Foto do perfil das teclas de um teclado mecânico da Das Keyboard.

A hora e a vez do teclado mecânico


8/7/19 às 20h06

Muitos de nós passamos os dias sentados, cutucando pecinhas plásticas enquanto focamos em uma tela grande a algumas dezenas de centímetros dos nossos olhos — em outras palavras, usando um computador. Embora interfaces de voz já sejam realidade, é mais fácil apertar estas teclas do que ditar planilhas, textos complexos ou qualquer outra coisa que não seja “Ok Google, vai chover hoje?” ou “E aí Siri, toque aquela playlist”. Somos, e provavelmente ainda seremos por algum tempo, dependentes dos teclados de computador.

Como quase tudo que é comercializável, teclados de computador também têm sabores diversos, ao gosto do cliente. Recentemente, os chamados teclados mecânicos conquistaram espaço junto ao público gamer e, embora as características mais acentuadas deles sejam o festival de luzes coloridas que emitem e nomes comerciais que seu primo de 12 anos inventaria com alusões à guerra e outras temáticas típicas do macho inseguro, não são elas que definem um teclado mecânico.

O que difere esses teclados quase sempre constrangedores e que custam centenas de reais daquele Dell monótono e baratíssimo que você usa no escritório é o sistema que registra o pressionamento de uma tecla e o repassa ao software do computador.

Um teclado convencional confia em uma membrana para fechar o circuito e registrar o toque. Tipo o controle remoto da TV, só que com uma camada extra de plástico duro — as teclas — por cima para dar um retorno tátil melhor, o que colabora com a confiabilidade e o conforto ao usá-lo. É como se o teclado inteiro fosse um botãozão, só que mapeado para disparar comandos diversos dependendo do ponto onde o circuito fecha. Esses locais têm um marcador/botão específico, as “key caps” ou cada tecla plástico individual que você vê à sua frente quando mexe em um teclado de computador. Embora nem sempre uma imagem fale mais do que mil palavras, acho que aqui uma viria a calhar para explicar melhor as 103 das frases anteriores deste parágrafo:

Entranhas de um teclado de membrana.
Foto: Wtshymanski/Wikimedia Commons.

Já um teclado mecânico conta com “switches” individuais para cada tecla. Eles são ativados de maneira independente uns dos outros, o que evita problemas comuns de teclados de membrana em situações extremas, como o “efeito ghosting”, que se manifesta quando o teclado ignora o registro de uma tecla se três ou mais são pressionadas ao mesmo tempo. Quem é que aperta mais de três teclas ao mesmo tempo? Exato, gamers.


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Além disso, reza a lenda que teclados mecânicos são mais “satisfatórios”. (Eu adoro este termo, vago e abrangente, quase tão bom quanto se referir a um gadget, rigorosamente um pedaço de plástico e/ou metal, como “sexy”.) Isso porque suas teclas são barulhentas e têm um “key travel” maior, ou seja, a distância entre as posições de descanso e o “fundo” do teclado ao ser pressionada (o registro do comando, porém, ocorre antes disso), o que resulta em um feedback tátil marcante. A diferença é especialmente notável quando os mecânicos são comparados a teclados de notebook que, por limitações óbvias, têm um “key travel” bem raso — ainda mais em modelos que priorizam a redução da espessura geral do produto, como a atual leva de MacBooks da Apple com seus criticados teclados com mecanismo borboleta.

Para entender melhor, veja esta animação de um switch Cherry MX marrom:

A Dyuky, apresentadora do canal Multicore (onde analisa teclados diversos), gamer e dona de teclados mecânicos há quatro anos, destaca ainda a leveza de alguns switches. “Eu gosto muito de teclado leve e isso não existe em teclado de membrana. É preciso mais força para a membrana fazer a ativação”, explica. Atualmente, Dyuky é dona de um Strix Tactic Pro, da Asus, com switches Cherry MX vermelhos, os mais leves segundo ela. “Se existisse um switch mais leve, eu compraria”, diz.

