Nunca interagimos tanto, mas nunca fomos tão solitários. Por quê?

Homem branco de camiseta preta deitado em um sofá, olhando para o celular, iluminado pelas telas do celular e notebook.

Em julho de 1845, um sujeito chamado Henry David Thoreau resolveu impor um auto-isolamento em uma cabana do tamanho de uma sala de estar no terreno de um amigo ao lado do Lago Walden, em Massachusetts. Àquela altura da vida, Thoreau, 28 anos, era um ilustre desconhecido. Seu primeiro livro, A week on the Concord and the Merrimack River, seria publicado quatro anos depois para uma recepção inexistente. Conta o jornal New York Times: “Ele vendeu uma mera fração da sua tiragem de mil cópias. Quando a editora lhe entregou o encalhe da tiragem, Thoreau empilhou-os em seu quarto e escreveu no seu diário: ‘Agora eu tenho uma biblioteca de quase 900 volumes, sendo que mais de 700 fui eu que escrevi’”.

Nos dois anos em Walden, Thoreau se concentrou em si mesmo. Sem as encheções de saco da vida mundana, ele teve tempo do que chamou de “auto-educação”, algo que exigia um ritmo frenético de leitura sem distrações. A vida era tranquila e não contava com as restrições do nosso semi-isolamento pandêmico atual — o próprio Thoreau recebia conhecidos de vez em quando em sua cabine para conversas.

Foto em preto e branco de Henry Thoreau, de barba, casaco e gravata borboleta.
Thoreau. Foto: B. D. Maxham.
A experiência em Walden foi transcrita em um livro chamado Walden; or, Life in the Woods, publicado quase dez anos depois da sua chegada ao lago. O livro comprime o período de 2 anos, 2 meses e 2 dias na cabana em um ano de calendário e usa as quatro estações como pano de fundo para ilustrar o desenvolvimento humano. Walden, o livro, não teve uma recepção clamorosa — foram necessários cinco anos para vender 2 mil cópias. Uma década depois da sua publicação, porém, quando Thoreau já tinha morrido de tuberculose, o livro foi reconhecido como uma obra-prima, um dos pilares da literatura norte-americana. Tal qual Van Gogh e Kafka, o autor já não estava mais vivo para curtir a fama literária. Até hoje, Thoreau é reconhecido como um dos maiores ensaístas da história e tem entre seus fãs gente como Tolstoi, Gandhi e Martin Luther King Jr.

Qual foi o maior legado de Walden, o ponto que une essas figuras históricas na adoração a Thoreau? São alguns, mas se tem algo pelo qual o livro é mais lembrado é o conceito de auto-educação explorada pelo autor, a certeza de que revoluções começam em casa, uma pessoa por vez. “Nós temos primeiro que ter sucesso sozinhos para que possamos aproveitar o sucesso juntos.” É bem verdade que alguns conceitos e frases de Thoreau acabaram pinçadas1 pelos liberalistas mais radicais, principalmente pela noite em que ele passou na cadeia ao se negar a pagar impostos. Claro que o liberalismo mais radical ignora que Thoreau o fez não por acreditar que qualquer governo é uma intromissão ou que governo bom é governo minúsculo, mas por que não concordava com as ações bélicas e escravocratas do governo norte-americano na época. Enfim, voltando.

Esse processo descrito por Thoreau no livro Walden tem nome: é a solitude construtiva. Eu não consegui tirar a história do Walden da cabeça quando, em 2017, ouvi pela primeira vez uma teoria criada pelo Surgeon General2 dos governos Obama e Biden, um sujeito chamado Vivek Murthy, sobre estarmos vivendo uma pandemia de solidão, um bom tempo antes do SARS-CoV-2 aparecer. Segundo Murthy, há um contingente enorme de pessoas pelo mundo que vive em constante solidão, num mal muito comum (popular) mas quase não abordado. Atrelar a “solitude construtiva” do Walden ao nosso cenário é um erro grotesco. A pandemia de solidão, acelerada pela pandemia do coronavírus, não é um momento de contemplação ou de profundo autoconhecimento.

