As renderizações 3D no catálogo da Ikea


2/9/14 às 8h20

Mais uma peça do catálogo da Ikea.
Imagem: Ikea.

O site CGSociety bateu um papo com Martin Enthed, gerente de TI da agência interna da Ikea, e descobriu que 75% dos produtos no catálogo da fabricante é representado por renderizações 3D em vez de fotos tradicionais. Entre a primeira imagem do tipo, em 2006, e o número expressivo de hoje, passaram-se oito anos. Há dois, em 2012, as renderizações correspondiam a 25% do catálogo segundo apresentação do próprio Enthed na SIGGRAPH. A computação gráfica não é promessa, é realidade na publicidade — e a imagem acima, feita em computadores, prova isso.

O que parece ineditismo é, na prática, bem mais comum do que se imagina. Não é de hoje que várias indústrias recorrem ao poder dos computadores para retocar ou mesmo criar, do nada, o material publicitário dos seus produtos. Ou vai me dizer que você acreditava que esses Ashas dançando e se multiplicando na tela eram apenas aparelhos bem adestrados ou obra de alguma engenhoca?

Diversas empresas se especializaram na produção desses vídeos, como a DMAX e o estúdio Midcoast, que atua em Detroit e atende fabricantes automotivos. A proporção de fotos e renderizações já era bem distante em 2012: “Dez anos atrás [em 2002], cerca de 20% da publicidade automotiva era criada digitalmente e 80%, produzida via fotografia tradicional. Agora esses números se inverteram”.

Mesmo empresas relativamente tradicionais nesse campo, como a Apple, usam ajustes de pós-produção e partes renderizadas ao anunciar iPhones e outros gadgets. Neste vídeo do ano passado, o fotógrafo Peter Belanger mostra o processo de criação de uma peça:

Se os ajustes na pós-produção são de grande ajuda, a renderização 3D pura traz ainda mais vantagens: não está sujeita a limitações geográficas, mudanças climáticas, nem depende da presença do produto em si. E, claro, é mais barata e não raro resulta em imagens mais bonitas. É muito difícil conseguir fotos livres de imperfeições, como comenta Belanger, o fotógrafo de gadgets da Apple, ao The Verge:

Mesmo fotos feitas na câmera precisam de alguma pós-produção. Porque não importa quão bem feito um produto seja, quando você o aumenta em 100%, consegue enxergar mais do que o olho humano é capaz. Algo que parece perfeito ao ser segurado pode ter riscos, marcas e outras imperfeições quando ampliado.

Além de evitar esses pequenos obstáculos e dos benefícios já citados, o objeto tridimensional ainda é totalmente manipulável: pode ser girado, multiplicado, receber luz de todas as direções e em diversos níveis de intensidade. O limite é a imaginação do diretor do comercial.

Os avanços na área chegaram a tal nível que é impossível distinguir renderizações de fotografias. Uns usam o bom e velho Photoshop para fazer retoques, como no caso de Belanger. Outros, como a Ikea, fazem um trabalho monumental, fruto da colaboração entre designers e fotógrafos. As imagens são trabalhadas nos softwares 3DStudio Max e V-Ray, e o nível de exigência é alto. O processo, nas palavras de Martin Enthed, é o seguinte:

Elas [as imagens] são criadas em uma resolução ridiculamente alta. Renderizamos elas em 4K x 4K e elas precisam manter essa resolução. Precisamos da flexibilidade para fazer o que quisermos com os renders — imprimi-las em paredes enormes nas lojas se for necessário. Mesmo que a maioria seja apenas usada no site, todas preservam a possibilidade de serem impressas em alta resolução.

Veja, por exemplo, esta foto:

É um render 3D.
Imagem: Ikea.

Ou seria uma renderização? Ou melhor: isso importa? Em áreas distintas, como cinema e design de produtos, o parecer muitas vezes basta. A reprodução é tão fiel que, à maioria, passa despercebida. Não sei ainda se isso é resultado direto do bom trabalho feito pela indústria, ou se um sinal de uma crescente insensibilidade nossa ou perda de critérios.

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4 comentários

  1. Estava tentando achar no Youtube, mas tenho que pesquisar com calma. Acho que no Brasil tem disto também – basta ver as propagandas das Casas Bahia e Magazine Luiza que rodam nos intervalos comerciais.

    Estou começando a implicar com isso. Como eu disse em um comentário no Papo de Homem sobre excesso de uso de CGI – o excesso de tratamento e de uso de computação gráfica nada mais é que uma caricatura.

  2. 4K x 4K dá 16 megapixels. É uma excelente resolução, mas nada extraordinário, nem muito menos “riducularmente alta” como afirma o tal Martin Enthed.

    1. Como ele diz, “Mesmo que a maioria seja apenas usada no site”, ou seja, é ridiculamente alta para a Internet, onde uma imagem de produto não precisaria ser maior que HD ou FullHD, o que tamparia a tela toda de 99% dos computadores.

      Mas sim, pensando em fotografia, 16 MP não são tanta coisa.

    2. Uma fotografia de 16 megapixels é tranquilo. Renderizar um milhar de objetos em 16 MP é outra coisa…

      1. É verdade. Mas o que isso tem relação com a afirmação de que a imagem FINAL gerada, que é de 4K x 4K, é de uma resolução “ridicularmente alta”?