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Manual prático para retomar sua atenção do calabouço das redes sociais

Detalhe na mão direita de uma pessoa, não identificada (a foto corta na altura do peito) praticando meditação.

Tudo bem? Como tá? O ano tá pesado, né? Todo jornalista interessado/a sofre com um problema: o excesso no consumo de informações. O Twitter é uma desgraça por pegar exatamente nesse ponto fraco: o fluxo infinito de notícias cria aquela sensação de que ficar fora por 10 minutos é o suficiente para que uma notícia de enorme importância tenha passado reto no seu radar. É aquele papo de FOMO1 do qual você já ouviu falar incontáveis vezes, aqui no Tecnocracia inclusive.

Em 2020, o excesso no consumo de informação deixou de ser uma hábito só de quem trabalha com comunicação. Esse guarda-chuva de “comunicação” abarca toda profissão que exige que o/a profissional esteja 100% informado/a sobre o que está acontecendo no mundo — entram, além dos jornalistas, os gestores de mídias sociais e relações públicas. Não existe hora para o serviço ou produto da empresa que você representa dar algum problema e você ter que se preocupar em quase todas as horas do dia. Não à toa, os níveis de distúrbios mentais em gestores de mídias sociais estão bem altos — pergunte a qualquer amigo ou amiga na função que você ouvirá histórias sobre noites em claro, ligações em horários inoportunos, horas e horas extras de trabalho. Sim, isso não é exclusividade de quem trabalha com comunicação. Sim, eu sei que as forças médicas durante a pior pandemia do século sofrem de exaustão física e transtornos mentais tão sérios quantos. Não, não precisa ser competição — nessa olimpíada da desgraça, vai todo mundo perder, como dizia uma política aí.

Meu ponto é que, independente da sua profissão, é provável que em 2020 você tenha ganho esse maldito hábito de jornalistas de ficar consumindo notícias por muito tempo atrás de alguma novidade que altere radicalmente o que estamos vivendo. Spoiler: em 99% das vezes, não tem nada de novo. Mas a gente não descansa. É um processo natural quando se atravessa uma pandemia sobre a qual a humanidade vai, de mãozinha dada pela internet, descobrindo as características principais (o que evita, os tratamentos, a letalidade…) de uma doença nova e perigosa.

Ilustração com uma mãozinha depositando uma moeda em uma caixa com o logo do Manual do Usuário em uma das faces, segurada por dois pares de mãos. Ao redor, moedas com um cifrão no meio flutuando. Fundo alaranjado.

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Se você ainda tem interesse por eleições, o cenário fica um pouco pior. Eu não sei você, mas a semana da apuração em passo de lesma da eleição presidencial norte-americana atingiu em cheio a qualidade do meu sono e da minha concentração. Pior: tivemos dois processos eleitorais no meio com a intensa participação de dois sujeitos sem qualquer preparo para cuidar de uma gaiola com dois canários, que dirá do Poder Executivo das duas maiores democracias da América. Não bastasse a tensão pela nova doença, estamos todos sentadinhos na plateia de um teatro do absurdo. Por um lado, Donald Trump se negando a fazer a transição de poder por alegar fraudes eleitorais que só ele e seu séquitos parecem capazes de enxergar (spoiler: até agora, Trump e seu grupo não deram uma prova para fundamentar as acusações). Por outro, Jair Bolsonaro já afia o discurso para atacar a credibilidade do sistema eleitoral brasileiro enquanto vê seu poder de influenciar pleitos derreter, como ficou evidente na eleição brasileira.

“Guilherme, já tem alguns minutos de Tecnocracia e cadê a história inicial? Esse não é um podcast sobre tecnologia?”. Começando do fim, não, esse é um podcast sobre os efeitos da tecnologia nas nossas vidas. E, não, não tem história hoje, bonitinho e bonitinha. Quer dizer: tem, é essa. Eu estou cansado, de saco cheio de 2020, e você provavelmente deve estar sentindo algo parecido. O ano foi pesado demais de acompanhar e processar tudo o que aconteceu e também exigiu paciência para lidar com os atores do teatro do absurdo. Por isso, achei que valia a pena a gente ter uma coisa um pouco mais leve hoje.

