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O Manual do Usuário sempre refletiu o que acontece comigo fora da internet.

O site surgiu, no final de 2013, como a antítese do ritmo acelerado do Gizmodo, onde eu era repórter na época. Daí o “slow web” e tudo mais.

Durante o curso de comunicação (2013–2016), as influências de lá se manifestaram na linha editorial, com tentativas — algumas ok, outras meio nada a ver — de análises que se pretendiam acadêmicas.

A partir de 2017 e já em Curitiba, veio a fase concomitante e pós-Gazeta do Povo, quando pesei na carga político-ideológica1 em uma espécie de resposta imunológica ao ambiente micro (redação) e macro (Brasil) onde me vi. Sinto que ela se encerrou nas eleições de 2022, quando declarei meu voto aqui.

Faz alguns meses que me dei conta de que estou numa espécie de ressaca desde então. Ressaca de 2022 e dos anos anteriores.

Enquanto negócio, o período 2020–2022 foi o melhor que o Manual já teve. Pessoalmente, desgastei-me muito com o medo do coronavírus, o isolamento, a raiva do presidente; com as brigas que comprei e as expectativas criadas a partir do que produzi naquele período, quando estava determinado, inflamado e, por isso, dando saltos maiores que as minhas pernas.

Não menos importante, desgastei-me também com o objeto deste Manual, com a tecnologia. A utopia que parecia guiar o setor até o início dos anos 2010 revelou-se um engodo — ao menos no campo comercial. Tendências recentes adotadas por quase todos, de startups às big techs, deixaram para trás qualquer pudor de que o mercado tenha algum interesse outro que o enriquecimento e projetos de poder. Criptomoedas, web3, metaverso, NFT, IA — tolices inúteis ou nocivas, estelionato como modelo de negócio.

O desencanto com a tecnologia não é só meu. Talvez o grande desafio daqui para frente seja aprender a lidar com ele.

***

Eu não sei cultivar fontes, minhas entrevistas são protocolares e falho muitas vezes em distanciar-me do objeto da reportagem — o que, se não é necessário, em geral contribui para alcançar bons resultados.

Resumindo, não sou bom repórter.

Também não tenho saco para discutir, para confrontar, para gerenciar conflitos. Por vezes sou indeciso; em alguns momentos, paraliso.

Talvez não seja bom jornalista, afinal. Apresentar-me como jornalista é algo que tem me incomodado um pouco.

Não escrevo isso para “biscoitar”2. Achei que devia essa “DR” com quem lê e com quem assina o Manual para redefinir as expectativas; deixar às claras o que não consigo ou não quero entregar.

O Manual é, ou deveria ser um blog, um lugar com o meu nome onde tento entender uma fatia do mundo (a da tecnologia) a partir de impressões compartilhadas com um público difuso e disposto a dialogar.

Tal descrição pode ser encarada como regressão por algumas (muitas?) pessoas. Uma publicação com formatos diferentes e que fuja de ser apenas opinativa costuma ser mais interessante — a mim, pelo menos. Não é isso que consigo oferecer no momento, porém.

Isso não significa, se surgir uma oportunidade ou me der na telha de escrever reportagem, que não o farei. A beleza do formato blog é que cabe qualquer coisa. Apenas não quero ter a cobrança, ainda que ela só exista na minha cabeça.

***

Existe outra possibilidade para explicar o meu esforço de “descrescimento”: a de que eu esteja um pouco cansado. Nesse sentido, foi um alívio colocar pontos finais em vários “produtos” ao longo do ano, como o podcast e os vídeos em abril.

Perguntei, dia desses, se quem lê o Manual prefere posts em que critico os descalabros das big techs ou os em que fomento tecnologias mais saudáveis. Deu empate técnico.

Acho que o caminho é esse: equilíbrio na linha editorial e menos sufoco. Apesar de eu querer que o Manual seja “apenas um blog”, e mesmo com o enxugamento do último ano, ainda fazemos bastante coisa por aqui:

  • Órbita, nosso fórum onde os leitores pautam o debate;
  • Tenocracia do Guilherme Felitti, que voltou a ter periodicidade (mensal);
  • PC do Manual, que trocou de mãos no início do ano e, sob a batuta do Renan Altendorf, ganhou escala e novos serviços.
  • Nossos repositórios de código aberto no GitHub, onde estão o Órbita e o Dez, tema clássico para WordPress que move este site e é construído com a inestimável ajuda da Clarissa Mendes.
  • O grupo fechado dos assinantes, que migramos com sucesso para o Signal.
  • Novos produtos continuam saindo. Em 2024, foi a vez dos bordados da Ana Ghedin.

Tenho orgulho de tudo que construímos e sou grato às pessoas que me ajudam — as nomeadas acima e tantas outras, a quem lê, comenta, compartilha, divulga o Manual do Usuário, a quem gosta deste espaço e do que proponho nele.

