O conto não é muito apreciado pelo mercado editorial. Há um estranho eco entre editores: “Conto não vende”. Entretanto, esta forma literária comumente desprezada vive um momento áureo. Evidências disso não faltam: em 2013, Lydia Davis, escritora norte-americana mais conhecida por seus textos curtos, venceu o tradicional Man Booker International Prize; em 2014, a contista canadense Alice Munro levou o Prêmio Nobel de Literatura. A popularidade se mostra também em número: a venda de contos no Reino Unido cresceu 35% em 2013, de acordo com a revista The Bookseller, publicação especializada no mercado literário da região. O Telegraph percebeu este cenário e publicou um artigo enfático: devido à brevidade da narrativa, o conto é perfeito para os leitores impacientes deste século.
Na mesma semana em que o artigo foi publicado, o Spritz voltou a ser pauta de alguns veículos. Trata-se um aplicativo que promete fazer uma revolução na forma de ler: ao contrário da forma “convencional” de leitura, em que olho percorre o texto, o Spritz permite que o globo ocular fique parado, enquanto até 700 palavras por minuto passam diante dele. A imprensa voltou a dar atenção ao aplicativo depois que a Samsung anunciou que ele viria pré-carregado no novo Galaxy S5: a Popular Mechanics entrevistou um especialista em cognição visual para saber o que era verdade e o que era balela; a FastCompany se sustentou em pesquisa acadêmica para demonstrar os riscos de leitores dinâmicos; Marcelo Coelho, na Folha de S.Paulo, se mostrou cético quanto à eficácia do aplicativo.
As duas notícias — sobre o momento do conto na literatura e sobre o Spritz — não se relacionam diretamente, mas ambas expõem o fato de que não temos paciência para a leitura.
Parte do problema é que, hoje, somos tão seduzidos pela distração que não conseguimos mais dissociá-la de uma atividade que demande concentração. Pois ler não é passar os olhos sobre palavras, mas sim o exercício de criar ligações cognitivas baseando-se nos signos. As palavras em si nada significam: elas ganham alma apenas quando nós conseguimos, a partir delas, criar mundos na mente.
Sobretudo na literatura.
É louvável o fato de, hoje, termos o conto devidamente apreciado — eu mesmo comecei a ler e escrever histórias por meio do conto —, mas qual o real valor disso, se apenas pela sua brevidade é que o consumimos? Significa que estamos perdendo o fôlego para apreciar romances extensos?
Talvez. Will Self, ao decretar a morte do romance no Guardian, justifica o óbito: “A marca da nossa cultura contemporânea é uma resistência ativa à dificuldade em todas as suas manifestações estéticas”, afirma. Ele tem razão quanto à “resistência ativa à dificuldade”, e um exemplo claro disso é o recente empenho conjunto (pois à escritora Patrícia Secco somou-se o governo, que permitiu o financiamento) de se simplificar clássicos da nossa literatura. Estava muito difícil ler Machado de Assis.
Tenho ressalvas quanto à morte do romance — é debate que se arrasta desde Júlio Verne, que instigou teorias literárias e que parece não ter fim —, pois acredito que ele há de sobreviver à crise da falta de atenção (ainda que, para isso, tenha de se ligar mais ao marketing que à arte, o que seria horrível).
O problema, contudo, não é a sobrevivência ou a extinção do romance, e sim a nossa atenção. A atenção desta geração que parece abraçar forte o déficit de atenção e a hiperatividade. Hoje, se você se dedicar a uma tarefa de cada vez, você é um estranho.
Sabemos que ler toma tempo. E tempo é algo que não temos. E não temos porque desperdiçamos mais e mais segundos com meras distrações. O ser humano é basicamente um ser de desperdícios. Temos interesse no acúmulo e queremos mais de tudo; mas, no final das contas, somos apenas um e não temos como consumir tudo. Queremos tudo porque somos finitos. As coisas não acabam; nós, sim. Mas esta é uma divagação para um possível romance — que você provavelmente não vai ler.
Nota do editor: O texto acima foi escrito pelo jornalista Rodolfo Viana em sua nova newsletter literária, a Revista Benedito. Toda segunda ele manda um e-mail com reflexões sobre livros e o mercado editorial. Este abaixo, da terceira edição, casa com algumas questões já levantadas no Manual e por isso achei válido republicá-lo aqui. Ao Rodolfo, reitero os parabéns pela iniciativa; a você, leitor, deixo o convite para assinar a Benedito — é de graça e é muito boa.
Se você torce o nariz quando ouve alguém dizer “note” para se referir a notebook, “feice” para o Facebook ou “whats” para o WhatsApp, não deve ser nada simpático ao inexplicável “zapzap” que também é usado por muita gente aqui no lugar desse último. Em breve, porém, o que até agora era uma mania boba pode se tornar a maneira certa de falar de um app. Não do WhatsApp, mas do nacional ZapZap.
Ele está no Google Play, tem versão web e o site oficial promete uma no iPhone para breve. O app, criado por Erick Costa, analista de sistemas e desenvolvedor SharePoint de 33 anos, usa o código do Telegram, um app parecido com o WhatsApp e cheio de boas intenções, para oferecer uma experiência com o tempero brasileiro.
Na vibe da Copa do Mundo, o ZapZap é ufanista: todo verde e amarelo, tem como imagem de fundo padrão o escudo da seleção canarinho penta campeã mundial, e traz como ícone dois balões de diálogo nas cores nacionais, com a bandeira do Brasil em um deles.
Tirando as mensagens do app em português e o (discutível) esquema de cores da interface, de resto ele é exatamente idêntico ao app oficial do Telegram:
ZapZap e Telegram, lado a lado.
Erick Costa, a mente por trás do ZapZap
Conversei brevemente com o Erick via Facebook para tirar algumas dúvidas sobre o ZapZap. Ele diz que o app foi fruto de muito estudo para recompilar o Telegram, e se autointitula como o primeiro brasileiro a alcançar o feito. Ao se deparar com o app pronto, escolheu ZapZap porque precisava de um nome “bem brasileiro”.
Erick conta ainda que durante o desenvolvimento do ZapZap fez algumas melhorias em relação ao Telegram original, quase todas focadas em desempenho — uma das bandeiras do app é ser “o mais rápido do mercado, leve e preparado até para as piores redes de acesso”. Usando os dois apps em paralelo não consegui identificar as alardeadas vantagens salvo a tradução, mas fica aí o registro.
ZapZap.
Com 63 mil downloads em um mês no Google Play, o ZapZap já tem uma base se não considerável, digna de nota. Quando perguntado se esse sucesso não teria sido fruto de usuários distraídos que procuram pelo WhatsApp original usando seu apelido genuinamente nacional, Erick foi bem pragmático na resposta: “Acredito que não exista engano. WhatsApp é uma coisa, ZapZap é outra”. Medo de Zuckerberg? Que nada:
“Se [o Facebook] fizer [alguma coisa] acho legal, assim meu aplicativo só ficará mais famoso. Mas ele não tem como, nem a marca dele ainda foi registrada.”
Uma chance ao Telegram
O Telegram ganhou certa notoriedade quando o WhatsApp foi comprado pelo Facebook. A ideia de que a privacidade no app de mensagens pudesse ficar comprometida sob a nova gerência deu início a uma busca por alternativas.
Com um protocolo seguro, foco em segurança e APIs e código aberto, o Telegram é quase um projeto beneficente dos irmãos milionários Nikolai e Pavel Durov, co-fundadores da VK, maior rede social da Rússia. A história e a missão do Telegram, bem contada neste post do The Verge, é inspiradora. Mas é aquela coisa: ela é solenemente ignorada quando seus amigos o chamam pelo WhatsApp para combinar o bar de sexta ou mandar vídeos e fotos bobos naqueles grupos que vivem no mudo. Migrar uma base gigante e engajada para um app similar, ainda que melhor, é bem difícil.
Nesse sentido o ZapZap pode servir de atalho para o Telegram ganhar presença no país, por mínima que seja. No estágio atual, com 60 mil downloads (quantos continuam usando o app após baixá-lo, ninguém sabe), não faz nem cócegas no WhatsApp, que alega ter 38 milhões de usuários no Brasil. Mas antes 60 mil do que nenhum, certo?
Erick diz não ter planos muito ambiciosos para o ZapZap, apenas continuar atualizando o app para a base já instalada (“virou mania e todo mundo está usando”) e os novos usuários que virão. Com estratégias meio estranhas, como pedir aos usuários para clicarem nos anúncios a fim de fazê-los sumir (?) e sorteios de SIM cards do TIM Beta na página oficial do Facebook, o ZapZap mostra muita brasilidade e malemolência (e um pouco de ingenuidade) até em sua divulgação. Não deve desbancar o WhatsApp, mas é mais um símbolo que corrobora a criatividade do brasileiro, esse cara surreal e divertido.
Nota do editor: há cerca de duas semanas notei um comportamento padrão: sempre que abria o Facebook para fazer alguma coisa pontual, como publicar um link na página do Manual do Usuário, perdia um tempão dando uma olhada no Feed de notícias. Resolvi, então, experimentar a extensão Kill News Feed, que elimina essa parte da rede social sem comprometer as demais. Estava planejando um texto sobre o assunto quando fui surpreendido por este, escrito pelo Fabio Bracht no Medium, que praticamente bate em tudo o que pretendia falar, das motivações aos resultados alcançados na prática.
Fiz um negócio esquisito: instalei uma extensão do Chrome para desativar o Feed de notícias do Facebook.
O Secret, um dos apps mais comentados dos EUA, finalmente liberou as amarras e expandiu-se para o mundo todo. Não só: no mesmo dia, também ganhou uma versão para Android. Desde que foi lançado ele já funcionou como gatilho de polêmicas, furos e barrigadas, sem falar na fofoca pura e deslavada que não acrescenta nada a ninguém, salvo humilhação e danos psicológicos. Essa história se repetirá no Brasil?
Mais um de uma lista crescente de apps anônimos, o Secret é como o Twitter, só que sem assinatura nos posts. Basta abri-lo, escrever uma mensagem, selecionar um fundo (opcional) e publicar. Seus amigos do Facebook saberão que alguém do círculo mandou a mensagem, mas não quem. Se repercute bastante, ela quebra a barreira dos amigos e chega a estranhos, apenas identificada pela cidade, estado ou país onde foi publicada.
Apenas mais um segredo compartilhado no Secret.
A mesma lógica é seguida por outros, como o WUT. Outra linha desses apps vai além: não pede informação alguma e se baseia em um cadastro, ou nem isso, para liberar o acesso, usando a localização dos usuários para destacar mensagens, casos do Whisper, Yik Yak e FireChat. Em comum, o estímulo à divulgação de fatos e opiniões que, não fosse o anonimato, jamais se tornariam públicos.
Alexis Ohanian, uma das investidoras do Secret, defende o lado terapêutico da experiência: “apps como o Secret viram saídas para as pessoas falarem honestamente sobre coisas que, de outra forma, resultariam em danos à carreira”. Esse uso é de fato recorrente lá — neste momento, por exemplo, a última atualização diz “Eu quero fugir e entrar no circo, mas aos 30, temo estar velho. Ainda tenho muito a aprender”. Só que entre desabafos sinceros, alguns comoventes, nada garante que não aparecerão fofocas perigosas ou maldosas.
A saída de Vic Gundotra do Google, muito antes de ser anunciada pelo próprio, vazou no Secret. Antes disso, uma brincadeira tola virou uma bola de neve: alguém entediado publicou que a Apple estaria desenvolvendo uma versão biométrica do EarPods, seus fones de ouvido. Parte da imprensa comprou o rumor e ele se alastrou rapidamente.
Esse burburinho no Vale do Silício gera consequências, mas é em círculos reduzidos, em pequenas comunidades ao redor do mundo, que os app anônimos têm o potencial de causar mais estragos, com marcas mais profundas e mais duradouras em pessoas comuns, como eu e você.
Da esquerda para a direita: WUT, Whisper e FireChat.
Will Haskell relatou na The Cut a devastação que o Yik Yak, outro app de mensagens anônimas locais, causou em sua escola: “Quando você assiste a um filme bobo sobre adolescentes no ensino médio, faz uma careta para a clássica cena em que os corredores estão cheios de estudantes, todos sussurrando as mesmas fofocas. Foi exatamente o que aconteceu na tarde de quinta na [escola] Staples.” Meninas e meninos chorando pelos corredores, chamando por suas mães, mudando de escola foram vistos naquela quinta. Nem o diretor, que já havia lidado com outros casos (sexting via Snapchat e bullying no Facebook), conseguiu conter a situação.
O anonimato enche as pessoas de coragem e, em certa medida, libera os grilhões do comedimento. A sensação de impunidade tem esse efeito colateral, e… bem, na real? O que temos testemunhado é que nem é preciso esconder o nome para que as pessoas revelem suas facetas sombrias. Basta ver as atrocidades que muita gente publica no Facebook. Se nem a cara, o nome completo, o local de trabalho e os amigos do cidadão assistindo ao espetáculo são capazes de frear comportamentos absolutamente reprováveis, o que esperar de apps como o Secret?
Se ele pegar por aqui, em breve descobriremos. Não é o primeiro do gênero; WUT e Whisper estão disponíveis faz tempo, mas até onde se sabe não ganharam tração. O Secret, pela fama que fez rapidamente nos EUA e sua dinâmica, parece ter algo diferente, único. Nessa primeira noite disponível por aqui, já foi possível perceber uma movimentação local.
Imagine o estrago quando uma fofoca polêmica estourar lá dentro, talvez uma relacionada à política, e envolverem a justiça no rolo, artigo 5º da Constituição, essa coisa toda.
Marco Civil, prepare-se: você está prestes a mostrar a que veio.
No começo do mês o Foursquare prometeu algo ousado: dividir seu app em dois. O original seria destinado a recomendar locais e dar dicas de estabelecimentos, uma parte que bem depois do lançamento do app se tornou prioridade para os desenvolvedores. Outro, inédito, receberia o que tornou o Foursquare conhecido, os check-ins e encontros com amigos. Ontem o Swarm, nome desse novo app, foi lançado, e outra divisão pode ser observada — desta vez, na recepção do público.
O Swarm está disponível para Android e iPhone, e é um trabalho bem feito, como tudo que tem saído do Foursquare nos últimos anos. Rápido, bonito, bem resolvido, ele pega todo o sistema de interação em tempo real do antigo e faz uma espécie de otimização seguindo dois princípios: 1) diminuir a fricção no uso do app; e 2) propiciar mais encontros em carne e osso entre seus usuários.
O e-mail de boas vindas do Swarm resume bem o que o que dá para fazer com o app. São três ações:
Quer se encontrar com amigos? Abra o app e veja quem está por perto.
Quer compartilhar o que está fazendo? O check-in nunca foi tão rápido e divertido.
Teve uma ideia de algo legal para fazer? Mande uma mensagem rapidamente para todos os seus amigos próximos.
Basicamente, é isso. Vejamos agora, pois, os pormenores dessa experiência e, principalmente, do que ficou de fora dela.
Adeus, check-in
Tela inicial.
A interface do Swarm se divide em quatro áreas. Na primeira, os amigos são listados de acordo com sua posição em relação ao smartphone. Há quatro raios, que vão de 150 metros até “a uma distância muito grande”, gente de outras cidades. De cara o Swarm dá uma visão geral de onde seus amigos estão, mesmo que eles não tenham feito check-in.
Nesse contexto, o check-in como conhecíamos no Foursquare se tornou secundário e, em certa medida, desnecessário. O app tem a tecnologia e os smartphones modernos, os recursos para que a localização dos usuários seja “adivinhada” com precisão. Na prática, não é preciso sequer tirar o smartphone do bolso para que seus amigos saibam onde você está; o app sabe e se atualiza, ininterruptamente, em tempo real. Ao The Verge, o CEO Dennis Crowley foi direto:
“Veja bem, a razão da empresa, essa coisa toda, nunca foi construir um botão de check-in incrível.”
