Timelapse e outras novidades da câmera no iOS 8

O iOS 8 traz uma série de melhorias ao app da câmera. São recursos que vão do básico ao avançado e que diminuem a necessidade de buscar apps alternativos para tirar fotos e gravar vídeos com um iPhone.

Diferentemente do slow motion, o timelapse funciona com versões antigas do smartphone. Veja cerca de uma hora do meu trabalho condensada em 30 segundos:

Outras duas novidades merecem menção, essas coisas que já deveriam existir há séculos. Primeiro, o temporizador. Agora dá para programar a câmera para fazer uma foto passados três ou dez segundos. A outra não é tão básica, mas igualmente bem-vinda: controle independente de exposição. Ao focar um ponto no viewfinder para travar o foco, basta arrastar o dedo para cima ou para baixo para aumentar ou diminuir a exposição da imagem, ou seja, ela não fica mais atrelada ao ponto focalizado.

Controle de exposição independente.

No The Next Web, Jackie Dove compilou todas as novidades dos apps Câmera e Fotos do iOS 8.

Panasonic Lumix CM1: é uma smartphone ou uma câmera que faz ligações?

O Lumix CM1 é estiloso.
Foto: Panasonic.

A Panasonic escolheu a Photokina, feira de fotografia na Alemanha, para anunciar o smartphone Luimx CM1. Faz sentido? Depende de como você encara o dispositivo. É um smartphone-câmera ou uma câmera que faz ligações?

O conceito não é exatamente novo. A Samsung já lançou algo assim, o Galaxy S4 Zoom, e seu sucessor, o Galaxy K Zoom. No começo do ano passei alguns dias com o primeiro e os problemas dele eram crônicos: hardware mais ou menos e dimensões exageradas — pesado e grosso.

Do primeiro mal o Lumix CM1 não deve sofrer: ele conta com um Snapdragon 801, 2 GB de RAM, tela Full HD de 4,7 polegadas e conectividade 4G LTE. Quanto ao tamanho e peso, as limitações da física, essas sacanas, atrapalham. O dispositivo tem 21,1 mm de espessura (o S4 Zoom tinha 15,4 mm) e pesa 204 g (contra 208 g do modelo da Samsung). Para uma câmera, são números bem legais; para um smartphone, ainda que um aparentemente muito bonito, complicados.

Sensores do Lumia 1020 e equivalente ao Lumix CM1.O que justificaria alguém a carregar esse trambolho no bolso? A câmera. Ela tem lente Leica (f/2,8), faz vídeos em 4K e traz um sensor enorme de uma polegada com resolução de 20 mega pixels. Para colocar em contexto, a ainda hoje melhor câmera em um smartphone, o Lumia 1020, tem um sensor de 1/1,5 polegada. A ilustração ao lado mostra a diferença entre os dois tamanhos.

Com previsão de lançamento para novembro, na Alemanha e França, o Lumix CM1 não será barato. O preço sugerido pela Panasonic será de € 900.

https://www.youtube.com/watch?v=fJiJfGY_tLA

O novo app de Kevin Rose serve para compartilhar miniaturas de fotos e vídeos

Algumas categorias de apps dão uma canseira antes mesmo de descobrirmos qualquer coisa além disso. “Compartilhar fotos”, “editar fotos” e “previsão do tempo”, por exemplo: são tantos, e a maioria mais do mesmo, que é preciso um diferencial forte para quebrar a barreira da indiferença e chamar a atenção dos possíveis usuários.

O Tiiny, novo app de Kevin Rose, o fundador do Digg, serve para compartilhar fotos e vídeos que somem depois de 24h. Ele empresa ideias do Snapchat, Instagram e Imgur, tem a mesma dinâmica batida de quase todas as redes sociais (seguir/ser seguido, curtidas, mais populares etc) e embora apresente um design original e agradável, não é isso o que mais chama a atenção. (mais…)

Microsoft redefine o conceito de smartphone topo de linha e anuncia Lumia para selfies

Novos Lumias anunciados em Berlim.
Foto: Microsoft.

A Microsoft anunciou novos Lumias em Berlim, na IFA. O Lumia 730 (e sua variante 4G single SIM, o Lumia 735) carrega a grande responsabilidade de suceder o queridinho 720, um smartphone intermediário que fazia jus à classificação e de quem só ouvi elogios. Já o Lumia 830 é… curioso.

