A Microsoft anunciou (mais) um punhado de coisas envolvendo inteligência artificial, em parceria com a OpenAI, na abertura do evento Build nesta terça (23):

  • O Windows Copilot (vídeo) lembra muito as promessas da Cortana, porém sem uma interface de áudio, tudo por texto escrito/bate-papo. O lance de resumir PDFs e interagir com aplicativos de terceiros (Spotify, no exemplo) são bem legais.
  • A Loja da Microsoft ganhou uma central de inteligência artificial (vídeo) destacando aplicativos do tipo.
  • Já o Dev Home (vídeo) conecta o Windows 11 ao GitHub e reaproveita alguns recursos já existentes para facilitar e acelerar a criação de um ambiente de desenvolvimento.
  • O mais interessante, do ponto de vista dos negócios, é que a parceria com a OpenAI virou uma relação de mão dupla com a chegada do Bing ao ChatGPT.

Impressiona o volume e a rapidez com que a Microsoft tem explorado a parceria com a OpenAI e colocado na praça produtos baseadas em IA. Via Microsoft (2) (3) (em inglês).

“Os perigos ocultos da web descentralizada”, diz o título de um artigo de opinião na Wired.

A autora, Jessica Maddox, professora assistente de tecnologia de mídia digital na Universidade do Alabama, coloca redes baseadas no protocolo ActivityPub, como o Mastodon, no mesmo balaio de picaretagens como criptomoedas e web3.

É um equívoco. E, se formos nos ater às especificidades, até mesmo “web descentralizada” é algo impreciso, visto que a web (uma rede) é, por definição, descentralizada. Os movimentos que levantam a bandeira da descentralização o fazem como reação a forças de mercado que subverteram essa característica. (E, apesar de se referirem a “web”, em alguns casos nem rodam na web.)

Podemos, e devemos, sempre nos esforçar para construir uma tecnologia melhor, mais acessível e mais inclusiva. Mas a descentralização da web em silos murados parece improvável que atinja esse objetivo.

Por incrível que pareça, o trecho acima não se refere às plataformas da Meta e do Google, mas sim às da “web3” e do Mastodon.

Não acho que Jessica seja ignorante, o que me deixa intrigado com os motivos que levariam alguém entendido a publicar essa desinformação.

O WhatsApp começou a liberar a edição de mensagens. As regras são as seguintes:

  • Mensagens podem ser editadas até 15 minutos depois de enviadas;
  • Mensagens editadas exibirão um rótulo informativo; e
  • Não há histórico ou maneira de ver a versão original de uma mensagem editada.

Funciona de maneira muito parecida com a edição do Telegram, que existe desde 2016, com a diferença de que lá não existe prazo para a edição (o que pode ser problema por inúmeras razões).

Atualização (24/5, às 9h40): Ao contrário do que foi informado, o Telegram tem, sim, prazo para a edição de mensagens, de 48 horas. O que não tem prazo lá é a exclusão de mensagens, ou “desfazer” o envio. Obrigado pelo toque, fulalas!

O Signal vinha debatendo o mesmo recurso de desde abril de 2017. As notícias de que o WhatsApp estaria prestes a lançá-lo parecem ter acelerado o desenvolvimento: há vários commits (1, 2, 3, 4) no código do aplicativo para iOS nas últimas semanas. (Deve ter nos outros apps, mas não verifiquei.)

A edição de mensagens no WhatsApp será liberada de forma gradual e deve chegar a todos os usuários “nas próximas semanas”. Via WhatsApp.

A União Europeia multou a Meta em € 1,2 bilhão (~R$ 6,5 bilhões). O motivo é a transferência de dados de usuários europeus do Facebook para os Estados Unidos. Além da multa, o bloco deu seis meses para que a Meta cesse a transferência de dados entre Europa e EUA.

É a maior multa já aplicada pela União Europeia com base no Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (GDPR, na sigla em inglês). Andrea Jelinek, chair do Conselho de Proteção de Dados Europeu (EDPB), disse que “a multa sem precedentes é um forte sinal para empresas de que infrações sérias têm consequências de longo alcance”.

