Como enfrentar a vergonha alheia
Em Como enfrentar o ódio, Felipe Neto, um dos maiores influenciadores que o YouTube já expeliu, relata sua transformação de detrator raivoso dos governos petistas a cabo eleitoral de Lula em 2022.
Raro caso de alguém que conseguiu ser chato nos dois polos do espectro político, Felipe fez barulho com seu livro: dois meses antes do lançamento, já era a maior pré-venda da história da Companhia das Letras, com 10 mil cópias vendidas1.
Ao longo de ~360 páginas divididas em cinco partes, Felipe mistura diário pessoal com história política, teorias da comunicação e psicologia para explicar como “venceu o ódio”.
O autor youtuber aproveitou a oportunidade para passar a limpo seu passado de “palavrões e piadas de cunho sexual” e outras desventuras não recomendáveis a menores de 18 anos e rebater acusações de que é uma influência perversa às crianças.
A ânsia em desmitificar essa mentirada (sério, nada a ver) acaba o levando a exagerar em alguns momentos, como quando afirma que “até 2016, não pensávamos que crianças pudessem acessar o YouTube”. Digo, se fosse “antes de 2006”, vá lá, mas em 2016 o YouTube já era famoso por ser uma espécie de Rivotril infantil.
Ao terminar a leitura de Como enfrentar o ódio, notei que a história se desenrola como em um filme, em três atos. Intencional ou não, vou aproveitar essa estrutura e ilustrá-la com memes, porque é assim que o jovem se comunica e espero que parte da audiência do Felipe leia este texto.
Ato 1: Nós somos os vilões?

Há que se reconhecer a nobreza em Felipe ao admitir que sua gênese no YouTube, quando despontou de óculos escuros e semblante fechado, disparando ofensas gratuitas contra adolescentes da Capricho, gays, o Fiuk e o PT, era a manifestação do ódio em estado puro.
O que não tem perdão é o texto pretensioso que ele usa para nos contar sua história de superação. Por exemplo:
É muito difícil dinamitar as colunas que sustentam aquilo em que acreditamos, isso requer tempo, estudo e vontade.
“Dinamitar as colunas que sustentam aquilo em que acreditamos” poderia ser a passagem mais constrangedora do livro (são muitas candidatas), mas Felipe afastou esse risco enfiando um post do Paulo Coelho, publicado em apoio a ele, que rouba a cena. Começa assim:
Ele poderia ser nosso filho. Nosso Felipe. Nosso Neto.
Nessa hora eu quase larguei o livro.
O pequeno Felipinho foi influenciado pelo tio, irmão da mãe, que demonizava a esquerda e passou o gene da ignorância ao sobrinho. O tio reaça, literalmente. A vida é um grande clichê, afinal.
Não sei como era a vida nos anos 1990 no Rio de Janeiro, onde Felipe cresceu, mas reconheci-me em seu relato relembrando a minha infância no interior do Paraná, onde Jair Bolsonaro ganhou de lavada em 2022 e dizer-se de esquerda é motivo para ser excomungado.
Às vezes, a vida, ou pessoas mais esclarecidas, nos colocam em xeque. A certa altura, Felipe se pergunta: “[…] e se eu estive errado a vida inteira?”
A desconstrução de Felipe Neto permeia todo o livro, culminando no segundo turno de 2022 e em um encontro com Dilma Rousseff e Lula, quando ele, enfim, se assume de esquerda. (Parabéns!) Felipe pediu desculpas a Dilma pelas ofensas proferidas em seu canal, o apoio ao golpe de 2016 e por ter ajudado (segundo o próprio) a abrir espaço para a ascensão de Bolsonaro.
Às vezes a gente erra e, meio sem saber, acaba ajudando a eleger um imbecil como presidente. Acontece.
Ato 2: Está tudo interligado!!!!!