Este episódio do Tecnocracia, o penúltimo da segunda temporada, não vai analisar a fundo nenhum grande fenômeno — não tem algoritmo, não tem drone, machine learning, campanhas de desinformação. Pelo contrário, vai ser um episódio não tecnológico. Ele vai ser uma espécie de guia prático (pun intended) para que a gente possa se esforçar em uma das únicas brigas envolvendo internet que valem a pena: a retomada da nossa sanidade e a manutenção de uma paz interior.

Quem já teve um ataque de pânico sabe bem a sensação, que um psiquiatra definiu muito bem: a vida parece que vai se desagregando. Em vez de algo uno, os interesses, os pensamentos, os impulsos se fragmentam em incontáveis pedacinhos e você, naquele desespero exagerado que caracteriza ataques de pânico ou ansiedade, tenta pegar tudo de uma vez, falha e se sente ainda mais desesperado, o que faz com que o ciclo se retroalimente. Essa disputa pela nossa atenção por tantas plataformas que exploram desejos, medos ou vaidades replica uma dinâmica parecida na cabeça de quem está sendo conduzido pela tecnologia. A tal da multitarefa é um mito que nos conduz a um estado de estímulo constante, atenção sempre alta e incapacidade de mergulhar em nossos próprios pensamentos.

Nesse sentido, o objetivo do episódio é oferecer alguns meios, a maioria não tecnológica, para voltar a focar nossa atenção em uma coisa só. O Headspace, figurinha tão carimbada nesse podcast quanto Tim Wu, costuma repetir a máxima de que o estado normal da mente é de uma paz segura, uma parcimônia atenta. Houve uma corrente na última década que ganhou projeção advogando o mesmo, mas sob o nome “mindfulness” (ao que parece, essa bolha murchou). Independente do nome, é o tipo de coisa que você sabe exatamente o que é quando experimenta, um estado em que você entende o que está acontecendo, mas aquilo não te angustia nem desencadeia sentimentos negativos.

O excesso de horas em plataformas digitais nos coloca em ambientes com poucos pontos de contato com a realidade. Por isso, quando largamos o celular, continuamos “presos” nesses ambientes, ainda que a gente tenha bom senso o suficiente para entender que muitas das coisas que lemos online são exageradas, romantizadas ou mentirosas. Há maneira de se prender a pessoa numa lorota que não reflete a realidade. Nos Estados Unidos, a Fox News é um exemplo excelente. Em 2014, um jornalista chamado Edwin Lyngar escreveu um ensaio chamado “I lost my dad to Fox News: How a generation was captured by thrashing hysteria” (“Perdi meu pai para a Fox News: como uma geração foi capturada pela histeria violenta”, em tradução livre). A linha fina explica ainda melhor: “pessoas brancas e velhas estão mergulhando no desespero e na raiva. Como meu pai perdeu sua mente, graças à sua dieta de TV a cabo”.

“Meu pai sinceramente acredita que a ciência é um plano político, cristãos são a minoria mais perseguida dos Estados Unidos e que Barack Obama é comunista. Ele apoia o uso de força sem questão, desde que aplicada a estrangeiros. Ele acha que todos os liberais2 são babacas ignorantes e estúpidos que odeiam os EUA”. Com leves alterações, o texto se aplica ao Brasil de 2020, seis anos depois da sua publicação. O artigo fez muito sucesso. A Fox até tentou levar o pai do Edwin para uma entrevista no canal, mas ele se negou.

No Brasil, o exemplo mais próximo é o WhatsApp e a capacidade que as campanhas de desinformação têm de enclausurar dezenas de milhões de brasileiros numa realidade que não existe, com doses cavalares de alguns delírios presentes no parágrafo do texto original — delírio de comunismo, xenofobia, anticiência, intolerância religiosa. Tem aqui um segundo lugar ocupado há mais de uma década pelos programas policiais vespertinos. Sim, o Brasil é um país violento, mas uma dieta baseada só nesses programas sugere soluções que são, na verdade, parte do problema e ainda incorre em momentos de pura barbárie, como o apresentador que avisou ao vivo uma mãe que sua filha tinha sido assassinada (lembra do mestre Millôr Fernandes, né? “Não se amplia as vozes dos imbecis”).