A alemã Cherry MX é a principal fabricante de switches, mas não a única. Outras — Kailh, Razer, Outemu, Greetech, Zoro, Cherry, Gateron, Zealio — produzem switches e vez ou outra uma delas aparece com alguma invencionice, como a Razer com seus switches a laser.

Ao sair às compras, porém, é provável que você se depare com os switches da Cherry MX mesmo — a empresa trabalha com 60 parceiros e está presente em mais de 60 milhões de teclados já vendidos no mundo inteiro. Os switches dela são identificados por cores. Os vermelhos, como dito, são leves e mais silenciosos. Os azuis, os tradicionais: são mais pesados e emitem um barulho alto, característico de teclados antigos. Já os marrons funcionam como meio termo, nem muito pesados, nem muito barulhentos. Existem outras tantas cores — pretos, verdes, transparentes — e algumas variações que focam em determinadas características — menos barulho, maior velocidade e “key travel” menor.

Ouça o barulhinho do digitar de um teclado com switches Cherry MX marrons:

De volta ao passado

A bem da verdade, os teclados mecânicos passam por uma espécie de redescoberta. Isso porque nos primórdios da computação pessoal, só existiam eles. O lendário Model M, da IBM, é reverenciado por entusiastas, praticamente o pináculo da arte de se fazer teclados mecânicos. Há décadas fora de catálogo, unidades antigas — com 30 anos ou mais — são comercializadas em sites de leilões por preços que superam facilmente os US$ 100.

Atualização às 9h de 9/7: O Cesar do Pinguins Móveis me avisou que os Model M continuam sendo fabricados por uma empresa chamada Unicomp, que comprou os direitos de produzir o teclado da IBM em 1996. Eles também fazem reparos nos Model M clássicos da IBM e oferecem os novos com o mesmo padrão de cores do passado — e que, gosto pessoal, me parecem mais bonitos que o estilo moderno, com corpo escuro e teclas brancas-dentes-do-Firmino-na-Copa.

Anúncio do eBay vendendo um Model M por US$ 139.
Imagem: eBay/Reprodução.

Nesta nova fase, a mira está nos gamers, mas tal qual um bacamarte as fabricantes acabam atingindo outros públicos que também se beneficiam de bons teclados, como escritores, jornalistas e gente que faz trabalhos administrativos em um computador. É o caso do funcionário público David Raposo, de Brasília (DF). “Sou um pouco envolvido com video games e comecei a virar um PC gamer. Só que eu uso teclado não para jogar; é para trabalhar mesmo”, conta ele, dono de um sóbrio Logitech G610 Orion com switches marrons. “Acabei deixando [o teclado] no trabalho e não jogo com ele. É praticamente para digitar”.

Com vantagens tão destacadas, alguém poderia se perguntar por que teclados mecânicos não são mais populares ou, no mínimo, o padrão. O motivo é bem simples: custo. Os de membrana tomaram o mercado apenas por serem muito mais baratos de se produzir. Embora a redescoberta dos teclados mecânicos tenha contribuído para uma leve queda dos preços praticados — principalmente para quem se arrisca com marcas desconhecidas chinesas que vendem seus produtos nas populares lojas virtuais do país —, o custo de um ainda está longe de ser equiparável aos de membrana.

Com menos de R$ 100 é possível comprar no varejo um teclado de membrana de marcas com boa reputação, como Dell, Logitech e Microsoft. Se o nível de exigência do comprador for menor, R$ 30 é suficiente para sair da loja com um teclado funcional na sacola. Já um mecânico é impossível de ser encontrado por valores de dois dígitos. No site da Kabum, loja especializada em peças de computador, o modelo mecânico mais procurado é o HyperX Alloy FPS com switches Kailh pratas. Preço: R$ 660, ou o equivalente a 22 teclados daquele mais simples.