O check-in é apenas mais um sinal entre os vários que formam e explicam a base de estabelecimentos (ou venues) do Foursquare. Na época, foi necessário ante a rudimentaridade dos smartphones e APIs dos sistemas móveis.
Nada impede que você toque no botão de check-in e faça-o manualmente no Swarm, como era no antigo Foursquare. Ele continua existindo e é uma boa para quando se deseja informar exatamente o local da festa.
Mas não precisa, de verdade.
Soa invasiva essa estratégia, mas calma. Um dos problemas do Foursquare é, paradoxalmente, uma das suas vantagens: há pouca gente usando o serviço. No Brasil, a estratégia da TIM com o TIM Beta deu uma força, ainda que a maior parte do povo que se cadastrou no Foursquare para ganhar pontos (ou seja lá o que se ganhava naquilo) não use o serviço regularmente e, pior, saia adicionando desconhecidos num ritmo alucinado e sem qualquer critério.
Este GIF ilustra bem.
De qualquer forma, essa restrição permite que se crie uma lista de amigos mais íntimos. Recusar um convite ou dar unfriend são atos menos solenes aqui, e nessa o perigo de ir a um bar e aquele cara que fazia bullying contigo na escola e te adicionou ano passado no Facebook aparecer do nada, diminui bastante. Lidar com essa multiplicidade de gente é um dos grandes desafios do Facebook que, aliás, recentemente liberou uma função parecida com o Swarm.
Além dessa vantagem (discutível, mas vá lá, ainda é uma vantagem), existe uma “chave geral” na barra do topo, o compartilhamento do bairro. Arrastando-a para a direita, ela fica laranja (ativada) ou cinza. É esse interruptor que denuncia sua posição. Se você estiver em um jantar a dois e não quiser ser importunado pelo seu amigo Stifler, basta desativar o Swarm e sua carinha sumirá do radar. Simples e eficiente.
Chamando os amigos para o rolê pelo Swarm
Das outras três áreas, duas são conhecidas: notificações e um listão em ordem cronológica inversa dos check-ins dos seus amigos. A terceira, chamada Planos pela vizinhança, é nova. E promissora.
O plano de John.
Ainda bastante precária, ela permite chamar a galera para fazer alguma coisa. É como um evento no Facebook, só que descomplicado. Na verdade, descomplicado demais: a brincadeira consiste em deixar uma frase explicando o que e onde será o encontro. Isso dá margem para usos inusitados, do tipo “vou comprar sapato na loja ‘X’, alguém me ajuda?”, ou triviais, como “vamos no bar?”. Quem topar, clica em um botão confirmando o interesse e pode deixar um comentário. Tudo bem “aberto”, como se fosse uma obra de arte na visão do Umberto Eco.
O Swarm ainda é “8 ou 80” nessa questão das amizades. Não dá para criar um plano e segmentar os convidados, todo mundo fica sabendo de tudo. E… bem, a gente sabe que na vida não é assim, que temos diversos círculos de amizades e que sermos o laço que os une não significa que todo mundo se dará bem com todo mundo.
Modificar esse comportamento acrescentaria camadas extras de complexidade, e no momento isso parece ir contra os anseios do Foursquare, em especial contra o intuito de diminuir a fricção no uso do serviço. Talvez mude no futuro, mas só vislumbro essa movimentação se o Swarm cair no gosto do público mais mainstream. Será só assim, também, que a função de planos terá alguma utilidade. No papel, pelo menos, reforço: ela é bem promissora.
Cadê minhas medalhas? E minhas prefeituras?
Não é de hoje que o Foursquare busca se desvencilhar do check-in e, modo geral, do aspecto de gamificação. Aspecto que, para alguns, é a melhor parte da brincadeira. Medalhas, pontos, competição, prefeituras incentivam o uso do app nesse meio.
Tudo isso sumiu no Swarm*. A digestão dessa novidade depende de como você encara o Foursquare. Para mim, não faz muita falta; para Rafael Silva, 26 anos, colunista de tecnologia da Oi FM, sim:
“Eu não curti muito não [o fim da gamificação]. Queria mais badges e continuar no ranking de pontos e tal. Isso me motivava mais a dar check-in, ter uma disputa com meus amigos para ver quem ficava no topo. Agora não tem mais, perdeu parte da graça pra mim.”
* As prefeituras, na verdade, continuam existindo. A diferença é que agora elas não são centralizadas e cada círculo de amigos terá uma. Explicações mais detalhadas aqui.
Conversei com o Rafa, usuário bastante ativo do Foursquare há um bom tempo, sobre o novo app Swarm. Além da insatisfação com o fim dos badges e prefeituras, ele também citou o comportamento estranho do Foursquare, atualizado um dia antes para “receber” o Swarm. Ainda se faz check-in por lá, mas sua sua interface foi bastante simplificada. Pelas declarações dadas ao The Verge, é uma situação temporária enquanto o reformulado Foursquare, com foco em recomendações e dicas, não chega.
Check-in tradicional.
Meia década depois do seu laçamento, o conceito do check-in não vingou. Pior: passou de necessidade a um estorvo. Ele só é popular entre o pessoal da tecnologia e comunicação. Junto ao público menos aberto à premissa do app, parte majoritária, é uma dinâmica que soa quase anormal. “Por que você fica falando pra todo mundo onde está?”, e “Nem chegou e já vai fazer check-in!?” são comentários que ouço com frequência. Dá para entender a cara de interrogação que as pessoas fazem.
Para ser popular e fazer dinheiro com isso, um app ou serviço precisa demonstrar valor e ter uma base generosa de usuários. Na estratégia do Foursquare, é mais fácil alcançar esse estágio com recomendações de locais e dicas do que com um joguinho simples e pouco estimulante. Qualquer um que já recorreu ao serviço para encontrar um restaurante maneiro em uma cidade estranha, ou até mesmo onde mora, sabe que essa parte funciona muito bem.
Sendo assim, por que não focar nela? Para conseguir esse foco era preciso tirar o botão de check-in do centro da experiência do Foursquare — ele intimida, respinga em toda a experiência de uso e acrescenta complexidade à toa. Rachar o app em dois foi, portanto, a saída eleita — e uma das mais espertas. Felipe Cepriano, 23 anos, analista de software na IBM, usa o Foursquare desde 2009, acumula mais de 2200 check-ins e também acha que a divisão em dois apps é uma boa:
“Por um lado eu acho meio chato, precisar de dois apps pra fazer algo
que antes ficava em um só. Mas não vejo muito como implementariam
recursos novos, como os Planos, sem poluir a interface do Foursquare.
Separando o lado social do lado “discovery”, fica mais fácil. E tem
muita gente que gosta de conhecer lugares mas fica intimidada pela
interface do Foursquare: Uma conta nova mostra só uma timeline vazia,
e pouco fala de lugares novos pra descobrir.”
O Swarm aproveita muito bem o poder dos smartphones modernos para brincar com ideias de context awareness: em vez de puxar o smartphone do bolso, ele chama a nossa atenção quando é conveniente ou necessário. É a premissa básica de sistemas super especializados, como relógios inteligentes, mas que se adequa bem em equipamentos mais mundanos, mais estabelecidos, como nossos smartphones.
Pena que, como quase tudo que é social na Internet, o bom proveito do Swarm dependa da adoção pelos nossos amigos. É nessas horas que a lamúria do Fabio, abaixo, se estende a todos que, pelo mesmo motivo ou outro, quase sempre vê bolas de feno rolando na tela de notificações do Foursquare/Swarm:
@ghedin Minha crítica negativa: NÃO MORO MAIS EM EM CIDADE GRANDE :(
Em fábricas e escritórios não é exatamente raro nos depararmos com trabalhadores que, além do uniforme e acessórios necessários para o desempenho de suas funções, contam com um adereço extra: fones de ouvido. A música, companheira de festas, romances, do dia a dia, também se faz presente no ambiente de trabalho. Mas até que ponto ela é útil, e quando começa a atrapalhar?
Na Quartz, Adam Pasick escreveu um texto intitulado “O guia completo para ouvir música no trabalho”. Amparado por estudos científicos, em especial este de 1972, as conclusões a que ele chegou variam de acordo com a função desempenhada. Músicas agitadas, por exemplo, podem dar um impulso em produtividade àqueles que cumprem jornadas mais mecânicas, realizando tarefas repetitivas que, embora demandem foco, não pedem muito da nossa capacidade cognitiva.
Já em atividades contrárias, ou seja, aquelas que exigem mais cérebro do que músculos, músicas agitadas ou com letras atrapalham. Ao ouvir uma música, qualquer que seja, ela demanda parte da cota finita de atenção de que nosso cérebro dispõe:
“Não se engane: ouvir música significa que você está em modo multitarefa. Quaisquer recursos cognitivos usados pelo seu cérebro — para entender uma letra, processar emoções desencadeadas por uma música ou lembrar onde você estava quando a ouviu pela primeira vez — ficarão indisponíveis para ajudá-lo no trabalho.”
Para alguns, como eu, o ideal é deixar todo o cérebro a postos para o que estiver fazendo. Dou o meu melhor no silêncio, e isso vale para além das músicas — os sons ambiente também devem ser preferencialmente mínimos. O mesmo se aplica a leituras, e quanto mais complexo o assunto, mais o silêncio é bem-vindo.
Infelizmente, nem sempre o silêncio proporciona a animação para uma tarefa que exija muito da minha capacidade cognitiva. É aí que entram as sugestões da Quartz: atentando a alguns detalhes, é possível obter os benefícios musicais dos trabalhadores “braçais” em atividades mais… digamos… paradas.
Na hora de montar sua playlist para essa finalidade, as principais dicas são:
Ouça apenas músicas instrumentais. O cérebro tem áreas dedicadas para várias funções e, na hora de escrever ou pensar em palavras (ler, inclusive), o ideal é concentrar todos os recursos que temos para esse fim na atividade em curso. Músicas com letras, nesse contexto, apenas atrapalham. Exceção à regra: letras em idiomas que você não conhece são permitidas.
Prefira músicas que tenham um ritmo bem marcado e constante. Nosso cérebro está sempre tentando adivinhar o que vem a seguir. Ao ouvir uma música muito elaborada, com mudanças brutas, picos intervalados e arranjos diversos, parte da nossa concentração, ainda que inconscientemente, se dedica à tentativa de “decifrá-la”.
Os melhores gêneros, segundo aquele post, são jazz, música clássica, e minimalista. Trilhas sonoras de filmes e jogos também são, em geral, recomendadas. Ao final, há uma playlist com indicações do autor. Se quiser arriscar, ela está no Rdio e Spotify.
Sai a música, entram os barulhos. Mudam os resultados?
Minha qualidade de vida melhorou significativamente quando descobri o ruído branco. No contexto em que o abordo aqui, refiro-me a barulhos do ambiente capazes de anular outros indesejados.
Na física, engenharia e matemática o termo tem significado diverso, mais complexo, como muitos comentaristas apontam nesta matéria da Scientific American. O uso dele, aqui, diverge do científico, mas para fins didáticos se aplica. Pense, pois, no barulho da TV fora do ar, ou no que o ventilador faz quando ler “ruído branco” nesta matéria.
Por ter o sono leve, barulhos externos, como vizinhos conversando, música no bar da esquina e outros atrapalham meu sono. Ao ligar o ventilador contra a parede, o barulho das pás se sobrepõe aos demais e sua constância rapidamente é assimilada pelos meus ouvidos. Resultado: uma noite bem dormida.
O mesmo benefício se aplica ao trabalho? Aqui o terreno se torna mais acidentado. Existem estudos que suportam os dois lados, mas analisando-os melhor, como fez o pessoal deste tópico no StackExchange, as conclusões mais uma vez variam. Resumindo:
“O ruído branco melhora o desempenho na medida em que mascara ruídos que geram agitação ou que tiram o foco da tarefa em curso sem causar agitação por si mesmo. Falando de forma prática, se você estiver em um ambiente silencioso, o ruído branco provavelmente não terá um efeito positivo na sua concentração. Se estiver em um lugar mais ou menos ruidoso, ele provavelmente terá um efeito positivo. Entretanto, em um ambiente muito barulhento ele não terá efeito algum ou, se sim, um negativo.”
(A resposta mais votada do tópico mencionado acima traz diversas referências científicas embasando a conclusão do autor.)
Novamente me usando de exemplo, comigo o ruído branco para produção nunca funcionou bem. O silêncio é preferível e, quando tenho tarefas menos cognitivas, como lançar gastos no controle financeiro ou lavar a louça, geralmente coloco uma música qualquer para tocar.
O que eu testei e, em certa medida, gostei, foi de “simuladores” de sons ambiente. O Coffitivity é um app/site que reproduz o burburinho típico de locais como cafeterias e bibliotecas de universidade. Os criadores defendem a ideia com um estudo científico recente que diz provar que esses ruídos, dentro de níveis aceitáveis, dão um impulso na concentração. A parte do “dentro de níveis aceitáveis” tem um papel importante aí — em torno de 70 decibéis.
Ok, já sabemos que barulheira não ajuda, mas por que o outro extremo, o silêncio, é ruim? Em entrevista ao New York Times, o professor assistente Ravi Mehta, da Universidade de Illinois, que liderou o estudo que embasa o Coffitivity, explica que o silêncio absoluto leva a níveis altos de concentração, e que isso atrapalha o pensamento abstrato:
“É por isso que quando você está muito focado em um problema e não consegue resolvê-lo, deixa-o de lado por algum tempo e, quando volta, encontra a solução. [O ruído moderado] ajuda a pensar fora da caixa.”
Ele também faz uma ressalva: o barulhinho de fundo ajuda principalmente em tarefas criativas. Outras que demandam concentração absoluta, como a revisão de textos ou trabalhos envolvendo números, são melhores executadas no silêncio.
O que for melhor para você
São muitas variáveis a serem consideradas na hora de escolher a companhia auditiva para o trabalho: o tipo de função desempenhada, algumas predisposições pessoais, o humor do momento. Talvez fosse o caso de experimentar e ver o que te faz melhor, mas é difícil mensurar os resultados objetivamente. Neste paper de 1989, por exemplo, foi constatado que às vezes a gente se engana e aprecia a música no trabalho mesmo quando ela diminui a produtividade.
Uma mistura, em consonância com a variação de humor e natureza do trabalho, aponta para uma boa saída. Identificar os momentos onde um tipo de música ou barulho afeta positivamente nosso ânimo é o tipo de conhecimento que, mesmo sem perceber, pode acabar nos ajudando a trabalhar melhor. O problema é que, mesmo querendo, é bem difícil perceber quando e que tipo de som nos é benéfico. Argumentos pró e contra todo tipo de música existem aos montes (vários aí em cima, inclusive).
Como você usa a música, ou não, para fazer seu trabalho melhor?
Em meados dos anos 2000, quando câmeras digitais compactas ainda eram maioria e estávamos limitados às 12 fotos que o Orkut permitia enviar, a fotografia digital encontrava nos fotologs o caminho mais fácil para chegar à Internet.
Era uma época mais ingênua, com fotos mais granuladas e resoluções menores. O local onde a maioria que gostava de tirar e publicar fotos era o Fotolog.net, mas outros, como Vibeflog e Flogão, corriam por fora e conquistavam adeptos. Além da publicidade, esses serviços ofereciam planos pagos com vantagens, como maior número de comentários, personalização e música de fundo. Eram, pois, modelos sustentáveis, mas que não resistiram ao atropelo de redes sociais maiores, como o próprio Orkut, depois que relaxou o limite de fotos, e o Facebook, que terminou o que a rede social do Google havia começado e praticamente monopolizou a publicação online de fotos de nós mesmos e de amigos.