Você vai falar que não acredita nessas mentiras explícitas recebidas pelo WhatsApp nem vê programas policialescos no fim da tarde e, por isso, está a salvo. Mentira, bonitinho ou bonitinha. Mesmo fora desse círculo delirante de desinformação, você ainda continua afundado em uma realidade paralela que não reflete necessariamente a realidade em que todos estamos3. Uma hora no Twitter vai, sem dúvida, colocar algum tweet com algo bem revoltante no seu caminho. Você pode até tentar dar de ombros, mas existe uma chance de aquilo te acompanhar nas próximas horas. Tal qual o tabaco, o uso de redes sociais não tem dose segura. Aos poucos, fica incutida na cabeça, ainda que não de forma consciente, uma espécie de obrigação de acompanhar as redes. Essa obrigação é tão real quanto as “notícias” que seu tio repassa no Zap sobre comunismo no Brasil.

O que dá para fazer é estimular hábitos que minimizam essa ansiedade. Agora a gente começa a explorar algumas dicas bem práticas para tirar essas viseiras de cavalo que o consumo excessivo de informação nos coloca.

Já deixo claro que vou apostar sempre na opção mais simples, mais factível. Claro, existem ferramentas mais complexas que exigem o mínimo de conhecimento técnico, mas quantos sabem programação para ajustar um Piehole se comparado à instalação de uma extensão no navegador? Façamos um guia que beneficie o máximo possível de pessoas, para não cairmos na armadilha do tecnicismo de imaginar que o problema que enfrentamos só existe por não termos encontrado uma ferramenta complexa o suficiente. O vetor é no sentido contrário.

Começamos pelo aparato mais óbvio: o celular. Primeira coisa: se não desabilitou as notificações, faça isso agora. Eu só deixo as do banco (para saber quando alguma compra é aprovada no cartão de crédito) e do despertador. São poucas as notificações realmente necessárias em nossa vida. Tire também aqueles contadores que mostram, num círculo vermelho, quantos e-mails ou mensagens não lidas te esperam dentro dos apps. O behaviorismo usa as cores como um dos seus pilares para atrair a atenção das pessoas. Não à toa, as apps de cada setor têm cada uma uma cor específica — 99 é amarela, Rappi é laranja, Uber é preta. De preferência, uma bem chocante para atrair a atenção em meio a dezenas de apps — foi uma das razões pelas quais o Facebook mudou o logo do Instagram daquela imagem de câmera antiga marrom por esse ícone psicodélico com 78 cores diferentes em 2016.

Há quem use a tela do celular em preto e branco para não cair na armadilha das cores chamativas. Já usei uma época, depois desisti. É fácil criar um atalho programado para habilitar a tela branca e preta quando perceber que está passando muito tempo no aparelho. Tire do celular todos os aplicativos que fornecem informações em pequenas doses, excelentes para aqueles momentos de tédio ou breves intervalos, como esperar o elevador ou o cachorro farejar até fazer xixi. Deixe o que parece tédio entrar (spoiler: não é tédio). Como desdobramento ainda mais profundo, saia de casa uma vez na próxima semana sem o celular. O quanto essa proposta te arrepiou de medo? Se muito, então é você mesmo quem deve considerá-la. Já existe um nome específico para esse transtorno mental causado pela incapacidade de ter um celular funcional à mão: nomofobia, uma abreviação para “no-mobile-phone phobia”. A definição técnica é sentir ansiedade (e suas consequências) ao perceber que não há um celular funcionando ao alcance das mãos ou imaginar esse cenário. São sintomas da nomofobia, além da ansiedade, alterações na respiração, agitação, suar frio e taquicardia. Sim, são os mesmos sintomas de um ataque de pânico.

Como qualquer tratamento contra um vício, é muito duro no começo e vai ficando gradualmente mais fácil no decorrer dos dias. No seu primeiro passeio sem celular, provavelmente você ficará centrado/a em possíveis cenários em que tê-lo à mão ajudaria a sair de uma enrascada (machucar-se na rua, por exemplo). Conforme você passa mais tempo longe do aparelho, sua cabeça vai derrubando essas historinhas de que o celular é absolutamente necessário e se acostumando com a ideia de voltar a caminhar ou tomar um café ou levar o cachorro para passear sem ficar com a cara colada no aparelho, até que você se sente confortável o suficiente para voltar a sair de casa com o aparelho no bolso sem ficar com aquela obrigação de checar tudo a cada três minutos. Despir-se dessa obrigação também livra espaço na cabeça para ser ocupado com o que faz sentido — como já repetido no episódio sobre raiva, quem passa raiva toda hora tem pouco tempo e energia para pensar em outra coisa que não a própria raiva e as redes sociais são grandes máquinas de deixarem todo mundo enraivecido/a.