Em resposta, executivos da Meta fizeram objeções à decisão em um post no site da empresa. “A capacidade dos dados serem transferidos pela fronteiras é fundamental para o funcionamento da internet aberta global”, escreveram.

E… talvez a Meta tenha um bom argumento aqui? Embora o EDPB tenha fundamentado a decisão no artigo 46(1) do GDPR, que permite a transferência de dados a outros países desde que haja salvaguardas apropriadas e remédios legais estejam disponíveis (leia-se: evitar a espionagem estrangeira), dizendo que a Meta foi negligente “no mais alto nível”, a punição determinada pode, sim, inviabilizar o funcionamento do Facebook na Europa.

A Meta vai recorrer. A empresa espera, porém, que as tratativas entre EUA e União Europeia a respeito de um acordo de transferência de dados, iniciadas em 2022, sejam formalizadas antes do fim do prazo de seis meses. Um acordo do tipo, conhecido como Privacy Shield, foi invalidado pela suprema corte europeia em 2020 após ser questionado por um ativista austríaco, Max Schrems. Via EDPB, Meta, New York Times e Ars Technica (todos em inglês).

A Neeva, startup fundada em 2019 por dois ex-executivos do Google, Sridhar Ramaswamy e Vivek Raghunathan, com a promessa de oferecer um buscador melhor, pago e sem publicidade, anunciou o encerramento do seu buscador pago e sem publicidade no sábado (20).

Depois de uma breve desvio (ou delírio) em criptomoedas, agora a Neeva vai focar em grandes modelos de linguagem (LLM, na sigla em inglês), o “coração” de inteligências artificiais como GPT-4, LLaMA e PaLM 2.

Estratégia estranha, essa de pular de tendência em tendência e, em todos os casos, bater de frente com algumas das maiores empresas do planeta — no caso, Google, Meta e Microsoft.

No Hacker News, Vladimir Prelovac, fundador de outra startup de buscas online sem publicidade, o Kagi, traçou a sua estratégia: aguentar o atual ciclo de empolgação com IAs (que ele prevê será de dois anos) e, quando as pessoas estiverem fartas dos chatbots repletos de publicidade e forem atrás de um buscador melhor, estar lá para antendê-las.

O relato de Vladimir tem muitos “ses”, ou seja, apresenta uma conjuntura impossível de prever a essa altura. Apesar disso, gosto da premissa (“sobreviver aos próximos dois anos e continuar inovando no que importa”) e há o argumento favorável de que pesquisas online são um produto consolidado, com bilhões de usuários, passando por um momento de turbulência, com a pressão multilateral que o Google enfrenta e a emergência dos chatbots como alternativa ao modelo clássico de pesquisa online. Via Neeva (em inglês).

A Reuters publicou (e a Folha de S.Paulo reproduziu) uma matéria sobre a suposta hiper-valorização de uma shitcoin inspirada no meme do sapo Pepe, popular entre extremistas digitais.

Parece-me um desserviço divulgar sob esse ângulo um negócio que parece, tem cheiro e forma de esquema de pump-and-dump — como se fossem ativos dignos de nota, falando em “valor de mercado” e volatilidade de um negócio sem legitimidade alguma. “Salta 7.000% desde o lançamento”, diz o título.

É aquele caso de uma piada que dá a volta e no fim a piada é quem compra esse tipo de coisa:

O site da Pepe diz que foi lançado “para o povo” sem “nenhuma equipe formal ou roteiro” e é “completamente inútil e apenas para fins de entretenimento”.

Com certeza. Confia e vai. Via Folha de S.Paulo.

O Google atualizou sua política de contas inativas. A partir de dezembro de 2023, contas inativas há mais de dois anos serão apagadas. Há diversas exceções, como as que tenham assinaturas pagas ativas ou vídeos no YouTube. Antes da exclusão, o usuário receberá alguns alertas. O Google justifica a medida do ponto de vista da segurança, dizendo que contas inativas são mais suscetíveis a invasões. Parece-me uma boa iniciativa. Via Google (em inglês).

por Shūmiàn 书面

Não bastasse ter sido um dos primeiros países a avançar na criação de legislação sobre o uso de inteligência artificial gerativa, ao que tudo indica a China é pioneira em realizar uma prisão pelo uso impróprio do ChatGPT.

