Tablets para crianças: apesar das dúvidas, eles podem auxiliar o aprendizado

Tablets para crianças.
Foto: Byron P/Flickr.

Não é muito difícil encontrar um adulto com filhos que exalte a desenvoltura da prole com celulares e computadores, geralmente usando adjetivos exagerados como “gênio” ou “hacker”. Sem ter o cérebro condicionado pelo passado, as gerações mais novas, de nativos digitais, adotam essas novas tecnologias intuitivas de maneira bastante natural. Entre facilidade e utilidade, porém, pode haver um grande buraco. Tablets fazem bem para as crianças?

O assunto voltou à tona com a divulgação dos resultados de uma nova pesquisa, feita nos EUA, pela Common Sense Media. A primeira, de 2011, foi muito usada para embasar argumentações pró e contra o uso de tablets por crianças nos últimos dois anos. Os novos números, revelados mês passado, mostram que tablets e smartphones estão ainda mais populares entre esse público que ainda não sabe escrever, mas que aprende muito fácil e adora telas que respondem a toques.

  • O número de crianças menores de oito anos que tiveram algum contato com dispositivos móveis (tablets, smartphones) dobrou entre 2011 e 2013.
  • O número de crianças que têm em suas casa um tablet (dos pais ou próprio) mais que quadruplicou no mesmo intervalo — de 8% em 2011, foi para 40% em 2013.
  • O tempo diário médio gasto por elas triplicou, chegando a 15 minutos em 2013. Foi o único número temporal que subiu nesse intervalo. As outras telas (TV, video game, DVD e computadores) tiveram reduções no tempo gasto — ainda assim a TV continua líder absoluta na preferência dos pequenos.
  • Entre bebês com menos de dois anos, o salto no uso foi grande: 38% interagem com tablets, em relação a 10% na primeira pesquisa. 7% das crianças têm seus próprios tablets.

São números fascinantes (o relatório completo da pesquisa pode ser lido online) e, ainda que restritos ao mercado norte-americano, antecipam uma tendência que deve se espalhar para outros locais. O mais importante, porém, é se e como essas mudanças de comportamento afetam o desenvolvimento das crianças. Afinal, tablet para criança faz mal ou ajuda no desenvolvimento das suas capacidades?

Tablets e crianças, uma combinação potencialmente positiva

XO Tablet, do OLPC.
XO Tablet, o tablet educacional de Nicholas Negroponte. Foto: Wayan Vota/Flickr.

Dar um tablet a uma criança pode ser encarado como o equivalente do século XXI a colocá-las em frente à TV: os pequenos ficam entretidos, dão um sossego para os pais cansados e, de quebra, podem aprender alguma coisa enquanto se divertem.

Só que o tablet é uma janela muito mais ampla e atraente do que uma coleção limitada de DVDs ou a programação matutina das emissoras de TV. Se até hoje se discute como conciliar a TV com os primeiros anos de vida de um ser humano, ou se o video game é uma má influência na formação de uma pessoa, o que dizer de uma polêmica que se instaurou há menos de três anos, ainda tão nova e misteriosa?

Criança usando um tablet educacional.
Foto: Wayan Vota/Flickr.

Talvez por ser tão recente, o assunto está longe de chegar a um consenso. Os que são pró-tablets dizem que apps educacionais favorecem o aprendizado e que algumas temáticas mais complicadas de serem ensinadas por métodos convencionais se beneficiam das peculiaridades desses equipamentos. Jacqueline Cappellano, coordenadora de uma escola infantil em São Paulo, disse à Folha que “um conteúdo que você não consiga atingir por meio de uma estratégia dentro da sala de aula, usando material concreto, consegue que a criança entenda por meio da tecnologia”.

A proibição parece uma medida extrema que corre o risco de cair naquela ideia, quase sempre acertada, de que os extremos são perigosos. Não é como se o tablet fosse a encarnação do mal para uma criança e, sejamos francos, cedo ou tarde elas terão contato com a tecnologia. Sendo assim, não é melhor tê-lo em casa, sob a supervisão dos pais em um ambiente controlado?

O mapa do tesouro — ou as dicas de ouro — dos tablets para crianças

Tablets para crianças.
Foto: Arne Kuilman/Flickr.

Vários especialistas são favoráveis aos tablets para crianças, mas com ressalvas. De todos os cuidados, três são listados recorrentemente como imprescindíveis: ter apps adequados, monitorar constantemente o uso e limitar o tempo destinado ao tablet.