A Microsoft apresenta o Lumia 830 como um “smartphone topo de linha acessível”, no sentido financeiro da palavra. Comparado aos principais produtos da concorrência, ele realmente custa menos, cerca de US$ 420. É praxe smartphones do segmento high-end custarem ~US$ 650. (mais…)

Graças a uma pessoa, o mundo ganhou 12 milhões de fotos históricas digitalizadas

Ilustração de 1873.
Imagem: Internet Archive Book Image/Flickr, 1873.

Contar histórias não é uma exclusividade das palavras. Imagens podem dizer muito também. Assim pensa Kalev Leetaru, da Universidade de Georgetown, responsável por extrair 12 milhões de fotos e ilustrações históricas de uso livre e pesquisáveis a partir de 600 milhões de páginas de livros.

Leetaru alterou o software usado pelo Internet Archive para digitalizar livros, incluindo nele a capacidade de separar, extrair e etiquetar imagens. Até então o programa convertia o texto em PDF e descartava o material visual. Segundo o próprio:

Durante todos esses anos as bibliotecas têm digitalizado seus livros, mas tratado eles como PDFs ou trabalhos de texto pesquisáveis. Elas têm focado nos livros como uma coletânea de palavras. Isso [o software] inverte a situação.

As imagens estão sendo enviadas a um perfil no Flickr, que já conta com quase 3 milhões delas. Ainda há muito trabalho pela frente e Leetaru espera que seu software seja usado por outras bibliotecas ao redor do mundo a fim de preservar e difundir imagens que, de outra forma, estariam fadadas à clausura e degradação do tempo.

Via The Wire.

As renderizações 3D no catálogo da Ikea

Mais uma peça do catálogo da Ikea.
Imagem: Ikea.

O site CGSociety bateu um papo com Martin Enthed, gerente de TI da agência interna da Ikea, e descobriu que 75% dos produtos no catálogo da fabricante é representado por renderizações 3D em vez de fotos tradicionais. Entre a primeira imagem do tipo, em 2006, e o número expressivo de hoje, passaram-se oito anos. Há dois, em 2012, as renderizações correspondiam a 25% do catálogo segundo apresentação do próprio Enthed na SIGGRAPH. A computação gráfica não é promessa, é realidade na publicidade — e a imagem acima, feita em computadores, prova isso.

O que parece ineditismo é, na prática, bem mais comum do que se imagina. Não é de hoje que várias indústrias recorrem ao poder dos computadores para retocar ou mesmo criar, do nada, o material publicitário dos seus produtos. Ou vai me dizer que você acreditava que esses Ashas dançando e se multiplicando na tela eram apenas aparelhos bem adestrados ou obra de alguma engenhoca? (mais…)

O Hyperlapse do Instagram é incrível e já pode ser baixado

O Instagram lançou hoje o Hyperlapse, seu segundo app — o primeiro, Bolt, (mais) um clone do Snapchat, ainda está restrito a uma espécie de estágio beta em alguns poucos países. O Hyperlapse é um app minimalista de gravação de vídeos que tem como única função acelerá-los e suavizá-los, criando assim timelapses magníficos.

A Wired publicou com exclusividade um perfil do app. Nele, explica a trajetória dos pais do projeto, os engenheiros Thomas Dimson e Alex Karpenko, da ideia à engenhosa implementação utilizando-se do giroscópio e, depois, como o recurso acabou se tornando um app independente em vez de ser incorporado ao Instagram. O ponto mais importante, porém, é este:

O que antes só era possível com uma Steadicam ou equipamentos de US$ 15 mil agora está disponível no seu iPhone, de graça.

A qualidade dos vídeos é de cair o queixo. Duvida? Veja alguns:

https://vimeo.com/104409950

O Hyperlapse é exclusivo do iPhone e essa história ilustra bem dois pontos fracos da Microsoft (Windows Phone) e Google (Android).

Há 15 dias a Microsoft publicou um projeto homônimo com resultados igualmente fascinantes, só que fora do alcance dos usuários. No material de divulgação, os criadores do Hyperlapse da Microsoft disseram estar trabalhando em um app para Windows. “Fiquem ligados”, pediram. Estou aqui ligado desde então e, até agora, nada. Não que eu esperasse um app pronto a partir de uma demonstração pública num intervalo de apenas duas semanas, mas a arte de insinuar coisas muito legais e demorar horrores para entregá-las lapidadas aos consumidores finais é típica da Microsoft.