Pode ser um passeio simples, uma visita ao mercadinho do bairro, ao café na rua de baixo, à garagem para levar o lixo. O importante é começar a destreinar a atenção para se voltar à tela sempre que precisamos esperar algo e ficar sozinhos com nosso próprio cérebro, algo que, falando assim, parece moleza, mas na realidade se mostra uma tarefa ingrata de vez em quando. Aquele sentimento que parece tédio quando você aperta o botão do elevador e ele demora um minuto para chegar é a gente convivendo com nós mesmos, uma experiência nem sempre agradável. Em 2014, pesquisadores da Universidade da Virgínia investigaram a propensão humana a ficar sozinho. “Quando desafiadas a ficar de seis a 15 minutos sem companhia (nem mesmo do celular), 57% das pessoas afirmaram ter dificuldades para se concentrar, 89% disseram que a mente vagou e 49% não gostaram da experiência. Em outro teste, 67% dos homens e 25% das mulheres preferiram levar choques a ficar sós”.

É bom ter momentos em que você não pensa em nada. Uma das armadilhas que nossa geração4 continua caindo é a crença de que, por sermos multitarefa, podemos usar qualquer momentinho ocioso do dia para sermos produtivos, nem que isso signifique responder um e-mail enquanto o cachorro mija. O descanso deixou de ser uma prerrogativa para virar um bônus, o que ajuda a explicar essa onda de burnout que você enxerga ao olhar para o lado — ou para si mesmo. Você não precisa fazer nada em muitos desses momentos a não ser a própria ação — esperar o elevador, por exemplo. Esvaziar a cabeça é um antídoto excelente para o consumo excessivo de informação. Precisamos de momentos para não pensar em nada e para cada um de nós é algo diferente. Para mim é ver Fórmula 1. Tem algo de hipnótico em ficar vendo os carros passando, contabilizando as parciais e tomando um cafezinho. Pra você, pode ser outra coisa. O importante é esvaziar a cabeça, ter aquela sensação de relaxamento.

Agora, sair de casa sem o celular, por mais que seja um exercício interessante para mostrar como a vida continua, não é a solução ideal. Perigamos cair no extremo oposto da régua, o de que o melhor é sem tecnologia nenhuma. A questão não é extirpar a tecnologia da vida, é devolvê-la à escala que ela merece ter e, de presente, recuperar a atenção que ela sequestrou. Nesse aspecto, uma alternativa mais sustentável é impôr limites ao seu uso. Nosso cérebro nunca se sacia de informaçãoO consumo excessivo de informação é glutão: quanto mais ele recebe, mais ele quer.

O que esse hábito faz é demolir as paredes que tornam nossa vida funcional, deixando tudo como um galpão vazio — todo aquele espaço serve para se preocupar com aquilo, ainda mais em um momento em que muitos estão trabalhando de casa. Ao definir horários para coisas, você erige as paredes e define limites claros para atividades, o que te ajuda a não ficar rodando eternamente como um porco no rolete da compulsividade informacional. São limites simples. Por exemplo: não usar celular deitado na cama ou reservar um horário específico de uma hora para que sua atenção se volte para o feed infinito de Facebook, Instagram e Twitter e você não seja tragado pelo “doom scrolling”, aquela rolagem infinita atrás de informações.

A definição de horários vale também para todas as nossas outras atividades, principalmenten as que envolvam prazer. Uma pergunta que parece óbvia, mas nem sempre é para todo mundo: você sabe listar quais são seus hobbies? Não vale qualquer coisa que envolva celular. Que atividade você gosta de fazer que não envolve telas? Se está difícil listá-las, então você precisa arrumar uma. E aqui vale qualquer coisa que coloque o cérebro para funcionar sem TV, monitor ou celular. Cruzadinha? Vale. Crochê? Vale. Tocar flauta doce? Seu vizinho vai falar que não, mas vale. Quebra-cabeça? Vale. Escalada? Vale. Sexo grupal? Se largar o celular e se proteger, bonitinho e bonitinha, também vale. Videogame vale? Vale. Claro que existe uma escala aqui. Se for para jogar Call of Duty online naquelas comunidades tóxicas, melhor não. Se for Last of Us 2, essa obra-prima, vale para caralho. Se envolver alguma atividade física, melhor ainda.