Tudo começa com um “doido” que ninguém leva a sério e que precisa se expor ao máximo para atingir o maior número de pessoas ao vociferar absurdos que ninguém ousaria falar. Essa figura excêntrica não pode ser considerada uma pessoa moderada, séria ou coerente: é necessário que ela se transforme num personagem, numa figura folclórica que se sinta livre para falar o que bem entender. Quanto mais excentricidades, melhor a composição dessa persona. Um cabelo chamativo, por exemplo, é uma ideia. O bigode estranho não é mais aconselhável.
Nesse trecho pensei que Felipe estivesse falando dele mesmo — ainda que no início dos anos 2010 a ausência do bigode em sua face provavelmente fosse mais uma limitação biológica do que escolha estética.
No parágrafo seguinte fica óbvio que ele está se referindo a Bolsonaro em suas infames aparições em programas de auditório, como CQC e Superpop.
Em vários momentos do livro rola uma sensação de “sujo falando do mal lavado”, algumas reconhecidas por Felipe, outras ignoradas. Também há muitas incongruências que seriam difíceis de lidar sem deslegitimar o papel de arauto da verdade e da justiça que o autor se dá.
Poucas páginas à frente, por exemplo, ele descreve a lógica dos algoritmos de recomendação das plataformas sociais e de como eles foram alterados pelas big techs para priorizar o lucro à custa da degradação do ambiente democrático.
É incongruente porque foi essa mesma virada que fez dele, Felipe, um gigante na internet. “Agora, quem decide o que você vai consumir é o algoritmo, não importa a rede social.” Jura? Isso explica muita coisa!
Na parte II, Felipe se transforma em historiador e cientista político. É como ler uma redação de Enem cujo tema são os últimos 20 anos do Brasil escrita por um estudante entusiasmado — admirável o esforço, porém sofrível.
De historiador, Felipe se transfigura em teórico da conspiração, culpando a Globo por acobertar os descalabros da Lava Jato e o clã Bolsonaro por… tudo que há de ruim?
Fiquei imaginando aquele meme do Pepe Silvia, do cara alucinado em frente a um quadro de evidências, só que tentando convencer que Bolsonaro e seus filhos estúpidos sempre tiveram um grande plano de “cooptação pela extrema direita”.
De uma teoria, eu ri. É quando ele explica as bases de sustentação do bolsonarismo nas redes. Entre elas estariam os “veículos aliados e blogs”:
Com participação semelhante à dos influenciadores, veículos aliados e blogs surgiram ou foram cooptados pela extrema direita, incluindo o jornal Gazeta do Povo e a rádio e emissora Jovem Pan, que passaram a disseminar desinformação.
“Cooptados” é um termo bastante gentil (e equivocado) para se referir ao que de fato aconteceu dentro dessas redações, ao menos dentro da da Gazeta do Povo. Sei disso porque eu estava lá.
***
Após a Bienal do Livro em 2019, aquela em que Marcelo Crivella, então prefeito do Rio, tentou censurar gibis com duas personagens gays se beijando, Felipe e sua família receberam ameaças de morte pelo protesto promovido pelo influenciador, que distribuiu milhares de livros com temática LGBT+ aos frequentadores da feira.
Ele e sua equipe de segurança decidiram, então, mandar sua mãe para Portugal:
Vê-la mudando de país às pressas criou uma ferida profunda em mim e no meu irmão, que também tentava não me culpar. Mesmo no pior dos cenários, ele jamais apontou o dedo para mim. O amor sempre foi mais forte que o ódio na nossa família.
Não quero soar insensível. A situação toda é horrível, ninguém merece passar por isso, nada justifica. A estranheza com essa passagem decorre da forma, não da substância.
Após ler o trecho acima, imaginei a mãe do Felipe chegando a Portugal quase como uma refugiada, só com as roupas do corpo, tendo que alugar um quarto no primeiro hostel podreira que encontrasse e passando uns dias à base de McDonald’s e… sei lá, pastel de Belém? Aí, no parágrafo seguinte, ele diz que:
Como parte do plano do Cobra [chefe da segurança], não avisamos nem a família em Portugal. Minha mãe ficaria tranquila e a salvo na casa que Luccas e eu havíamos comprado para ela em 2017.
Sério, mano.