Ao Google, a fragmentação do Android se revelou a vilã mais uma vez. O Hyperlapse para a plataforma não está nem em desenvolvimento porque são necessárias mudanças nas APIs do giroscópio e da câmera. E quando elas ocorrerem, toda a base se beneficiará? Será algo dependente do Google Play Services ou de uma nova versão?

O Hyperlapse é gratuito e está disponível na App Store.

A redescoberta dos celulares com câmeras frontais — ou para “fazer selfies”

Foto do tweet mais popular da história.
Foto: TheEllenShow/Twitter.

Correm rumores de que a Microsoft está preparando um Lumia com “câmera para selfies”. Ele traria uma câmera frontal de 5 mega pixels, resolução bem maior do que a média de 2 mega pixels vista na maioria dos smartphones topo de linha.

No Brasil, fabricantes locais ou que lutam pelo consumidor menos endinheirado pegam carona na popularidade do termo “selfie” para levar a segunda câmera a modelos de entrada. O S440 (que nome!) da Positivo e o recém-anunciado Pop C3 da Alcatel Onetouch entregam o recurso por R$ 470 e R$ 349, respectivamente, sem revelar quaisquer especificações da câmera frontal.

Essa movimentação da indústria marca a redescoberta da câmera frontal, perdida por diversas fabricantes no caminho rumo a smartphones mais acessíveis ao bolso do consumidor. Afinal, uma câmera extra não é tão essencial e na hora de cortar custos ela acaba sendo uma das primeiras vítimas.

Só que desde que “selfie” foi eleita a palavra do ano por um dicionário, tornou-se o tweet mais popular da história, termo popular na mídia e lugar comum em qualquer ambiente onde duas ou mais pessoas se reúnem e pelo menos uma delas está com um celular no bolso, a demanda pela câmera para fazer selfies aumentou. É o que o povo quer, certo? É hora, então, de responder a esse anseio e levá-la a produtos mais em conta.

Antigamente câmeras frontais eram bons espelhos para ver se tinha sobrado aquela alface entre os dentes depois do almoço, ou se o nariz estava sujo. Hoje, apps como Instagram e Snapchat e serviços de vídeo chamada a la Skype são justificativas melhores ao custo de se colocar uma outra câmera em cima da tela. O que quero dizer é que apesar da sensação de frescor e de hoje os motivos para se ter uma serem melhores, câmeras selfies, ou frontais não são exatamente novidade. A primeira data de 2003.

A camada superior dos smartphones, com aparelhos que trazem o que há de melhor na indústria, já demonstra sinais de comoditização. São sintomas disso a presença de tantos recursos duvidosos e mimos externos na safra desse ano: contadores de batimentos cardíacos pouco confiáveis, mega resoluções de tela que não fazem tanta diferença aos olhos, acessórios muito legais que agora vêm na caixa, como parte do pacote. Eles já têm tudo o que se espera, hoje, de um smartphone — inclusive a câmera frontal, que nunca os abandonou e lá em 2007, com o saudoso N82, eu já usava para aquelas situações nojentas descritas ali em que um espelho era útil.

Nas camadas inferiores, porém, ainda há espaço para evoluções mais significativas. A primeira e mais óbvia é continuar empurrado os preços para baixo. Hoje não é difícil encontrar smartphones usáveis por cerca de R$ 350 e a tendência é que esses fiquem cada vez melhores. O segundo passo, já sentido em menor grau, é levar recursos de segmentos superiores a aparelhos mais simples. Exemplo recente: a tela de alta definição do Moto G. Ainda hoje a maioria dos smartphones intermediários vêm com telas WVGA ou qHD, mas não deve demorar para a HD se tornar padrão. A câmera frontal em smartphones básicos, de entrada, deve seguir o mesmo curso.

Xperia C3: o “melhor smartphone para selfies do mundo”

Fosse pelas suas especificações medianas, o Xperia C3 seria apenas mais um. Ele ainda corre esse risco, porém uma característica distinta pode destacá-lo da multidão ou, no mínimo, torná-lo uma atração bizarra: uma câmera frontal supostamente decente e com flash para fazer selfies.