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Meus textos preferidos do último “ano fiscal” (outubro de 2023 a setembro de 2024):

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Alguns números do mesmo período:

  • 521 posts e 25 podcasts publicados.
  • Eu e os leitores publicamos 22.089 comentários, redução de 4,9% em relação ao período anterior.
  • A newsletter está com 6.073 inscritos, aumento de 21,4%.
  • 238 leitores são assinantes/apoiam o site financeiramente, redução de 15,3%.
  • O faturamento no período foi de R$ 75.134,73, queda de 29,5%.

Os posts de aniversário de um, dois, três, cinco, seis, sete, oito, nove e dez anos. No quarto não teve porque o blog estava em processo de migração para a Gazeta do Povo.

  1. Não uso “ideológico” com a conotação pejorativa que impregnou o termo nos últimos anos. Todos temos ideologias, uns as manifestam mais, outros menos.
  2. Não precisa comentar que “não, Rodrigo, você é ótimo jornalista!” Por favor, não faça isso.

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30 comentários

  1. Vida longa ao MdU. Conheci o site exatamente com uma ótima reportagem sobre a Ifood. Independente do maior ou menor gosto com reportagens, o importante é o olhar crítico (de ver as coisas sem condescendência, não uma crítica gratuita) que todo jornalista e veículo deveria ter, mas anda bem raro por aí.

  2. Não, Rodrigo, você é ótimo jornalista!
    Brincadeira.
    Gosto do conteúdo, independente da forma que o veículo seja nomeado – site, blog, jornal, embrulho de peixe…
    Agora, como jornalista que analisa tudo isso, fiquei curioso sobre como é feita a geração de receita com o blog. Você já compartilhou mais detalhes sobre a monetização do Manual?
    Um abraço!

    1. Valeu, Renan! Já comentei em alguns momentos como o Manual gera receita. Em linhas gerais, é um tripé de assinaturas, publicidade direta (negociada com as empresas anunciantes, sem intermediários/ads programáticos) e parcerias de conteúdo (textos meus que saem antes em parceiros, como o Mobile Time, e depois aqui). Hoje, o grosso da receita vem das assinaturas.

  3. felicidades! Hum é um blog misto é uma boa

  4. Como alguém que também tem perdido o interesse em tecnologia que já teve em outro momento, fico pensando que o que mantém a minha ligação ao Manual é a integridade e a coerência na construção desse lugar. Adorei a reflexão, Ghedin!

    Só como observação, sinto bastante falta da época do podcast com a Jaqueline Latloufa. Acho que foi a época que senti o Manual fazendo mais parte da minha rotina.

  5. Esses dias me deparei com o fim de um blog que é um dos que mais gosto, mas que andava bastante inativo também. Do Nicholas Carr. Mas ele, surpreendentemente (para um crítico qualificado da tecnologia) se alocou no substack, onde parece que vai blogar mais e ter mais interação.

    https://www.roughtype.com/?p=9290

    Por sinal, já gostei demais do post dele lá no substack.

    https://www.newcartographies.com/

    Trouxe esse caso apenas para dizer que o importante é você manter sua voz viva na Internet, do jeito que mais lhe agradar. Vida longa ao MdU, mas mais ainda a sua vontade de estar na internet seja aonde for para dialogar com o seu público.

    Abs!

  6. Parabéns! Descobri o MdU através do Tecnocracia e desde então venho sempre aqui pra acompanhar as discussões, que são relevantes e conscientes, ao contrário das notícias deslumbradas que estamos cansados de ver nos portais e redes sociais. Por favor, continue esse excelente trabalho, Ghedin! Obrigado!

  7. O blog chegou a ficar hospedado no Gazeta do Povo?

    Entrei em um dos posts dos primeiros anos e observei a forma como a gente referia a algumas coisas. Gadget era praticamente usado pra definir um celular né. Mas naquela época ainda existiam diversos tipos de celular né.

    Eu gostava do podcast. Como eu trabalhava dirigindo era mais conveniente.

    Mas todo o conteúdo do Manual ainda é muito relevante pra mim.

    Parabéns ao Manual do usuário!

  8. Não vou te chamar de “ótimo jornalista”, não. Mas você é parte da “resistência”. O que você faz aqui é um alento em um ecossistema inflado por más intenções variadas. Faz muita falta caminhar pela Web e encontrar espaços assim. Obrigado!

  9. Parabéns!

    É um feito gigante manter um site (e uma comunidade saudável) por tanto tempo.
    Que venham pelo menos mais 11 anos! :)

  10. Vida longa e próspera ao Manual, Ghedin e toda comunidade!
    Parabéns por mais uma volta em torno do Sol!
    É uma satisfação acessar e mergulhar neste ambiente!
    Forte abraço!

  11. Ghedin, você e o Felitti tiveram uma suma importância na minha sanidade mental durante o período da pandemia. Eu via a mesma coisa que vocês e tinha o mesmo sentimento, mas, quando você esta envolto numa bolha, as vezes vc questiona até sua própria linha de raciocínio.Obrigado mesmo por todo o esforço desprendido, e que aqui continue como uma fonte de prazer e conhecimento ( e críticas também).