Logo depois disso, Felipe decidiu dar uma entrevista exclusiva a um veículo de credibilidade, parte de uma contraofensiva na batalha midiática com Crivella:
Eu havia recusado todos os pedidos de entrevistas após a ação da Bienal do Livro porque não queria que parecesse autopromoção. O objetivo era vencer a censura. Os protagonistas eram os livros, o pessoal da feira, os heróis que fizeram o trabalho braçal e a comunidade LGBTQIAPN+. Eu não ia transformar aquilo numa medalha, até porque, como heterossexual, branco, homem e rico, eu jamais poderia assumir uma posição de liderança na luta de qualquer minoria. Sou um apoiador, e é nesse papel que devo permanecer.
(Faltou o “cis” ali no “heterossexual, branco, homem e rico”.)
No adesivo colado aos +14 mil livros distribuídos na Bienal, lia-se:
ESTE LIVRO É IMPRÓPRIO para pessoas atrasadas, retrógradas e preconceituosas. Felipe Neto agradece a sua luta pelo amor, pela inclusão e pela diversidade.
Imagine se ele quisesse se autopromover.
Ato 3: À luta!

A parte IV de Como enfrentar o ódio é a melhor, de longe.
Nela, Felipe descreve os ataques baixos e as ameaças que sofreu durante o governo Bolsonaro2. É onde o caráter de bastidores (do que ele realmente viveu e sabe, não do que leu no Twitter) aparece; é onde ele traz algo novo ao debate e, por isso, torna a leitura interessante.
Pena que dura pouco. Em seguida, entra em cena o Felipe Neto guerreiro do povo brasileiro, que se gaba dos embates de xadrez 4D nas redes sociais contra mentes peculiares da política contemporânea, como Carlos Bolsonaro e Nikolas Ferreira, numa guerra de views e de quem irrita mais o outro.
Em sua cruzada contra o bolsonarismo, o neofascismo e a extrema direita (espero não ter esquecido ninguém odioso aqui), Felipe encarnou um maniqueísmo barato, quase ingênuo, misturado a um suposto virtuosismo constrangedor.
Sabe aquele ser humano mítico que os caras da laia do Bolsonaro chamam de “woke”? O estereótipo do esquerdista afetado, quase caricato em seus posicionamentos puros e inalcançáveis por qualquer um além dele mesmo? É meio como Felipe se apresenta no livro.
Talvez o vírus woke exista mesmo. Hahahah, zoeira! Porém fiquei constrangido com esse lance, sim.
Após contar do seu indiciamento por ter chamado Bolsonaro de “genocida” no Twitter (ou no YouTube, sei lá), Felipe escreve:
A família Bolsonaro me pusera numa sinuca de bico. Se eu enfrentasse, correria o risco de ser preso. Se recuasse, eles venceriam e eu seria censurado, parando de influenciar milhões de pessoas, sobretudo jovens, contra o regime neofascista brasileiro.
Talvez não fosse má ideia ele parar de influenciar milhões de pessoas, mas divago.
Todo mundo que não estava com ele ou era neofascista ou estava mal informado. No tom mais paternalista possível, Felipe argumenta que as pessoas, ah, as pobres pessoas, elas acreditavam no Bolsonaro porque foram enganadas pelo Gabinete do Ódio, pelas temidas fake news!!
(Aliás, é meio preocupante que ele bata repetidas vezes na tecla de que a regulação das redes sociais equivalha a impedir a disseminação de “fake news”. O que é “fake”? O que é “news”? Quem define o que é e o que não é?)
A grande batalha nas interwebs de Felipe Neto se deu no segundo turno das eleições de 2022, com vídeos vistos por 5, 11, 20 milhões de pessoas3.
Sua estratégia era desmentir a extrema direita e responder a provocações dignas da quinta série. Tudo num tom meio raivoso. Felipe Neto pode ter salvado o Brasil, mas contribuiu muito para estragar o Twitter.
Será que essa estratégia funcionou? É difícil estabelecer a relação causa e efeito. Nesse sentido, o livro — que já larga em desvantagem por ter como narrador o próprio autor dos feitos narrados —, peca muito. Ele puxa duas ou três pesquisas e algumas declarações para tentar legitimar seu papel na derrota de Bolsonaro, mas… né, vá saber.