Hoje os flogs só são lembrados em duas situações. Quando não em sessões nostálgicas de quem viveu seu auge, é por jornalistas que encontram pérolas arqueológicas de astros recém-saídos da adolescência — Ganso e Leandro Damião, para ficarmos só no esporte, que o digam. Mas os flogs não são só isso. Sem muita invencionice, parados no tempo, eles seguiram em frente, e um desses serviços, o Flogão, acabou evoluindo para algo meio difícil de entender: virou o ponto de encontro de jovens que idolatram caminhões.
Flogão dos caminhões
Descobri esse “pivot” do Flogão durante a gravação do Radiolink, um projeto de extensão do curso de Comunicação e Multimeios da UEM. Um dos temas daquele programa foi flogs, e em meio a muitas histórias do passado despontou essa curiosa roupagem moderna do Flogão: ele foi invadido por caminhões, que aparecem no bloco dos VIPs (contas pagas), entre os flogões mais populares, são os mais comentados… A página inicial do Flogão de 2014 está dominada por caminhões.
Intrigado, resolvi investigar como o Flogão passou de selfies e fotos de gente para veículos de grande porte.
Para entender essa mudança tão grande no público-alvo, inicialmente procurei os responsáveis por ela: os flogueiros, como eles se chamam.
Logo de cara, Luiz, 15 anos, de Cascavel-PR, revelou o mistério: a maioria dos flogueiros é formada por filhos de caminhoneiros, jovens que, como ele, adoram a profissão, ainda não têm idade para dirigir e curtem muito um “caminhão mais arrumado, com frente rebaixada, traseira levantada, um tanque bem polido… sabe? Caminhão levado no capricho”.
Luiz mantém, com dois amigos, o Conexão 277, um Flogão VIP (pago). Além do tema pouco usual, a escolha do Flogão com tantas outras opções gratuitas disponíveis, como Instagram, Flickr e Facebook, era outra dúvida grande. Sendo um membro mais recente dessa onda de flogueiros de caminhões, Luiz apenas seguiu o fluxo. “[Escolhi o Flogão] porque já nas antigas existiam Flogões de caminhões”. Ele começou em 2012, mas diz que em 2008 já havia Flogões do gênero. Estar entre seus pares é uma vantagem importante para ele, pois facilita encontrar e ser encontrado por outros jovens que curtem caminhões.
Imagem: Conexão 277.
Apesar da opção pelo Flogão, ele reclama um pouco do descaso. Vez ou outra o sistema “buga” e bagunça as estatísticas, ou rejeita fotos. Outra crítica recai em Flogões que, aproveitando-se desses bugs, trapaceiam e inflam artificialmente as estatísticas. Não existe sistema perfeito.
A arte de tirar fotos de caminhões
Danillo Araújo, 17, de Luziânia-GO, é outro apaixonado por caminhões que mantém um Flogão, o Elite Goiana. Ele também entrou nessa recentemente, no final de 2012, e assim como o Luiz escolheu o Flogão pelo público que já estava lá: “Acho que não teria tanto público nesses sites [Flickr, Instagram], já que 80% do Flogão é destinado a caminhões. Ele se tornou muito conhecido, então quem quer ver fotos [de caminhão], vai diretamente aos Flogões”.
Os dois contaram como é o processo de tirar fotos. Em ambos os casos, os meninos vão a um posto de combustível e ficam esperando pelos caminhões mais bacanas (“aqueles que têm acessórios e andam sempre limpos”, conta Danillo). Tiram fotos e, quase sempre, recebem um retorno dos caminhoneiros.
A prática é nacional, então vários motoristas já sacaram os flogueiros e mantêm uma relação amistosa com eles, param para conversar, se interessam e querem saber mais sobre o assunto. Uns poucos torcem o nariz e ficam até bravos com o pessoal dos Flogões, mas a maioria dos menos amistosos são apenas precavidos. Perguntam para que são as fotos, desconfiam das respostas que recebem… Uns acabam convencidos das boas intenções dos flogueiros, mas sempre tem aquele que acha ruim, independentemente das explicações, ter o seu caminhão fotografado por adolescentes.
Vez ou outra a polícia interfere. Meio sem entender, apenas mandam os meninos para casa. Luiz conta de uma situação em Toledo, cidade próxima a Cascavel, também no Paraná. Um grupo de flogueiros menores de idade foi abordado pela polícia, que os mandou para casa sob a ameaça de, em caso de reincidência, serem encaminhados ao conselho tutelar.
Parece exagero, mas uns poucos flogueiros tornam o receio válido. Luiz conta que costuma ficar com seus amigos na sombra de alguma árvore, esperando os caminhões passar e sempre tirando fotos fora da pista, em locais seguros. Nem todos têm essa prudência: “tem piá que não, que faz por merecer, se joga no meio da pista pra tirar foto, deita no chão… bobeira, sabe? Outros se jogam no meio da pista e balançam as mãos para os motoristas darem ‘quebras de asa’, sabe?”
Não, não sei. O que é quebra de asa?
O perigo da quebra de asa — e da superficialidade da mídia
Ano passado o Fantástico, da Rede Globo, veiculou uma matéria que alertava sobre a “quebra de asa”, manobra em que o motorista joga a carroceria do caminhão para o lado, fazendo uma espécie de zigue-zague na pista. Pouco tempo depois a RPC, afiliada paranaense da Rede Globo, exibiu outra reportagem mostrando (mas não identificando) flogueiros que pedem aos motoristas para que façam a manobra a fim de tirarem fotos.
A matéria não foi muito longe e ignorou completamente a motivação dos que ficam na beira das rodovias pedindo pela perigosa manobra. Eles existem, mas são, segundo Luiz e Danillo, exceções que mancham a reputação dos flogueiros. Luiz me disse:
“Na maioria das vez os próprios flogueiros pedem para eles fazerem isso. Nós não achamos legal; além de danificar o caminhão, [a quebra de asa] oferece grandes riscos. (…) É revoltante. Por causa de alguns bestas, todos os outros ficam mal vistos.”
O YouTube está repleto de vídeos de quebra de asa, vários feitos por flogueiros, alguns assustadores, como este. Infelizmente, uma prática sadia e que valoriza o caminhoneiro, profissional muitas vezes esquecido ou ignorado, é deixada em segundo plano por causa de uns poucos inconsequentes que extrapolam a segurança e buscam esse tipo de emoção pra lá de questionável.
Um dos rapazes que procurei para conversar, aliás, cancelou a entrevista temendo represálias no trabalho. Por e-mail, disse que “os ‘flogueiros’, como somos chamados, estão sendo vistos de uma forma negativa conforme esta passando na televisão, sendo que nem todos ficam no acostamento se arriscando para conseguir filmar uma quebrada de asa”. Afinal, é mais fácil ser sensacionalista.
E o Flogão?
Imagem: Flogão.
Pelo que apurei dessas conversas, o Flogão virou o que é hoje meio que por acaso, pelo comportamento de manada dos flogueiros mais novos. Alguém começou a subir fotos de caminhões lá atrás e depois dele, outros seguiram o exemplo.
O abandono do serviço é evidente. Além dos problemas técnicos relatados pelo Luiz, o layout não muda há anos e as estatísticas de visitação dos flogões mais populares dão uma pequena dimensão do quão baixo é o alcance obtido hoje.
Tentei conversar com alguns profissionais que estavam no Flogão entre 2007 e 2008, sem sucesso. O máximo que descobri foi uma negociação, posteriormente revertida, que levou o Flogão ao Power.com, uma startup brasileira que tinha por objetivo concentrar diversas redes sociais em uma interface centralizada. O Power.com chegou a aparecer no TechCrunch e fez barulho na época. Um ano depois, em 2009, arranjou briga com o Facebook acerca da portabilidade de dados e, em 2011, fechou as portas. No tempo em que esteve lá, houve uma profunda reformulação no código do Flogão e tentativas fracassadas de expandi-lo.
Desde que voltou a ser independente, o Flogão não viu melhorias em seu sistema ou na oferta de recursos. Entrar no site em 2014 é como voltar ao passado, com a diferença de que no lugar de pessoas existem caminhões adornando os endereços mais badalados.
Da mesma forma que o Flickr passou de um jogo online para uma rede social de fotos e que o Twitter absorveu replies e retuítes, recursos que surgiram organicamente entre os usuários do serviço, o Flogão passou por uma mudança que veio de fora para dentro, um acidente de percurso que talvez seja o único responsável por mantê-lo no ar até hoje.
Com Facebook, WhatsApp e Instagram processando bilhões de fotos diariamente, sobra pouco espaço para redes estagnadas e notoriamente menos dinâmicas, como os fotologs de dez anos atrás. O nicho caminhoneiro criou um ambiente diferente de qualquer coisa na Internet, um lugar fascinante, escondido nas ruínas do que era, há pouco tempo, um lugar bem popular na Internet.
Os rumores que antecederam o lançamento do iPad, em 2010, traziam de carona comentários bem céticos. Muitos chamavam o tablet, sem conhecê-lo, de “iPodão”, e questionavam por que alguém iria querer um iPod gigante ou mesmo como ele se encaixaria na vida de alguém que já tivesse um smartphone e um notebook.
O iPad surgiu e, dos detratores, poucos sobraram. Muita gente reviu suas conclusões prematuras e, mesmo sem conseguir chegar a motivos racionais, enxergou o valor intrínseco do tablet. É difícil mesmo explicar a utilidade de um tablet, mas ela existe e qualquer pessoa que já correu os dedos por uma tela com quase o dobro do tamanho da de um phablet sabe que aquilo ali é, no mínimo, diferente.
Passados quatro anos da apresentação do tablet moderno, o segmento dá os primeiros sinais de desaceleração. Entre entusiastas, onde o conceito já se firmou, muitos que aderiram ao equipamento começam questioná-lo. No mainstream, ainda falta informação; aquelas mesmas dúvidas pré-lançamento do iPad não foram totalmente sanadas, ou de forma clara, para todos.
Afinal, tablet é apenas uma paixonite temporária, ou é amor para a vida toda?
Uma pesquisa da Kantar Worldpanel ComTech conduzida com norte-americanos no último trimestre de 2013 constatou que 53% dos entrevistados não pretende adquirir um tablet nos próximos 12 meses e que 34% não tem certeza se o fará. Matemática básica, do total apenas 13% afirmam estar em seus planos a compra ou troca de um tablet em 2014.
Os números, obtidos no maior mercado de tecnologia de consumo do mundo, chamam a atenção. Os oficiais das empresas, embora não pintem um cenário ruim, também dão sinais de que o ritmo diminuiu. No último trimestre fiscal do ano passado a Apple vendeu 14,1 milhões de unidades do iPad, número ligeiramente superior ao mesmo período de 2012 mesmo com a linha revigorada com o iPad Air e iPad mini com tela Retina reforçando o time. A Samsung não revelou números exatos, mas disse, em seu relatório do mesmo trimestre (PDF), ter observado um aumento nas vendas das suas linhas Tab e Note em decorrência do Natal, e que pretende “(…) intensificar a competitividade dos preços” no primeiro trimestre de 2014. Preço, como veremos a seguir, é um fator-chave no momento.
Não são dados alarmantes, mas que se distanciam das altas expectativas, quase sempre alcançadas na prática, de anos anteriores. Traçando um paralelo com smartphones, essa possibilidade de estagnação despontou bem mais cedo nos tablets.
O que um tablet faz?
A mesma pesquisa mostrou também que é preciso explicar melhor ao consumidor sem perspectivas de aquisição para que serve um tablet. Embora apenas 4% dos consultados não tenham ideia do que é esse dispositivo, 67% entre os que não têm planos de adquirir um no próximo ano reconheceu saber pouco sobre ele — e isso inclui, claro, desconhecimento sobre o que ganhariam levando um para casa.
Os departamentos de marketing tentam explicar, com comerciais tanto práticos quanto lúdicos, esses casos de uso. Não é uma tarefa fácil, já que um tablet depende de vários fatores (apps, rotina do usuário, configuração familiar) e pode ser um punhado de coisas para cada um de nós. Até câmera, como vende a Apple em um comercial recente do iPad Air:
Outras, como a Samsung, apostam na pegada artística, em muito beneficiada pelo suporte a stylus da linha Galaxy Note:
Sem falar, claro, nas possibilidades mais mundanas, como jogos, leitura e vídeos, o tipo de uso que qualquer dono de tablet conhece e muito provavelmente faz, ou ainda como segunda tela enquanto assiste TV, hábito que divide com celulares e que vem ganhando força — nos EUA uma pesquisa da Nielsen constatou que cerca de 70% dos telespectadores têm à mão uma segunda tela quando estão na frente da TV.
Existem ainda os cenários específicos, sendo o mais comum o educacional. Entre profissionais da saúde, a adoção do tablet vem aumentando. Esses e outros locais e aplicações focalizadas são onde a flexibilidade do tablet brilha e dão a esperança de que há não um, mas vários mercados potenciais bem específicos pouco ou ainda não explorados. Locais para crescer. Tanto que Tim Cook aposta no meio corporativo para que a Apple continue lucrando com o iPad.
Consultei alguns leitores do Manual do Usuário para saber o que eles fazem com tablets. A maioria afirma usá-los com frequência, principalmente para atividades que envolvem leitura. André Catapan, 22 anos, pesquisador e mestrando em Engenharia de Produção, disse ler muito no seu iPad Air, tanto para suas pesquisas quanto por lazer. “[Leio sobre] artigos online, geralmente sobre política, filosofia e tecnologia, minhas principais áreas de interesse. Posso dizer que foi o principal motivo para comprar o iPad Air, nunca me dei bem lendo grandes textos na tela widescreen de um notebook.” Ele ainda acessa redes sociais, apps de vídeo (Netflix, YouTube) e eventualmente joga alguma coisa.
O perfil de uso do André é muito semelhante ao meu. Dois anos depois de adquirir um iPad, sempre recorro a ele para ler o que salvei no Pocket e dar uma passada no Facebook e Twitter com mais conforto. A tela grande e o acesso imediato, característica essa ressaltada pelo João Paes Neto, 22 anos, auxiliar administrativo e dono de um iPad de 4ª geração, são convidativas a sessões curtas de uso. O tablet se insere, como Steve Jobs deixou claro na apresentação do primeiro iPad, entre a facilidade de uso do smartphone e o poder do computador.
Foto: Rodrigo Ghedin.
Outros leitores disseram ter substituído notebooks parcial ou completamente pelos tablets. O Windows 8, que aposta muito em conversíveis e híbridos, misturas entre notebooks e tablets, é a vedete dessa abordagem, é declaradamente “bipolar” e se vende como uma solução para entretenimento e trabalho. Nesse contexto o Surface, tablet da própria Microsoft, é o que melhor personifica a proposta. Mesmo com diversas falhas ele tem seu público, no qual está Igor Paes, outro leitor, 34 anos e analista de TIC:
“Substituí meu PC e meu notebook por ele [Surface Pro 2]. O uso mudou, pois antes o via como um desktop pra jogar e um notebook que utilizava pra navegar, escrever meu relatórios no trabalho e tal. Com o tempo, fui descobrindo a leitura através dele, tanto de livros como de notícias (Flipboard, por exemplo), joguinhos touch screen e fotografia (redes sociais e edição). Minha cabeça estava tão acostumada com o formato mouse e teclado que, ao deixar a type cover de lado, passei a usá-lo de outras formas, como descrevi um pouco acima.”
Gustavo Vieira, 36, consultor de gestão empresarial, escreve, edita e gerencia seu blog, o Espinafrando, integralmente através de um iPad mini com tela Retina. Ele também recorre ao tablet para ler gibis, acessar redes sociais e Internet Banking: “O futuro do tablet é ficar cada vez mais onipresente no dia-a-dia. Posso dizer que ele praticamente substituiu o uso de computador lá em casa, que vive sempre desligado”.