A definição de horários é também uma forma de garantir que seu humor no dia não vai impactar seu envolvimento com aquela atividade. Quantas vezes você já foi a uma aula de natação ou de canto sem a menor vontade e, quando saiu, percebeu o quão bom foi ter ido? A cabeça humana é instável naturalmente, temos nossos altos e baixos, faz parte da vida. Nem toda aula de violão, escalada, boxe, jardinagem, alemão vai ser ótima. Algumas vão ser ruins. Normal, faz parte. Mas o ponto não é ser um ás naquilo em uma aula. É a constância, o fazer um pouquinho por dia.

Definir novos hábitos não é tarefa simples, eu sei. Ajuda é sempre bem-vinda. Eu já falei aqui em tantos Tecnocracias sobre um livro chamado Trabalho focado, em que um pesquisador norte-americano chamado Cal Newport argumenta que a atenção, tal qual seu quadríceps, é um músculo que precisa ser treinado. Não tem treino melhor do que ficar longe das distrações e direcionar sua atenção para o que precisa ser feito. Newport sugere intervalos de até 1h30 de atenção plena. Depois disso, como qualquer músculo, a atenção se cansa e precisa descansar.

Se você ainda não está pronto/a para se dedicar por 1h30 a alguma tarefa sem qualquer distração, existem ferramentas que te ajudam. Na década de 1980, o italiano Francesco Cirillo desenvolveu uma técnica de gerenciamento de tempo chamada Pomodoro, homenagem a um timer em forma de tomate muito popular na Itália (o equivalente brasileiro seria aquele que imita um ovo, presença obrigatória em todo lar nos anos 1990). A Pomodoro propõe intervalos produtivos de 25 minutos com 5 de descanso. Muita gente adaptou a regra em extensões para Chrome e Firefox que, além de contar o tempo, bloqueiam eventuais distrações caso a tentação seja forte demais. Todas essas extensões são gratuitas e saiba que um monte vai pedir para acessar seus dados do navegador. Ou seja: se a preocupação é privacidade, tem um excelente para Chrome chamado Marinara que é de código aberto. Já disse aqui algumas vezes que desconfio de muitas dessas técnicas modernas de gerenciamento de tempo já que, em sua maioria, elas adicionam uma camada a uma realidade já complexa, o que neutraliza seus efeitos. Pela simplicidade, a Pomodoro foge a essa regra.

Se a Pomodoro não é suficiente, procure também por extensões que bloqueiam serviços específicos — o News Feed Eradicator for Facebook bloqueia o feed de notícias, a área em que as pessoas mais passam tempo dentro da rede social. Ou então tenha sempre um lembrete que a morte está mais próxima do que imaginamos – a extensão Motivation mostra sua idade aumentando várias vezes por segundo (com 9 casas decimais) a cada nova aba que você abre no Chrome. Lembrar que o tempo não para de passar é uma ótima maneira de ajustar as prioridades.

O próprio Newport defende que ninguém consegue, de cara, ficar 1h30 totalmente concentrado. Aos poucos, seu cérebro vai ganhando vigor, até que uma hora ele se acostuma. Comece leve. A aplicação da técnica do Newport ou do Pomodoro é, como qualquer atividade humana, um esforço iterativo, no sentido que você faz uma vez, repete, faz uma segunda vez um pouco melhor, repete, até que chega a um ponto em que você se sente satisfeito/a e aquilo deixa de ser um fardo até virar um hábito. Vale o mesmo para meditação.