Para um youtuber da massa, alguém que despontou para a fama na base da emoção (o ódio, no caso), senti falta desse aspecto no livro. Quem já tentou convencer alguém chucro de que quebrar lâmpadas na cabeça de gay é errado, sabe que a razão não tem muito poder de persuasão nessas situações.
O livro termina sem que a gente descubra qual é o segredo de Felipe Neto para vencer o ódio. Talvez nem ele saiba.
- Acho que a minha cópia, enviada como cortesia pela editora (obrigado!), não contribuiu para esse número. ↩
- Dia desses, aliás, o maluco que levou um carro de som em frente ao condomínio onde Felipe Neto mora foi condenado a indenizá-lo em 20 salários mínimos. ↩
- Note, porém, que o YouTube registra como “visualização” mesmo sessões de poucos segundos.↩
Muito obrigado Rodrigo por ter entrado nesse esgoto para trazer um texto tão divertido. Só assim pr’eu ter interesse nessa pauta hahaha
eu só demorei mais de dez minutos lendo algo sobre o felipe neto pq é muito divertido ver uma crítica bem cortada sobre o livro (cof cof cof COF) do felipe neto e, ademais, sobre minhas desimportantes impressões ja de sua importantíssima passagem pela Flip para nossa finíssima educação acerca de inutilidades de livros de blogueiros, da seriedade cofcofcooof da flip e, sobretudo, do caráter puramente interessado em produzir bons livros vindo das grandes editoras do mercado editorial – igualmente sério – cofcofocof.
gracias pelo entretenimento em plena segunda-feira.
ps. o escritor desta newsletter não é nada menos que um guerreiro por terminar de ler este livro. salut! cordiais saudações!
Fazer o trabalho sujo que ninguém mais quer fazer é um dos motivos deste site existir. Que bom que curtiu!
Depois desse texto, acho que o relatório da moderação de Outubro promete.
Não aguento mais ver ele ser convidado para conversas de gente grande – Folha, Flip – para dizer coisas óbvias. E fiquei feliz que você apontou o que ninguém tem coragem de dizer: o texto dele é do nível de uma redação de Enem.
Concordo que o Felipe Neto conseguiu ser chato em ambos os espectros, mas tu foi mais chato que ele nesse texto. O tom condescendente e a agressão gratuita não combina com teus trabalhos anteriores. Talvez também esteja precisando descobrir o segredo para vencer o ódio.
Oi Vinícius! Não odeio o Felipe e não sei qual o segredo para vencer o ódio — que, como em qualquer ser humano, também manifesto vez ou outra, por mais que isso me desagrade. Meu texto é uma crítica, coisa a que toda obra está sujeita — especialmente as de grande alcance/sucesso, como é o caso. Por isso não acho que tenha sido uma agressão gratuita; é uma crítica a partir do que o livro se propõe, a começar pelo título.
Não esperava muito do livro dele… Afinal, ele não é escritor, não tem conhecimento teórico aprofundado do assunto base que trata no livro (que não é a vida dele, mas o que o influenciou em seus posicionamentos dentro das redes sociais) e tem uma megalomania que é própria a essa geração de influencers e quero-ser-influencer.
Sua análise é muito boa, destaca essas questões. Eu acredito que as pessoas têm a capacidade de evoluir diariamente, desde que consigam se desprender dos modelos sociais constituídos (e que nos levam a sublimar em padrões pré-definidos, quase arquétipos). Espero que um dia o Felipe Neto, com toda a grana que tem, consiga superar a si mesmo.
Vários trechos desse texto (em tom e forma) aparecem nos relatórios de moderação.
Ainda bem que ele escreveu um texto sobre um livro de um famosinho da internet, não um comentário a algo do site.
As regras de convivência dos comentários são válidas entre quem comenta aqui, não são universais. O tanto que critico/criticamos executivos de big techs é exemplo talvez melhor que o Felipe Neto para entender essa distinção.
obrigado pela analise, nem sabia desse livro.
