciona como um filme mais curto, de 40~50 minutos. Tanto é assim que Robert Downey Jr. comprou os direitos do terceiro episódio da primeira temporada, The Entire History of You, para transformá-lo em filme nos EUA.

Seis episódios, seis histórias

Todos os seis episódios são bem legais, mas alguns, dependendo da sua bagagem, chamam mais a atenção. Para mim, os melhores são Fifteen Million Merits (S01E02) e Be Right Back (S02E01). Abaixo, alguns comentários sobre eles. Não tem spoiler, mas a mera contextualização pode tirar um pouco da força das revelações e descobertas que, acho eu, fazem parte da experiência como um todo. Recomendo, pois, ler apenas depois de vê-los.

Os personagens principais do episódio Fifteen Million Merits, de Black Mirror.
Foto: Channel 4/Reprodução.

Fifteen Million Merits soa muito como uma história de Aldous Huxley modernizada. Nesse universo, pessoas de castas mais baixas trabalham pedalando em bicicletas ergométricas para gerar energia. Elas acumulam pontos, que podem ser trocados por brindes, em sua maioria virtuais — roupas, temas, programas de TV, pense em uma versão maior da loja de itens do Xbox 360. A grande chance de mudar de vida é indo a um show de calouros que todo mundo assiste, uma espécie de The Voice ou Ídolos mais escrachado. Os créditos também podem ser usados para ignorar anúncios, que aparecem a qualquer momento nos quartos das pessoas, nas TVs que ficam na frente das bicicletas, em quaisquer das várias telas que rodeiam as pessoas o tempo todo.

É tanta crítica a tanta coisa contemporânea que é impossível encarar a TV sem se sentir um tiquinho culpado. Eu não gosto de anúncios intrusivos e acho itens de personalização virtual uma enorme bobagem, só superada, talvez, por programas de calouros. Esse futuro, para mim, é um pesadelo :-)

Em Be Right Back, o marido de uma mulher morre e uma amiga lhe recomenda um software que analisa os resquícios deixados pelo defunto na Internet para criar uma inteligência artificial que se comporta como ele e se relaciona com a viúva. “Quando o bom o bastante se torna o melhor”, como alerta Sherry Turkle, é apenas o ponto de partida desse episódio.

The Entire History of You.
Foto: Channel 4/Reprodução.

Um dos que mais causaram rebuliço foi The Entire History of You (S01E03). Nessa realidade, smartphones foram substituídos, em onipresença e utilidade, por um mecanismo chamado Grão: ele é implantado atrás da orelha do usuário e passa a registrar ininterruptamente tudo o que acontece — seus olhos viram câmeras ligadas 24h por dia, sete dias por semana, e as imagens salvas podem ser vistas individualmente, numa espécie de transe individual, ou espelhadas em qualquer tela, para ser vistas por outras pessoas. Não tem como não lembrar de um Google Glass avançado, ou o 1 Second Everyday transformado em… sei lá, 24 Hours Everyday. O enredo explora bem todas as situações hiper dimensionadas que uma realidade assim desencadeia, mas foca no mais sublime dos sentimentos, no amor. Uma tônica, aliás, recorrente em Black Mirror.

Embora use como pano de fundo um dispositivo super avançado com um grau de presença impossível hoje, The Entire History of You maximiza o que muitos casais já sentem na pele em redes sociais, fuçando nos celulares um do outro, desconfiando. O ciúme caminha no mesmo ritmo que a tecnologia.

Apesar de à primeira vista todas as histórias serem distantes, a moral sempre recai em algo atual. Em The National Anthem (S01E01), talvez o mais pé no chão artisticamente falando, questiona-se a super exposição da mídia e das redes sociais em torno de uma situação muito, muito inusitada. Em White Bear (S02E02), vemos a espetaculização da crueldade. Em The Waldo Moment (S02E03), a insatisfação com as instituições, o depósito da esperança em um ícone escrachado e que só faz subverter o status quo.

Black Mirror é uma série ágil e avassaladora, joga um punhado de questionamentos sobre o que estamos fazendo com o tempo ganho com a automação industrial, com a tecnologia de ponta já disponível a muita gente o tempo todo e no que estamos priorizando quase que inconscientemente às custas de coisas das quais, totalmente sãos, jamais abriríamos mão.

(Abaixo, os dois comerciais das temporadas de Black Mirror.)

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8 comentários

  1. Passa 1 dia na roça, capinando e roçando para ver o que é futuro triste.
    Estão parecendo intectuais play boys reclamando da vida boa e intediante.

  2. Curti bastante a recomendação, deixei na minha lista do filmow pra vê-lo em algum momento! não pude deixar de dar um “sorrisinho de reconhecimento” (se é que essa expressão existe) com o lance de trocar pontos por outras coisas. lamentável não ter no netflix. Valeu pelo texto, meu caro.

      1. hahaha de fato, tem um tempinho xD. assisti tudo tem alguns meses pelo netflix mesmo, e gostei bastante! agora tô seca pra próxima temporada. mas valeu!

  3. Olá, Rodrigo. Acho que deve verificar a primeira linha do texto, aquela em destaque logo abaixo do título, acredito que tenha alguma palavra faltando, acho que a frase deveria ficar “…nos põe a pensar em muita coisa que [estamos] fazendo”. Ou não, pode ser que eu é que esteja errado.

    Sobre a série, eu já tinha assistido faz tempo, só o primeiro episódio, e achei aquela história muito estranha, aquela chantagem sendo feita ao Primeiro Ministro, e não gostei do tema, por isso conclui que não valia a pena assistir essa série. Mas agora, com a sua análise e o contexto que é aplicado à série, estou me arriscando a ver mais alguns episódios, e acho que vou gostar sim, e concordar com você no final.

    Ótima análise, gostei de conhecer, gostei da maneira diferente das séries britânicas, e já tinha experimentado assistir uma ótima série, que foi a “Luther”, também segue esse esquema de menos episódios, acho que são quatro por temporada, com duração maior que a de uma série americana comum, quase como se fosse um filme. Mas no caso dessa série, havia a continuidade.

    Bom trabalho.

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