Nós não somos todos Thoreaus presos em cabanas pequenas nos aprofundando nos segredos das ciências, da política e da sociedade. O sentimento que nos cavalga nos últimos anos não é solitude. O que nós sentimos — e raramente falamos sobre — é solidão.

Uma pequena cabana de alvenaria em meio às árvores; à frente dela, uma estátua de Thoreau.
Réplica da cabana de Thoreau próxima ao lago Walden. Foto: RhythmicQuietude/Wikimedia Commons.

Se está muito etéreo, temos números para embasar. O Instituto Ipsos ouviu 23.004 pessoas em 28 países para mensurar a solidão no planeta. “No estudo Percepções dos Impactos da Covid-19, o Brasil é o local onde as pessoas mais se sentem solitárias: 50% das que responderam à pesquisa têm essa sensação. Turquia (46%) e Índia (43%) vêm na sequência. Para 52% dos brasileiros, a pandemia aumentou o sentimento de solidão (a média global é de 41%), e para 46% teve reflexo negativo na saúde mental”, trecho da capa da revista Você RH sobre o assunto. Ou seja: metade dos brasileiros se sente sempre, muito e às vezes sozinha.

Os altos números no Brasil soam como uma agravante cuja origem não é difícil suspeitar: com os cadáveres se avolumando e um governo que literalmente ri da morte enquanto sabota medidas de prevenção e inoculação, não existe concentração ou motivação suficientes para embalar qualquer projeto de aprofundamento pessoal. O objetivo é chegar vivo ao fim do ano. Na maioria dos outros países, parece simples. No Brasil de 2021, não é.

O Brasil não é o único que se sente solitário. Dos 10 países no topo da pesquisa da Ipsos, 8 são em desenvolvimento — Brasil, Turquia, Índia, Arábia Saudita, África do Sul, Malásia, Chile e Peru. Os intrusos são Itália e Coreia do Sul. Dos 5 países menos solitários, só 1 não é desenvolvido: a Rússia. Outras pesquisas corroboram a percepção. Em 2018, a Kaiser Family Foundation descobriu que 22% dos norte-americanos se sentem sempre e muito solitários, com uma prevalência dos mais velhos. Outro estudo, feito pela National Academies of Sciences em 2020, descobriu que um terço dos adultos com mais de 45 anos reportaram sentir solidão constante nos EUA. O estudo da Kaiser encontrou índices semelhantes no Reino Unido (23%).

As porcentagens continuam etéreas demais, difíceis de personificar? Transformemos elas em números absolutos. Esses 22% dos EUA significam quase 60 milhões de pessoas. Esses 50% no Brasil representam mais de 100 milhões de pessoas. É gente para caramba. E pesquisadores assumem que o número deve ser ainda maior, já que pesquisas ainda esbarram em uma enorme dificuldade: falar sobre solidão é tabu. Admitir que sente solidão soa como a admissão de um fracasso social, que a pessoa não é boa o suficiente para ser amada por outros. Sofre-se muito em silêncio.

Pesquisar a solidão é tão difícil que a principal escala para medi-la, a Escala de Solidão da UCLA, não cita explicitamente “solidão” nos questionários — já se concluiu que, ao ler ou ser questionado(a) sobre solidão, o(a) entrevistado(a) tende a adotar uma postura defensiva que prejudica a qualidade da resposta. Uma campanha britânica lançada em 2011 para ajudar a acabar com a solidão de adultos, principalmente idosos, faz uma revisão de método das quatro principais escalas para medir o quão solitária uma pessoa é. Delas, só uma faz questões que explicitamente citam “solidão”.

Quatro cards mostrando a escala de solidão, em inglês.
Escala da Solidão. Imagem: Campaign to End Loneliness/Reprodução.