Gazeta do Povo! Confesso que sou fascinado com esse site. É uma máquina de propaganda ideológica impressionante. Seria muito delicado escrever sobre os bastidores da parada? Sugestão (meio impraticável) só, já que é um assunto muito interessante.
O Intercept Brasil escreveu uma boa matéria em 2018 sobre a guinada da Gazeta à extrema-direita.
Boa! Valeu.
Bom dia, Ghedin
O “extrema” aí ficou por sua conta, né?
Abraço!
Régis
Só lembrando que a Gazeta do Povo defendeu quem defendia golpe de estado…
O que eu ri da sagacidade desse texto não tá na Bíblia. Muito bom!!
Pô, Ghedin. Primeiro texto seu que sei que vou sofrer pra ler kkkk
Mas acho (acho?) importante falar sobre o Felipe Neto (?)
Parabéns pela resenha, Ghedin!
Felipe Neto, para mim, soa como aquele perfil no estilo “Marcos Mion”*. No sentido de ser zueiro, “bully” e depois tentar construir uma imagem de nice guy. Já conheci pessoas assim e essas demonstrações de gentileza de modo ostensivo são bem artificiais e causam um certo estranhamento.
Sobre o livro em si, o mais bizarro é que ele criou um clube de leitura para promovê-lo. Salvo engano, o clube terá majoritariamente livros clássicos de ficção… Exceto no mês em que será discutido o livro dele… Além de contar com uma assinatura caríssima, quase caí para trás ao saber que os livros (impressos ou e-books) não estavam inclusos na assinatura (há “e-books” de resumos e análises apenas).
*Sobre Mion, me refiro à imagem dele que vemos na TV (da MTV à Globo), não sobre sua vida pessoal, uma vez que não o conheço fora das telinhas.
Também fiquei de cara com esse clube do livro. Primeiro ele soltou posts criticando o preço dos livros no Brasil (algo que pode sim ser discutido, mas não do modo raso que ele fez, como quando criticou a leitura de Machado de Assis nas escolas), ao ponto do editor da Todavia fazer um artigo na Folha explicando de onde sai cada custo do preço final dos livros. Daí ele cria um clube pago (quando poderia muito bem ser gratuito, como muitos clubes de livrarias ou bibliotecas, ou a custo acessível, para disseminar a leitura, já que não é disso que ele vai tirar seu salário) e ainda indica o link da Amazon para a compra dos livros, o que só contribui para a crise das livrarias e do mercado editorial, onde o custo dos livros considerado por ele como alto se insere. Quem sabe ele pudesse incluir o Contra a Amazon, do Jorge Carrión, em suas leituras.
Quando soube do Clube do Livro dele, fiquei ponderando, pois sei o quão caros são os livros no Brasil… Mas quando descobri que não incluía os livros, aí foi de doer.
Você tem razão o clube poderia ser gratuito, aliás, existem vários na BibliON e, quem sabe, ele poderia divulgar o serviço… Mas não vi nem booktubers divulgando isso… é sempre essa coisa de divulgar livros com links de afiliados para ganhar uma “comissão”.
Infelizmente, consumo conteúdo da Amazon porque, à época que adquiri o Kindle, era a única opção de e-reader vendido no Brasil. Gostava de frequentar a Saraiva e até pensei em adquirir o Lev (leitor adotado por eles), mas infelizmente, como eu temia, foi para o “vinagre”.
Eu não julgo quem compra pela Amazon e esclareço que não foi meu intuito ao sugerir ironicamente ao Felipe Neto que lesse o Contra a Amazon. Eu mesmo nunca comprei pela Amazon, mas compro bastante de feiras de livro com descontos de 50% que, no final das contas, estão beneficiando as editoras e penalizando as livrarias. Entendo a contradição e tento balancear comprando de livrarias independentes sempre que posso. Minha crítica é às pessoas públicas e influentes que poderiam se dar ao luxo de não comprar da Amazon e mostrar ao seu público todos os efeitos negativos que ela causa e se associam à empresa, como é o caso do Felipe Neto. Vai ver ele criticou o preço dos livros baseado exatamente nos preços rebaixados que se acostumou a ver na Amazon e que só ela, por seu poderio de mercado, consegue manter.