Esses dois casos ainda são raridades, e talvez nunca se tornem mais que isso. É bem verdade que artigos e apps mostrando o lado produtivo dos tablets são fáceis de encontrar, e coisas como o Office para iPad buscam reforçar esse posicionamento. O esforço em adaptação, porém, soa paradoxal à ideia de facilidade de uso que se tem dos tablets. Aprender a digitar rápido na tela, migrar fluxos de trabalho para os padrões simplificados do iOS/Android, encontrar os apps certos… É mais fácil continuar com o notebook, e melhor ainda se for um Ultrabook rápido e leve.
O nome phablet, que surgiu quase como uma piada interna, pegou, e por um bom motivo: ele engloba uma categoria à parte de smartphones, uma com telas enormes. Com os últimos lançamentos dos topos de linha, todos com telas de 5 polegadas ou mais, essa divisão faz cada vez menos sentido.
O grande apelo de um tablet é a tela maior, bem maior que a dos smartphones. Das 3,5 polegadas do iPhone até a versão 4S para as 9,7 do iPad, há uma distância considerável. Já entre as 5,1 polegadas do Galaxy S5 e as 7 do Galaxy Tab 3…
O caminho contrário ao comentado acima, da união entre tablets e notebooks, também existe e é mais ameaçador à existência do tablet. A distância entre ele e smartphones, que antes justificava a compra dos dois equipamentos, encolheu com o tempo e isso pode ter impactado a noção de necessidade de um tablet que, sejamos sinceros, nunca foi lá muito forte. Mesmo a Apple diminuiu o espaço que separa seus equipamentos: o iPhone cresceu (4 polegadas a partir do iPhone 5) e o iPad diminuiu com a versão mini, para 7,9 polegadas.
Como telas grandes são o novo chamariz dos smartphones a despeito de outras especificações, mesmo quem centra suas escolhas no preço tem opções. De modelos intermediários, como Galaxy Gran Duos e Xperia C, chegando até a uns bem baratos, com o Nokia XL, a tela grande deixou de ser luxo de quem pode gastar muito com telefonia móvel.
A Huawei, no último MWC, anunciou o MediaPad X1 com uma proposta ousada: ser um dispositivo híbrido, smartphone e tablet ao mesmo tempo. Com tela de 7 polegadas e uma moldura finíssima, não duvido de que o conceito pegue e, em um futuro bem próximo, seja replicado por outras fabricantes. O mercado parece sedento por telas enormes que fazem ligação. Qual o limite? Eu não me arrisco a chutar.
Preços para baixo e mercados emergentes remediam a situação
Foto: Apple.
A pesquisa citada no início desta matéria trouxe outro ponto-chave na relação entre tablets e consumidores: o preço. 47% dos que estavam incertos sobre a compra de um tablet e 25% dos que não pretendem adquirir um acham tablets caros.
A explosão de modelos abaixo dos US$ 300 no final de 2012 e o sucesso que eles fazem, levando até a Apple a lançar uma versão encolhida e mais em conta do iPad, indicam que há, de fato, muita sensibilidade em relação a preços.
A alavancada nas vendas de tablets Android se deve em muito a esse fator. Ano passado, a plataforma ultrapassou o iPad em volume e faturamento, e essa inversão é creditada à inundação do mercado com modelos pequenos e baratos. E alguns muito baratos, a ponto de não serem recomendados por ninguém sério (você recebe pelo que paga) e, o mais curioso, posicionados como TVs/telas portáteis para vídeo.
No Brasil, tablets sérios disputam a atenção do consumidor com esses modelos super baratos de marcas desconhecidas ou, quando conhecidas, montados na China a partir de um projeto genérico e apenas marcados com o logo das empresas locais quando chegam aqui. Há uma disparidade enorme não só no valor pago, mas também e principalmente na qualidade e nas possibilidades que o dispositivo abre.
Uma pesquisa recente da Mobile Marketing Association/Nielsen Ibope revelou um aumento de 312% nas vendas de tablets no varejo brasileiro em 2013. Mas quais tablets?
Os resultados de outra pesquisa, essa realizada pelo IDC no segundo semestre do ano passado, ajudam a responder a pergunta acima. Eles apontaram aumento de 151% nas vendas desse tipo de equipamento em relação ao primeiro semestre, número em muito beneficiado pelos tablets “baratinhos”, como escreveu Claudia Tozetto no iG. De todos os modelos vendidos no período, 1,9 milhão, 55% custavam menos de R$ 500. Pedro Hagge, do IDC, explica o fenômeno brasileiro:
“O Brasil é um mercado em ascensão para os tablets, com grande parte dos usuários comprando seu primeiro dispositivo. Nosso mercado continua muito sensível a preços, e os tablets são acessíveis para o poder aquisitivo do consumidor brasileiro, representando uma opção viável de sistema para uso básico e acesso à Internet.”
Da mesma forma que demoraram para chegar aqui, o desaquecimento nas vendas de tablets também será sentido mais tarde no Brasil. E com a falta de alternativas (Chromebooks são inexplicavelmente caros, notebooks de entrada, além de não serem baratos, são ruins), não será espantoso se mercados emergentes acabarem sustentando por um tempo maior as margens desse tipo de equipamento.
O efeito colateral dessas peculiaridades locais é que quem vai às compras e acaba pegando um modelo baratinho, sem pesquisar antes, nem testá-lo, corre o risco de acabar com um aparelho lento e repleto de deficiências, que faz o desfavor de apresentar a plataforma a quem mais se beneficiaria dela da pior maneira possível.
Equilibrar preço e qualidade é uma equação ingrata, porém não impossível. Mesmo no mercado local há tablets que, vá lá, não são um iPad, mas quebram o galho por algumas centenas de Reais a menos. O problema, novamente, é identificá-los. Por fora, um Asus MeMO Pad HD7 não difere muito de um xing-ling ruim; já por dentro…
Uma moda que demorou a passar ou o futuro ainda inexplorado?
Talvez você esteja, agora, com uma visão apocalíptica do mercado de tablets na cabeça. Se for o caso, peço desculpas. Não era a intenção. Apesar de uma possível estagnação no horizonte, eles continuam sendo uma força no segmento móvel e seguem mais saudáveis que outras áreas, como a de notebooks. Sem falar no potencial de mercados emergentes, como o Brasil, ainda maravilhados pelo fator novidade e que seguem comprando muito.
Mas o sinal de alerta deve estar aceso, mesmo que no nível mais baixo, nas empresas que os fabricam. Quando até gente da indústria como Zal Bilimoria, ex-Netflix, hoje na Andreessen Horowitz, uma das empresas de capital de risco mais conceituadas dos EUA, sentencia que o amor pelos tablets acabou e traz dados da Netflix que sustentam seu ponto na prática, é sinal de que algo mudou.
Tablets são incríveis, eles só têm o problema de disputar a atenção com coisas ainda mais incríveis, os smartphones. Há espaço para eles nas nossas vidas? Sim, só que esse espaço talvez não seja tão grande quanto se imaginou a princípio.
Foto do topo: Martin Voltri/Flickr. Agradecimentos a todos os leitores que bateram um papo sobre o uso que fazem de tablets: João Paes Neto, Pedro Maia, André Capatan, Flávio Ricardo, Rodrigo Sabino, Thiago Brito, Igor Paes, Rafael Duarte, Gustavo Vieira, Pedro Simões, Pedro Dal Bó, Nelson Souza, Paulo Higa, Gabriel Arruda e Joel Nascimento Jr. Valeu!
O Spotify, serviço de streaming de músicas mais popular do planeta, há meses ensaia sua estreia no Brasil. Dependendo do ponto de vista (e do veículo de comunicação que você acompanha), dá para dizer que ele já chegou. É hora de abandonar as ofertas estabelecidas no Brasil e correr para o Spotify? Calma, muita calma nessa hora.
O Spotify já chegou oficialmente ao Brasil?
Spotify está chegando ao Brasil.
Resposta simples: sim.
Mas é um “sim” cheio de “poréns”. Quem entra no site oficial do Spotify hoje dá de cara com uma mensagem em letras garrafais dizendo “Spotify está chegando ao Brasil”, com um formulário para deixar seu e-mail e, em algum ponto futuro e não especificado, receber um convite para usar o serviço antes do lançamento oficial1. Sim, uma tática para gerar hype muito popular no longínquo ano de 2004, quando Orkut e Gmail eram também um clube semi-fechado, mas que ainda encontra adeptos dez anos depois.
Tenho uma conta lá faz alguns anos criada para usar o Spotify via VPN, uma forma de acesso que “engana” servidores. No caso, o Spotify achava que eu estava em um país onde ele já atuava — primeiro Inglaterra, depois Estados Unidos. Quando soube que o serviço estava operando por aqui em caráter de testes, bastou mandar um e-mail para o suporte (em português mesmo) solicitando a migração da conta. Em poucos minutos o meu Spotify ficou verde e amarelo, tornou-se acessível sem VPN e passou a aceitar pagamentos com meu cartão emitido no Brasil ou PayPal.
Novo Spotify para Windows.
Daquela época para agora, o Spotify mudou um pouco. A maior diferença é o cliente desktop, meio que uma exigência dadas as limitações do web. A nova versão, que apareceu dia desses, trouxe um visual negro bem mais refinado e, enfim, a possibilidade de salvar álbuns para acessá-los rapidamente, de um local específico, em vez de ter sempre que recorrer à busca ou criar playlists.
Tivesse sido lançado há uns dois anos, o Spotify seria uma escolha quase natural. Hoje, com Rdio, Deezer e Xbox Music brigando feio pela preferência do cliente, o cenário é outro. Como o Spotify se sai frente a esses concorrentes, principalmente o Rdio, que uso no dia a dia?
Spotify ou Rdio? Uma questão de abordagem
Assino o Rdio há uns bons anos e gosto muito do serviço. O que não me impediu, claro, de pagar uns trocados no Spotify para ver como ele está atualmente.
Aliás, já no pagamento nota-se uma aparente vantagem para o recém-chegado: ele é mais barato. Mesmo cobrando em dólar, na ponta do lápis os US$ 5,99 pelo plano mais completo, que inclui o uso de apps móveis, sai mais em conta que os R$ 14,90 do Rdio — uma diferença, feita a conversão com o dólar a R$ 2,19 (cotação de ontem) e acrescido o IOF (6,38%), de pouco mais de R$ 1. Ok, é de fato mais barato, mas a diferença é tão ínfima que outros fatores podem torná-la irrelevante. E para quem assina duas contas, a ausência de um plano familiar no Spotify, que existe no Rdio, acaba invertendo a pequena economia observada nos planos individuais.
Focando no plano individual, são esses “outros fatores” que complicam um pouco a situação do Spotify, ao menos para o meu perfil de uso. Ele tem uma pegada diferente em dois aspectos-chave: organização e descoberta de músicas.
O Spotify é todo sobre playlists. Se você quiser baixar músicas para ouvi-las desconectado da Internet, precisa criar uma playlist ainda que seja composta apenas por músicas de um mesmo álbum. Há uma obsessão por playlists que ignora outras formas de ouvir música, e uma delas em especial, o álbum completo, faz muita falta.
O Rdio também oferece playlists, mas dá mais atenção à organização por álbuns na Coleção. Curtiu um álbum, quer ouvi-lo mais vezes e tê-lo sempre à mão? Acrescente-o à Coleção e, opcionalmente, torne-o acessível offline. São dois cliques para cada ação, que é desencadeada em todos os dispositivos conectados à sua conta. Rápido e fácil, sem enrolação.
Minha coleção no Rdio.
Não tenho muito saco para playlist e encaro muitos álbuns como trabalhos completos, fechados, que em certos casos merecem ser ouvidos de cabo a rabo. A nova interface do Spotify remedia esse defeito parcialmente: agora existe uma seção “Minhas músicas”, onde dá para acrescentar álbuns. Ainda falta, porém, a sincronia offline.
Mais importante que isso é a descoberta de novas músicas. O Spotify confia muito no Facebook (houve uma época em que ele só funcionava atrelado à rede social nos EUA) e mistura indicações de amigos com recomendações do algoritmo em uma aba “Descobrir” que é tudo, menos organizada.
No Rdio, a tela inicial apresenta álbuns em alta na sua rede de contatos. O esquema de amizades é independente e assíncrono, como no Twitter. Seguir pessoas com gostos similares aos seus é a garantia de receber boas indicações — comigo sempre funcionou.
Abaixo de cada álbum aparecem fotos dos contatos que ouviram-no, e esses rostos conhecidos são poderosos para me levar à descoberta de novas músicas. Para mim, é onde o Rdio ganha de lavada: além de uma mecânica em geral melhor, por estar oficialmente há mais tempo no Brasil ele tem mais usuários, entre os quais muitos amigos e conhecidos em quem presto atenção na hora de procurar coisas novas (e boas!) para ouvir.
O Rdio ainda tem alguns mimos bacanas, como o modo Controle Remoto (que uso um bocado, já que ouço bastante música na TV enquanto trabalho no computador) e interfaces bem bonitas tanto na web quanto nos apps móveis.
Qualidade e acervo
[insert]Rdio e Spotify no iPhone.[/insert]
Para ouvidos destreinados com fones simples, as diferenças na qualidade do áudio entre Spotify e Rdio são irrelevantes.
O Spotify parece mais acertado tecnicamente. O serviço usa um sistema peer-to-peer (P2P) bastante engenhoso e confia em arquivos OGG de bitrate altíssimo para entregar a melhor qualidade possível da forma mais rápida. E é rápido mesmo, em muitos casos mais que o Rdio.
Só que essa diferença é mínima, incapaz de distanciar muito os dois serviços, e a qualidade sonora dos dois beira a equivalência. Neste teste publicado no Medium, a constatação foi de que ambos têm qualidade aceitável. O Spotify apresentou uma pequena vantagem, mas uma que, repetindo, a ouvidos menos sensíveis com fones abaixo da faixa dos US$ 100 não fará diferença.
Em termos de acervo, vez ou outra me deparo com algum buraco no Spotify ou no Rdio2. O abismo entre os dois é pequeno, pelo menos dentro do que costumo ouvir, e tende a encolher ainda mais. Ponto para o Spotify por permitir mesclar arquivos MP3 do próprio usuário às músicas do catálogo.
A música em si, o fim desses e outros serviços de streaming, caminha para a comoditização. O que sobra para eles se diferenciarem uns dos outros são detalhes, recursos, os facilitadores e pequenos agrados para usuários mais exigentes.
Ah sim, e preço.
O trunfo do Spotify: ser gratuito
Não é preciso pagar para usar o Spotify. Ele oferece um plano gratuito cheio de anúncios, gráficos e sonoros, além de músicas com qualidade levemente reduzida.
É tentador, especialmente em mercados onde pagar por música não é algo tão natural, como o nosso. Parece uma troca justa num primeiro momento: toda a música que você quiser de graça, com banners e uns spots comerciais a cada poucas canções.
Tem quem conviva com isso, mas convenhamos: é profundamente irritante, no meio de uma sessão legal, entrar um “Un Dos Tres!” estridente do Ricky Martin daquele comercial da Fiat. Ou algo fora do tom em uma playlist para quem está curtindo uma fossa.
De qualquer forma, se você tem o mínimo de apreço por música e não está no perrengue para pagar o próximo aluguel, faça um esforço e arque com a mensalidade de um desses. Qualquer um.
Qualquer um? Sim, porque embora eles tenham particularidades e sejam melhores em um aspecto ou outro, no que interessa, ouvir música, todos são bem competentes. Em qualidade e acervo, Rdio, Spotify, Deezer, Xbox Music estão muito próximos. E como eles, mesmo os apenas pagos, oferecem períodos de degustação gratuitos, vale a pena fazer o teste. Não custa nada, literalmente, e permite ter uma noção do que você ganha e perde optando por cada um.
Ah, e bem-vindo ao Brasil, Spotify.