Esse é mais um dos motivos que dificultam cravar se, no rigor frio dos números, o nível de solidão da sociedade está aumentando. O que a gente tem são fotografias e indícios fortes que contam uma história que se torna ainda mais curiosa e urgente quando contraposta com algo que todos sabemos: vivemos na era mais conectada da história da humanidade. Com tantas ferramentas de comunicação, como é possível que estejamos enfrentando índices tão altos de solidão?

No Tecnocracia da quinzena a gente vai falar sobre a diferença entre solidão e solitude, a capacidade de criar laços com os outros e como a variedade e a disponibilidade digitais podem trabalhar contra a socialização mais profunda. A cada quinze dias (às vezes mais), o Tecnocracia desvia um pouco dos episódios mais hardcore de tecnologia para entender as consequências nefastas da popularização da tecnologia que, assim como a solidão, a gente finge que não existe. Eu sou o Guilherme Felitti e vou lembrar que o Tecnocracia chegou à campanha de crowdfunding do Manual do Usuário. Todo mês, eu faço uma espécie de episódio ao vivo com participação do público no Tecnocracia Balcão. O conteúdo não vira episódio depois, só fica lá para quem ouvir na hora. Quem assinar a campanha de financiamento do Manual a partir do plano II entra no grupo exclusivo do Telegram e pode acompanhar ao vivo. Custa R$ 16 e eu sei que você já gastou mais com bobagens3.

Vamos deixar algumas coisas claras de antemão: primeiro que solidão é um sentimento que todos vamos experimentar na vida, em maior ou menor grau. Para falar a verdade, é necessário que tenhamos um tempo sozinhos com nossa própria cabeça. Ninguém vive só colado a outras pessoas 100% do tempo. Eu adoro aqueles momentos em que fico mergulhado em alguma coisa, só eu e meu cafézinho, e isso não significa que eu ame menos ou sinta menos prazer em passar tempo com minha mulher, meu cachorro, minha família e meus amigos. A questão é quanto desse tempo sozinho é escolhido e desfrutado. É essa a diferença brutal que existe entre solitude e solidão.

Solitude, além de música da Laura Pausini nos anos 1990, é a capacidade de você se sentir sozinho(a) sem que aquilo seja um fardo. É o estar em serenidade consigo mesmo. A solidão, não. A solidão sempre pressupõe um desamparo, uma vontade não atendida de estar com alguém. Alguém solitário(a) o está por falta de opção, não por serenidade. Não é raro que a pessoa solitária, ao se ver nesse estado, se considere um fracasso, indigna do amor alheio. No topo da solidão cria-se uma camada de ressentimento e, algumas vezes, de raiva do mundo por tê-la abandonado. “Solidão é lava que cobre tudo/Amargura em minha boca/Sorri seus dentes de chumbo/Solidão palavra cavada no coração/Resignado e mudo/No compasso da desilusão”, na palavras sempre precisas e elegantes de Paulo César Batista de Faria, o Paulinho da Viola.

Foto do disco "A dança da solidão", de Paulinho da Viola.
Jamais perderei a chance de colocar uma foto do Paulinho da Viola quando cabe. Foto: Guilherme Felitti/Arquivo pessoal.

Em uma definição um pouco menos lírica, no livro A biography of loneliness: The History of an emotion, publicado pela editora da Universidade de Oxford, a historiadora britânica Fay Bound Alberti define solidão como “um sentimento cognitivo e consciente de estranhamento ou separação social de outros relevantes”. Mas tem outra definição mais simples e impactante para mim: “solidão é luto sustentado”, como disse a Jill Lepore, da revista New Yorker. Que frase. Uma das melhores definições que já ouvi sobre o tema.