Tranquilo, não levei por esse lado não. É que justamente por saber desses aspectos negativos da Amazon tenho consciência das contradições em comprar lá. Essas feiras são muito legais, já participei de algumas.
No caso do Felipe Neto, mesmo que ele tenha outras intenções com esse livro, parece nunca se desvencilhar da faceta mais comercial, de querer aproveitar toda e qualquer oportunidde para faturar mais.
Olha, com todo o respeito, eu estive vivo pra em um dia qualquer ver o autor do blog ‘criticar’ alguém do espectro politico, que não seja da direita.
De qualquer forma, eu acho que qualquer pessoa que se coloca dentro de um espectro politico, falhou como cidadão.
Quando a politica é feita baseada em “quem pertence a proposta” e não “quem será beneficiado pela proposta”, temos a resposta de como (e porque) o mundo hoje esta, da maneira como está.
São politicas desse gênero (baseado em ‘clubinhos’ que se odeiam e não respeitam a dor/clamor/vida aleia), que está levando a um futuro fétido e mortal.
Na verdade a ausência de consciência política tá justamente garantindo o futuro fétido e mortal que vc falou. Não estar ciente da sua classe e, principalmente, igualar todo o espectro político é, por si só, se posicionar dentro do espectro. Aí das duas uma: vc não sabe ou finge não saber.
O seu último paragrafo apesar de rude tem um ponto válido só: política não deveria ser grupos que se odeiam mas sim grupos que se conversam. Fora isso, vamos revisar seu comentário:
“De qualquer forma, eu acho que qualquer pessoa que se coloca dentro de um espectro politico, falhou como cidadão.”
Cidadão geralmente tem a haver com política. Um cidadão é o mesmo que sabe em o quê ele é parte na comunidade onde vive e seus desejos e vontades. No caso do “espectro político”, se a pessoa não consegue se colocar, é porque ela é mal educada politicamente (dado o histórico de temos problemas em educação política, é bem comum). Se ela se diz que não coloca como alguém de espectro ou dentro de algum, pode estar tentando disfarçar seus desejos políticos. Esse é o perigo. Se pergunte onde você se põe, e o resto você se acha. Estar em uma parte do espectro político não significa que você é amigo ou inimigo de algo, mas sim que seus interesses podem variar em relação ao outro grupo. E beleza, não a toa a política existe – para chegar em pontos em comum.
“Quando a politica é feita baseada em “quem pertence a proposta” e não “quem será beneficiado pela proposta”, temos a resposta de como (e porque) o mundo hoje esta, da maneira como está.”
É bem engraçado esta frase pois é dúbia. Não está tão errada, pois você fala de personalismo político – tal como muitos vereadores no Brasil foram eleitos para propostas que serviriam a um deputado ou senador. E não está tão certa pois dependendo do contexto, soa como um “bait”, uma provocação.
Se no MdU eu proponho uma ideia para a comunidade de comentaristas e os responsáveis, teoricamente a ideia será minha. Mas eis o ponto: se estou propondo algo, é não só para benefício meu, mas esperando que você e muitos outros tenham benefícios. E claro, a ideia pode contrariar outros usuários. Invertemos os personagens e dá na mesma: você pode propor algo e eu também sairei beneficiado, tal como você. Política é justamente isso: propostas postas para poder serem avaliadas e postas em prática, seja para benefício de uns, seja para ônus ou até punição a outros, para evitar que o benefício deste seja um mal a terceiro.
Quando você entende a lógica disso tudo, entende porque uma “classe política” existe (teoricamente): pra justamente as regras sociais sejam decididas sem maiores conflitos. O ideal é que fossemos mais “anárquicos” – a gente se respeita por ser humano e evita conflitos baseando-se em respeito mútuo. Mas bem, mente humana é complexa e no final criamos essa complexidade social para evitar que um anarquismo vire um anomio: ausência de regras.