A câmera tem 5 mega pixels e uma lente do tipo grande-angular, com campo de visão de 80º, o que permite enquadramentos maiores. (A título comparativo, a do iPhone 5 tem 60º.) Há também um flash ao lado da câmera frontal, para viabilizar as selfies na balada e em outros lugares desprovidos de muita luz. O app da câmera traz funções que inserem adereços virtuais e outra, um tanto quanto creepy, para “maquiar” as pessoas nas fotos. Entenda no vídeo:

https://www.youtube.com/watch?v=YToio7g6hAw

A Sony foca em um nicho muito específico ao alardear o Xperia C3 como o “melhor smartphone para selfies do mundo”, mas deve ter público, certo? Espero que a qualidade do sensor e do pós-processamento seja melhor que a do Xperia C, que também tem um apelo relacionado a selfies (um assistente por voz para fazê-las com a câmera de trás), só que não entrega fotos muito bonitas.

Sai em agosto, primeiro na China, depois no resto do mundo, nas cores preta, branca e “menta” (ou verde-geladeira-da-década-de-1940).

A fotografia virou uma forma universal de conversação 

Benedict Evans:

A fotografia virou uma forma universal de conversação, em vez da cristalização de um momento especial ou uma parte do conteúdo editorial profissional.

Antes de chegar a essa conclusão ele apresenta alguns números gigantescos sobre a fotografia digital — ele estima que em 2014 compartilharemos mais de um trilhão de fotos. Fotografamos mais do que podemos (e queremos); isso muda a função da fotografia. O registro visual vira palavra, como conclui Evans.

Esse novo paradigma não exclui o antigo, claro. A convivência entre os dois é perfeitamente possível, só que traz novos problemas a serem resolvidos. Sem dificuldade, dá para pensar em dois: a qualidade das imagens e a organização.

Sistemas que se propõem a colocar ordem de forma automatizada às toneladas de fotos que tiramos, como o Carousel, ThisLife ou Google+ devem ganhar mais atenção na medida em que as pessoas passarem a se dar conta da fragilidade desse material digital. Em paralelo, temos ainda as revelações, que resistem e têm aquela aura de materialidade que fascina mesmo quem nasceu digital.

Na hora de transformar bits em celulose, o outro problema surge: a qualidade. É situação recorrente, em eventos importantes e no dia a dia, vermos smartphones onde antes apareciam câmeras. A convergência e o preço explicam, mas não resolvem a qualidade média dessas imagens. Mesmo smartphones intermediários de qualidade ainda derrapam nesse setor e trazem câmeras que mesmo perto de modelos dedicados de entrada passam vergonha. Se a captação é ruim, não há milagre de pós-produção que melhore o resultado — e raramente existe qualquer tipo de pós-produção.

Como o Flogão virou um reduto online de fãs de caminhão

Caminhões estacionados à noite.

Em meados dos anos 2000, quando câmeras digitais compactas ainda eram maioria e estávamos limitados às 12 fotos que o Orkut permitia enviar, a fotografia digital encontrava nos fotologs o caminho mais fácil para chegar à Internet.

Era uma época mais ingênua, com fotos mais granuladas e resoluções menores. O local onde a maioria que gostava de tirar e publicar fotos era o Fotolog.net, mas outros, como Vibeflog e Flogão, corriam por fora e conquistavam adeptos. Além da publicidade, esses serviços ofereciam planos pagos com vantagens, como maior número de comentários, personalização e música de fundo. Eram, pois, modelos sustentáveis, mas que não resistiram ao atropelo de redes sociais maiores, como o próprio Orkut, depois que relaxou o limite de fotos, e o Facebook, que terminou o que a rede social do Google havia começado e praticamente monopolizou a publicação online de fotos de nós mesmos e de amigos.

Hoje os flogs só são lembrados em duas situações. Quando não em sessões nostálgicas de quem viveu seu auge, é por jornalistas que encontram pérolas arqueológicas de astros recém-saídos da adolescência — Ganso e Leandro Damião, para ficarmos só no esporte, que o digam. Mas os flogs não são só isso. Sem muita invencionice, parados no tempo, eles seguiram em frente, e um desses serviços, o Flogão, acabou evoluindo para algo meio difícil de entender: virou o ponto de encontro de jovens que idolatram caminhões.