Das coincidências da vida: algumas horas após fechar a edição deste post recebi o convite para usar o Spotify no e-mail que havia deixado na página brasileira do serviço há alguns meses. ↩
Nesse quase um mês usando os dois serviços alternadamente, só me deparei com uma lacuna: Sleigh Bells. O Spotify tem, o Rdio, não. ↩
Foram anos de discussões acaloradas e cinco meses travando a pauta da Câmara, mas enfim o projeto do Marco Civil da Internet (Projeto de Lei 2126/11) foi aprovado. O texto, da propositura à aprovação, mudou em pontos-chave e, nos últimos momentos antes da sessão da Câmara dos Deputados que enfim votaria o projeto, muito se falou sobre a ameaça à neutralidade da rede. Por que tanta preocupação em relação a esse ponto?
#MarcoCivil aprovado com neutralidade da rede, liberdade de expressão e proteção à privacidade! #eqp
Sabe quando aquele seu tiozão se refere à Internet como “a grande rede dos computadores”? Embora brega, há um fundo de verdade nessa declaração. A Internet, grosso modo, é mesmo uma grande rede. Pela sua natureza aberta, com protocolos livres de patentes que conversam entre si, o processo de se conectar a ela é relativamente simples para qualquer… pessoa, empresa ou coisa. E assim, de ponto em ponto, de IP em IP, criou-se uma rede monstruosa que caminha para cobrir o mundo inteiro e conectar todos os seres humanos.
Existe uma hierarquia no trajeto que os dados fazem do servidor até o seu navegador web, ao cliente de e-mail ou qualquer aplicação que você use aí em casa ou no trabalho que dependa da Internet. A relação entre provedor (GVT, NET, Vivo) e cliente (eu e você) é, como este artigo da Quartz explica, apenas o fim de uma longa estrada. Lá no começo estão os backbones e as CDNs, redes de distribuição que funcionam como intermediárias entre serviços/sites e provedores, atuando meio que em conjunto para viabilizar o fluxo de (enormes quantidades de) dados. Algumas das CDNs mais famosas são Akamai, Level 3 e Cogent.
Existem quedas de braço, acordos e negociações sendo feitos nos bastidores da Internet desde sempre. Embora as questões levantadas pelo dilema da neutralidade recaiam, em sua maioria, nos provedores, elas atingem também essas empresas e estruturas menos conhecidas do público e que não ganham tantas manchetes nos veículos de comunicação.
Todos os grandes sites (Google, Facebook, Microsoft, Netflix) usam CDNs que negociam com as operadoras a distribuição desse conteúdo. Quando a balança desequilibra, ou a demanda foge dos termos contratados, o tempo fecha. Exemplo recente? A relação entre Netflix, CDNs e os três principais provedores dos EUA — Comcast, Verizon e AT&T.
Essa medida, que abre um precedente no debate sobre a neutralidade nos EUA, foi tomada pela dificuldade que as CDNs estavam tendo em conseguir levar esses dados, mais do que os provedores esperavam. Eles, os provedores, começaram a reclamar e agir. Como? Restringindo a conexão para uma aplicação específica, a Netflix. De repente a rede deixou de ser neutra, deteriorando o tráfego de um serviço que consome muitos recursos — com 30 milhões de assinantes, o Netflix responde por quase 1/3 do tráfego de Internet gerado no hemisfério norte em horário nobre.
Ninguém quer, mas alguém tem que pagar a conta. A Netflix até criou um programa, o Open Connect, para levar servidores próprios para os provedores, bancados e mantidos por profissionais seus, a fim de aliviar a carga. Funciona na Europa, América Latina e em outros locais; lá, nos EUA, os provedores se mostraram avessos à inciativa. A discussão ainda vai longe, mas nesse meio tempo, temendo perder clientes por constrições na conexão e consequentemente vídeos de baixa qualidade, a Netflix pagou o pedágio da Comcast. Repetindo, ela abriu um precedente. E um perigoso.
Essas negociações de bastidores importam, mas o que mais se discutiu aqui, com a questão do Marco Civil, foi o último elo da cadeia, a relação provedor-cliente.
Sem a neutralidade, as operadoras poderiam inventar quaisquer critérios para vender o acesso à Internet. Hoje, existe um convencionado que funciona desde os primórdios da banda larga: a velocidade de acesso. Você pode achar injusto pagar mais para ter mais velocidade, mas não tem como reclamar da isonomia da navegação. Seja no plano mais rápido ou no mais lerdo, o conteúdo é acessado da mesma forma, sem distinção.
Imaginar um cenário diferente disso é fácil. Pensemos, pois, em um plano especial de vídeos. Quem quiser ter acesso ao Netflix e YouTube pagaria, digamos… R$ 20 a mais na fatura. Ou um plano básico, que dá direito apenas a e-mail, Facebook, Twitter e YouTube, por uma mixaria. Quer jogar? Olha aqui o plano Gamer Ultimate Plus, com acesso privilegiado ao Steam, League of Legends e, de graça, um joguinho por mês. Custa só R$ 120 e dá direito àquele plano básico ali de cima na faixa.
O que se tem atualmente é uma Internet similar à Dona Justiça: cega, que não faz distinção acerca do que o usuário pede. Parece o ideal, certo? É para mantê-la assim que os defensores ferrenhos da neutralidade brigam tanto pela aprovação do Marco Civil. Mas há desdobramentos que extrapolam os (sempre perigosos) discursos extremados entre defensores da liberdade absoluta e os das teles.
Quem já compartilhou uma conexão com colegas ou familiares folgados sabe como é. Basta que alguém abra o YouTube ou o BitTorrent e a rede se torna imprestável: não há conexão que resista a serviços que consomem muita banda. O fornecimento de Internet é como uma rede doméstica, só que em um nível maior. Todos os usuários de um provedor compartilham os mesmos tubos de acesso. Pode ser meio chocante para você, mas a conexão, embora não dê para pegar e guardar em um pote na estante, é um recurso finito.
A redação do Marco Civil impede qualquer tipo de distinção do tráfego mesmo quando esse tipo de intervenção beneficiar a maioria dos usuários. Exemplo clássico: aeroporto. Nesse e em outros locais com grande concentração de pessoas o acesso à rede móvel fica seriamente prejudicado pela demanda. Como falta esse senso de finitude da Internet à maioria, dois caras acessando o YouTube dali atrapalham todos os outros que só querem fazer tarefas mais leves e muito mais importantes, como verificar o e-mail antes do voo e abrir o cartão de embarque no smartphone.
O serviço dos provedores que atuam no Brasil, principalmente os de conexões móveis (3G/4G), é ruim? Sim, mas poderia ser pior. Ou, com mais flexibilidade, melhor. É natural a desconfiança — anos liderando rankings de reclamações não deram a eles uma reputação exatamente boa –, mas o engessamento da neutralidade da rede pode trazer consequências indesejadas também. Com o acesso igualitário para todo e qualquer serviço, talvez a demanda suba e, com ela, os preços também. E aí o que era para ser benéfico ao povo pode acabar criando mais barreiras para o acesso universal.
Pesa a favor das teles, ainda, o histórico. Em quase duas décadas a oportunidade de fragmentar a rede para cobrar mais esteve sempre aí. E o que aconteceu? Nada. Nenhum provedor jamais recorreu a ela. Talvez não seja vantajoso, talvez a queimação de filme não valha os ganhos potenciais que fragmentar a Internet trariam. As queixas de traffic shaping, que vez ou outra assolam alguns provedores nacionais, são bem ruidosas e mancham a reputação de certos nomes. Quem aí não xinga a mãe do dono do provedor tal quando, mesmo com um plano de 200 Mb/s o YouTube se arrasta para carregar vídeos em 140p? Qualquer um. Mas pense maior que isso: será que sem o traffic shaping outros serviços não seriam prejudicados a ponto de dificultar a realização de tarefas simples, como acessar o e-mail e entrar em sites de notícias?
Alguns ativistas pró-Marco Civil citam cenários apocalípticos para defendê-lo; não é por aí. Ter a empatia de entender o lado de quem fornece o acesso é um passo importante para que a discussão caminhe no sentido de chegar a um consenso do que é bom para a maioria. Talvez fosse o caso de as operadoras começarem a fiscalizar e colocar em prática as restrições de banda contratuais — aquela quantidade tal de tráfego mensal que, pelo menos entre os provedores residenciais, nunca é levada a sério. Tratamento isonômico da conexão pela qual quem usa mais, paga mais. Talvez. O debate não exaure aqui e, como todos os outros pontos desse deve ter nuances que merecem ser explicados.
Neutralidade ou 0800?
Não é só na ponta do acesso, na relação provedor-cliente, que a ausência de neutralidade pode gerar consequências. Uma outra prática é potencialmente mais danosa à livre concorrência na Internet que qualquer tentativa de fragmentação do acesso por parte dos provedores. Aliás, talvez essa seja a prática a ser combatida.
Grandes sites podem chegar a acordos com os provedores para priorizar suas ofertas em detrimento dos concorrentes. A Netflix pagou uma grana boa à Comcast para servir seus clientes decentemente, mas nada impede que, nesses mesmos termos, um serviço que compita com ela pague ainda mais ao provedor para ter mais banda disponível e, consequentemente, qualidade superior.
Posto de outra forma, esse tipo de acordo pode gerar vantagem artificiais e injustas.
Parece loucura? Sim. Mas o mais maluco é que esse tipo de coisa já acontece. Em vários países, inclusive no Brasil, Facebook e Twitter têm acordos com as operadoras móveis para fornecer aos usuários acesso gratuito a seus serviços. O Bradesco entrou na onda, levantando mais questionamentos sobre o ferimento da neutralidade. Nos EUA, a AT&T estendeu a ideia e a empacotou para empresas interessadas. O sistema, batizado lá de Sponsored Data, já é usado por uma empresa de planos de saúde, outra de publicidade móvel e uma última de soluções de comércio móvel.
Isso afeta a neutralidade? Há entendimentos nos dois sentidos. Entre os que não veem nada errado nisso, o raciocínio é de que essa oferta equivale a um 0800, a um SAC das empresas que ingressam em programas como o Sponsored Data. O problema é que isso causa um desequilíbrio na concorrência. Se, apropriando-se de um exemplo que li recentemente não me lembro onde, o Google tivesse bancado a banda do Google Videos quando o YouTube despontou, qual seria o site de vídeos mais popular do mundo hoje?
O caminho que falta
A neutralidade é um assunto delicado e demanda muita reflexão e debate. Sim, ainda mais reflexão e debate. A redação final do Marco Civil da Internet mitigou o receio dos defensores da Internet livre e previu explicitamente, no caput do artigo 9º, o tratamento “de forma isonômica [de] quaisquer pacotes de dados, sem distinção por conteúdo, origem e destino, serviço, terminal ou aplicação”. Uma vitória para quem defende a neutralidade absoluta.
Em comunicado à imprensa, o SindiTelebrasil, sindicato nacional que representa as operadoras de telefonia, disse ter “recebido positivamente” a aprovação do Marco Civil, “mesmo não sendo em sua totalidade a proposta que o setor considera ideal para a sociedade”. Ele reitera a manutenção, nos termos da nova lei, de serviços já oferecidos, como os acessos gratuitos a redes sociais, projetos educacionais e ao que o sindicato se refere nominalmente como “Internet 0800, em que a conexão é paga pelo site que está oferecendo o serviço”. Tipo o Sponsored Data da AT&T nos EUA, uma oportunidade saborosa para grandes corporações, com muita grana em caixa, acelerar a adoção de serviços, de atropelar concorrentes menores e, quem sabe, até melhores.
O próximo passo é a aprovação no Senado, onde o texto poderá receber alterações e será debatido novamente e, depois, a sanção presidencial. O artigo 9º dependerá de regulamentação pela Presidência via “determinação constitucional fiel à execução da lei” (seja lá o que for isso) e, na redação final, entrou a necessidade de consulta à Anatel e ao Comitê Gestor da Internet para tanto. As exceções à neutralidade serão, exclusivamente, para “serviços de emergência e aos requisitos técnicos necessários à prestação adequada dos serviços”, e sempre com transparência e avisos prévios aos consumidores.
É sempre salutar lembrar que o Marco Civil da Internet trata de outras questões além da neutralidade. E também que ele é, para todos os efeitos, uma espécie de lei de base, que não tem caráter punitivo e que pretende apenas dar diretrizes básicas ao acesso à Internet no país. Apesar disso, alguns artigos são decisivos para moldar o futuro da rede por aqui, um deles o da neutralidade.
A sensação que se tem é que uma vitória foi conquistada, mas a que preço? Um dos princípios constitucionais, o da isonomia, diz que deve-se tratar os iguais na medida da sua igualdade e os desiguais, na medida da sua desigualdade. Ao promover a neutralidade absoluta, parece-me que nos distanciamos disso e damos à Internet termos rigorosamente idênticos para todo mundo. A neutralidade é importante, sim, mas não é uma questão simples, direta, como a maioria pinta por aí. Resta saber como ela funcionará na prática, mas só testemunharemos isso depois da sanção presidencial. Ainda vai demorar.
Se você ainda não carrega um smartphone no bolso, é questão de tempo até se ver nessa situação. Com o aumento nas vendas impulsionado pelo barateamento da tecnologia e a substituição gradativa dos aparelhos mais simples, os dumbphones, trilhamos o caminho do smartphone onipresente. Neste post, trago tudo o que você sempre quis saber sobre smartphones mas nunca teve coragem de perguntar.
A IDC constatou um crescimento de 122% nas vendas de smartphones em 2013 no Brasil, o que o levou a superar os modelos simples em volume pela primeira vez na história — 52% contra 48%. Embora a estimativa para 2014 aponte para uma redução no ritmo, o segmento deverá crescer. A Abinee prevê um aumento de 61% na base instalada no país. No mundo, o Gartner diz que 55% de todos os celulares vendidos em 2013 foram smartphones.
Tem muita gente se aventurando com um smartphone pela primeira vez. É um universo novo, cheio de possibilidades — e dúvidas. Algumas, para o leitor regular do Manual do Usuário, podem parecer triviais. Para a maioria, porém, não são.
Este texto tem o objetivo de ser um guia de iniciação para os marinheiros de primeira viagem, um punhado de dicas compilado após consultas com pessoas que ainda não têm ou que acabaram de comprar um smartphone.
Se conhece alguém na situação, poderá poupar muito tempo, seu e dele, simplesmente encaminhando este artigo. Fiz um grande esforço para contemplar todas as dúvidas que comumente surgem no primeiro contato com um smartphone. Se ainda assim você sentir falta de alguma informação, por favor use os comentários.
O que é um smartphone?
Antes de entrarmos nas especifidades da questão, é bom esclarecer desde já o que é um smartphone.
Não existe um conjunto de diretrizes, ou características que, cumpridas, classificam um dispositivo como smartphone. Ele é, no geral, um celular com poderes que vão além de fazer ligações e trocar mensagens de texto.
As características mais distintas de um smartphone são seu alto poder de convergência e o sistema operacional que o move somado aos apps que ele pode receber.
Um smartphone consegue, diferentemente de um celular simples, acessar a Internet, fazer fotos, localizar a sua posição via GPS, tocar música e vídeo, entre outras coisas. Ele é uma máquina de convergência. Um celular simples, principalmente modelos contemporâneos, até consegue fazer uma ou outra, mas de modo mais restrito.
Todo celular, até aqueles mais simples de pouco menos de R$ 100, executa um sistema operacional. A diferença está nas capacidades dos que operam em smartphones. Eles geralmente desempenham mais funções e são abertos a apps de terceiros, que por sua vez estendem ainda mais o que esses aparelhos podem fazer.