Redes sociais em parte são anarquicas até certo ponto: existem moderações e responsáveis. O Twitter mesmo é entre anômio e ditadura: alguém que tenha um pensamento político similar ao dono pode fazer o que bem entender e só sofrerá punição em casos raros. Pessoas com pensamento político contrário ao dono, sofrerão diversas restrições para desincentivar sua permanência na comunidade digital.
Excelente texto.
Só toma cuidado se isso cair nas mãos do “homenageado”, pq ele vai mandar a turminha do barulho pra cá….
Felipe Neto ao meu ver foi uma pessoa que conseguiu se deslumbrar com a fama e ao menos no meio do caminho procurou “se corrigir / adaptar” para não cair em uma rota pior (ser uma liderança da direita estúpida).
Sinceramente já imaginava que ele era bem simplista de escrita. E beleza, no final só comento para desabafar o que sinto sobre ele: não gosto do mesmo e sou daqueles que acha estranho o tanto de seguidores que ele tem, mas entendo também que meu perfil não é de alguém que ia gostar de qualquer superinfluencer online, o que no final ele alcançou.
Só torço que influencers e similares uma hora meio que não sejam mais a influência principal. Acho estranho como é difícil ver nomes de pequenos influênciadores que não se deixam levar pela fama não geram um efeito de replicação melhor… ou melhor, até é compreensível – conteúdo sem muito peso de ser impactante, mas que tenha um peso cultural relevante, acaba sempre consumido por poucos. Pois a verdadeira riqueza de detalhes está mais em pessoas que falam sobre o que realmente sabe sem soberba ou extremo didatismo.
No mais Ghedin, obrigado pela paciência de ler o livro e fazer o review (no qual de qualquer forma acho que nem influenciará no desejo de compra de muitos, dado que Felipe virou um nome que vende) e torcendo que Felipe Neto uma hora ao menos pense em pegar um ano sabático, até para testar sua própria audiência e relevância.
Parece que o Felipe é assim: Ele faz, se autoperdôa e detona quem faz.
Eu nem lembrava da fase homofóbica, mas lembro da fase antipetista e da última, de promover e defender casa de azar.
Título meio “bait”, já que estamos usando termos de internetês aqui; afinal, chama para algo como transcender o ódio ou superar algo relativo e traz um conteúdo cheio de…
Ódio.
Nunca li justamente por ter essa impressão: sim, é autopromoção. Sim, é um desenvolvimento megalomaníaco. Então o livro parece um neurônio defeituoso materializado em um compilado de propaganda, pro meu eu lírico, é claro. Tudo no campo das ideias, né.
Obrigada pelo seu sacrifício!
Duas coisas: Ghedin, você já escreveu sobre esse lado político do que aconteceu na Gazeta do Povo na época que você trabalhou lá? Seria interessante saber.
Outra coisa: não concordo que o Felipe Neto estragou o twitter, já estava estragado faz tempo! Qualquer coisa que alguém escrevia contra Bolsonaro já aparecia milhares de bots pra sufocar e criticar quem escrevesse, o que o Felipe escrevia ajudou a “equilibrar” um pouco o campo de guerra que sempre foi lá…
Que triste epopéia. Democracia é um jogo sujo, um papel pega mosca.
O pior é ver alguma virtude em ser de esquerda ou de direita.
Quando a pessoa se autoencaixa em alguma ideologia já é uma assunção de preguiça intelectual. Quanto mais ferrenha a pessoa é nisso, mais a mente é preguiçosa.
Infelizmente parece que, on-line, todo mundo ou é o estereotipado woke, citado pelo Ghedin, ou um Mussolini em potencial. Não existe nuância.
Acho o Ghedin ótimo por ser um cara que quebra esse maniqueísmo.
Com todo respeito, mas discordo!
É perfeitamente possível ser sério, científico e se encaixar em algum campo ideológico. Ainda mais quando esse campo ideológico se opõe e trabalha contra forças da extrema direita, do nazismo, do imperialismo, do neofascismo, do neoliberalismo.