  12. Só tenho a agradecer o Ghedin pelos bons anos prestados nesse cantinho bacana da web, tem meu apoio. Desejo vida longa ao Manual e, Ghedin, você escreve excelentes artigos, um ótimo jornalista sim!
    Estamos todos cansados de tanto hype na tecnologia, excesso de exposição nas redes sociais, várias ondas que não levam a lugar nenhum. O Manual e o Órbita ajudam a comentar o que de fato merece atenção.

  13. Parabéns, Ghedin, pelo excelente trabalho e por ser um guardião tão dedicado desse cantinho legal da Internet. Ultimamente andam faltando…

  14. Parabéns por mais uma ano de Manual, Ghedin!
    Acho que algumas dessas questões que você traz são muito comuns de quem entrou numa faculdade de Jornalismo e hoje percebe que não se encaixa nesse mercado, rs. E é muito interessante ver como o Manual está se tornando um produto cada vez mais artesanal, sem aquela preocupação de se tornar o próximo grande portal de tecnologia (e falo isso como um elogio). Que venha o ano 12!

  15. Mais um ano se mantendo na essência de como os blogs nunca deveriam ter perdidos.

    Parabéns por mais um ano, MdU e pelo o seu esforço diário de manter esse projeto, Ghedin.

  16. Imagino o quanto você deve estar cansado. Só cuidado com perfeccionismos e com se cobrar demais… Olha o quanto você já fez e quanto entrega.

  17. Parabéns pelo aniversário do MdU!

    Considero você um ótimo escritor (no sentido mais amplo do termo) e me dei conta disso há bastante tempo, quanto reparei que dois textos que gostei muito de veículos diferentes foram escritos pela mesma pessoa (você, no caso). E nenhum dos dois veículos eram o MdU!

    Obrigado por compartilhar seu conhecimento e opiniões. E que você continue por muitos e muitos anos nos agraciando com seus textos, seja onde for e em qualquer formato.

  18. acompanho o MdU há quase dez anos e teria muito a dizer, mas gostaria apenas de agradecer mais uma vez pela qualidade do trabalho

    obrigado!

  19. Parabéns por mais um aniversário, espero que continue por muitos anos, você foi o único que conseguiu me convencer a ler uma newsletter hahaha

  20. Eu não sei cultivar fontes, minhas entrevistas são protocolares e falho muitas vezes em distanciar-me do objeto da reportagem — o que, se não é necessário, em geral contribui para alcançar bons resultados.

    Isso é bom. Eu vejo como uma qualidade e não como um demérito. A maioria dos jornalistas não tem coragem de admitir que são assim, basta ver a falência da mídia.

    Talvez não seja bom jornalista, afinal. Apresentar-me como jornalista é algo que tem me incomodado um pouco.

    Atualmente, ser chamado de jornalista soa como insulto até hahaha

    Tal descrição pode ser encarada como regressão por algumas (muitas?) pessoas. Uma publicação com formatos diferentes e que fuja de ser apenas opinativa costuma ser mais interessante — a mim, pelo menos. Não é isso que consigo oferecer no momento, porém.

    Mas acho que você comete um erro básico inicial aqui: essas publicações não existem. Não tem jornalista ou escritor que não seja apenas opinativo, tudo é, em instância final, uma opinião. A ideia de que é possível se distanciar da opinião (e nem é não opinar de fato, porque nem foi isso que você disse) é uma miragem para todo mundo. Não existe essa capacidade do nosso lado porque tudo é uma opinião. O que diferencia a seriedade do jornalismo é a opinião baseada em fatos e não em desejos ou notícias falsas.

    Uma coisa é você pegar um fato (a falta de luz em São Paulo) e se apoiar nesse fato pra criar uma opinião (que é o que todo o jornalista faz) sobre isso. Outra coisa é você pegar o mesmo fato e dizer que a culpa é do governo federal porque eles são ligados à Open Society.

    [claro, que no meio disso tem o relato apenas, que vai dizer que tem 10 mil pessoas sem luz desde às 16h, que morreram 7 pessoas no alagamento, que o aeroporto volta a funcionar em outubro; meu acho que isso entra no mérito do serviço e não do jornalismo]

  21. Não, Rodrigo, você é um ótimo jornalista!

    Importante reconhecer nossos pontos fracos e como melhor (ou até se queremos melhorar nisso).

  22. Parabéns a você, Rodrigo, principalmente.
    Obrigado por proporcionar um espaço tão bacana na internet.
    Em tempos de Twitter, TikTok e outras aberrações, o Manual se torna realmente um farol na neblina.
    Sempre que posso, divulgo o site. Infelizmente ainda não consigo apoiar financeiramente mas, assim que a coisa melhorar, será a primeira coisa que farei.
    Parabéns mesmo, você merece.

  23. Parabéns ao Manual! Obrigado por ser o responsável por esse cantinho legal da internet 😊

  24. Oi Rodrigo, vida longa ao Manual do Usuário e você está fazendo o seu melhor. Também sou péssima repórter, não cultivo fontes e gosto mais de um bate papo que os protocolos de uma entrevista (além de achar que tô sempre atrapalhando os outros). O importante é passar a informação correta, e você está fazendo com maestria. Uma alegria também fazer parte, dando meus pitacos nos comentários. Apenas vá, siga em frente. Sucesso!