Flogão dos caminhões

Descobri esse “pivot” do Flogão durante a gravação do Radiolink, um projeto de extensão do curso de Comunicação e Multimeios da UEM. Um dos temas daquele programa foi flogs, e em meio a muitas histórias do passado despontou essa curiosa roupagem moderna do Flogão: ele foi invadido por caminhões, que aparecem no bloco dos VIPs (contas pagas), entre os flogões mais populares, são os mais comentados… A página inicial do Flogão de 2014 está dominada por caminhões.

Intrigado, resolvi investigar como o Flogão passou de selfies e fotos de gente para veículos de grande porte.

Clube dos adoradores de caminhões

Caminhões.
Foto: Conexão 277.

Para entender essa mudança tão grande no público-alvo, inicialmente procurei os responsáveis por ela: os flogueiros, como eles se chamam.

Logo de cara, Luiz, 15 anos, de Cascavel-PR, revelou o mistério: a maioria dos flogueiros é formada por filhos de caminhoneiros, jovens que, como ele, adoram a profissão, ainda não têm idade para dirigir e curtem muito um “caminhão mais arrumado, com frente rebaixada, traseira levantada, um tanque bem polido… sabe? Caminhão levado no capricho”.

Luiz mantém, com dois amigos, o Conexão 277, um Flogão VIP (pago). Além do tema pouco usual, a escolha do Flogão com tantas outras opções gratuitas disponíveis, como Instagram, Flickr e Facebook, era outra dúvida grande. Sendo um membro mais recente dessa onda de flogueiros de caminhões, Luiz apenas seguiu o fluxo. “[Escolhi o Flogão] porque já nas antigas existiam Flogões de caminhões”. Ele começou em 2012, mas diz que em 2008 já havia Flogões do gênero. Estar entre seus pares é uma vantagem importante para ele, pois facilita encontrar e ser encontrado por outros jovens que curtem caminhões.

As estatísticas do Flogão são importantes.
Imagem: Conexão 277.

Apesar da opção pelo Flogão, ele reclama um pouco do descaso. Vez ou outra o sistema “buga” e bagunça as estatísticas, ou rejeita fotos. Outra crítica recai em Flogões que, aproveitando-se desses bugs, trapaceiam e inflam artificialmente as estatísticas. Não existe sistema perfeito.

A arte de tirar fotos de caminhões

Danillo Araújo, 17, de Luziânia-GO, é outro apaixonado por caminhões que mantém um Flogão, o Elite Goiana. Ele também entrou nessa recentemente, no final de 2012, e assim como o Luiz escolheu o Flogão pelo público que já estava lá: “Acho que não teria tanto público nesses sites [Flickr, Instagram], já que 80% do Flogão é destinado a caminhões. Ele se tornou muito conhecido, então quem quer ver fotos [de caminhão], vai diretamente aos Flogões”.

Os dois contaram como é o processo de tirar fotos. Em ambos os casos, os meninos vão a um posto de combustível e ficam esperando pelos caminhões mais bacanas (“aqueles que têm acessórios e andam sempre limpos”, conta Danillo). Tiram fotos e, quase sempre, recebem um retorno dos caminhoneiros.

Foto do Flogão Elite Goiana.
Foto: Elite Goiana.

A prática é nacional, então vários motoristas já sacaram os flogueiros e mantêm uma relação amistosa com eles, param para conversar, se interessam e querem saber mais sobre o assunto. Uns poucos torcem o nariz e ficam até bravos com o pessoal dos Flogões, mas a maioria dos menos amistosos são apenas precavidos. Perguntam para que são as fotos, desconfiam das respostas que recebem… Uns acabam convencidos das boas intenções dos flogueiros, mas sempre tem aquele que acha ruim, independentemente das explicações, ter o seu caminhão fotografado por adolescentes.

Vez ou outra a polícia interfere. Meio sem entender, apenas mandam os meninos para casa. Luiz conta de uma situação em Toledo, cidade próxima a Cascavel, também no Paraná. Um grupo de flogueiros menores de idade foi abordado pela polícia, que os mandou para casa sob a ameaça de, em caso de reincidência, serem encaminhados ao conselho tutelar.

