A escova de dentes elétrica, um ano depois
O homem capitalista tem a tendência a complexificar (e cobrar por) tudo ao seu redor. Você quer correr em 2026? Compre o tênis X, tome whey todo dia, inscreva-se e pague para correr com outras pessoas e receber uma banana e uma medalha de latão na linha de chegada.
Durante muito tempo, encarei a escova de dentes elétrica como um desses progressos de baixo retorno, quase inúteis, mesmo sem jamais ter usado uma. Não ajudava que, até poucos anos atrás, fosse um objeto que via somente em filmes e séries estadunidenses, um dos países líderes em inventar bugigangas dispensáveis.
Há cerca de um ano, em meados de 2025, comprei uma escova do tipo. Não lembro se influenciado por algo que li (provável), apenas que o preço me pareceu aceitável para dar uma chance à conveniência.
Optei pela Xiaomi Mijia T100, modelo mais básico da fabricante chinesa. Em uso, ela vibra o equivalente a 16.500 rotações por minuto, o que a coloca entre as mais lentas do mercado. Existem escovas ultrassônicas, alimentadas por cristais de piezoeletricidade, capazes de movimentos muito mais rápidos, na casa dos milhões por minuto!
A Mijia T100 é, além de simples, um projeto antigo. A porta para recarregar a bateria é a velha microUSB e a escova não tem Bluetooth para se conectar ao aplicativo Mi Home que, segundo a Xiaomi, “reconhece os movimentos e te avisa via aplicativo” a fim de corrigir a movimentos incorretos. Não me entenda mal: encaro a ausência de Bluetooth como vantagem.
***
A ação de uma escova elétrica sônica é idêntica à de uma convencional (ou “manual”), ou seja, a fricção mecânica das cerdas nos dentes e gengiva. Só que mais fácil. Sim, eu sei, escovar os dentes está longe de ser uma tarefa extenuante. Os problemas, pelo menos para mim, sempre foram manter um padrão de escovação e dosar a força aplicada à escova.
Ao contrário do que muita gente acredita, a escovação correta se dá com movimentos suaves, sem aplicar força à escova. Se as cerdas da sua esgarçam em dois ou três meses, é sinal de força excessiva, o que não piora a higiene e ainda machuca as gengivas. Em casos mais graves, causam recessão das gengivas, expondo a raiz dos dentes, provocando dores e desconforto.
A elétrica mitiga ou elimina esse risco. Basta segurar levemente a escova e encostar as cerdas na base dos dentes, junto à gengiva, e deixar ela fazer o trabalho. A vibração das cerdas remove a sujeira e, mais importante, sem danos colaterais.
É tão sutil que, nos primeiros dias, preocupei-me se ela estava limpando direito. Com o tempo, acostumei com a sua sutileza e tive a certeza de que estava funcionando após a limpeza anual dos dentes.
A dentista que me atendeu disse que a higiene estava boa e só pediu que eu desse mais atenção à base dos dentes da frente, de baixo, e aos últimos ao fundo, também na parte inferior. Não por acaso, são regiões mais difíceis de alcançar, apertadas pelo lábio inferior e as bochechas. Nada grave, porém. Notei que, de fato, chegar a esses locais demanda atenção.
A parte de trás dos dentes de baixo, que sempre me valia um puxão de orelha da dentista até começar a usar uma escova elétrica, estava limpinha.
Outra característica legal da escova elétrica é o temporizador embutido. Cada escovação demora exatos dois minutos, 30 segundos para cada quadrante da arcada dentária. (E mais alguns segundos depois para escovar a língua, aí manualmente.) É uma proteção da boa higiene contra a preguiça ou pressa. Viva a padronização!
A Xiaomi afirma que “com apenas 4 horas de carga você utiliza a T100 por até 30 dias”, o que não comprovei na prática. Uma carga completa rende entre sete e oito dias de uso, considerando o mínimo de três escovações por dia. Ainda assim, é um intervalo bom o bastante.
