IA no KDE Plasma
No final de agosto saiu o resultado de uma resolução geral a respeito do uso de IA generativa (LLMs) no Debian. Venceu a opção 5: “Uso responsável de IA generativa.” O desfecho — você já deve imaginar — deixou muita gente insatisfeita.
Nesta semana, foi a vez do projeto KDE ficar no meio do fogo cruzado ao tentar propor uma política de uso (ou não uso) de IA em seu código. Os ânimos se acirraram quando ~a internet descobriu que uma das palestras do Akademy, evento anual do projeto, propunha “um KDE com IA nativa, adorável e soberano” por duas pessoas que já estiveram envolvidas na programação do KDE, mas não mais.
As duas tentativas de rascunhar a política foram frustradas e, no momento, não há nova proposta em debate.
Em seu blog, Nate Graham, um dos desenvolvedores mais ativos do projeto e CEO da Techpaladin Software, empresa que financia várias partes do KDE, fez um resumo detalhado e ponderado da situação. Os rascunhos iniciais da política de IA foram escritos por ele.
Nate a resumiu assim:
Um monte de gente — a maioria de fora do KDE — que desaprova o uso de LLMs, implodiu a tentativa do KDE de adicionar restrições ao uso de LLMs.
Sim, é esse o nível do debate online em torno da IA.
Quem está certo? Quem está errado? Não sei, só tenho algumas ponderações que me ocorreram enquanto lia a respeito.
- O que está em jogo é o uso de IA na programação dos aplicativos KDE, não nos aplicativos em si. Sequer foi cogitada um direcionamento similar à do Copilot no Windows 11 ou da Apple Intelligence no macOS 27.
- Os desenvolvedores do KDE, nas palavras de Nate, se opõem a adotar o método (?) “vibe-coding”. A política, ainda de acordo com ele, visa dar subsídio para rejeitar contribuições ruins com evidências claras de terem sido geradas por IA.
- Talvez a única discordância que senti lendo o post dele foi em relação ao peso das opiniões de não-contribuidores de código, que Nate sugere ser (ou que devesse ser) menor. A presença de IA generativa — algo que ele próprio reconhece — vai muito além de questões práticas ou de código.
A julgar pelo estado das alternativas comerciais, sinto que há, ainda, o temor de uma possível esculhambação do KDE Plasma decorrente do possível uso de geradores de código.
Se o inglês não for problema, recomendo a leitura do post e dos comentários. Além do mérito, há ali farto material para refletir a respeito das relações sociais pela internet.
A vida me obriga a lidar com IA para programação na empresa de software que trabalho, e isso me leva à conclusão de que a percepção do público geral envolve muito desconhecimento.
Tem inúmeras problemáticas, e provavelmente eu não discordo de nenhuma. Mas esse trem já partiu e o mundo da programação já mudou. Podem guardar as máquinas de escrever, é hora de usar o computador.
Naturalmente há diferentes formas de uso, e também diferentes áreas para usar IA, gerando cenários melhores ou piores.
Mas também não tiro a razão de ninguém. Só chegamos aonde chegamos com muita exploração estúpida do capitalismo, e simplesmente isso vai piorar. Mas querendo ou não, para programação, esse trem já partiu.