Falar sobre e estudar solidão são ações razoavelmente recentes já que a solidão como estado social é um fenômeno razoavelmente recente. Mais dois passos para trás para entendermos a história da solidão. São alguns indícios que mostram que dois fenômenos estão colados: o aumento no viver sozinho e o da solidão. “Antes dos tempos modernos, poucos humanos viviam sozinhos. Vagarosamente, começando não mais que um século atrás, isso mudou. Nos EUA, mais de uma em cada quatro pessoas vive hoje sozinha. Em algumas partes do país, especialmente nas grandes cidades, esse percentual é ainda maior”, diz uma reportagem excelente da Lepore sobre solidão na revista New Yorker. Antes do século XX, estima-se que os domicílios com um(a) morador(a) fossem menos de 5% do total. Em 1950, já tinha quase dobrado para 9%. A partir dos anos 1960, o ritmo de crescimento acelerou, “impulsionado por uma taxa maior de divórcios, uma taxa de nascimentos ainda caindo e expectativa de vida ainda maior”, diz Lepore. No Brasil, essa aceleração está acontecendo nos últimos 15 anos. Entre 2005 e 2015, a porcentagem de brasileiros morando sozinhos saltou de 10,4% para 14,6%, segundo dados do IBGE.

Morar sozinho anda de mãos dadas com o conceito de privacidade. Como já dito no Tecnocracia #27, “o conceito de privacidade só existe quando se considera que cada ser humano é único e tem direito a um espaço único onde ninguém tem acesso ou só tem ação quando a pessoa permite. Em sociedades tribais, a noção de indivíduo era bem menos importante que a noção de grupo, também por uma questão de segurança: num ambiente ainda inóspito, com armas rudimentares e uma taxa mortalidade que te colocava na terceira idade com 35 anos, era mais seguro viver em grupo, como uma entidade única”.

Sorri seus dentes de chumbo

O histórico da solidão e como ele se relaciona com o estilo de vida de homens e primatas nos últimos milhões de anos foi estudado por John Cacioppo, do Centro de Neurociência Social e Cognitiva na Universidade de Chicago. Segundo a teoria evolutiva de solidão de Cacioppo, “primatas precisam pertencer a um íntimo grupo social, uma família ou um bando para sobreviverem. Isso é especialmente verdade para humanos. A separação do seu grupo — tanto se descobrindo sozinho ou entre estranhos que não conhecem ou entendem você — desengatilha uma resposta ‘lute ou corra’4. Em outras palavras: o trabalho do Cacioppo descobriu que seu corpo entende o estar sozinho ou cercado de estranhos como uma emergência.

Entre as dezenas de milhões de anos dos primeiros primatas e a década de 1960, quando o morar sozinho virou moda e, com ele, a solidão, houve uma janela enorme de tempo em que solidão era um estado exclusivo de monarcas estupidamente ricos e doentes terminais. O conceito de privacidade não se desenvolvia por ser impossível uma pessoa, afundada na pobreza profunda, abandonar os cortiços, os burgos e as moradias populares em nome de um espaço só seu. A solidão é consequência também do enriquecimento global.

Essa sensação de inadequação e de defensividade tem consequências sérias no corpo. “Por milênios, a hipervigilância em resposta ao isolamento se integrou ao nosso sistema nervoso para produzir a ansiedade que associamos com a solidão”, escreve o Surgeon General Murthy no livro que publicou sobre o assunto, Together: The healing power of human connection in a sometimes lonely world (sem edição no Brasil). A hipervigilância, nos explica Murthy, justifica a queda na qualidade do sono, a pressão alta, a dificuldade de concentração, a respiração instável e os problemas da frequência cardíaca. Ninguém em hipervigilância vive de forma agradável. E isso tudo já valia antes da quarentena, sem contar a paranóia que se avoluma na cabeça desde março de 2020 — sem contato constante com gente real, pode-se entender ações corriqueiras, como a demora em devolver um aceno, como planos contrários a você.

Agora chega aquela hora em que, com razão, você me pergunta com candura: “Guilherme, esse não é um podcast sobre tecnologia?”, ao que eu respondo “Não, bonitinho(a), é um podcast sobre os efeitos da tecnologia nas nossas vidas”, ao que você responde “Legal, mas cadê a parte da tecnologia pelo menos para a gente entender se tem relação com ela?”, ao que eu, por fim, respondo “Calma, é agora”.