A hegemonia cultural está aí em disputa. Sempre esteve! A direita faz muito bem sua guerra nesse campo, diariamente, ora de forma mais direta e explícita, ora de forma mais sorrateira e subliminar. Ceder nisso seria loucura.
Vamos lembrar que Einstein era socialista. https://jacobin.com.br/2021/03/por-que-socialismo/
Sem falar em tantas outras cabeças pensantes e brilhantes que sacaram esse jogo e se colocaram em um espectro ideológico para fazer o bom combate.
Pra quem tem uma visão pejorativa da importância da disputa ideológica, sugiro essa reflexão também.
https://chutandoaescada.com.br/2024/09/12/chute-353/
Ideologia e religião são a anti-ciência. Seguir ideologia é a completa negação do pensamento científico. O caminho do conhecimento é justamente o combate à ideologia, é o princípio do método científico. Ideologia no sentido original é doutrinação, alienação, ausência de ceticismo, ausência de espírito crítico, anti-raciocínio. Ideologia, é um reducionismo, uma tentativa de enfiar uma realidade extremamente complexa em uma teoria que nunca consegue absorver toda essa realidade, uma utopia.
Olha, discussão longa, mas Michel Foucault, Ilya Prigogyne, Dominique Ottavi e tantos outros maioroes e menores, em várias áreas do conhecimento, já puseram em perspectiva o quanto a ciência, pelo modo de funcionamento de sua comunidade, forma de compreensão do mundo e desenvolvimento técnico pode ser também reducionista e danosa. Por assim dizer, o ode à ciência e à técnica beira não passar de mais uma “ideologia”, por assim dizer. É preciso estar atento também a ela, em exercício crítico constante.
E se isso é preciso, ela não é tão diferente assim da religião e da ideologia.
Nem os cientistas (os bons, ao menos) acreditam nessa ideia de que a ciência se faz no vácuo. Se tiver disponibilidade, este é um bom estudo de falhas epistemológicas comuns em pesquisas de machine learning que, de quebra, confronta um tanto a ideia da ciência “neutra”.
Método científico é objetivo, empírico e replicável. Essa que é a beleza. Se alguém tiver carregando as cores ideológicas em algo, é facilmente refutável, se tiver descolado da realidade.
Tomamos a vacina pra covid, por exemplo, pois foi validada pelo método cientifico. Quem foi contra, foi justamente a turminha de um dos ismos.
Mas cada um que viva da forma que é mais confortável. Eu prefiro basear minhas opiniões em fatos e fugir de ideias prontas, mas há quem prefira seguir agendas e pegar ideias prontas, pq realmente dá menos trabalho pra cabeça. Faça o que tu queres, pois é tudo da lei.
Acho pretensioso supor que debater acerca dos impactos da ciência é uma ideia pronta. Mais pronta me parece a utopia do avanço técnico, que ignora as raízes sociais da ciência.
A crítica à ciência não é a anticientífica, nem pseudocientífica, ela é a condição de que a ciência seja chamada à responsabilidade.
Se eu puder recomendar um texto: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cadpagu/article/view/1773
Saberes localizados, da Donna Haraway
@ Alexandre Faustini
Até aí, estamos de acordo, hehe. O que estou tentando dizer é que nada — nem a ciência — é 100% objetiva. A subjetividade é indissociável da natureza humana. No caso da ciência, começa na definição do objeto de análise, das variáveis consideradas, das hipóteses levantadas e as maneiras de validá-las/refutá-las.
É, em parte, a crítica que o paper que te indiquei faz aos pesquisadores de machine learning: alguns acreditam tanto na pureza dos dados que não se dão conta de que a aferição deles é sempre eivada de subjetividades — por vezes, injustiças. Ao adotarem o discurso de que os números são objetivos, acabam perpetuando distorções, às vezes injustiças, preconceitos, e tudo porque fecham o espaço para questionamentos.
Concordo, Felipe! Infelizmente, é muito comum ver pessoas caindo nessa armadilha da falsa simetria, comparando esquerda e direita, sem entender (nem sequer buscar entender) o que está em jogo.