Parece exagero, mas uns poucos flogueiros tornam o receio válido. Luiz conta que costuma ficar com seus amigos na sombra de alguma árvore, esperando os caminhões passar e sempre tirando fotos fora da pista, em locais seguros. Nem todos têm essa prudência: “tem piá que não, que faz por merecer, se joga no meio da pista pra tirar foto, deita no chão… bobeira, sabe? Outros se jogam no meio da pista e balançam as mãos para os motoristas darem ‘quebras de asa’, sabe?”

Não, não sei. O que é quebra de asa?

O perigo da quebra de asa — e da superficialidade da mídia

Ano passado o Fantástico, da Rede Globo, veiculou uma matéria que alertava sobre a “quebra de asa”, manobra em que o motorista joga a carroceria do caminhão para o lado, fazendo uma espécie de zigue-zague na pista. Pouco tempo depois a RPC, afiliada paranaense da Rede Globo, exibiu outra reportagem mostrando (mas não identificando) flogueiros que pedem aos motoristas para que façam a manobra a fim de tirarem fotos.

A matéria não foi muito longe e ignorou completamente a motivação dos que ficam na beira das rodovias pedindo pela perigosa manobra. Eles existem, mas são, segundo Luiz e Danillo, exceções que mancham a reputação dos flogueiros. Luiz me disse:

“Na maioria das vez os próprios flogueiros pedem para eles fazerem isso. Nós não achamos legal; além de danificar o caminhão, [a quebra de asa] oferece grandes riscos. (…) É revoltante. Por causa de alguns bestas, todos os outros ficam mal vistos.”

O YouTube está repleto de vídeos de quebra de asa, vários feitos por flogueiros, alguns assustadores, como este. Infelizmente, uma prática sadia e que valoriza o caminhoneiro, profissional muitas vezes esquecido ou ignorado, é deixada em segundo plano por causa de uns poucos inconsequentes que extrapolam a segurança e buscam esse tipo de emoção pra lá de questionável.

Um dos rapazes que procurei para conversar, aliás, cancelou a entrevista temendo represálias no trabalho. Por e-mail, disse que “os ‘flogueiros’, como somos chamados, estão sendo vistos de uma forma negativa conforme esta passando na televisão, sendo que nem todos ficam no acostamento se arriscando para conseguir filmar uma quebrada de asa”. Afinal, é mais fácil ser sensacionalista.

E o Flogão?

O gato-mascote do Flogão.
Imagem: Flogão.

Pelo que apurei dessas conversas, o Flogão virou o que é hoje meio que por acaso, pelo comportamento de manada dos flogueiros mais novos. Alguém começou a subir fotos de caminhões lá atrás e depois dele, outros seguiram o exemplo.

O abandono do serviço é evidente. Além dos problemas técnicos relatados pelo Luiz, o layout não muda há anos e as estatísticas de visitação dos flogões mais populares dão uma pequena dimensão do quão baixo é o alcance obtido hoje.

Tentei conversar com alguns profissionais que estavam no Flogão entre 2007 e 2008, sem sucesso. O máximo que descobri foi uma negociação, posteriormente revertida, que levou o Flogão ao Power.com, uma startup brasileira que tinha por objetivo concentrar diversas redes sociais em uma interface centralizada. O Power.com chegou a aparecer no TechCrunch e fez barulho na época. Um ano depois, em 2009, arranjou briga com o Facebook acerca da portabilidade de dados e, em 2011, fechou as portas. No tempo em que esteve lá, houve uma profunda reformulação no código do Flogão e tentativas fracassadas de expandi-lo.

Desde que voltou a ser independente, o Flogão não viu melhorias em seu sistema ou na oferta de recursos. Entrar no site em 2014 é como voltar ao passado, com a diferença de que no lugar de pessoas existem caminhões adornando os endereços mais badalados.

Da mesma forma que o Flickr passou de um jogo online para uma rede social de fotos e que o Twitter absorveu replies e retuítes, recursos que surgiram organicamente entre os usuários do serviço, o Flogão passou por uma mudança que veio de fora para dentro, um acidente de percurso que talvez seja o único responsável por mantê-lo no ar até hoje.

