Guia despretensioso de como fazer um podcast

Microfone em frente a uma tela com o Audacity aberto com várias faixas de áudio.

Até o início de 2019, perguntávamo-nos quais podcasts ouvíamos. Agora, com o distanciamento social em vigor devido à pandemia, a onda é fazer podcast. Lembra quando, após muitas rodadas de bebidas alcoólicas, você ou um dos seus amigos dizia “a gente tinha que fazer um podcast nosso!”? É bem provável que só vocês mesmos — e bêbados — achariam aquelas conversas dignas tão interessantes assim. Se esse é o seu caso ou se já estava nos planos fazer um podcast para alavancar seu negócio, estreitar relacionamentos ou apenas por hobby, chegou a hora de tirar a ideia do papel.

Coincidência com o momento ou não, nas últimas semanas alguns leitores me pediram orientações para lançarem seus próprios podcasts. Pareceu-me, pois, um sinal de que havia demanda para um guia despretensioso. Por favor, acredite em mim quando digo que o que você lerá a seguir é um guia despretensioso. Minha capacidade técnica e interesse só vão até o ponto em que me permitem publicar podcasts minimamente audíveis da maneira mais fácil possível. Se as suas aspirações transcendem esse mínimo, sugiro procurar um profissional do ramo.

As três fases de um podcast

Todo podcast, das produções caseiras mais rudimentares aos da Globo e aqueles financiados por bancos, passam rigorosamente pelo mesmo processo de três fases: captação, edição e publicação. Nenhuma delas é mais ou menos importante, pois todas impactam o que chegará aos ouvidos do seu público (se você tiver a sorte de ter alguém te ouvindo).

Passarei por cada um desses estágios tomando por base o trabalho que faço há alguns anos no Guia Prático e, mais recentemente, auxiliando o Guilherme na produção do Tecnocracia. Alguns avisos antes de começarmos:

  • Atualmente uso um notebook da Apple com macOS. Apesar disso, quase todas as indicações funcionam em Windows e, creio, muitas delas em Linux também;
  • Práticas, aplicativos e equipamentos podem variar enormemente; não se limite ao que estiver escrito aqui; e
  • Se você já tem alguma experiência com áudio, por favor, complemente minhas dicas ou corrija-me se for o caso nos comentários.

Captação

O maior erro que cometia nos primórdios era nesta fase, ou seja, fazendo uma captação ruim. É relativamente fácil destruir um bom áudio bruto; o contrário, ou seja, melhorar um som cagado, é quase impossível. Por isso, tenha muito cuidado e faça testes antes de iniciar a gravação para valer. Em casos mais graves, uma captação ruim pode comprometer o programa e acabar tendo que ser descartada.

Ilustração com uma mãozinha depositando uma moeda em uma caixa com o logo do Manual do Usuário em uma das faces, segurada por dois pares de mãos. Ao redor, moedas com um cifrão no meio flutuando. Fundo alaranjado.

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Não é preciso ter um microfone de milhares de reais para captar um áudio decente. Aqui, eu uso um headset LifeChat LX-3000 da Microsoft. É um excelente custo-benefício (apesar de ter encarecido nas últimas semanas, como quase tudo) e durável, salvo pelo material emborrachado das conchas e pela espuma do microfone, que inevitavelmente se desintegrarão. As conchas funcionam bem sem a borracha, mas o microfone precisa daquela espuma — sem ela, os “pufs” de palavras com a letra “P” ficam muito destacados. Acabei encontrando-a vendida à parte numa lojinha da 24 de maio, aqui em Curitiba, uma espécie de mini-Santa Ifigênia da capital paranaense, por R$ 14.

Uma mão segurando um headset LifeChat LX-3000.
O acabamento emborrachado das conchas já era, mas ainda funciona super bem. Foto: Rodrigo Ghedin.

Não tem headset? Sem problema. Pode usar o microfone do notebook ou o celular; sua voz não ficará aveludada, mas inteligível, e num primeiro momento é isso o que importa. Mais importante que o microfone é ter um ambiente silencioso para gravar. Isso faz toda a diferença porque quanto mais “limpa” for a sua voz, mais maleável ela fica na hora de editar ou, se você for como eu, menos trabalho terá.

Reforço: faça testes antes, identifique a distância ideal entre a boca e o microfone para não “clippar” (“estourar” o áudio), se for usar fones de ouvido, certifique-se de que o microfone não fique raspando na roupa. Tente prever como será a gravação para evitar surpresas desagradáveis. A primeira tentativa talvez demore e seja chatinha devido a todas essas precauções, mas é uma boa não pulá-las porque, como dito, a captação deve ser a melhor possível.