Durante a fase de transição para os smartphones modernos, entre 2007 e 2009, havia certa confusão com featurephones, aparelhos que pareciam smartphones, mas não recebiam apps. Eles eram de uma categoria diferente? Até hoje alguns modelos desafiam essa organização, como o Asha 501, da Nokia. Esse modelo tem um punhado de características avançadas e até roda apps de terceiros, mas tudo de forma bem limitada. É um smartphone? Há quem diga que não, mas para mim não falta nenhum requisito para classificá-lo como tal, ainda que seja um smartphone mais ou menos — digno pelo que custa, mas como custa pouco…
Não quero dizer, com isso, que você deve entrar na primeira loja e levar qualquer smartphone pelo preço que for oferecido. Não é isso. O ponto é que, como em vários outros segmentos, no dos celulares inteligentes você também recebe pelo que paga. E, aqui, essa máxima é levada quase sempre ao pé da letra.
Algumas fabricantes lançam modelos simples com o apelo do “seu primeiro smartphone”. Não caia nessa. Aparelhos na faixa dos R$ 500 ou menos têm diversas deficiências que usuários experientes conseguem contornar com mais facilidade, mas que em mãos inexperientes podem ser bastante prejudiciais. Além de irritarem qualquer um, novato ou não.
Se puder pagar por um iPhone 5s, para que pegar um iPhone 4, hoje severamente limitado pelo iOS 7? Não faz sentido, salvo pela questão econômica. Entre esses dois extremos, dá para procurar por promoções e aparelhos com custo-benefício melhor que o iPhone 5s (e eu recomendo fortemente que você faça isso!).
Use o preço como um dos parâmetros na hora de escolher seu aparelho. Como em tudo na vida, os extremos quase sempre não são tão vantajosos e é preciso garimpar um pouco; se tiver a quem recorrer, pedir indicações para alguém mais entendido é outra boa tática a fim de fazer uma boa escolha.
Preparativos com a operadora e o mito da “Internet de graça”
Foto: Rodrigo Ghedin.
Está com seu smartphone aí? Legal! Com ele vem também uma despesa extra no orçamento: o gasto com dados junto à operadora.
Sim, dá para viver apenas com Wi-Fi. Na maioria dos casos o acesso via Wi-Fi é gratuito, especialmente em estabelecimentos comerciais e, por isso, preferível a quem quer economizar — dinheiro e também bateria, já que essa forma de acesso consome menos energia que o 3G/4G. Tenha em mente, porém, que para desfrutar da conexão Wi-Fi na sua casa é preciso ter uma conexão doméstica paga (ADSL ou cabo) com um ponto de acesso sem fio. Hoje, a maioria das operadoras oferece o ponto de acesso gratuitamente.
O que tento desmitificar no parágrafo acima é a ideia de que o Wi-Fi se materializa do nada e fornece Internet grátis para qualquer um, em qualquer lugar. Não é bem assim.
Outro problema, mais grave até, é que o alcance do Wi-Fi é limitado fisicamente, e a disponibilidade, nem sempre farta. Por essas e outras, a abordagem “apenas Wi-Fi” limita um pouco o aspecto móvel do smartphone. E convenhamos: poder se comunicar e acessar a Internet de qualquer lugar é um dos pontos altos desse tipo de dispositivo, logo vale a pena investir um pouco em um plano de dados.
Se você fica muito tempo em trânsito e precisa estar conectado, vale a pena pegar um plano pós-pago. Além de velocidades mais rápidas, a franquia é maior, o que significa que você pode fazer mais coisas online sem ter a velocidade reduzida — quando a franquia estoura, geralmente as operadoras limitam a velocidade de acesso, deixando-a mais lenta que uma conexão discada.
É preciso analisar a sua rotina e quanto você tem disponível para gastar mensalmente com conexão. Converse com a sua operadora, veja se eles têm algum plano adequado às suas necessidades. Os preços têm caído e, em último caso, menos de R$ 1 por dia é o mínimo para bancar o acesso à Internet de um smartphone em um plano pré-pago — eles quebram o galho, mas oferecem franquias insuficientes até mesmo para um usuário leve-médio.
Ainda se encontram smartphones com slot para SIM cards convencionais, os famosos “chips” das operadoras. A maioria, porém, já adota um padrão mais avançado — e menor –, o micro SIM. No mercado brasileiro, Moto X e os últimos iPhones (5 para cima) já deram o passo adiante e funcionam com o minúsculo nano SIM.
Se você já tem um SIM card convencional e adquiriu um smartphone com entrada para micro SIM, existem duas saídas. A primeira é cortá-lo, com uma tesoura mesmo ou usando um cortador especial para isso — que é mais seguro. A outra é comprar um Micro SIM junto à operadora e solicitar a migração do número. Um Micro SIM custa cerca de R$ 10; já um nano SIM pode custar mais caro, até R$ 40.
Como configurar o meu smartphone?
Um celular simples é fácil de configurar. Você espeta o SIM card (se tiver dificuldade nessa etapa, consulte o guia rápido que vem na caixa), liga ele, e pronto. Sem segredo.
Com um smartphone a história é diferente. Ele pede uma configuração mais detalhada, que depende de acesso à Internet. Até dá para pular essa etapa em alguns sistemas, mas acredite: fazendo isso, você terá apenas um celular simples com tela grande na mão, já que o acesso à loja de apps e outros recursos está vinculado a essa identificação.
Dependendo do sistema operacional escolhido, é preciso ter um tipo de conta, ou email. Android? Faça um email do Google, um Gmail. iPhone? Então você precisa ter uma conta no iCloud. Windows Phone? Vamos de Hotmail, ou Outlook.com. Não se preocupe se você não tiver uma dessas contas ainda, ou se tiver um email no Hotmail e estiver configurando um Android. Dá para criar novas contas no ato da configuração do smartphone.
Independentemente do caso, lembre-se sempre do seu email e senha. Eles são vitais para conseguir baixar/comprar apps, recuperar o smartphone em caso de travamento ou mesmo perda/roubo e outras situações delicadas. Sua senha é a porta de acesso para sua vida no smartphone — e em muitos casos ela vale mais que o próprio aparelho, então, atenção!
Configuração feita, o smartphone será povoado com dados obtidos a partir do email usado. O app de email puxará suas mensagens, a lista de contatos ganhará carinhas salvas anteriormente nessa conta, seus compromissos aparecerão na agenda. Se for um email secundário, um Hotmail que é pouco usado reativado apenas para configurar seu Windows Phone novo, não se preocupe. Todos os sistemas modernos permitem acrescentar contas extras, inclusive de empresas concorrentes. O que significa que, no nosso caso hipotético, você conseguiria trazer seus emails, contatos e compromissos do Gmail para o Windows Phone. Basta ir às configurações do sistema e procurar a área de contas.
Do jeito que sai da caixa, o smartphone já é um ótimo computador que cabe no bolso. Mas ele pode ser muito mais, e boa parte desse potencial vem dos apps.
Um app (lê-se “épi”), abreviação de aplicativo em inglês, nada mais é que um programa. Eles são distribuídos em lojas controladas pelas empresas que fazem os sistemas — a exceção é o Android, que permite a instalação de apps “por fora” (sideloading) e a instalação de lojas de terceiros.
A instalação é bem simples, basta encontrar o app desejado e clicar no botão “Instalar”. Eventualmente a senha da conta atrelada ao smartphone é pedida — daí a importância de lembrar-se da sua!
Existem apps gratuitos e pagos, a cobrança fica a critério de quem desenvolve o app. Alguns sistemas permitem colocar créditos, como se fosse um celular pré-pago, mas garantido mesmo, em todos, é o cartão de crédito internacional. Como a cobrança em quase todos os casos é feita fora do país, é a forma de pagamento mais comumente aceita.
A manutenção desses apps é tão tranquila quanto a instalação, basta entrar no app da loja e, caso exista algum com atualização pendente, executá-la. Já é possível deixar essas atualizações no automático, o que é preferível. Atualizações costumam trazer correções de problemas, aperfeiçoamentos e até novas funções.
Cuidado com as compras in-app
Todos os principais sistemas oferecem uma modalidade de compra chamada “in-app”, ou seja, de dentro do app. É muito comum em jogos, mas também está presente em diversos apps, e pode ser uma armadilha perigosa.
Nessa modalidade, o app/jogo permite comprar elementos a partir de si próprio, de dentro do app/jogo. É uma prática que se alastra com força nos jogos móveis: embora gratuito, para liberar fases, personagens ou “dinheirinho virtual” é preciso desembolsar dinheirinho de verdade. Dependendo do jogo e do seu vício, a brincadeira pode sair cara.
Há casos em que esse mecanismo é usado de forma honesta, mas o mais comum são desenvolvedores que abusam, como ilustra a EA com Dungeon Keeper. Muita atenção, principalmente se você tiver filhos ou crianças pequenas que se apossam do seu smartphone para jogar. Histórias de crianças que gastaram fortunas comprando itens e roupinhas virtuais são mais comuns do que se imagina.
A surpresa (ruim): bateria
Conversei com algumas pessoas que nunca tiveram ou acabaram de comprar o primeiro smartphone (obrigado a todos!). A reclamação mais constante, de longe, foi sobre a autonomia da bateria.
É um grande choque mesmo. Sair de um aparelho que aguenta ficar dias, mais de uma semana longe da tomada, para um sedento por energia e que male má aguenta um dia sem ser recarregado exige mudanças drásticas na rotina.
Existem smartphones com baterias de grande capacidade, mas esses são exceções. O melhor a se fazer é aceitar a derrota e se acostumar a recarregar a bateria do smartphone uma vez por dia, de preferência à noite, enquanto você dorme.
Tem problema deixar o celular na tomada mesmo depois que a carga estiver completa? Não, o fornecimento de energia é cortado ao chegar a 100%. Tem problema recarregá-lo quando a bateria estiver pela metade? Não, as baterias atuais não têm efeito memória. Preciso dar aquela carga de 24 horas que o vendedor me orientou a fazer antes de começar a usar o smartphone? Por favor, não.
Muitos desses mitos sobre baterias são herança da época em que elas eram feitas com outra tecnologia, a de níquel-cádmio. Hoje, arrisco dizer que ela não está presente em nenhum celular moderno, nem mesmo os modelos mais simples e baratos. Todos usam baterias de íons de lítio, que não sofrem de efeito memória e são bem mais flexíveis quanto a padrões de recarga.
Se quiser mais informações sobre como otimizar a vida útil da bateria do seu smartphone, leia este post do Gizmodo.
As (chatíssimas) notificações
Central de Notificações.
A instalação de diversos apps traz um efeito colateral que, para muitos, pode ser problema: as notificações.
A intenção, avisá-lo sobre novidades que estão rolando dentro do seu smartphone, é nobre, mas na prática o excesso de notificações, especialmente as menos urgentes, pode levá-lo à loucura. Afinal, qual a necessidade de saber que alguém retuitou um tuíte em que você foi mencionado, ou que deixaram um novo comentário na foto do seu primo em que você foi marcado no Facebook? Sim, você acertou: nenhuma.
Se estiver com um iPhone, domar as notificações é mais fácil. Nos Ajustes, entre em Central de Notificações. Essa área concentra tudo relacionado a notificações, de todos os apps. Dá para fazer um ajuste fino do que, onde e quando aparecerá no aparelho.
No Android e no Windows Phone, a tarefa é mais ingrata. Carentes de uma central similar à do iOS, o jeito é recorrer às configurações individualmente, dentro de cada app. Todos que emitem notificações têm opções para desativá-las. Dá mais trabalho, mas o resultado é igualmente tranquilizador.
O que deixar? Depende muito do seu perfil de uso. No meu caso, limito as notificações a apps que demandam, em tese, respostas imediatas, o que significa que basicamente apenas apps de bate-papo e mensagens, como SMS, WhatsApp e WUT têm esse privilégio.
Fique especialmente alerta com jogos: a maioria se utiliza desse recurso para lembrá-lo de jogá-lo (!) ou anunciar ofertas de compras in-app. Acredite: é bem frustrante pegar o smartphone após ouvir o barulhinho de notificação e ser apenas o Temple Run chamando-o para completar o desafio do dia.
Preciso mesmo de capinha e película?
Nexus 4, um ano de idade, sem película. Foto: Rodrigo Ghedin.
Grandes são as chances de você ter adquirido um smartphone que tenha a tela com Gorilla Glass — ou Dragon Tail. Ambas as tecnologias são revestimentos para o vidro que reforçam ele contra riscos e quedas leves.
Um erro muito comum é acreditar que a presença do Gorilla Glass torna o vidro indestrutível. Não. Às vezes, por uma queda boba, de alguns centímetros, ele pode estilhaçar. Embora sejam mais resistentes que o vidro nu, o que esses revestimentos fazem, principalmente, é proteger a tela contra riscos.
É por isso que, pessoalmente, desaconselho a aplicação de películas na tela. Elas reduzem a sensibilidade do toque, algumas até alteram a visibilidade graças a acabamentos foscos e, no fim das contas, funcionam como uma proteção em cima de outra proteção, o que, se você parar para pensar, não faz muito sentido.
Alguns justificam a utilização da película para evitar marcas de dedos, aquelas digitais feias. Mesmo com a camada oleofóbica que muitos smartphones apresentam atualmente, elas são de fato inevitáveis: ao fim do dia grandes são as chances da tela estar uma nojeira. Mas há uma solução menos invasiva: basta passar um pano específico, de microfibra, para ver essas marcas sumirem. Funciona tão bem que parece mágica.
Nunca usei película nos meus smartphones e eles não apresentam marcas permanentes — sou cuidadoso, é bom notar. Meu Nexus 4 (Gorilla Glass 2), esse da foto acima, foi usado ininterruptamente por cerca de um ano e continua como novo, com a tela intacta.
E a capinha? É outro acessório que eu também não uso, mas que… vá lá, para os mais desastrados pode ser uma boa. Ela costuma destruir o equilíbrio, a ergonomia e o design do aparelho, mas… ok, eu entendo.
Mesmo sem partes móveis, o smartphone é um dispositivo sensível, miniaturizado e com uma face inteira de vidro. Dificilmente ele sai inteiro de quedas. As capas amortecem esses acidentes e ajudam a manter a integridade do aparelho. Algumas vão além e fornecem recursos extras, como maior autonomia para a bateria, ou mais espaço interno para salvar fotos e outros arquivos.
É uma defesa válida, só não confie cegamente nela. Casos de smartphones com capa que saem danificados após uma queda mais grave são fáceis de se encontrar. O ideal, mesmo, é tomar cuidado e evitar derrubá-lo por aí.
As vantagens de se ter um smartphone
Ter um smartphone implica em mais gastos, mais preocupação e o risco iminente de perdê-lo — e, com o aparelho, fotos e informações importantes. Racionalmente, talvez, não seja algo indispensável. Muita gente ainda vive, e bem, com dumbphones. Se for o seu caso, não se recrimine!
Para todas essas desvantagens, porém, o smartphone devolve a peteca com um punhado de benefícios que vão além da diversão. É, com o perdão do clichê, um computador de bolso. Com ele nos comunicamos de diversas formas, recebemos informações, nos localizamos e, já hoje, fazemos coisas bem futuristas como ter assistentes pessoais proativos e realizar pagamentos.
Familiares, amigos e conhecidos já me relataram o quanto se surpreenderam com a compra de um smartphone. Os menos ligados em tecnologia demoram a embarcar nessa por não ver uma utilidade específica para o aparelho em seu dia a dia. Mas elas aparecem. O smartphone é mais ágil que um computador e está sempre à mão; no mínimo, você acaba fazendo coisas nele que, antes, ficavam restritas ao computador, como ver o email, interagir em redes sociais e jogar. Disso para coisas maiores e mais úteis, é um pulo.