O mercado de apps e jogos móveis encoraja compras impulsivas, desafios desnivelados e itens chamativos, tudo para direcionar o usuário à compra de itens dentro deles. Esses, de pronto, não devem figurar uma lista de apps infantis. Mesmo os que se dizem estar nessa categoria precisam ser analisados previamente — nem sempre o conteúdo corresponde às promessas da embalagem.

Na mesma reportagem da Folha, Christine Bruder, diretora da Primetime, escola também de São Paulo que atende crianças de até três anos, comentou o trabalho que foi chegar a apps lapidados para crianças:

“Até os três anos, eles aprendem pondo a mão na massa, vivendo, experimentando, com liberdade. E muitos aplicativos fechavam o bebê em ‘aperte aqui’, ‘aperte agora’, incentivando a rapidez dos movimentos ou queriam ensinar a criança a ler, a reconhecer letras, números. Demorei tempo para achar conteúdo que fizesse sentido para apresentar a um bebê.”

Existem alguns apps exemplares, como os da Toca Boca, mas é preciso garimpar bem a App Store para encontrar outros bons exemplos. O auxílio do adulto vai além dessa fase de preparação; é preciso estar presente para guiar e dividir as descobertas dos pequenos. Como disse Jim Steyer, diretor executivo da Common Sense Media, ao Estadão:

“Tablets podem ser excelentes ferramentas educativas, mas não devem ser usadas como babás eletrônicas. Tanto o conteúdo, como o tempo de uso, devem ser vigiados de perto.”

O monitoramento se relaciona intimamente com o tempo que é permitido às crianças para brincarem com iPads. Deve ser complicado fazer esse controle se elas são “donas” do tablet, um cenário não tão alienígena nos EUA como a realidade brasileira e de outros países nos faz supor, e que mesmo aqui dá sinais de força — a tendência dos tablets de verdade para esse público, não aquelas calculadoras gigantes da Xuxa/Hot Wheells, é forte entre as fabricantes nacionais. De qualquer forma, sendo propriedade da criança ou não, recomenda-se limitar o uso diário do tablet.

Um desafio (e pessoas) em formação

Três crianças brincando em um tablet.
Foto: Eric Peacock/Flickr.

O iPad abriu a era dos tablets modernos no começo de 2011. Estamos falando do impacto de uma tecnologia super recente em pessoas tão ou mais recentes que ela. Ben Worthen, em matéria no Wall Street Journal, compara crianças munidas de iPads a cobaias:

“De muitas maneiras, uma criança pequena que usa um iPad é uma cobaia. Embora o iPad tenha sido posto à venda há dois anos, estudos científicos rigorosos sobre a maneira como um dispositivo desse tipo afeta o desenvolvimento da criança geralmente levam de três a cinco anos.”

Algumas instituições desse campo se lançam com recomendações estritas. A Academia Americana de Pediatria desencoraja quaisquer tipos de telas para menores de dois anos, por exemplo. Se isso é certo? Difícil dizer com certeza. Faltam estudos sobre os impactos do uso de tablet por crianças nessa faixa etária, e não só os educacionais: o uso dele piora o desenvolvimento das aptidões sociais? Atrapalha o convívio familiar? Incentiva o sedentarismo? Atrofia a criatividade?

Há muita experimentação rolando, pesquisas sendo feitas e apps, bons e ruins, nas lojas. O tablet pode ser um punhado de coisas, incluindo um poderoso auxiliar do aprendizado. Como diz Bruna Figueiredo Elias, do Colégio Brasil Canadá, em São Paulo, “As atividades com tablet não podem substituir explicações do professor; as brincadeiras com tablets não podem e não devem substituir as entre as crianças; o contato físico com amigos reais é mais importante — e imprescindível”.

Substituir todas essas atividades por um tablet está fora de cogitação. Ignorar a sua existência, também. A grande dúvida, que só o tempo e muito estudo poderão responder, é em que medida podemos deixar ele entrar na vida dos pequenos para que seus efeitos positivos sejam sentidos e os negativos, minimizados.

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13 comentários

  1. Se usar sempre faz mal, existem pesquisas que mostram que a criança fica Sem atenção as que usam Muito tablet ou smartphone. E pode atrapalhar o desenvolvimento do Cerebro.