Em 2012, o sociólogo Eric Klinenberg escreveu um livro chamado Going solo: The extraordinary rise and surprising appeal of living alone em que alegava que uma entre tantas razões para justificar esse aumento no morar sozinho foi a popularização da tecnologia, principalmente o telefone a partir dos anos 1950. Para ter o contato constante com sua família que te fazia se sentir “em casa”, não era mais necessário morar junto ou muito perto. Com a evolução dos meios de comunicação, essa sensação de “lar” foi se tornando mais permissiva — o rádio, a TV e, por fim, a internet ajudaram nesse processo de aclimatação. E é aí que finalmente entramos na internet.

As consequências do aumento nesses “arranjos unipessoais”, como nomeia o IBGE, principalmente a solidão, soam ainda mais chocantes se lembramos que ela acontece concomitantemente à maior rede de comunicação da história da humanidade. Nunca foi tão fácil se comunicar com quem você ama ou com estranhos desconhecidos do que nos últimos 20 anos. Não é preciso um diploma de PhD ou atividades intelectualmente desafiadoras para acumular dezenas de milhares de seguidores. As centenas de pessoas que conhecemos pela vida estão disponíveis ao toque de um botão. Há uma variedade enorme de pessoas, conhecidas ou não, a se escolher. E é exatamente essa variedade e disponibilidade que jogam a favor da solidão. A base do argumento é simples: conexão não é laço.

Há diferentes níveis de laços afetivos entre as pessoas. Existem os conhecidos, gente que você troca algumas palavras quando está passeando com o cachorro, por exemplo. Existem os colegas, gente com quem você divide uma parte da rotina. Existem os amigos, gente com quem você se abre ou divide suas horas de diversão. E existem aquelas pessoas com as quais você pode contar de verdade. A internet é excelente para os laços das três primeiras categorias: os conhecidos, os colegas e aqueles amigos das horas de lazer. É lógico que contatos iniciados online podem se desenvolver em laços profundos e duradouros, de gente que vai estar lá um para o outro até o túmulo. A imensa maioria, porém, é de gente com quem você tromba, troca uma ideia, sacia aquela vontade social e tudo bem. Nem todo mundo que você conhece na vida vai virar teu amigo do peito. A rede de socialização que cada um de nós monta é um troço complexo, que tem diferentes camadas que servem às suas necessidades.

O topo da pirâmide pode estar vazio

Quem melhor detalhou essa pirâmide foi o antropólogo e psicólogo da Universidade de Oxford, Robin Dunbar. Partindo do estudo de primatas5, tal qual Cacioppo, Dunbar descobriu que uma pessoa conseguiria dizer o nome de um rosto para 1,5 mil pessoas. É a base da pirâmide. O próximo estágio são cerca de 500 conhecidos. O próximo, menor e mais íntimo, envolve 150 pessoas — amigos que você chamaria para uma grande festa, por exemplo. Aí a pirâmide vai afinando ainda mais. O próximo passo é composto por 50 pessoas que você convidaria para um jantar na sua casa. O próximo são 15 — pessoas com quem você pode se abrir ou confidenciar alguma dificuldade. O topo da pirâmide não é maior que cinco — são os que compõem seu grupo de suporte, a galera para quem você ligaria caso tivesse um infarto no meio da noite.

Os dados da pesquisa de Dunbar se mostraram surpreendentemente consistentes quando comparados com períodos longínquos da história humana. “O tamanho médio de grupos entre as sociedades modernas de caçadores e coletores (onde existem dados censitários precisos) era de 148,14 indivíduos”, diz outra reportagem da New Yorker que detalha a pesquisa da Dunbar. Isso quer dizer que a internet mudaria essa lógica? Não. Diferentes estudos feitos por pesquisadores da Universidade de Indiana, da Universidade Estadual de Michigan e da Universidade da Califórnia Berkeley descobriram que, ainda que as mídias sociais levassem a mais colaborações profissionais, o número de pessoas com as quais você mantém relação sustentável é o mesmo das pesquisas de Dunbar.