Com Facebook, WhatsApp e Instagram processando bilhões de fotos diariamente, sobra pouco espaço para redes estagnadas e notoriamente menos dinâmicas, como os fotologs de dez anos atrás. O nicho caminhoneiro criou um ambiente diferente de qualquer coisa na Internet, um lugar fascinante, escondido nas ruínas do que era, há pouco tempo, um lugar bem popular na Internet.

Foto do topo: Pavel P./Flickr.

Câmera do Google: pequenos acertos e o novo Efeito foco

O novo app Câmera do Google em um Nexus 4.

Nessa semana o Google deu mais um passe no desmonte que vem fazendo do Android. Não entenda isso como algo negativo; ao remover apps e funções do sistema e permitir a atualização “por fora”, via Google Play ou Google Play Services, os efeitos negativos da fragmentação da plataforma são mitigados. Desta vez foi a câmera que passou a ser distribuída e atualizável pela loja de apps oficial.

A Câmera do Google funciona em qualquer Android rodando a última versão do sistema (4.4 “KitKat”). O app mantém a pegada minimalista do que acompanha o sistema, mas traz mudanças estéticas, simplificações e um modo de disparo totalmente novo, o Efeito foco, que tenta reproduzir o que a Lytro faz nativamente: brincar com a profundidade de campo após tirar a foto. Voltarei a isso depois.

Interface da câmera mais simples e com boas novidades

A nova interface da Câmera do Google.
Câmera do Google.

A interface foi simplificada e, no geral, ficou melhor. O Google finalmente adequou o viewfinder à proporção da foto. Antes, o usuário via uma imagem em 16:9 mesmo quando a foto saía em 4:3, um detalhe que, aos incautos, prejudicava todo o cuidado com a composição. A saída agora bate com a da foto e o espaço que sobra, à direita, transformou-se em um grande disparador — a foto é feita ao tocar em qualquer ponto daquela área, não só no ícone. No viewfinder, um toque ajusta o foco para a área selecionada.

Alguns controles, como troca de câmera, flash e HDR, ficam ocultos em um pequeno ícone no canto superior direito. E foi uma grande felicidade reparar que agora dá para colocar uma grade 3×3 no viewfinder!

Os modos de disparo ficam ocultos na borda à esquerda, e são trazidos à tona com um deslizar de dedo, mais ou menos como na câmera do Moto X. Toda vez que a câmera é aberta eles aparecem ali antes de sumirem, detalhe importante para evitar que caiam no esquecimento junto a usuários menos ligados. Do outro lado, ficam as últimas fotos feitas.

São os mesmos modos de sempre, mais o novo Efeito foco. Cada botão ganhou uma cor própria e um visual bastante “flat” que se estende por todo o app. O atalho para as configurações gerais fica oculto, só é revelado ao puxar os modos de disparo. É a engrenagem à direita. As opções são bem limitadas, mas valem uma visita para aumentar a resolução de tudo — os modos Efeito foco e Photosphere não vêm configurados na resolução máxima; a do Photosphere, aliás, agora subiu para 50 mega pixels contra 8 da versão antiga.

Efeito foco, ou a Lytro fazendo escola

Começou com a Lytro. Depois, foi a vez da Nokia trazer o recurso para as câmeras PureView atavés do Refocus. A nova leva de Androids, encabeçada por Galaxy S5 e HTC One (M8), também entrou na dança; no caso do modelo da HTC, o UFocus, nome do recurso, se utiliza de uma câmera auxiliar para calcular o espaço tridimensional e refinar os resultados.

Desfocar o fundo de uma fotografia é uma coisa legal e muito procurada. Em alguns grupos de smartphones no Facebook, o efeito bokeh é febre — as pessoas procuram por apps que façam isso e ficam fascinadas com os resultados práticos de uma grande profundidade de campo mesmo quando eles são absurdamente ruins, caso de quase todos esses apps de pós-edição. Agora, qualquer um com o Android 4.4 terá essa opção embutida no app da câmera. Mas é uma opção viável?