Neste momento, a pergunta que pessoas normais se fazem é: vale a pena gastar tanto em um teclado mecânico?

Paguei para ver. Mesmo tendo experimentado teclados mecânicos apenas rapidamente em showrooms de lojas, imaginei que um deles cairia bem na mini-reforma que promovi no meu escritório doméstico com o objetivo de alcançar aperfeiçoamentos ergonômicos. (E, de fato, elevar a tela do notebook e migrar para um teclado próprio, levemente inclinado, melhorou bastante a situação da minha coluna e ombros.)

O primeiro desafio com que me deparei foi encontrar um teclado que não fosse um show de luzes psicodélicas e de uma empresa que não apoie misoginia. Eles são raros, mas existem. Acabei com um Das Keyboard 4 Professional, edição com o desenho das teclas para macOS. É um teclado completo (inclui o teclado numérico à direita), totalmente sóbrio (sem luzes de qualquer espécie) e com alguns detalhes bacanas, como um dial para ajustar o volume e uma régua na parte inferior que faz as vezes de apoio para proporcionar uma sutil e bem-vinda inclinação.

Vista aérea da minha mesa de trabalho, com destaque para o teclado.
Foto: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.
Detalhe do dial de volume do Das Keyboard.
Foto: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

E… veja, passei a vida toda digitando em teclados de membrana, alguns dedicados, outros no próprio notebook. No começo com o Das Keyboard, vindo do ótimo modelo antigo de teclados do MacBook Pro, estranhei deveras. O perfil alto das teclas me fazia errar muito, a ponto de temer, nos primeiros dias, que jamais me adaptaria e teria que revender esse negócio.

Não foi o caso. Ainda erro ocasionalmente, acho que com mais frequência do que com o teclado embutido do MacBook Pro, mas o aumento no conforto ao digitar é inegável. Se o perfil alto das teclas atrapalha um pouco, o retorno tátil acentuado passa uma segurança maior e, somado à inclinação, faz com que o posicionamento das mãos seja mais natural. Com o MacBook e o teclado simples da Dell que usava na redação do jornal, era frequente dores se manifestarem no dorso da mão direita nos dias em que digitava muito. Com o mecânico, nunca mais senti essas dores.

Dyuky também sentiu essa melhora ergonômica, que ela atribui integralmente à troca dos teclados de membrana pelos mecânicos: “Eu tinha tendinite quando usava o teclado de membrana de R$ 400. Era muito pesado, mais que [teclados com switches] Cherry MX azuis, que são bem pesados”. O referido teclado de R$ 400 foi a última tentativa dela de comprar um do gênero. Além da frustração com as dores, houve outra decepção com a durabilidade — ele quebrou com menos de um ano de uso, o que julga inadmissível para um produto tão caro. “Os teclados mecânicos duram anos. Você compra uma vez e fica tranquilo”, justifica.

Não sei se por exigência do mecanismo de switches ou se por distinção mercadológica, teclados mecânicos de fato costumam ter um acabamento superior. Este Das Keyboard é super robusto: a base superior é de alumínio anodizado e os contatos dos switches da Cherry MX são banhados a ouro e testados para resistirem a pelo menos 50 milhões de toques. No site, a fabricante diz que as gravuras das teclas têm um revestimento ultravioleta (seja lá o que for isso) que, em tese, as protegem de se apagaram com o tempo. As do meu ainda não sumiram, mas com apenas seis meses de uso algumas teclas já estão com aquele aspecto brilhante de usadas e as gravuras do S, da Command e outras que aperto com mais frequentes, desbotadas. A longo prazo, porém, este é o menor dos problemas, porque outra característica dos teclados mecânicos é a personalização.

