Fundo azul, com uma chamada para um PlayStation 5 no centro. À esquerda, a frase “Ofertas de verdade, lojas seguras e os melhores preços da internet.” À direita, “Baixe o app do Promobit”.

O tempo é curto

O Spritz promete acelerar a leitura a até 700 palavras por minuto.

Publicado originalmente na Revista Benedito #3.

O conto não é muito apreciado pelo mercado editorial. Há um estranho eco entre editores: “Conto não vende”. Entretanto, esta forma literária comumente desprezada vive um momento áureo. Evidências disso não faltam: em 2013, Lydia Davis, escritora norte-americana mais conhecida por seus textos curtos, venceu o tradicional Man Booker International Prize; em 2014, a contista canadense Alice Munro levou o Prêmio Nobel de Literatura. A popularidade se mostra também em número: a venda de contos no Reino Unido cresceu 35% em 2013, de acordo com a revista The Bookseller, publicação especializada no mercado literário da região. O Telegraph percebeu este cenário e publicou um artigo enfático: devido à brevidade da narrativa, o conto é perfeito para os leitores impacientes deste século.

Na mesma semana em que o artigo foi publicado, o Spritz voltou a ser pauta de alguns veículos. Trata-se um aplicativo que promete fazer uma revolução na forma de ler: ao contrário da forma “convencional” de leitura, em que olho percorre o texto, o Spritz permite que o globo ocular fique parado, enquanto até 700 palavras por minuto passam diante dele. A imprensa voltou a dar atenção ao aplicativo depois que a Samsung anunciou que ele viria pré-carregado no novo Galaxy S5: a Popular Mechanics entrevistou um especialista em cognição visual para saber o que era verdade e o que era balela; a FastCompany se sustentou em pesquisa acadêmica para demonstrar os riscos de leitores dinâmicos; Marcelo Coelho, na Folha de S.Paulo, se mostrou cético quanto à eficácia do aplicativo.

As duas notícias — sobre o momento do conto na literatura e sobre o Spritz — não se relacionam diretamente, mas ambas expõem o fato de que não temos paciência para a leitura.

Parte do problema é que, hoje, somos tão seduzidos pela distração que não conseguimos mais dissociá-la de uma atividade que demande concentração. Pois ler não é passar os olhos sobre palavras, mas sim o exercício de criar ligações cognitivas baseando-se nos signos. As palavras em si nada significam: elas ganham alma apenas quando nós conseguimos, a partir delas, criar mundos na mente.

Sobretudo na literatura.

É louvável o fato de, hoje, termos o conto devidamente apreciado — eu mesmo comecei a ler e escrever histórias por meio do conto —, mas qual o real valor disso, se apenas pela sua brevidade é que o consumimos? Significa que estamos perdendo o fôlego para apreciar romances extensos?

Talvez. Will Self, ao decretar a morte do romance no Guardian, justifica o óbito: “A marca da nossa cultura contemporânea é uma resistência ativa à dificuldade em todas as suas manifestações estéticas”, afirma. Ele tem razão quanto à “resistência ativa à dificuldade”, e um exemplo claro disso é o recente empenho conjunto (pois à escritora Patrícia Secco somou-se o governo, que permitiu o financiamento) de se simplificar clássicos da nossa literatura. Estava muito difícil ler Machado de Assis.

Tenho ressalvas quanto à morte do romance — é debate que se arrasta desde Júlio Verne, que instigou teorias literárias e que parece não ter fim —, pois acredito que ele há de sobreviver à crise da falta de atenção (ainda que, para isso, tenha de se ligar mais ao marketing que à arte, o que seria horrível).

O problema, contudo, não é a sobrevivência ou a extinção do romance, e sim a nossa atenção. A atenção desta geração que parece abraçar forte o déficit de atenção e a hiperatividade. Hoje, se você se dedicar a uma tarefa de cada vez, você é um estranho.

Sabemos que ler toma tempo. E tempo é algo que não temos. E não temos porque desperdiçamos mais e mais segundos com meras distrações. O ser humano é basicamente um ser de desperdícios. Temos interesse no acúmulo e queremos mais de tudo; mas, no final das contas, somos apenas um e não temos como consumir tudo. Queremos tudo porque somos finitos. As coisas não acabam; nós, sim. Mas esta é uma divagação para um possível romance — que você provavelmente não vai ler.


Nota do editor: O texto acima foi escrito pelo jornalista Rodolfo Viana em sua nova newsletter literária, a Revista Benedito. Toda segunda ele manda um e-mail com reflexões sobre livros e o mercado editorial. Este abaixo, da terceira edição, casa com algumas questões já levantadas no Manual e por isso achei válido republicá-lo aqui. Ao Rodolfo, reitero os parabéns pela iniciativa; a você, leitor, deixo o convite para assinar a Benedito — é de graça e é muito boa.

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2 comentários

  1. A literatura, a invenção da escrita e da leitura foi uma forma de acelerar o tempo também. A questão do imediatismo, ao meu ver, não é tão negativa. Afinal, queremos como seres viventes ver o resultado daqui que fazemos o quanto antes. Criamos equipamentos, meios e mensagens que agilizam as coisas, que fazem o que antes demorava-se até séculos a se fazer. A escrita agilizou a informação de forma que ficou mais rápido e confiável passar uma mensagem para milhares de pessoas sem uma alteração na forma da mesma (apenas porém dependendo da interpretação individual para o entendimento da mesma). A prensa de papel, invenção de chineses e ingleses, simplesmente popularizou a informação, disseminou e agilizou a leitura, antes restritas à bibliotecas e locais seguros.

    Precisamos de um freio nisso? Talvez. Não sei responder. Teríamos que mudar muitos conceitos internos que vieram nestes últimos tempos, e que vieram “naturalmente”. A adoção da internet, e com consequência, de sistemas de comunicação mais ágeis e imediatos é a mais notória delas. E o incentivo para leitura dinâmica e ágil mostra que realmente as pessoas querem que outras leiam e interprete rapidamente qualquer informação repassada.

    E como produzir conteúdo para internet é uma forma de monetização, de rentabilidade para escritores em geral, dos jornalistas até os romancistas/roteiristas, então o senso de imediatismo se faz necessário pois para cada matéria lida, para cada conto visto, para cada “matéria com título chamativo”, são centavos que pingam na conta do dono da matéria, caso o mesmo opte por cobrar usando um paywall, um anúncio ou outras formas de cobrança.

    Antigamente Machado de Assis escreveu diversos contos e textos. Posso estar errado em levantar esta visão, mas será que ele não fizera isto visando lucro? Não só Machado, mas muitos escritores da época rentabilizavam vendendo livros, estes nas quais as pessoas gastavam um tempo para ler. Mais rápido do que ouvir o conto dos antepassados, diga-se de passagem.

    Eu (talvez neste primeiro momento) não faria uso de um sistema de leitura dinâmica assim. Minha condição mental sinaliza que não tenho capacidade para tal.

  2. Muito bom o texto, mesmo. Mas acho que sou excessão. Gosto muito de ler (embora ninguém na minha família tenha o hábito). E calhamaços não me intimidam. Balzac, Dostoiévski, Garcia Marquez. O que cair nas minhas mãos eu leio (ou não). Mas confesso que esse ano li muito pouco, desperdicei tempo com coisas não tão importantes. E que tenho me interessado cada vez mais por leituras breves. É o mal do nosso tempo.

    P.S Fugindo total do assunto: Qual nome da música que você usou do podcast 40, Gedhin?

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