O motivo: usar o programa para criar notícias falsas sobre um acidente de trem que teria resultado em nove mortos. O caso aconteceu em final de abril e se encaixou na legislação já vigente de perturbação da paz pública — que inclui o ciberespaço, explica o The China Project.

O rascunho da legislação sobre IA e ferramentas como o ChatGPT ainda está em tramitação. Vale muito a pena ouvir o episódio mais recente do Sinica Podcast sobre toda essa regulação, com Kendra Schaefer e Jeremy Daum. O próprio Daum também fez um fio recente no Twitter sobre a publicação de conteúdo gerado por IA no Douyin (a versão chinesa do TikTok).

A Shūmiàn 书面 é uma plataforma independente, que publica notícias e análises de política, economia, relações exteriores e sociedade da China. Receba a newsletter semanal, sem custo.

A Apple anunciou uma série de novos recursos de acessibilidade para suas plataformas, no que já é uma espécie de tradição anual da empresa, que aproveita o Dia Mundial de Conscientização sobre a Acessibilidade (18/5) para promover seus esforços na área.

Dois destaques:

  • Acesso Assistido, que simplifica bastante a interface do iOS e iPadOS para facilitar o uso. Lembra aqueles launchers para idosos que existem aos montes no Android (e que é o diferencial do celular da brasileira Obabox.) No link abaixo, para a Apple, tem imagens da interface e dos aplicativos adaptados/compatíveis.
  • Voz Pessoal, uma inteligência artificial no próprio dispositivo que, com 15 minutos da voz do usuário, consegue treinar e reproduzir a voz para ajudá-lo a conversar. Parece um primeiro passo para outras IAs locais (leia-se: com mais privacidade) que a Apple poderá lançar no futuro.

Via Apple (em inglês).

Às vésperas das eleições na Turquia, nesse domingo (14), o Twitter passou a censurar a oposição ao candidato à reeleição, Recep Tayyip Erdoğan, por determinação do governo turco.

O Twitter não resistiu, não recorreu, apenas cumpriu a determinação e seguiu a vida. Como todo valentão, quando alguém maior gritou com ele, enfiou o rabo entre as pernas e não fez nada.

O jornalista Matthew Yglesias questionou abertamente a decisão, uma contrariedade flagrante ao discurso do “absolutista da liberdade de expressão” Elon Musk. Musk mordeu a isca e tentou justificar-se:

Seu cérebro caiu da sua cabeça, Yglesias? A escolha é ter o Twitter limitado em sua totalidade ou limitar o acesso a alguns posts. Qual você deseja?

Jimmy Wales, da Wikipédia, deu a letra em resposta a Musk:

O que a Wikipédia fez: defendemos nossos princípios e lutamos até Suprema Corte da Turquia e ganhamos. É isso que significa tratar a liberdade de expressão como um princípio e não como um slogan.

Musk não respondeu.

A Fairphone lançou, lá fora, fones de ouvido reparáveis do tipo “over the ear”. O Fairphone XL (€ 249, ~R$ 1,3 mil) chamou a atenção da mídia especializada e fez alguns brasileiros se lembrarem da Kuba, marca local que já vende há alguns anos o Disco 2, headphones modulares que podem ser reparados pelo próprio consumidor final.

O último lançamento da Kuba, ainda em pré-venda, é a versão Bluetooth, por R$ 999. O mais legal é que quem já tem a versão cabeada terá a opção de comprar apenas o arco com o módulo Bluetooth, economizando metade do valor da versão completa e reaproveitando as demais partes do modelo cabeado. Dica do dflopes.

No palco do Google I/O, o Google anunciou com orgulho que o Bard, seu chatbot concorrente do ChatGPT, fora disponibilizado em 180 países no idioma inglês. Brasil, Canadá e todos os países da União Europeia ficaram de fora, como se vê ao tentar acessar o site e nesta página de suporte.