“Uma das coisas que mantém as amizades cara a cara fortes é a natureza da experiência compartilhada: vocês riem juntos, dançam juntos, tiram sarro dos comedores de cachorro quente na Coney Island juntos. Nós temos um equivalente nas mídias sociais — compartilhar, curtir, sabendo que nossos amigos assistiram o mesmo vídeo de gatinho no YouTube que você viu —, mas falta a sincronicidade da experiência compartilhada”, explica a reportagem da Maria Konnikova na New Yorker. Você pode até acompanhar a vida daquela pessoa com quem você fez colegial e curtir as fotos do seu novo bebê. De novo, conexão não é laço profundo.

Relembre seus amigos ou amigas de verdade, aquela galera com a qual você pode ligar caso esteja fodido(a). Relembre como aquele laço se criou. Provavelmente não teve só momentos bons. Houve momentos compartilhados de angústia genuína (neurose não é angústia genuína) ou dificuldades práticas. Houve a certeza de que aquela pessoa se importa com você, o que desengatilha aquela sensação boa de socialização, de ser querido, amado, cuidado. De não estar sozinho(a) no mundo. Mas só se conclui isso quando se mergulha. Quando olhamos para a variedade online, há sempre a armadilha de não se submeter a situações minimamente incômodas, que não se encaixem nas nossas expectativas para se arranjar outro, mas quase nunca se arranja6. Laço pressupõe o mínimo de esforço e um pouco de tolerância.

Estamos falando que a epidemia de solidão já tem anos, mas é inegável que a quarentena a tornou ainda mais problemática. Eu quero focar em uma parte específica daquela pirâmide de laços que descrevi ali em cima. Nós temos muitos laços corriqueiros de gente com quem trabalhamos, por exemplo. Não são amizades profundas, mas têm o seu papel. Uma das maiores faltas que eu sinto da redação era aquela meia hora no meio da tarde para parar e tomar um café jogando conversa fora com outras pessoas. As pessoas com quem eu mais fazia isso, em alguns casos, quase não falei mais depois que saí de redação. Mas esse coleguismo, esse laço com quem está disponível ao seu lado, ainda que não seja o amigo ou a amiga do peito, é gostoso. O home office forçado pela pandemia barrou esse tipo de interação constante e, para uma galera, ajudou a descortinar a realidade de que a sua pirâmide não tem amigos, mas só colegas de trabalho. Não é uma realidade agradável.

Se você ouviu o episódio e começou a se preocupar, existem alguns exercícios práticos bem simples para tentar entender o quão solitário se é. Porque, vamos deixar uma coisa clara aqui, é possível viver sozinho sem ser solitário e você pode morar com dezenas de outras pessoas e ser miseravelmente sozinho.

O primeiro caminho, com um relativo embasamento científico, é fazer o teste da Escala de Solidão da UCLA. Em uma escala de 1 a 4, sendo 1 nunca e 4 sempre, classifique como você sente nestas três questões:

  • Sinto falta de companheirismo.
  • Ninguém me conhece de verdade.
  • Eu sou uma pessoa extrovertida.

O teste tem um total de 20 questões nesse estilo. Ao fim, baseado nas respostas, ele te encaixa em uma escala. Tenha cuidado para não fazer o teste em casa e se diagnosticar sozinho. Se você realmente está preocupado(a), busque ajuda profissional.

Um segundo caminho é ter uma conversa brutalmente honesta consigo mesmo. Quantos amigos(as) de verdade você tem? Gente que correria para sua casa se você passasse mal? É uma pergunta dura cuja resposta pode não te agradar muito, principalmente porque nem todo amigão ou até mesmo parente se sujeitaria a isso. Eu tive um momento muito pesado da minha vida em que acordei algumas vezes no meio da madrugada tendo ataques de pânico. Eu vivia sozinho. Foi nessa época que eu fui forçado a elencar pessoas que, caso eu precisasse, estariam dispostas a me ajudar mesmo que fosse no meio da madrugada. Esse processo de finalmente admitir que gente muito próxima não entraria nessa lista é bem duro, mas necessário na vida adulta.