  2. Saudações Ghedin,

    Nem me lembro quando conheci o Manual do Usuário, mas foi através do podcast. Fiz uma mini maratona, ouvi todos e agora estou em dia (o fato de terem poucos ajudou muito. A propósito, não era pra ter saído o podcast 25?).

    Enfim, depois de ouvir os podcasts (abaixados via RSS), entrei também no site e gostei muito dos posts. Continue nessa linha mais voltada à análise e reflexão.

    Parabéns pelo trabalho!

    Sobre tablets e crianças é realmente uma questão complicada para qual acredito que não haja respostas. A princípio, acho que basta o equilíbrio. Nem proibir ou evitar o uso, nem permitir o uso indiscriminado. Eu tenho 3 filhos: um menino de 11 anos, uma menina de 8 anos e um menino de 7 anos. Eles já nasceram na vida conectada e é engraçado como eles demonstram isso no dia-a-dia. Há uns dois anos atrás (quando tinham 9, 7 e 6 anos) o meu filho mais velho me perguntou se tubarão comia tubarão. Eu respondi que não sabia e a minha filha (na época com 7 anos, é bom lembrar), disparou sem hesitar: “vamos ver no Google”.

    Hoje eles tem seus próprios computadores e tablets, e apesar de terem muitos brinquedos, é inegável que os gadgets tem a preferência disparada dos pequenos. E sabem usar muito bem e transitam entre os sistemas com naturalidade. Os computadores são dois Windows (versões diferentes) e um Ubuntu. E os tablets, apesar de serem 3 androids, são de fabricantes diferentes, versões do Android diferentes e customizações dos fabricantes diferentes. Mesmo assim, os 3 usam todos os computadores e todos os tablets com uma naturalidade que impressiona.

    1. Fico contente em saber que está acompanhando e gostando do Manual, Rogério :-)

      Esse “vamos ver no Google” está enraizado, né? Minha irmã, no alto dos seus 24 anos — e de muita teimosia –, nunca deixa uma dúvida passar. É até interessante ver como o Google mudou a dinâmica do conhecimento de boteco: antes, ficávamos um tempão debatendo dúvidas, agora basta uma olhada no Google para (em tese) se chegar à resposta. O que não é ruim, é apenas curioso.

      Não sei dizer bem o motivo, mas a minha suspeita é de que as crianças se dão tão bem com dispositivos móveis porque elas não tentam traçar paralelos com coisas antigas e não têm medo de errar. Uma pessoa que aprendeu a digitar em uma máquina de escrever, por exemplo, vê semelhanças entre ela e um computador. Para uma criança, um computador é um computador, ponto final. Elas assimilam muito bem o marketing (acertado) das fabricantes de que é tudo fácil de usar.

  3. Pois é… eu tenho dois filhos de 2 anos e eventualmente deixo eles mexerem no meu tablet para brincarem, um app essencial para que essa interação se dê livre de riscos para mim é o Xooloo (https://play.google.com/store/apps/details?id=com.xooloo.kids&hl=pt_BR ) ele limita o uso apenas ao que liberar pra criança, com controle de tempo (para um dia mais a frente quando puder deixar mesmo sem medo na mão deles) e diversas coisas que são interessantes (inclusive não há como comprar coisas na play store, mesmo in-apps) é algo que recomendo para todo pai/mãe que pretende entregar seu celular/tablet android na mão de uma criança, pois permite controle total do que a criança acessa.

    Acho que proibir não é o caminho, limitar funciona com qualquer coisa, minha pequena já visualiza fotos (passando entre elas), utiliza o zoom de pinça e brinca com os apps infantis com uma facilidade incrível (o menino ainda não pegou o jeito com a coisa) desde um ano e meio eu acho. E toda tecnologia pode ser usada para o aprendizado das crianças, o ideal é tornar tudo nosso aliado, já que é natural a criança ser curiosa com o que utilizamos, então não custa nada usar essa curiosidade como aliado na educação (e até entretenimento). O problema seria o mau uso ou o uso descontrolado, internet e pr0n a 2 cliques da criança é um problema grave de nossa internet. Então tudo reside no bom uso e no controle.

    Ghedin, parabéns pelos textos, estou acompanhando todos e acompanho sempre o podcast, estão sempre num ótimo nivel! :)

    1. Ótimo indicação de app esse Xooloo, Thales! É um recurso que deveria vir nativamente no sistema — o Windows Phone tem algo feito com foco em crianças, e o iOS permite desabilitar algumas funções/apps do sistema pelas configurações.