Ainda temos um longo caminho para consolidar o smartphone na sociedade e corrigir desvios comportamentais — aliás, mais uma dica: não seja o chato que vai no bar e fica bitolado no smartphone! Ele parece ter as características certas, e ter surgido no momento propício para abraçar nossas necessidades e servir de vetor para mini-revoluções. Quando alguém imaginaria, por exemplo, a utilização de um batalhão de smartphones para ajudar na previsão do tempo?
A adaptação ao smartphone costuma ser tranquila para quem vem de um celular mais simples, mas com essas dicas o processo tende a ser ainda menos doloroso. Reiterando, se ficou alguma dúvida, pergunte nos comentários. E divirta-se com seu novo smartphone!
Minha barra de tarefas no notebook tem três ícones fixos: Windows Explorer, navegador padrão e um que, reza a lenda, é um gato vermelho atropelado na estrada. Esse último é o indefectível ícone do IrfanView, um simpático visualizador de imagens para Windows.
Não lembro quando exatamente descobri o IrfanView, só me recordo vivamente de ter simpatizado com o app logo de cara. Sua função, pelo menos superficialmente, é simples e limitada: abrir imagens. Fosse só isso ele já seria sensacional: é difícil surgir um formato que o IrfanView seja incapaz de lidar e, mesmo nesses casos, geralmente um plugin resolve a incompatibilidade.
A CES (Consumer Electronics Show) é o primeiro grande evento de tecnologia do ano. Em janeiro, emendado com as festas de fim de ano, expositores, profissionais de TI e jornalistas se reúnem em Las Vegas, EUA, para darem ao mundo um vislumbre do que provavelmente será o tom da tecnologia de consumo nos meses seguintes.
É um negócio enorme. Nesta edição, mais de 3200 empresas disputaram a atenção 150 mil pessoas que passaram por lá. E mesmo assim, ao longo dos últimos anos o evento tem perdido um pouco da sua força. Empresas maiores, como MIcrosoft, Apple, Samsung e Google, não aparecem, preferem anunciar novos produtos em eventos próprios ou mais focados. Faz sentido, dado que o volume de notícias numa CES é capaz de soterrar mesmo novidades que em outro contexto seriam o centro das atenções.
Apesar de não formarem uma categoria que instiga substituições recorrentes pelos consumidores, as TVs têm sido palco de muitas experimentações, novidades e promessas nos últimos anos. Da alta definição ao Ultra HD, algumas características se consolidam e ajudam a vender mais, outras são solenemente ignoradas pelo público.
A CES, que acontece todo mês de janeiro em Las Vegas, EUA, costuma antecipar tendências. Em 2014 não será diferente. A feira começa daqui a alguns dias e fabricantes grandes e pequenas prometem trazer novas telas de altíssima resolução e recheadas de novos recursos.
Associamos o fim do ano a várias coisas. Natal, família reunida, férias, viagem e… compras. Seja para representar o Papai Noel, seja para aproveitar o décimo terceiro, dezembro é sinônimo de compras e o comércio entra na onda com ofertas mais generosas — misturadas a algumas armadilhas.
Minha filosofia, pessoal e para o Manual do Usuário, é sempre ressaltar o custo/benefício. Não vejo muita vantagem em ter o melhor quando a situação não o exige. Claro, claro: não é o caso de se comprometer com equipamentos que não darão conta da demanda. O ponto é que nem sempre (quase nunca, na real) o gadget mais caro será o mais divertido, ou o mais útil.
Pensando nisso e nas compras de fim de ano que daqui até o dia 24 ficarão mais e mais frenéticas, surgiu a ideia de montar este guia de compras de smartphones, o gadget mais desejado e debatido do momento.
A intenção não é indicar modelos específicos*. O objetivo é dar explicações e orientações básicas para que você saiba o que está comprando, evitando levar um pepino para casa e ter aquela ressaca moral no dia 26.
* Mesmo com essa ressalva, no final deste artigo deixo algumas indicações.
Dia desses, na minha odisseia por um nano-SIM com plano pré-pago (é um martírio, acredite), pude observar como seres humanos comuns vão às compras nas lojas das operadoras. A menos que você esteja disposto a bancar um plano pós-pago, o simples fato de entrar em uma loja de operadora já se revela um erro. Os smartphones baratos não estão lá.
Mas relevemos esse detalhe. Durante a observação sociológica, notei um desconhecimento generalizado que, somado a atendentes que precisam bater metas de vendas, são mal preparados ou atuam com má vontade e que não se importam muito com o pós-venda, resultam em uma profusão de recomendações questionáveis de smartphones notadamente ruins.
Imagino que não seja esse o caso do leitor regular do Manual, então faça o favor de indicar este texto àquele parente ou amigo menos chegado em tecnologia. Ele irá agradecê-lo! E leia você também; de repente alguma dica bacana aparece e, tenho certeza, os seus comentários agregarão bastante às palavras escritas aqui em cima.
Delimite para avançar
Só de modelos da linha Galaxy, da Samsung, deve haver algumas dezenas inundando nosso mercado. A estratégia da fabricante sul-coreana é preencher todas as faixas de preços possíveis. Por um lado isso a ajuda a vender mais — não será por R$ 50 a mais ou a menos que alguém deixará de levar um Samsung para casa — e para mim foi uma mão na roda na hora de encontrar exemplos na redação deste artigo :-)
Para você, porém, é confusão na certa. Até eu, que acompanho de perto esse mercado, vez ou outra sou surpreendido. Como na vez em que uma amiga veio me contar, contente, do Galaxy Win Duos que havia comprado. Prazer, Galaxy Win Duos. Quem é você?
Em menor grau, toda fabricante repete essa estratégia Gremlins. Nos próximos tópicos veremos como evitar as ciladas e garimpar os modelos realmente legais. Antes de nos aprofundarmos, porém, é preciso definir dois parâmetros básicos: preço e sistema.
Foto: Rodrigo Ghedin.
Há smartphones que variam de R$ 200 a mais de R$ 3.000. A lógica vale aqui: você terá uma experiência melhor com os mais caros. Mas ela não é absoluta, ou seja, dá para encontrar bons modelos em camadas inferiores. (A minha recomendação absoluta hoje, por exemplo, fica em torno de R$ 1.000.) Não é preciso se endividar para ter um smartphone legal. E, hey, salvo algumas exceções, celular é um luxo, no máximo uma utilidade. Não vá se endividar para ficar vegetando no Candy Crush ou reclamando de falta de grana no Facebook!
Além do valor que você está disposto a gastar, o sistema operacional é outro fator de corte importante. Temos, hoje, alguns no mercado:
Os dois primeiros, Asha/S40 e Firefox OS, ficam restritos à ponta de baixo da tabela — são aparelhos baratos e humildes, bastante limitados em recursos. Na outra ponta está o iOS: é impossível encontrar um iPhone decente por menos de R$ 1.500. Quem fica cheio de dúvidas é aquele que quer um Android ou um Windows Phone. Se for o seu caso, não se assuste. Há uma luz no fim do túnel e eu mostro o caminho até ela.
Números não dizem tudo, mas falam um bocado
Sempre bato na tecla de que números e configurações têm mais importância do que deveria na hora de se escolher um bom smartphone. É a experiência que conta no fim. O discurso continua válido, sempre, mas há um piso para tudo isso de modo que alguns números mínimos devem ser observados.
A maioria dos brasileiros acha importante ter um bom processador no smartphone, mas pouquíssimos sabem qual está dentro do aparelho que carregam consigo. É uma situação meio bizarra, mas é bom que essa preocupação exista. Você não precisa saber o modelo exato, quantos giga hertz ou qual a GPU que equipa o seu smartphone. As próprias fabricantes, como Qualcomm e Samsung, facilitam a nossa vida com nomes comerciais — mais fáceis de gravar e que atestam a qualidade do conjunto.
Antes que alguém pergunte: não há um tópico para bateria. Com pequenos desvios, hoje todo smartphone dura, se muito, um dia longe da tomada. Essa característica é sempre um choque para quem vem de um celular mais simples, mas é a vida. Existem modelos que se destacam pela grande autonomia, como o RAZR MAXX, da Motorola, e o Honor, da Huawei. São modelos de meia idade e que, hoje, não valem a pena.
SoC: o processador — e mais algumas coisinhas
Já que estamos falando de SoCs, comecemos por eles. SoC é a sigla para System-on-a-Chip, ou seja, um chip que traz, embarcados, a maioria ou todos os componentes vitais para que um dispositivo móvel funcione. Processador, GPU, antenas e módulos como Bluetooth e GPS vêm, em geral, no SoC. São informações importantes, sim, mas que em sua quase totalidade acabam “traduzidas” no jargão marketeiro das fabricantes e operadoras.
A fabricante de SoCs ARM mais popular, hoje, é a Qualcomm. Ela produz a linha Snapdragon que equipa os smartphones mais poderosos dos universos Android e Windows Phone. A linha atual é composta pelos Snapdragon 200, 400, 600 e 800 e algumas variantes recentes, como as famílias 410 e 805; ainda existem alguns modelos respeitáveis com o S4 Pro, do ano passado. Considere a “nota de corte” o Snapdragon 400: dele para baixo, grandes são as chances de você se decepcionar com o desempenho.
Para situá-lo, veja o que alguns smartphones interessantes disponíveis hoje usam:
Se o smartphone desejado não usar um chip da Qualcomm, ele provavelmente cairá em uma das seguintes marcas/empresas:
Exynos, da Samsung: algumas variantes dos Galaxy S III, S 4, Note II e Note 3 usam o SoC da casa.
MTxxxx, da MediaTek: esta fabricante taiwanesa tem se destacado pela fabricação de bons chips a um custo muito baixo. Não por acaso, aparelhos pensados para bolsos sensíveis costumam trazê-lo embaixo do capô, como os RAZR D1 e D3,
Tegra, da NVIDIA: a última iteração, o Tegra 4, ainda não apareceu em um smartphone, só em tablets. A linha ficou um pouco queimada por, em versões anteriores, prometer muito e entregar pouco.
AX, da Apple: esses você só encontra nos iPhones. A versão mais atual é o A7, presente no iPhone 5s.
Atom, da Intel: rainha absoluta nos computadores, a Intel vem se esforçando para fincar sua bandeira no segmento móvel. Há poucos aparelhos com um SoC dela no mercado, sendo o mais bem sucedido até o momento o RAZR i, da Motorola.
Como escolher um bom SoC? Com ressalvas, a hierarquia dos modelos é um bom caminho. Existem diferenças entre Snapdragon 600 e 800, mas no dia a dia não é algo que se nota com facilidade. Mesmo o Snapdragon S4 Pro move aparelhos bem bons, como o Moto X, da Motorola. Essa trinca, somada ao Exynos 4 e 5, são o que o consumidor de olho em smartphones que não engasgam deve procurar.
Para quem está com restrições orçamentárias, o Snapdragon 400 e os MediaTek dual core são boas pedidas. Eles equipam o Moto G e o RAZR D3, respectivamente, dois modelos da Motorola que brilham no custo/benefício.
Memória? Quanto mais, melhor
Existem dois tipos de memória em um smatphone que devem ser alvos de atenção. A RAM é a memória que os apps e o sistema usam temporariamente. A memória interna é o espaço que “guarda” indefinidamente o próprio sistema, apps e dados do usuário — fotos, músicas, arquivos de texto e tudo mais que for gerado pelos apps.
Esta simpática animação dos anos 1990 conta como funciona um computador por dentro — os dois minutos iniciais. Para nosso intento, ela serve: repare, logo no começo, a distinção que o processador faz entre RAM (“sobe janela”, “abre o Internet Explorer”) e o HD (no nosso caso, a memória interna; outra tecnologia, a mesma finalidade):
Em questão de RAM, o mínimo aceitável no Android é 1 GB. Com 768 MB você se vira com algum sufoco ocasional em sessões mais intensivas com a abertura de múltiplos apps ao mesmo tempo. 512 MB? É fria. Talvez o Android 4.4 mude esse cenário, mas como não existe ainda no mercado Android de 512 MB com a última versão do Android, a dica segue válida neste final de 2013.
Para o Windows Phone, vale o mesmo. O sistema é mais fluído que o Android, o que significa que aparelhos com 512 MB de RAM, como o Lumia 520, não sofrem tanto quanto seus pares com o sistema do Google. Mas a limitação afeta a multitarefa e tem uma leve agravante: a restrição a determinados apps mais gastões na loja de apps. A Microsoft e os desenvolvedores se esforçam para otimizá-los, mas vez ou outra aparece um app que só roda em dispositivos com 1 GB de RAM.
Se você estiver de olho em um iPhone, Asha ou Firefox OS, RAM não deve ser motivo de preocupação porque… bem, porque não há escolha. Dos dois primeiros nem se sabe quanto trazem, mas suspeita-se que seja pouco pela (pretensa) leveza dos sistemas e por contenção de custos — memória custa caro. No iPhone, os modelos atualmente à venda vêm com 1 GB, com exceção do iPhone 4S, ainda comercializado, com 512 MB. Pela arquitetura e otimização que o iOS tem, são quantidades suficientes para se ter uma boa experiência, sem engasgos ou esperas intermitentes.
Em relação à memória interna, a variação é maior. Até o iPhone é oferecido em vários patamares, com preços bem salgados para apenas dobrar a memória disponível.
O mínimo que eu recomendaria, hoje, é 8 GB. No aperto, tendo que limpar fotos e música esporadicamente e se policiando quanto à instalação de apps e jogos. Com 16 GB já dá para viver com relativo conforto. Fartura mesmo é ter 32 GB ou mais, mas isso, só para bolsos abastados.
Uma saída para se ter memória sem ter que empenhar um rim no banco é apelar para cartões SD. A relação custo por mega byte é bem mais em conta. Problema? Nem todo aparelho oferece o slot correspondente. Atenha-se a esse detalhe se espaço for importante.
Tela: o que você vê (e o que não vê) é importante
À esquerda, tela do iPhone 3. À direita, tela Retina do iPhone 4. Fotos: Paul Hudson/Flickr.
Além de ser a interface entre você e o seu smartphone, a tela costuma determinar outra característica importante: o tamanho físico do gadget.
A variedade de tamanhos é generosa hoje, mas com uma ou outra exceção, telas menores significam configurações mais fracas. Quando a Samsung encolhe o Galaxy S 4 e acrescenta um “mini” ao seu nome, ela encolhe também a velocidade e a quantidade de memórias que vão nele. Telas muito pequenas, com cerca de 3 polegadas, significam smartphones ruins. Alguns Galaxy (Young Duos, Pocket), Xperia E, Optimus L3 II e L2 II… ultrapassam o tolerável. Não valem a pena, mesmo.
Existe algum pequeno poderoso? Sim, o iPhone, com tela de 4 polegadas e hardware capaz de fazer frente a qualquer outro smartphone disponível. Mas essa relação pouco usual cobra (bem!) seu preço. É um aparelho caro.
É de se notar, também, que o conceito de “grande” no universo móvel mudou um pouco nos últimos tempos. Hoje, graças a processos de construção mais precisos e bordas mais finas, smartphones com até 5 polegadas cabem sem sustos no bolso e podem ser manipulados com uma mão sem tanta dificuldade. Se tiver receio, vá a uma loja e mexa em um você mesmo, experimente-o no bolso (avise o atendente antes!), faça o teste. Acima disso temos os phablets e aí sim, com telas chegando a 6,8 polegadas, o risco de não caber em uma calça mais justa é real.
O tamanho da tela importa, mas a qualidade também. Veja a resolução, se for possível saber, descubra também a densidade de pixels da tela. Com qualquer coisa acima de 300 PPI você estará bem servido: nesse nível os pixels passam a ser indistinguíveis individualmente, o que se traduz em fontes mais suaves, menos fadiga ocular e mais beleza em fotos, vídeos e jogos. Aparelhos fisicamente grandes mas com resoluções baixas, como o Galaxy Grand Duos, da Samsung, são furadas.