Se você for gravar sozinho, é mais fácil: é praticamente como gravar um áudio de WhatsApp, só que usando um aplicativo de gravação local — a maioria dos celulares traz algum do tipo pré-instalado. Se estiver no computador, o Audacity, um editor de áudio gratuito e de código aberto, resolve a captação também. Uma coisa legal é que ele tem um mostrador visual de volume, o que te ajuda a saber se o volume do microfone está muito alto durante a captação.

No macOS, a última atualização (Catalina) quebrou um monte de coisas, incluindo a capacidade de gravar do Audacity. Não sei se já arrumaram isso; acabei migrando para o Quick Time por necessidade e funciona igualmente bem.

Se o seu projeto for o do podcast dos amigos bêbados (ou qualquer coisa que envolva mais de uma pessoa), aí a coisa complica um pouco. Na real, quanto mais vozes envolvidas, mais complexas ficam as fases de captação e edição.

Se vocês forem gravar a conversa presencialmente — não faça isso durante a pandemia! —, não tem jeito: é necessário equipamento próprio, no mínimo um microfone omnidirecional ou bidirecional, ou uma interface USB ou mixer para conectar e captar múltiplos microfones ao mesmo tempo. Remotamente é mais barato, pois dá para dispensar equipamentos extras. Nesse cenário, há duas alternativas possíveis:

  1. Cada um grava seu próprio áudio. No início, todo mundo abre o aplicativo de captação, alguém conta até três e, no “três”, todos apertam o botão de gravar ao mesmo tempo. Terminada a gravação, todo mundo exporta seu áudio e envia para quem for editar o podcast. A vantagem é que a qualidade será maior e a edição, mais fácil, pois cada voz estará em sua própria faixa. A desvantagem é que isso só funciona para participantes fixos — imagine você entrevistando o… sei lá, o Drauzio Varela, e ter que passar um tutorial de Audacity para ele antes de começar. Não rola.
  2. Alguém se encarrega de gravar todos os participantes via internet. A vantagem é que fica muito mais fácil para os demais, que só precisam se preocupar com a conversa e podem usar o celular sem qualquer prejuízo. Por outro lado, a qualidade passa a depender diretamente das conexões à internet de todo mundo e, dependendo da maneira como o áudio é captado, o editor se deparará com uma faixa só, o que dificulta e até impede edições mais elaboradas, como eliminar vozes sobrepostas.

Uso um programinha muito bacana chamado Piezo (US$ 19, somente para macOS). Com ele, consigo gravar qualquer conversa em qualquer aplicativo — até mesmo ligações telefônicas, jogando a chamada do celular para o notebook graças ao recurso de Continuidade da Apple. No geral, uso o Skype mesmo e uma coisa legal é que agora o Skype permite gravar as chamadas. Note que ele grava as conversas em vídeo, mesmo que ninguém esteja com a webcam ativada. Isso significa que você precisará converter o vídeo para um formato de áudio. Recomendo o FFmpeg, uma ferramenta por linha de comando gratuita e de código aberto. Existem vários tutoriais por aí ensinando como fazer a conversão, tipo este.

Um último detalhe: sempre verifique se a gravação está rolando. Parece um detalhe bobo, mas não é de todo estranho alguém reparar que o aplicativo de gravação não está gravando lá pela metade da conversa. Quando isso acontece, é tão frustrante quanto você imagina. Acredite: repetir as mesmas piadas é bem chato.

Edição

É aqui que muita gente empaca e não por acaso: a edição é mesmo a parte mais desafiadora do processo. No nível máximo de desprendimento, você pode pular essa parte e publicar seu áudio bruto. Não recomendo isso, porém. No Guia Prático, por exemplo, que tem uma edição super simples, eu removo erros (na gravação, quando erro eu paro, dou um espaço, e recomeço a frase; isso facilita na edição), silêncios longos, aquelas respiradas mais fundas e os “é…” e “ahh…” (você provavelmente vai fazer muito disso no começo, daí vai reparar, diminuir, mas sempre será difícil eliminá-los completamente).

Você quer trilha? Efeitos sonoros bonitinhos? Sacadas espertas modulando a voz? Você pode ter tudo isso, basta ser paciente na edição e não se perder no mar de faixas que um trabalho complexo inevitavelmente cria. Editar áudio é relativamente fácil, mas é muito cansativo. Um programa do Guia Prático, com 15 a 20 minutos de duração e sem qualquer efeito ou trilha, consome fácil 1h30min de edição.

Print do Audacity no macOS com um projeto de podcast aberto.
Um projeto simples de podcast no Audacity.