Se a ideia, descrita lá no começo, é de agregar a atenção de novo em um bloco único, a meditação é um dos melhores caminhos. O que a meditação pede é simplesmente que você fique 5 minutos sem fazer nada, sentado em uma cadeira ou até mesmo no chão, apenas concentrado na própria respiração. Parece simples. Para quem já tem prática, é. O começo pode ser tumultuado exatamente pela facilidade — questiona-se muito se, de tão simples, a pessoa está fazendo direito, o que, por sua vez, cria uma preocupação que neutraliza o objetivo da meditação. Não tem jeito certo ou errado de fazer de cara. O que precisa fazer é sentar e ficar esses 5 minutos iniciais de olho fechado, ouvindo a meditação guiada e respirando no seu ritmo normal — não precisa também aprofundar a respiração ou fazê-la de um jeito específico. No começo, você vai aproveitar aqueles minutos sem distração para mastigar algumas ideias ou até planejar o que fazer em seguida. Ainda que seja entendível, o objetivo é exatamente o contrário: deixar tudo de antes e depois da vida para fora e se concentrar, nem que seja por 5 minutos, em um ambiente mais tranquilo, onde a cabeça possa voltar ao seu ritmo natural.

É o que vários treinamentos do Headspace insistem: na capacidade de, em paz, você entender e aceitar que sua mente é ativa, agitada, mas que você não precisa necessariamente engajar com qualquer pensamento — ou, para usar uma expressão muito popular ultimamente, não é porque um gatilho dispara que você precisa segui-lo. Ao contrário do que muita gente acredita, meditação não é o treino de direcionar a mente, mas de aceitá-la como ela é e aprender a conviver com essa agitação sem que, no entanto, ela nos tire do nosso caminho.

Há um exercício frequente no Headspace em que o/a instrutora pede para que identifiquemos se o que estamos sentindo é um pensamento ou um sentimento. Parece bobo, mas o exercício nos obriga a dar um passo para trás e entender como, ao identificar esses pensamentos, a gente se desvencilha dos seus efeitos. Para usar a metáfora do Headspace: estamos sentados ao lado de uma rodovia bem movimentada, vendo os carros, motos e carretas passarem, sem embarcar (ou sermos atropelados) por nenhum deles. Aceitar o estado da mente é o primeiro passo para fugir da armadilha de montar a cada cavalo que passa ao nosso lado e manter o caminho original. E as redes sociais colocam uma cocheira inteira para explorar essa nossa tentação de consumir informação desenfreadamente.

O Headspace tem treinamentos gratuitos para quem está começando. Eu recomendo demais. Quem paga o plano anual gasta 140 reais para dezenas de treinamentos com enfoques especiais: tem raiva, auto-estima, pânico, mágoa, esgotamento, sobrecarga… Tem também playlists para foco, paisagens sonoras e episódios para dormir. Eu não sou pago para fazer essa publicidade, faço por gosto. Foram os 140 reais mais bem gastos do meu ano. Se você quer mais opções, o Wirecutter (para variar) fez um comparativo das principais. Se inglês é um problema, o site da Ana Maria Braga (sério) tem um bom guia em português.

Por fim, o mundo pode ser um lugar bem escroto, como as redes sociais não cansam de nos lembrar. Mas o mundo não é só isso. A sociedade já produziu – e, sabendo procurar, continua a produzir – muita beleza. Estou usando uma acepção mais ampla de beleza que não abarca só pinturas ou sinfonias, mas qualquer atividade humana feita com tanto esmero que vira praticamente arte: Rostropovitch tocando a Cello Suite do Bach, Alex Honnold escalando uma pedra qualquer, Michelangelo lapidando sem projeto um pedaço monstro de mármore, Seinfeld montando devagarinho a piada, Rubem Fonseca descrevendo um dente sendo arrancado com alicate, os aforismos do Millôr, o trabalho visual e de roteiro da Naughty Dog no Last of Us 2 (tô repetitivo, eu sei…), Messi driblando rente com aquele passinho curto, Tim Maia gritando o nome de quem estava na plateia enquanto a Vitória Régia seguia a música, Yamandu Costa ou Paco de Luccia com um violão no colo, Maria Bethânia cantando “As canções que você fez para mim”, o Rapper Warrior Ninja do Eric Andre, o solo de “Impossible Germany” do Wilco, o lámen do Aska, Tapas e Beijos… Há um repositório enorme em meio à avalanche de ódio. Abasteça-se.