Sendo uma câmera específica para esse fim, a Lytro oferece os melhores resultados e tem um mecanismo fechado e otimizado para tanto, composto por conjunto de lentes extras dedicado a capturar mais luz de todas as direções possíveis. No caso da Nokia, a técnica é mais rudimentar, mas alcança resultados bem competentes: o app tira uma sucessão de fotos com diferentes pontos focais ao mesmo tempo em que cria um “mapa de profundidade” da cena, juntando tudo depois em uma imagem que é manipulável no app e externamente — dá para brincar no site oficial e incorporar essas fotos dinâmicas em qualquer página web. Abaixo, uma que fiz com o Lumia 920:

A técnica adotada pelo Google é similar, mas exige um movimento extra para ajudar os algoritmos responsáveis pela mágica do foco posterior. Ao fazer uma foto no Efeito foco, é preciso “levantar” a câmera; um tutorial na tela ensina o que e quando fazer. Além disso, diferentemente da solução da Nokia, na do Google dá para, além de alterar a área focada, mudar a intensidade do desfoque no restante da imagem. A desvantagem é que tudo isso só fica disponível para quem tirou a foto, e no próprio aparelho. Ao compartilhá-la em outro local, ela vai como um JPG comum.

O Efeito foco não é perfeito, mas diverte.
Efeito foco em ação.

Neste post, Carlos Hernández, engenheiro de software do Google, explica em termos mais técnicos como isso funciona:

“O Efeito foco substitui a necessidade de um grande sistema ótico com algoritmos que simulam lentes e abertura grandes. Em vez de capturar uma só imagem, você movimento a câmera para cima a fim de capturar um conjunto completo de quadros. A partir dessas fotos, o Efeito foco usa algoritmos de visão computacional para criar um modelo 3D do mundo, estimando a profundidade (distância) de cada ponto na cena.”

Após tirar uma foto nesse modo, a galeria exibe um botão extra de edição que permite mudar o desfoque simplesmente mexendo em uma barra.

É uma implementação engenhosa, mas nem sempre funcional. Em vários casos o desfoque invade o objeto em primeiro plano e vice-versa, ou então não consegue delinear corretamente o que deve estar em evidência. E tem o problema da resolução, já que a qualidade máxima (e que torna a captura mais lenta) só alcança 2048×1536.

Quebra o galho, mas não faz frente a uma boa câmera com lentes bem abertas, ou mesmo ao trabalho que a Nokia fez com o Refocus. Embora mais limitado, o efeito nas câmeras PureView é, na média, mais natural. Às vezes, dependendo da situação, o Efeito foco da Câmera do Google gera algumas aberrações, como essas cebolinhas:

Um caso em que o Efeito foco não funcionou direito.
Foto: Rodrigo Ghedin

Em condições ideais, porém, dá para alcançar resultados magníficos, como esse da laranja (ambas são a mesma foto, com o foco alterado via software depois do clique):

Laranja desfocada.
Sem foco.
Laranja focada.
Com foco.

É um começo. Com o tempo o algoritmo deve ser aperfeiçoado e os resultados ficarão mais consistentes e chegarão a resoluções maiores. É esperar para ver — e, enquanto isso, se divertir mesmo com as limitações.

Nada de filmar em modo retrato!

A Câmera do Google pede ao usuário para deixar o smartphone em modo paisagem na hora de filmar.
Vire o celular!

Lembra do meu apelo para não filmarmos em modo retrato? A nova Câmera do Google engrossa o coro.

Quando no modo de vídeo com o celular em pé, um ícone na tela recomenda ao usuário que ele incline o dispositivo. É um ícone animado pouco descritivo, e não será surpresa se muita gente ficar coçando a cabeça tentando entender do que se trata ao se deparar com ele, mas é um toque legal, gentil (ele não te proíbe de filmar assim, como o YouTube Camera do iOS) e talvez capaz de conscientizar alguns que ainda insistem em filmar na vertical.

Câmera do Google, mais uma (boa) opção

No geral, quem usa o Android padrão (Nexus) tem bons motivos para atualizar a câmera para essa nova. Proprietários de outros modelos já no Android 4.4, como Moto X, Moto G, Galaxy S4 e Galaxy S5, não perdem nada testando, embora o apelo seja menor nesses casos — Motorola e Samsung se dedicam a criar apps de câmera poderosos ou mais acessíveis.

De qualquer modo, não custa nada experimentar. Às vezes é na simplicidade de um app como o Câmera do Google que mora o conforto ou, no caso, a melhor interface para se fazer fotos memoráveis.