O teclado definitivo

Não me aprofundarei neste aspecto porque quem tem tempo de ficar montando teclado, certo? Mas a comunidade dos entusiastas de teclados mecânicos vai à loucura com as possibilidades que eles oferecem. Dá para trocar as “key caps” (as teclas de plástico) e até mesmo montar, do zero, o seu próprio teclado, o que eles chamam de “teclado endgame”.

No site de tecnologia norte-americano The Verge, por exemplo, há um vídeo mostrando o processo inteiro de maneira visualmente agradável graças à magia da edição. Quem se aventura por lugares mais obscuros — como o /r/MechanicalKeyboard no Reddit — encontra gente ainda mais comprometida com a busca interminável pelo teclado perfeito. Haja paciência.

As teclas saem com facilidade, mas não a ponto de escaparem sozinhas. Tudo bem que teclados de membrana também podem ter as teclas removidas sem prejuízo, mas o apelo é menor, afinal, você comprou um teclado de membrana, logo deve ser alguém que não liga muito para isso.

Vale a pena?

“É uma questão pessoal, se a pessoa se sente bem ou não”, responde Raposo ao ser questionado sobre sua aquisição. “Eu não trabalho contando palavras aqui, então não vou ganhar mais ou menos se digitar mais rápido ou devagar. Não tem uma justificativa racional, econômica”.

Dyuky acredita que o processo de barateamento dos teclados mecânicos deve continuar, o que ajudará os indecisos: “Acho que estamos chegando a uma situação similar à do HDD e SSD, em que o valor [do SSD] compensa”. Ela se refere às memórias de estado sólido que substituem os antigos discos rígidos (HDD) e são absurdamente mais rápidas. Se no início da década elas eram caríssimas e restritas a notebooks premium, hoje o custo despencou e já é possível encontrar modelos avulsos com tamanhos razoáveis (240 GB ou mais) a preços similares aos dos HDDs mais mundanos que, embora ofereçam mais espaço (1 TB), ainda pecam na velocidade — e provavelmente jamais serão tão mais rápidos quanto os SSDs.

Se as opções disponíveis forem entre dois modelos com preços iguais, o mecânico é a escolha óbvia. Como este cenário ainda não existe, deve-se pesar melhor os benefícios e o uso que se fará do teclado antes da compra. A falta de showrooms onde seja possível testar os mecânicos gera ruídos de incerteza na hora da decisão. Para piorar, além do foco quase exclusivo em modelos gamer, em regra as análises de teclados publicadas por sites especializados e em canais de YouTube parecem glorificar teclados mecânicos sem considerar aspectos importantes como a intensidade de uso, o custo–benefício e o projeto ergonômico do teclado. Porque essas coisas também importam. Para Raposo, o formato e ergonomia são tão importantes quanto o sistema interno, se mecânico ou de membrana. Basta lembrar que os teclados ergonômicos da Microsoft, como o Sculpt Ergonomic, são tidos por muita gente como paradigmas de conforto ao digitar. E são modelos de membrana.

Foto do teclado Sculpt Ergonomic Desktop, da Microsoft, com um mouse e um teclado numérico à parte.
Foto: Microsoft/Divulgação.

Não me arrependo da compra do Das Keyboard, mas não sei dizer se ele seria a minha escolha imediata caso tivesse que ir atrás de outro teclado por qualquer motivo. Voltaria a ele, talvez, pela familiaridade e certeza do que estaria comprando, porque de fato é muito difícil acertar um teclado bom às cegas. O preço dele, porém, me faria pensar duas vezes — por US$ 149, cerca de R$ 570 na cotação atual, é um negócio caro.

Preço à parte, considere que estamos falando de um produto que costuma ser muito usado e que impacta diretamente no conforto ao mexer no computador, algo que muitos de nós fazemos todos os dias, por horas a fio. Sob este ângulo, é relativamente baixa a atenção que damos aos teclados. Gamers têm noções de privilégio e opressão erráticas, sem falar na estética pavorosa, mas em um ponto eles estão inequivocamente certos: um bom teclado é fundamental.

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