Então vamos organizar o que foi dito até agora num guia prático de verdade. Eu sugiro seguir o roteiro por uma semana. Fazer essas coisas por um ou dois dias não vai ter efeito suficiente para dizer que teve alguma alteração — você ainda vai estar nas águas turvas antes de encontrar as cristalinas. Alterações no dia a dia para recuperar a atenção:

  1. Apagar apps de redes sociais e desabilitar notificações do celular. Bloquear o feed do Facebook. Como exercício, sair pelo menos uma vez de casa para um passeio (tomar café, passear com o cachorro, ir ao mercado, aí você decide) sem o celular e perceber como você se sente;
  2. Definir horários para consumo de informação e/ou redes sociais. Podem ser, por exemplo, três blocos diários para Twitter/jornais. Se afastar o uso de celular dos extremos do dia, melhor. Deixa a cabeça acordar no ritmo, não leva o celular para a cama (se quiser, pode levar o Celulari para a cama, desde que tenha o consentimento dele);
  3. Trinta minutos por dia (não precisa engessar, pode ser quando quiser) para atividades que lhe dêem prazer e que não envolvam redes sociais. De novo, quem vai determinar o hobbie é você. Se você não sabe de bate-pronto, tem que ir atrás;
  4. Cinco minutos de meditação por dia. Não vai te custar nada com o Headspace. Senta no chão ou numa cadeira e fica cinco minutos ouvindo as instruções. Sim, você está fazendo certo. Só continue;
  5. Separar o trabalho em blocos de 25 minutos totalmente focado/a com 5 minutos de descanso (para lavar louça ou ficar olhando para a parede);
  6. Alguma dose de beleza. Não vale livro que ensina a ficar rico; e
  7. Por fim, planejar o que você fará nos próximos dias. A vida traz novidades imprevistas, mas é bom ter um trilho para seguir. Essa dica vem de um dos sujeitos mais produtivos que eu conheço, o Turicas: “lembre-se:, na primeira vez, talvez seu planejamento saia um fiasco; o truque aqui é a melhoria contínua: ver o que funcionou, o que precisa melhorar e adaptar o próximo ciclo — logo logo, você fará tudo da maneira que funciona pra ti sem precisar pensar muito”.

Você já deve ter notado que todas as questões práticas que estamos falando por aqui passam por um ponto em comum: a atenção em si mesmo/a. Não levar o celular para passear, ter momentos de não pensar em nada, os blocos de espaço para trabalho focado, a meditação curta para se focar só na respiração… Tudo isso passa por uma relação mais agradável consigo mesmo, com a própria cabeça. Talvez, esse consumo excessivo de informação seja só o que a gente tem à mão para nos distrairmos e não pensarmos no que te incomoda profundamente. No episódio 11, eu escrevi minha frase favorita do Tecnocracia5:

“A dor que você sente, não tem, provavelmente, causa na Iinternet. O modelo de negócio dos gigantes online se torna uma toca exageradamente confortável onde a gente vai se abrigar quando não quer encarar os problemas reais que nos afligem. A maioria das pessoas não sabe, mas, antes de abandonar Harvard, Mark Zuckerberg estudava ciência da computação e psicologia. Os apps e seus usuários fechamos um acordo tácito: eles ficam bilionários, nós temos distração suficiente para passar a vida com o mínimo de contato com o que provoca dor. Se você não vê problema nisso, manda bala. Mas se você se preocupa com sua capacidade de concentração e de ter uma cabeça que não é lapidada pelos interesses corporativos de poucas empresas, comece o processo para resgatar sua atenção. Taí uma briga envolvendo internet — uma das poucas, se não a única — que vale a pena comprar.”

Em outras palavras: se você desconfia que não há algo bem, peça ajuda. Não tenha vergonha. Nenhuma, ainda mais durante um ano tão duro e exaustivo como 2020. De vez em quando, a vida traz tanta coisa ao mesmo tempo para a gente que precisamos de ajuda profissional para mastigarmos, entendermos aquilo. Quando eu tive câncer uma das primeiras coisas que eu fiz foi voltar à terapia. Foi uma das minhas melhores decisões para aquele processo. As redes sociais podem te dar tanta distração que você não precisa ter contato com aquela dor. Dói, mas é necessário. É o melhor investimento que você pode fazer. Por que uma coisa que é preciso entender sobre o consumo excessivo de informação online é o seguinte: nós fomos seduzidos a passar cada vez mais tempo nessas redes sociais. Demos nossa atenção em troca de benesses, diversão, e isso virou um hábito, quase um vício. Se você espera que esses serviços devolvam nossa atenção de mão beijada, não se engane: tal qual o personagem do Jack Nicholson diz no começo de Os Infiltrados, você vai ter que arrancar de volta.