  4. Gostei da abordagem do texto, se eu fosse pai ficaria perdido em como lidar com essa crescente de tecnologia. Até os adultos sofrem com isso, imagine as crianças tão suscetíveis aos encantos da tecnologia.

    Os games é outro assunto interessante. Sempre vejo as pessoas jovens descartarem seus possíveis efeitos negativos de forma irônica como se fosse a maior baboseira do mundo. Eu até acho que não há problemas, somos bombardeados de violência há muito tempo através dos filmes e televisão, mas devemos apoiar estudos sérios sobre o assunto. Afinal, a ciência serve para verificar se o senso está correto ou não.

    1. Ser pai é um negócio insano. Fico surpreso como tanta gente entra nessa sem ponderar o trabalho que é. Enfim, outro debate.

      Quanto aos jogos, acredito que atentar à classificação etária deles seja um bom primeiro passo. Estar presente, também. Quando um jogo interfere no psicológico de uma pessoa, ele é um sintoma, não a causa — há problemas anteriores a ele que devem ser tratados, não é o jogo em si que deve ser eliminado.

  5. Rodrigo, parabéns pelo post!

    Acompanho o “Manual do Usuário” via RSS utilizando o Feedly, porém, conhecia seu trabalho ao longo desses anos frente a sites como Gizmodo e outros semelhantes. Você – talvez por sua formação acadêmica, tem facilidade para usar bem as palavras e expor as ideias de forma simples e objetiva.

    Quanto a este post, uma sugestão é que fosse incorporada uma lista de recomendações de aplicativos educacionais para crianças. No meu caso, que tenho criança em casa e que é aficionada por tecnologia, será uma ótima pedida.

    Vou dar o pontapé inicial: tem um app bem bacana e nacional chamado “Primeiras Palavras”, que é um jogo que a criança vê uma imagem de alguma coisa do seu dia a dia, e embaixo tem 3 letras, ela deve pressionar sobre a letra correspondente à imagem que está sendo exibida, além dela também ouvir a pronúncia da palavra. É gratuito, e está disponível para Android no PlayStore.

    Grande abraço!

    1. Obrigado, Tiago!

      Fico um pouco receoso de compartilhar os apps que baixei para minha afilhada (5 anos, usa o iPad desde os 3) porque não sou pedagogo, nem psicólogo, e essas escolhas foram feitas meio ao acaso. Mas já que perguntou, vamos lá!

      * ABC da Abelhinha
      * Paper Monsters (o jogo favorito dela)
      * Fairy Tales (o primeiro da Toca Boca que ela usou; curtiu muito, vou comprar outros)
      * Mirror’s Edge (esse eu nunca entendi por que ela curte tanto, mas é um dos que ela mais joga)
      * Rayman Jungle Run
      * Awesome Eats (para crianças mais velhas, já que exige agilidade e destreza)

      Tem mais alguns apps desses de vestir os bonecos de que não me lembro — restaurei o iOS e ainda não baixei todos novamente. Nessa categoria, só tome cuidado com os que trazem muitos itens compráveis (via in-app purchases). Tendo a evitar apps desse tipo.

  6. Bem interessante o texto. Esse é um assunto que de tempos em tempos retorna, mas não vejo um fim nisso. Como você mesmo comenta no artigo, até hoje não sabemos direto como usar a TV ou um computador de forma construtiva com uma criança, o que dirá um tablet.

    Outra coisa que poderia impressionar é a força do produto da Apple. Hoje não são muitos, na verdade imagino que quase nenhum, aplicativo assim seja encontrados na Play Store. A App Store e o iPad tem domínio total sobre o mercado infantil. Como usuário Android e apreciador de boa concorrência vejo isso de maneira negativa, a Google deveria investir mais em aplicativos especiais tablets e também nessa fatia de mercado.

    1. Até tem apps para crianças no Android, mas a oferta no iPad é mais generosa e, em termos gerais, de melhor qualidade. A Apple foi esperta em posicionar o iPad como uma ferramenta versátil também para crianças e adolescentes — apps que auxiliam no aprendizado e a área de livros didáticos da iBookstore são bons exemplos desse investimento.

  7. Olá Rodrigo Ghedin,

    Parabéns pelo excelente post em seu blog, estou gostando dos posts, isto pelo fato de você aprofundar bastante no assunto e destacar pontos importantes que nenhum outro blog faz.

    Abraço!
    Atenciosamente,
    Juan de Souza.

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