À esquerda, a tela super saturada do Moto X. À direita, a sóbria do Nexus 4. Prefiro a segunda. Foto: Rodrigo Ghedin.
Indo mais a fundo, entramos em uma área com a qual me importo bastante e que, não raro, é esquecida: a tecnologia empregada no painel. Vale a pena o trabalho que dá para entendê-la se você se importa com detalhes.
É comum a utilização de painéis AMOLED, uma técnica com vantagens, mas que dentre as desvantagens satura bastante a tela — o preto é mais profundo e economiza energia, e as cores ficam mais vivas, mas fogem da realidade e sofrem com distorções estranhas, geralmente pendendo para o verde. Samsung e, em menor escala, Motorola são as que mais recorrem a ela. Há quem prefira essas telas saturadas e em modelos topo de linha, como o Galaxy S 4, os efeitos colaterais são bastante amenizados. De minha parte, fico com as mais neutras, mais fiéis à realidade, como as que a LG produz.
Muitos mega pixels não são sinônimo de câmera boa — mas podem ajudar
Por anos a indústria apostou no aumento dos mega pixels das câmeras para forçar os consumidores a atualizarem suas câmeras digitais. Demorou para cair a ficha de que a resolução é apenas parte da soma do que faz uma boa câmera. Sensor, conjunto de lentes, software de processamento e outros aspectos também contam.
Smartphones sofrem com uma limitação física: por serem pequenos e finos, não dá para colocar sensores muito grandes, ou lentes elaboradas ali. Há exceções, claro, e a primeira que vem à mente é o Lumia 1020, com um sensor enorme de 41 mega pixels. Fugindo à regra (e ajudado por aqueles outros aspectos que também contam), é a melhor câmera móvel do mercado, de longe.
Outras que merecem destaque são as dos Lumias 920 e 925, Xperia Z1, Galaxy S 4 e iPhone 5s. Todas muito boas, considerando serem de smartphones. Partindo dessas, a qualidade das câmeras em outros modelos cai junto com os preços.
Em aparelhos mid-range, vale a lógica dos melhores smartphones de um ou dois anos atrás: passam em situações com bastante luz natural, mas é preciso cautela em ambientes fechados e à noite. Nos abaixo dos R$ 800, esqueça: encare a câmera como um quebra-galho e nada mais para não se frustrar.
3G? 4G? Você vai mesmo precisar disso?
O último item numerológico da análise deve ser o padrão de conectividade, se o smartphone conversa com redes 3G ou 4G. A primeira tecnologia é bastante difundida, de modo que você só não a encontrará em modelos realmente simples, como o Asha 501, da Nokia. Em todos acima disso, é praticamente certo o suporte a redes 3G.
O 4G ainda engatinha, embora seja funcional em grandes centros e até algumas cidades do interior — em Maringá, Paraná, onde moro, a Vivo já oferece em algumas regiões-chave. Se você quiser usufruir da velocidade maior do 4G, é preciso ter um aparelho compatível.
O smartphone mais barato que compatível com redes 4G é o Lumia 625, da Nokia. Depois disso temos Moto X e Xperia SP, da Motorola e Sony, respectivamente. O Lumia 920 e 820, da Nokia, estão com preços bem convidativos devido à idade (foram lançados no começo do ano) e também são compatíveis. Praticamente todo topo de linha lançado nos últimos meses é certificado para o 4G nacional, como os novos iPhones, Galaxy S 4 (uma das variantes), Xperia Z1 e Z Ultra, Lumia 925 e 1020, BlackBerry Z10 e G2, da LG.
O campo minado das versões do Android
Android 2.3 em 2013 não dá! Foto: Rodrigo Ghedin.
Se naquele critério inicial você optou pelo Android, é preciso estender a análise para a versão que vem instalada no smartphone em vista.
A mais atual é a 4.4. Nenhum celular vendido hoje no Brasil sai de fábrica com ela, e apenas dois já ganharam atualização — Nexus 4 e Moto X. Essa versão é mais um aperfeiçoamento da linha Jelly Bean (4.1 a 4.3) do que uma totalmente nova; vem com recursos diferentes e muito úteis, como o discador inteligente e a centralização de serviços de armazenamento de arquivos na nuvem, mas não é primordial.
A dica? Não pegue nada anterior ao Android 4.1. Nessa versão o Google introduziu o Google Now, assistente pessoal pra lá de esperto, e o Project Butter, uma série de modificações internas que suavizaram o sistema. E não espere atualizações: com exceção de aparelhos de ponta, elas são raras. O mais comum é um smartphone nascer e morrer com a mesma versão do Android.
Não é muito difícil encontrar smartphones rodando Android 4.0 e, com um pouco mais de dificuldade, até o 2.3 Gingerbread. Fuja desses. Além do sistema defasado, diversos apps exigem no mínimo a versão 4.0 para rodar.
Calma que tem mais. Não bastasse a versão, o Android ainda traz outro “problema” na hora de escolher um smartphone: as skins das fabricantes. A natureza semi-aberta do sistema permite que Samsung, LG, Sony e outras modifiquem-no por inteiro. Isso significa que o Android como concebido pelo Google dificilmente é visto por aí. As variações são mais populares: temos o Android com TouchWiz (camada da Samsung), Optimus UI (LG), Sense UI (HTC) e Xperia UI (Sony).
Tenho uma opinião bem radical nesse ponto: nenhuma dessas modificações é boa. O Android puro é, de longe, a melhor experiência no sistema. E isso pesa, demais… Usar um Nexus e depois partir para um Galaxy ou Optimus é quase como usar dois sistemas distintos. Além da linha Nexus, que tem a bênção do Google no projeto e, por isso, vem com o Android livre de modificações, apenas a Motorola aposta em um sistema mais enxuto, mais limpo — as versões que equipam Moto X, Moto G e os RAZR D1 e D3 são acertadas, com algumas pequenas intervenções, todas bem felizes.
Nos EUA e em alguns poucos países onde o Google Play comercializa hardware existe a opção de comprar “Google Editions” de smartphones populares, como HTC One e Galaxy S 4. Elas extirpam o Android modificado das fabricantes e colocam, no lugar, a versão pura do sistema. Por aqui, ficamos na vontade.
No lado Microsoft, o Windows Phone se apresenta como o meio termo entre Android e iOS — o sistema da Apple atualiza uniformemente em todos os aparelhos a partir de uma mesma data. Com a Microsoft, as atualizações são garantidas, mas dependem do aval das operadoras em cada país. Esta página mostra o status da última, no caso, a Amber. Você espera um pouco mais, mas tem a certeza de que seu aparelho será atualizado, diferentemente do Android onde essa questão é sempre uma loteria.
Cuidado com cópias e marcas sem tradição
Ao longo do texto cito alguns aparelhos para exemplificar configurações e as dicas mostradas, todos de marcas conhecidas. Não que essas sejam as únicas confiáveis, mas elas têm a seu favor o uso por milhões de pessoas e anos de estrada. É mais provável que essas deem menos dor de cabeça do que uma marca obscura que compra equipamentos prontos da China e faz apenas o rebranding por aqui, certo?
Ainda não tive contato suficiente com as nacionais (Positivo, Gradiente e CCE, para ficar em algumas), nem com marcas menos tradicionais (ZTE, Alcatel one touch, Huawei) para indicar aparelhos delas com convicção. Dependendo do preço e das configurações, que a essa altura você já deve estar apto a interpretar, podem ser bom negócio.
“Smartphone estilo iPhone 5s” com screenshot do Android 1.6.
O que é sempre um mau negócio são as marcas piratas. Viu um smartphone que parece iPhone, mas roda Android? Fuja sem olhar para trás. Ainda que no papel as configurações pareçam boas, grandes são as chances de componentes de baixa qualidade terem sido usados e, com isso, que durabilidade e qualidade sejam pífias. Se a marca não respeita propriedade intelectual das outras, por que respeitaria o consumidor?
Onde comprar?
Quem tem plano pós-pago junto à operadora pode, de repente, conseguir algum desconto que compense na troca ou compra de um smartphone novo. No Brasil, porém, os planos pré são mais populares, o que nos leva para longe das lojas de Claro, Oi, TIM e Vivo.
O varejo vez ou outra coloca bons aparelhos em promoção. Sempre compare preços, usando ferramentas como Buscapé e JáCotei — essa última tem um gráfico bem interessante de variação de preços nos últimos seis meses. Os dois sites oferecem ainda alertas de preço, que avisam o consumidor quando determinado produto atinge o valor pré-definido por ele.
Variação de preço do Moto X, segundo o JáCotei.
Você pode arriscar no MercadoLivre e similares. O risco, nesses locais, é dar o azar de lidar com vendedores desonestos, ou encontrar dificuldades na hora de acionar a garantia ou resolver outros imprevistos. Nas lojas do varejo é tudo mais fácil e amparável juridicamente. Use o Buscapé e o JáCotei, somado ao Reclame Aqui, para encontrar as com boa reputação, que atendem com agilidade e resolvem as reclamações dos clientes.
Uma exceção a essa regra é a dos usados. Especialmente em se tratando de iPhone, cujo preço não costuma cair nas lojas, pode ser uma via interessante — o meu, um iPhone 5, é de segunda mão; bem conservado, com pouco tempo de uso e saiu bem mais barato do que um novo. Smartphones Android e Windows Phone desvalorizam rapidamente na loja, então pesquise com atenção caso opte por comprar um usado. Nem sempre a diferença de valor torna a compra de um usado melhor negócio que a de um novo.
Algumas indicações de smartphones
A essa altura você já deve estar pronto para escolher um bom smartphone. Se apesar do conhecimento adquirido você ainda não se sentir seguro na escolha, pesquise. Use os comentários abaixo, procure fóruns de discussão. Há alguns bons espalhados pela web e outros tantos escondidos nos grupos do Facebook e comunidades do Google+. Apenas tome cuidado com grupos focados; não adianta muito pedir indicação de um bom Windows Phone em uma comunidade de fãs do Android. Dar um grito no Twitter também pode ser eficaz.
Para dar aquele empurrãozinho, separei algumas indicações abaixo. Elas não são absolutas, nem compreendem todos os bons smartphones disponíveis no varejo nacional. Considere-as como ponta pés iniciais: depois de ler as minhas justificativas, vá atrás de uma segunda, terceira, quarta opinião. Sinta-se livre para debatê-las lá embaixo, nos comentários. Sempre, sempre busque conhecimento — o ET Bilu sabe o que fala!
O melhor: Moto X
Foto: Motorola/Reprodução.
O Moto X é a nova Motorola condensada em um dispositivo. É um smartphone bem acabado, recheado de recursos (4G, boa câmera, tela legal, boa autonomia, ergonomia nota dez) e supera as expectativas graças à profunda otimização e alguns truques exclusivos, como as notificações ativas e os núcleos auxiliares — de linguagem natural e computação contextual.
Ele vem com o Android quase puro (e, agora, atualizado) e as poucas intervenções da Motorola são grandes golaços, como o assistente de migração, o Assist e o software simplificado da câmera. É fácil encontrá-lo por R$ 1.000, um preço baratíssimo para tudo o que ele entrega. O custo-benefício é imbatível e, importante, não traz comprometimentos de carona.
Pelo conjunto da obra, o Moto X é a minha indicação para esse final de 2013.
Considere também:
Nexus 4: mesmo com mais de um ano nas costas ainda segura a onda bem e está em processo de desova no varejo há meses, o que significa preços inferiores a R$ 800.
Lumia 920: apesar do peso (é um chumbo) e do Windows Phone, tem aparecido em promoções muito boas, abaixo dos R$ 1.000, o que é uma pechincha e se explica pelo fim da produção do modelo no país.
iPhone 5s: se dinheiro não for problema, a última versão do smartphone da Apple é ligeira, tem uma câmera melhorada, sensor biométrico e o acervo infinito de apps que fazem a fama do iOS.
A melhor câmera: Lumia 1020
Foto: Nokia/Reprodução.
São 41 mega pixels bem utilizados pela câmera PureView do Windows Phone topo de linha da Nokia no Brasil, o Lumia 1020. O Windows Phone 8 ainda está um passo atrás do Android e do iOS, mas já oferece uma boa variedade de apps e vem amadurecendo rapidamente. Os apps de câmera, aliás, são encontrados aos montes e ajudam o usuário a fazer melhor uso do latifúndio de mega pixels disponível.
Não é o smartphone mais barato, nem o mais caro — o preço sugerido da Nokia é R$ 2.400, mas ele já chegou a R$ 1.900 em algumas lojas do varejo –, mas estamos falando da melhor câmera grudada em um smartphone que se pode comprar hoje.
Considere também:
Xperia Z1: o smartphone da Sony tem uma câmera de 20,7 mega pixels que, a exemplo do Nexus 5 (ainda indisponível no Brasil), também melhora com atualizações de firmware. O preço está na mesma faixa do Lumia 1020, mas as similaridades param por aí. Vem com Android, tela Full HD e tudo o que se pode esperar de um Android topo de linha hoje.
iPhone 5s: versão após versão é notável a melhora que as câmeras do iPhone apresentam. Na última, ela ficou mais rápida, sensor e aberturam aumentaram, um LED extra apareceu e as otimizações de software a deixaram capaz de tirar fotos ainda mais belas.
O melhor econômico: Moto G
Foto: Motorola/Reprodução.
O Moto G é intrigante. Com um hardware bem bom e preço de smartphone inferior, ele tem colhões para subverter o mercado. Antes dele, era difícil comprar algo digno de elogios por R$ 650. Não mais. Configurações atuais, desenho sóbrio e recursos que se não são os melhores do mundo, deixam os de smartphones da mesma categoria no chinelo, são a fórmula para se fazer um smartphone barato vencedor.
Considere também:
Lumia 625: se 4G for essencial para você, este Nokia é a opção mais em conta. Ele não tem configurações estelares; na realidade, elas são relativamente fracas. Mas chegando abaixo de R$ 700 em promoções pontuais do varejo, é a forma mais econômica de usufruir do 4G no Brasil.
O melhor para quem está no aperto: Lumia 520
Foto: Nokia/Reprodução.
Considerando o teto de R$ 500, o Lumia 520 é a melhor escolha. O Windows Phone é suave e o hardware fraco dos smartphones nessa faixa de preço não sente tanto seu peso. O acabamento é muito bom, chama a atenção e dá a sensação de que se trata de um aparelho de categoria superior.
Considere também:
RAZR D1: o valente smartphone da Motorola conta com suporte a TV digital, aceita dois SIM cards e, o que é mais importante, consegue domar o Android 4.1 (promessa de 4.4 para janeiro) com seu SoC MediaTek e 1 GB de RAM. A tela e a câmera são sofríveis, mas não dá para esperar muito.
Asha 501: quem tem R$ 250 na mão e a vontade de ter qualquer coisa melhor que um dumbphone de lanterninha, tem neste modelo de entrada da Nokia uma boa saída. Não tente forçá-lo a fazer muita coisa, o ideal é se contentar com os apps que vêm pré-instalados. Nesse termos, ele se comporta bem e consegue até impressionar em alguns pontos, como na sua bateria highlander. (Na última grande atualização o Asha 501 ganhou WhatsApp.)
Comprar um smartphone é um grande evento. Para a maioria dos que enxergam e fazem uso das possibilidades que esses aparelhos oferecem, ele se torna o gadget mais usado, aquele que está sempre por perto e a quem recorremos inúmeras vezes ao dia. Vale a pena pesquisar, se informar e tirar dúvidas antes de gastar algumas centenas de Reais em um.
Se as dicas acima não forem suficientes, ou se você ficou com alguma dúvida, não hesite em utilizar o espaço de comentários para esclarecimentos. Tem alguma dica extra, algo que faltou citar no post? Use o mesmo espaço para ajudar os outros.
Boas compras e lembre-se de visitar o Manual do Usuário no seu novo smartphone — o blog se adapta e fica lindão em telas pequenas :-)