Minha recomendação e o editor que eu uso é o já citado Audacity. Existem outros mais especializados no mercado, como o Reaper (gratuito), o Adobe Audition (R$ 90/mês) e o espetacular Hindenburg (a partir de R$ 500); o grande lance do Audacity, além de não custar nada, é que ele não intimida. Você não precisa de um curso completo para começar a operá-lo. Só tenha em mente que essas outras soluções, embora tenham uma curva inicial de aprendizagem mais íngrime, acabam sendo mais versáteis e poderosas que o Audacity1.

Não vou ensinar a editar áudio no Audacity aqui. Acho que isso foge do escopo e está cheio de tutoriais na internet, em texto e vídeo, de gente mais entendida que eu. Apenas atente ao volume, especialmente se for um programa com mais uma voz. Um erro frequente de podcasts novos é ignorar esse aspecto. Resultado: o programa sai com uma voz falando super alto e a outra inaudível. Quem usa Linux ou Windows pode usar o Levelator, um programa gratuito mágico que nivela todos os áudios automaticamente cobrando uma perda quase imperceptível de qualidade. O Levelator parou de funcionar na última versão do macOS (Catalina); em seu lugar, adotei este plugin do Audacity, que é bem pior, mas bom o bastante para ser usado publicamente. Existe também o Auphonic (US$ 89 para uso pessoal/não comercial).

Há alguns anos, compilei algumas práticas menos óbvias que aplico na edição de podcasts no Audacity. Dê uma lida nelas, pode ser útil.

Na hora de exportar, prefira o formato MP3, que é compacto e preserva boa qualidade. Exporte o arquivo em mono e use um bit rate baixo — aqui, adoto 112 kbps. Pode parecer configurações “ruins”, mas são mais que suficientes para vozes humanas e, de quebra, geram arquivos menores, mais rápidos de serem transferidos via internet. Não se esqueça de preencher os meta dados do arquivo.

Publicação

Prints do aplicativo de podcasts da Apple mostrando Guia Prático e Tecnocracia em execução.
Os podcasts da casa, Guia Prático e Tecnocracia.

O que diferencia um podcast de um áudio de meia hora no WhatsApp é a distribuição. Cada podcast carrega consigo um arquivo XML que funciona como uma espécie de mapa para aplicativos como o Apple Podcasts e o Spotify. Sempre que um novo programa é publicado no podcast, o mapa é atualizado e, graças a ele, os apps detectam o novo programa e podem baixá-lo automaticamente.

Você não precisa saber o que é XML nem qualquer coisa de programação. (Eu não sei, por exemplo.) É necessário apenas um sistema que faça isso por você.

Aqui, no Manual do Usuário, uso um plugin gratuito do WordPress, o sistema de publicação usado no site. Se você já tiver um blog rodando e quiser publicar o podcast dessa maneira, vá em frente. Se não, o que é mais provável, será necessário contratar um serviço de podcasts.

Já usei dois deles, Buzzsprout e SoundCloud. Ambos têm planos gratuitos, mas eles são limitados e/ou têm anúncios. As versões pagas custam cerca de US$ 12 por mês — sim, é um serviço recorrente. A única alternativa gratuita que conheço é o Anchor, comprado pelo Spotify em 2019. O Anchor, aliás, é uma solução completa, que engloba todas as três fases comentadas aqui. Nunca usei e, feita a ressalva de que é um negócio do Spotify (o que para mim é problemático), parece-me o jeito mais fácil de começar um podcast hoje.

Qualquer que seja o serviço escolhido, você receberá em troca espaço na nuvem para hospedar seus programas, uma página na web para exibi-los e distribuição nas principais plataformas de podcasts — Apple Podcasts, Pocket Casts, Spotify etc. É preciso, apenas uma vez, cadastrar seu podcast nessas plataformas, em especial nas do Spotify e da Apple — essa segunda acaba servindo de diretório para muitos apps do gênero. Todos os serviços têm instruções detalhadas de como proceder.

Com seu podcast editado e um dos serviços acima configurado, basta enviar o arquivo de áudio, preencher os dados (nome do episódio, descrição etc.) e publicá-lo. Note que basta publicá-lo no serviço (Buzzsprout, SoundCloud etc.); os aplicativos em que seus ouvintes baixam e ouvem o programa se atualizam automaticamente, graças àquele “mapa” embutido no podcast.

Parabéns, você tem um podcast

Sendo bem sincero, tem uma quarta fase no processo, que é a da divulgação. O mercado já está bem saturado de podcasts, então não é fácil ser “achado” pelas pessoas. Essa é outra área que me escapa e da qual me limito ao mínimo: divulgar em redes sociais e encher o saco de amigos e familiares para que ouçam você e seus amigos (bêbados ou sóbrios) conversando. Boa sorte com isso!

