Você Não é Tão Esperto Quanto Pensa, de David McRaney

Montagem com a capa do livro Você Não é Tão Esperto Quanto Pensa.

Todos nos achamos únicos, mesmo cientes de que essa é uma contradição em termos. Como não dá para abrir a cabeça de alguém e constatar que, hey, somos mesmo mais parecidos do que aparentamos, vivesse com essa frágil constatação. E isso vai além de gostos, atitudes e ações pensadas. Na verdade, o que nos aproxima e nos nivela como seres humanos é mais o subconsciente, aquelas coisas que não têm uma explicação convincente. É isso o que nos conecta. Se duvida, dê uma lida no livro Você Não é Tão Esperto Quanto Pensa, de David McRaney.

Além de revelador, o livro pode ter outro efeito, o de conformismo ante as (agora sabidas) certezas veladas da vida. Ou, como alguém escreveu a respeito, oferecer “um pouco de conforto a almas decepcionadas,” já que certas situações, de acordo com McRaney, dificilmente são superadas. Não é como se fôssemos robôs programados para agir de tal forma em dadas situações, tipo uma condicional sem margem para desvios; a ideia que o livro apresenta é a de que, na média, apesar de nos acharmos únicos temos comportamentos incrivelmente padronizados que, muitas vezes, nos escapam da lógica, ou do racional.

Nesse sentido, é reconfortante saber que não, não sou só eu que deixo as coisas para a última hora. A procrastinação tem raízes históricas e uma explicação psicológica bem plausível — embora, como nos dizem o chefe e o professor, invocá-la ante atrasos na entrega de trabalhos não seja uma ideia das melhores.

Além da procrastinação, outros comportamentos abordados são o viés da confirmação, o efeito espectador (o que nos paralisa quando, em grupo, vemos alguém que precisa de ajuda), apofenia (acreditar que “coincidências” têm algum significado) e a validação subjetiva (aquele ceticismo em relação a generalidades que todos achamos ter). Sem falar em coisas mais mundanas, como introspecção, conformismo e expectativa.

Ao longo do livro, que se divide em 48 capítulos/características, vários deles evidenciam o jogo de cintura do nosso cérebro. Foi justamente essa a ideia que mais me chamou a atenção, a de como a nossa mente é falha e, ao mesmo tempo, como ela supre um punhado de lacunas para dar algum sentido ao raciocínio e, em âmbito maior, à nossa própria existência.

É o caso da confabulação, quando seu cérebro preenche, por conta própria, lacunas de uma lembrança. Quando você diz que tem certeza que usou uma camiseta amarela naquele show do dia tal há uns dois anos, seu cérebro talvez esteja suprindo uma lacuna e faz isso com tanta força que, mesmo que que ela fosse na verdade verde, você acredita que era amarela até que uma prova irrefutável, como uma foto, seja apresentada. Mentimos sem saber e acreditamos sinceramente que estamos dizendo a verdade. Nosso cérebro preenche os espaços vazios com coisas que, na prática, não aconteceram e nos agarramos a essas narrativas, acreditamos nelas.

“Você ignora o quanto é ignorante,” diz McRaney a certa altura.

Cada capítulo é uma desilusão do ser humano. Eles começam com a “certeza” e a realidade do traço de que tratam e são, no geral, curtos e bem interessantes. Abordam religião, misticismo, coincidências, sentimentos e emoções, reações que de fora parecem estúpidas, mas que nas quais a maioria incorre quando se vê na mesma situação. Um punhado de coisas que você pensa e como você pensa é desconstruída por David McRaney, sempre amparado por estudos científicos. É uma leitura interessante que o leva a concluir, por si próprio e dolorosamente, que você não é tão esperto quanto pensa que é. Se serve de consolo, ninguém é.


Li este livro, no original em inglês, há quase três anos. Enquanto pesquisava a confirmação de viés para escrever aquele post sobre o Facebook, descobri que em 2013 a Editora Leya trouxe ao Brasil a versão traduzida dele, então “reciclei” uma crítica que escrevi na época e agora a republico aqui, no Manual.

Capa do livro Você Não é Tão Esperto Quanto Pensa, de David McRaney.

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3 comentários

  1. Estava procurando algo sobre esse livro e cai no manualdousuario, que bom!
    Site está bombando.

  2. Pqp!!! acabei de compartilhar(facebook) uma entrevista/artigo David MacRaney da super interessante que estava no meu favoritos. Qdo abri agora meu feedly com vários links, acabo de ver esse post do mesmo tema. Exemplo claro de viés da confirmação com fator coincidência, será?!

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