Terceiro: enquanto eu escrevia esse episódio, fiquei com a impressão que já tinha dito algumas das coisas aqui. Ouvi novamente alguns episódios até entender de onde vinha a familiaridade: o episódio do Tecnocracia sobre raiva toca em alguns pontos muito semelhantes e ficou explícito para mim o quanto a raiva e a solidão estão de mãos dadas. Gente que vive raivosa demais acaba isolada por se tornar intragável. Talvez a solidão seja só o sintoma de alguma coisa que está te comendo por dentro e condicionando suas ações a uma repetição ad-infinitum.

Não à toa, o raivoso(a) vai, gradualmente, se isolando ou, após a popularização de redes sociais, encontrando guarida em grupos de outros raivosos/as, o que leva a uma radicalização ainda maior. Você acha que gostar da mesma série é razão para namorar alguém? Espere odiar a mesma coisa. Ou também tem o efeito de te tornar um misantropo que acha que todo ser humano é um babaca que não tem nada a te acrescentar.

Muitas vezes, a gente acha que aquelas relações sociais estão garantidas. Mas tudo é foto. O que fez sentido há uns anos não faz mais agora necessariamente. Você vai olhar o topo da pirâmide descrita pelo Dunbar e descobre que está vazia. Relação é tipo bicho: se não alimentar, morre e deixa um cheiro fétido que empesteia tudo. Às vezes, gasta-se tanta energia para cumprir aquele ritual tão zeitgeist de criar personagem para os outros na internet que se esquece de alimentar as relações que efetivamente valem. Eu aposto uma torta de frango daquelas com massa podre que tem um monte de influenciador aí com milhões de seguidores e um topo de pirâmide empoeirado.

Como abrir-se de novo? Na entrevista dada ao Ezra Klein da Vox, Murthy pinta um caminho simples: ajudar o outro. Ao se protagonizar atos de generosidade, a gente tira o foco em nós mesmos e voltamos a ter contato com o que é ser humano. “Tá, Guilherme, mas o que eu faço?”. Faz 10 marmitas e vai entregar para morador de rua ao lado da sua casa. Vai comprar cobertor que o inverno tá chegando e é assustador o número de pessoas vivendo na rua. Bonito(a), o que não falta no Brasil de 2021 é gente precisando de ajuda. Ajudar o outro também te abre para círculos sociais além da sua bolha construída por algoritmos. A gente não consegue só viver com gente que concorda 100% com a gente.

Esses atos de generosidade podem fazer o motor funcionar no tranco, mas ele só continua rodando com uma abertura gradual — o fermento de laços mais profundos é a vulnerabilidade, a espontaneidade, o não querer se perfazer ou viver um personagem. Se você quer ter laços mais profundos e contar com gente que está lá para você quando precisar, abandone o CNPJ. Foca no CPF. Assuma sua condição humana — somos todos uns primatas falhos cheios de dúvidas se cagando de medo, mas com uns momentos salpicados de coragem.

Sair do digital também é fundamental. A pesquisa de Dunbar mostrou quão importantes para os laços afetivos são os toques físicos simples, como uma apertada no braço ou uma mão no ombro. “Nós subestimamos a importância do toque no mundo social. Palavras são fáceis. Mas a maneira como alguém toca você, mesmo casualmente, diz mais sobre o que ele(a) está pensando sobre você”. Lembrete óbvio: ainda estamos em uma pandemia. Tome cuidado ao se aproximar de outras pessoas.

Ainda que a solitude construtiva relatada pelo Thoreau e a epidemia de solidão que nos assola hoje sejam profundamente diferentes, há uma inegável ponto de contato: assim como um dos pilares do método relatado em Walden, qualquer mudança para a solidão que você sente só vai acontecer quando você olhar para dentro e começar a se cuidar. Não vai ser gostoso no começo, mas os resultados são excelentes. Você só consegue experimentar solitude quando resolve as causas que te levaram à solidão.