Foto do topo: TheAngryTeddy/Pixabay.


  1. Lembre-se do que eu disse lá no início: meu mantra com podcast é fazer o menor esforço possível para ter resultados publicáveis.

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14 comentários

  1. Adorei o post Ghedin, simples e com o mínimo necessário. Eu e uns colegas de trabalho fizemos exatamente isso, aproveitamos a quarentena para botar essa ideia (que já estava em nossas mentes há anos) em prática. Gravamos com o combo Skype/Audacity, editamos com Audacity e publicamos através do Anchor. Vale lembrar que o Anchor também gera um link de um feed RSS que possibilita acompanhar o programa em aplicativos de podcast não suportados pela plataforma.

  2. Assim que é bom, simples e direto!

    Então o Guia prático e tecnocracia são hospedados na própria hospedagem do site? O plugin é só para criar o XML e interface para ouvirmos?

    1. Isso é muito subjetivo. O diário do Nexo tem 10 minutos; por outro lado, tem podcasts com — literalmente — horas de duração. Depende muito do que você tem a dizer e da disposição/interesse do seu público.

      Nessa área, a única recomendação que dou é não variar muito a duração entre os podcasts publicados. Manter um padrão cria previsibilidade, e isso ajuda o ouvinte a se programar. Se eu acompanho um podcast que publica programas com uma média de 40 minutos, por exemplo, sei que posso inclui-lo em algumas partes da minha rotina, como ao fazer exercícios ou cozinhar e lavar a louça.

      1. Pra mim o ideal é sempre entre 10 e 25 minutos, podemos chegar até os 45 minutos tranquilamente. Acima disso que já começo a olhar torto, mesmo que o tema me agrade.

        Por exemplo, eu adoro o GeoPizza, um podcast que trata de assuntos sobre as cidades – modernas e antigas – e como elas se formaram e cresceram. Mas eles publicam episódios de 2h40 (em média). Isso é muito. Nenhuma sessão de nada que eu faço consome esse tempo atualmente. Outro é o Xadrez verbal que chega a fazer episódios de 4h, impossível encaixar isso em qualquer atividade da minha rotina.

        Nem sempre foi assim, quando eu estudava e trabalhava como editor, eu tinha muito tempo de ônibus e muito tempo sozinho revisando artigos, redigindo emails para autores e avaliadores e, principalmente, organizado a publicação que eu mantinha. Nessa época eu gostava de podcasts longos, porque eles me deixavam “grudado” em um assunto por quase todo o meu expediente e viajem de ônibus.

        Então, meu chute é que depende muito da rotina de cada pessoa, se você não tem períodos monótonos longos, a tendência é que você prefira programas menores, por exemplo.

        1. Como você disse, claro que depende muito da rotina de cada um, mas acredito que quem publica um podcast com horas de duração saiba, ou ao menos considera a possibilidade, que o conteúdo será consumido em várias partes.

      2. Valeu pela resposta! E muito obrigado pelo conteúdo. Útil e sem enrolação.
        Obrigado também ao Paulo Pilotti Duarte pela complementação.
        Um critério que eu acho válido – ando pensando sobre isso – seria uma média no tempo de deslocamento trabalho/casa da cidade onde a pessoa mora. Pensei dessa forma porque acredito que muitos ouvem o pod no carro/ônibus a caminho do trabalho/escola/universidade. Ouço os seus assim.
        Abraços aos dois.

  3. Quando você quiser parecer erudito, os “pufs” da letra pê são denominados como “oclusivos”, e pelo que eu me lembre a variante PT_BR do PR é “surda” (não produz som), então o seu som de “pê” é um oclusivo bilabial surdo.

    Agora perceba a erudição do mesmo trecho reescrito: “As conchas funcionam bem sem a borracha, mas o microfone precisa daquela espuma — sem ela, os sons oclusivos bilabiais surdos produzidos pela letra “pê” ficam muito destacados.”

    =)

  4. Nesse período de quarentena, me deu vontade de gravar um podcast bem despretencioso… Mas quando lembro da parte da edição, eu desisto :)

  5. Para o caso dos amigos bebados, tem a opção do discord com um plugin que salva e mixa todos os áudios.

    1. Inclusive recentemente o Discord começou a implantar uma ferramenta de supressão de ruído durante as chamadas.
      E a NVidia também lançou uma solução de supressão de ruído que utiliza os RT Cores das suas GPUs RTX.

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