A vida é muito mais do que seu feed. Às vezes você só precisa de um empurrão para lembrar disso. Eu vou te ajudar: vai ao mercado e compra bacon em tiras, 2 ovos, queijo ralado, fettuccine, alho e pimenta do reino moída. Coloca uma panela grande cheia de água e muito sal para ferver, corta o bacon em pedaços pequenos, abre os dois ovos num pote pequeno e mistura um terço do pacote de queijo ralado. Quando a água da panela ferver, coloca o fettuccine. Pega uma frigideira alta, coloca no fogo e espera aquecer. Quando estiver bem quente, joga o bacon e dois dentes de alhos esmagados. Deixa cozinhar na própria gordura em fogo médio. Salpica pimenta do reino moída e mistura. Quando o macarrão estiver quase pronto e o bacon estiver bem fritinho, transplanta o macarrão com um pegador da panela para a frigideira, com um pouco da água. Mexe por 1 minuto, desliga o fogo e mistura bem o ovo com o queijo ralado. O calor residual do bacon com macarrão vai cozinhar o ovo. Prova para ver se o tempero tá bom – pode colocar mais pimenta se for do seu gosto. Pronto, só servir. Agora come com um vinho e sem olhar a porra do celular, por favor. Uma receita de carbonara num podcast que fala sobre tecnologia: 2020 é esse tipo de ano mesmo.

Foto do topo: JD Mason/Unsplash.

  1. “Fear of missing out”, algo que Luciana Gimenez traduziria como “medo de perder alguma coisa” (MPAC?).
  2. Nos EUA, liberal é todo sujeito com posição política mais progressista. Nesse delírio descrito no texto, qualquer um que defenda direitos humanos, por exemplo, é visto como “comunista” — algo que, em 2020, não está muito longe do Brasil.
  3. Aqui tem uma discussão mais profunda sobre o que é realidade e como nossa percepção moldada durante décadas por acontecimentos de vida nos ajuda a moldar uma “realidade” diferente da das outras pessoas, mas não vamos nos aprofundar nisso. Você entendeu meu ponto.
  4. Estou usando a primeira pessoa do plural partindo do pressuposto que você tem entre 25 e 45 anos. Acertei?
  5. Sim, eu estou me auto-citando, não enche o saco.

Edição 20#43

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10 comentários

  1. Guilherme, Quero que você saiba que estou usando seus textos (podcasts) em aulas de Filosofia e Tecnologia no Ensino Médio em São Paulo (pelo Google Meet, claro, com poucos alunos infelizmente).
    Em alguns casos simplesmente estou lendo e comentando seu texto, de tão bom que é. E uso excertos para formular questões para eles responderem depois.
    Não sei dizer se isso te agrada ou te assusta. Mas, para mim mostra o quão grande e incrível como pessoa e profissional você é.
    Muito obrigado por esse apoio, não saberia o que fazer muito com eles esse bimestre se não fosse você.
    Um grande abraço!

  2. Guilherme, acho que nunca havia ouvido/lido nada que fosse tão conveniente e chegasse em tão boa hora. Parabéns…e confesso que vejo muita beleza em um desenrolar de ideias tão complexas de forma tão habilidosa quanto mostrou. Parabéns mais uma vez.

  3. Eu acho q tem headspace em português agora. Um dia fiquei um tempo sem abrir, o app atualizou, e quando fui ver, era outra pessoa, falando português. Descobri na hora como voltar pro inglês pq já acostumei com a voz do Andy, então não sei se tem muita coisa. Mas fica a dica

  4. Há tempos comecei a ouvir este podcast por indicação de um amigo e acho incrível como ele mudou minha relação com a tecnologia.
    Já havia estudado tecnologia e tinha conhecimento das estratégias para captura de atenção, mas não tinha notado como eu estava me entregando a elas… creio que já evolui bastante e sigo tentando melhorar. Obrigado.
    Aliás, a diversidade cultural do conteúdo é sensacional!! Parabéns!!!
    PS: a receita de carbonara foi genial!! Vou testar neste fds! Abraços!

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