A empresa não especificou o motivo. Lá fora, publicações especializadas especulam que a ausência do Bard nesses locais tenha a ver com cautela legal por parte do Google. A Itália, por exemplo, baniu o ChatGPT brevemente. No Brasil, como se sabe, o Google trava uma guerra contra o Congresso e o governo federal no momento em que essas instituições tentam regular as grandes empresas de tecnologia. Via 9to5Google (em inglês).

por Shūmiàn 书面

A PDD Holdings, uma das gigantes de tecnologia chinesas, trocou a localização de sua sede de Shanghai para Dublin, capital da Irlanda.

A empresa, conhecida por possuir o Pinduoduo e o aplicativo de e-commerce Temu, notificou a mudança em documentos enviados a autoridades financeiras dos Estados Unidos.

Além de impulsionar sua internacionalização, a medida também pode ser vista como uma maneira de se proteger da pressão de parlamentares estadunidenses que vêm criticando supostos laços da PDD com violações de direitos humanos. Apesar dessa circunstância, vale notar também que a Irlanda é um destino de muitas empresas de tecnologia que buscam pagar menos impostos, como a Apple e a Meta.

O Pinduoduo, no entanto, deve continuar sediado na China, segundo o South China Morning Post.

A Shūmiàn 书面 é uma plataforma independente, que publica notícias e análises de política, economia, relações exteriores e sociedade da China. Receba a newsletter semanal, sem custo.

O Thunderbird abriu a contabilidade referente a 2022 e os números são muito bons:

  • Receita de US$ 6,4 milhões em 2022, sendo 99% de doações;
  • Despesas de US$ 3,5 milhões no mesmo período, sendo 79,8% com pessoal.
  • Aumento do número de funcionários de 15 para 24;
  • Anúncio de que o aplicativo para iOS deverá entrar no planejamento ainda em 2023;
  • Promessa de “novas ferramentas e serviços” focados em produtividade para criar novas fontes de receita.

Para uma iniciativa que estava em modo de sobrevivência em 2018, é uma mudança e tanto. E também um contraste enorme com a Mozilla, de onde o Thunderbird se separou, que mantém uma estrutura corporativa considerável e ainda depende do dinheiro do Google — 83% do faturamento de US$ 450 milhões em 2021 veio da big tech. Via Thunderbird (em inglês).

Não é só o Congresso Nacional que tenta regular as plataformas digitais. Em paralelo, os outros poderes tentam influenciar o debate legislativo e agir por conta própria.

A decisão proferida pelo ministro Alexandre de Moraes nesta quarta (10), contra o Telegram, parece uma interferência arbitrária. Leia na íntegra (PDF).

Leitura leiga e inicial do texto não encontra fundamentação jurídica. Moraes refere-se a decisões do próprio Supremo, ao famigerado inquérito das fake news que corre no STF e a certa “imoralidade” para justificar a ameaça de suspender o Telegram por 72 horas, caso a empresa não se retrate da mensagem lamentável enviada a seus usuários na terça (9).

Em tons mais republicanos, a presidente do STF, ministra Rosa Weber, pautou o julgamento das ações que contestam a constitucionalidade do artigo 19 do Marco Civil da Internet, o da responsabilidade das plataformas por conteúdo gerado por usuários, para a próxima quarta (17). O resultado pode embolar o meio-campo da votação do PL 2630/20, o PL das fake news, ainda sem data para ir à votação.

O governo federal, por sua vez, tem usado a Senacon (ligada ao Ministério da Justiça) para agir contra as investidas irresponsáveis das big techs, como Google e Telegram. A justificativa da prensa dada no Google, por exemplo, de que ela feriria o Código de Defesa do Consumidor, é classificada por alguns especialistas como “malabarismo jurídico”.

Por fim, o adiamento da votação do PL das fake news, que pegou a todos de surpresa, deixa-nos todos apreensivos. O primeiro fatiamento, anunciado nesta terça (9), que separa o assunto da remuneração dos jornais pelas plataformas, não é ruim — era um tema estranho ao texto original e grande, importante demais para estar no PL 2630/20. Merece, de fato, uma lei própria e um debate à parte. O que virá depois, porém, é uma incógnita. Via Poder360, Folha de S.Paulo.