***
Após pouco mais de um ano usando uma escova elétrica, não me vejo voltando atrás. Mesmo a mais simples delas oferece benefícios palpáveis em relação às manuais: escovação mais gentil e um padrão no processo que, sozinho, é difícil — talvez impossível — manter.
Por outro lado, não me convenci de que as ultrassônicas sejam tão melhores que as sônicas. Um estudo de 2020, publicado na Dentistry Journal, valida a superioridade da escova elétrica frente à convencional, mas alerta que “as diferenças na redução da placa dentária por escovas de dentes ultrassônicas versus sônicas não foram estatisticamente significativas”.
Outro estudo, também de 2020, publicado na British Dental Journal, deu um argumento extra para permanecer com a mesma escova elétrica o maior tempo possível: a sustentabilidade. Sem surpresa, as escovas elétricas têm o maior impacto ambiental, com o transporte (por serem mais pesadas) e os materiais (bateria e componentes eletrônicos) contribuindo com a quase totalidade do saldo negativo.
Sob esse ponto de vista, o estudo britânico indica escovas com hastes de bambu ou de plástico com a cabeça substituível.
Voltando à Mijia T100, o único contratempo que tive até o momento foi na compra de novas ponteiras. A recomendação de 9 a cada 10 dentistas (heheh) é de que as cerdas devem ser trocadas a cada três meses em média, certo? Usei a ponteira que veio por mais que o dobro desse tempo recomendado porque as cerdas não esgarçaram e, quando o acúmulo de sujeira se tornava visível, mergulhava ela em uma solução com água potável e água sanitária por algumas horas. Ela ficava como nova.
(Não sei se essa limpeza com água sanitária tem algum contra, por isso não faça o que eu fiz antes de verificar com alguém capacitado!)
A ponteira original ainda estava firme, mas a consciência pesou e acabei comprando uma nova, sem marca. Ela é diferente da da Xiaomi, com cerdas mais macias e sem espaço para o cabo da escova, o que senti diminuiu um pouco a vibração. Não senti muita confiança a princípio, mas segui usando. Dia desses experimentei a antiga original e esta me pareceu estranha. Quem entende?
Paguei R$ 30 por um kit com três ponteiras genéricas. Na loja da Xiaomi, três ponteiras originais custam R$ 74.
A única vantagem da genérica é que ela acompanha uma capa protetora para as cerdas. Perdi as contas de quantas vezes procurei por uma capa dessas para a ponteira original. Como o diâmetro da haste é maior que o de escovas de dentes comuns, aquelas capas genéricas não servem nela.
Feitas as devidas ressalvas, se estiver com uma folga no orçamento, recomendo a escova elétrica.
Mal posso esperar pela análise da escova de dentes elétrica com câmera e IA que lançaram esse semestre.
Aguardava ansiosamente esse review. Ainda não me convenci a adotar essa tecnologia.
Muito interessante a sua experiência, Rodrigo, adorei! Mas, admito, nunca me senti com vontade de ter uma escova elétrica, prefiro a tradicional e, por recomendação do dentista, uso a de cerdas bem macias.
O que eu mais gostei do seu texto foi o tempo de escovação. Quem realmente “gastaria” 2 minutos para escovar os dentes?
Parece uma besteira, mas nesses tempos tão acelerados, ter tempo para se dedicar a algo tão importante é luxo. Também uma zona de privilégio, já que, convenhamos, o preço de uma escova e creme dental (fio dental, então!) não “cabe” em todos os bolsos.
Do mesmo modo que o acesso a absorventes aos poucos está ultrapassando as prateleiras, tomara que também tenhamos mais programas de acesso à higiene bucal.
Eu tenho uma muito boa da oral b, não lembro o nome, porém vibra até demais, felizmente tem controle de velocidade e fica vermelha se eu forçar contra os dentes. Costumo balancear entre a escova normal e ela e, verdade, fica difícil pensar em trocar a cabeça antes de pedir socorro. Gosto muito da minha, é pesada mas dura uns 11 dias. Me incomoda apenas o carregador ser específico, prático, a provada dágua e “sem fio” mas específico. Preciso levar ele se a viajar for longa.