Por fim: se você, enquanto lia ou ouvia esse episódio, se identificou demais com algumas descrições ou se tocou fundo em algo difícil de articular sozinho/a, o melhor a fazer é investigar isso. A psicologia ou a psiquiatria vão te ajudar a entender o que está acontecendo e como você talvez esteja repetindo alguns padrões que só prejudicam você. Eu já tive um momento de vida bem parecido com o que descrevi aqui. Eu estava profundamente magoado, o que me levou a uma postura de “reizinho na sua torre de marfim” com impulsos misantropos, o ambiente perfeito para a solidão te corroer por dentro. Parece contigo? Procure ajuda profissional. A vida tem uma galera filha da puta, lógico, mas é sempre bom lembrar quando essa corja parecer maioria que não é – existem ainda mais pessoas boas, gentis, generosas, divertidas, interessantes, que te ajudam, que estão lá para você. É com gente assim que a gente resolve a solidão.

Nota do editor: Solidão em meio à tecnologia foi tema de uma das primeiras matérias do Manual do Usuário, quase oito anos (!) atrás. (Re)Leia ela clicando aqui.

Foto do topo: Vadim Artyukhin/Unsplash.

  1. O que a Luciana Gimenez chamaria de “cherry-picking”.
  2. Surgeon General é uma espécie de chefe da saúde pública nos EUA. Não é a mesma coisa que o Ministério da Saúde.
  3. Estou testando novos discursos comerciais. O deste episódio é o “shameful”.
  4. Ou o “fight-or-flight”. Beijos, Lu!
  5. Especificamente dos hábitos dos macacos ao se pentearem, o que quer dizer que quando mandam Dunbar pentear macacos ele pode falar que conhece o ato com propriedade.
  6. Não estou falando de violências e crimes, por favor. Se você encontra alguém — na internet ou fora dela — com comportamentos violentos, agressivos ou preconceituosos, é para cair fora mesmo. Eu sigo o lema de “não sei lidar com louco e não tô afim de aprender”.

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8 comentários

  1. Parabéns Guilherme Felitti pelo texto, aliás, pelos textos. Estou descobrindo o tecnocracia (e o próprio Manual do Usuário) a partir desse artigo, e digo que estou muito feliz com o que li. Faz falta a qualidade de argumento que você nos traz!
    Ao longo da leitura, aprendi, refleti, discuti, concordei, discordei… Me senti “em casa”, ou seja, com a percepção de que estou ouvindo uma fala familiar, e de quem não preciso ter medo mesmo quando meus pensamentos refutam.

    Obrigado por nos trazer isso!
    Grande abs, Arnaldo
    PS: “conexão não é laço” ficou para sempre em mim. Um dia vai ser epígrafe (devidamente identificada, é claro) de algum texto meu.

  2. Thoreau na prática não estava tão sozinho, parece que tinha até uma escola infantil perto dele.
    fora que nem mesmo isolado estava e mantinha uma vida social razoavelmente intensa.
    para a solidão moderna, basta constituir família (casar e ter ou não filhos)

    para os idosos, não há solução. vão morrer sozinhos em asilos ou em casa

  3. Eu conheci o Thoreau quando eu estava lendo sobre o liberalismo e sobre o anarcocapitalismo – ele, assim como o Tesla, são semi-deuses dos neoliberais modernos, não sei porque – e mais tarde fui amplamente questionado pelas hipocrisias da vida e das ações do autor.

    Jabá? Ano passado eu topei com um texto da New Yorker sobre isso e traduzi: https://medium.com/pensamentos-rasos/os-julgamentos-morais-de-henry-henry-thoreau-204830123222

    É bom entender o Thoreau e fazer essa analogia, mas o autor lutava contra o que a gente vê hoje e antevia, de certa forma, a solidão “de consumo” que o enriquecimento global e o (super)capitalismo iriam trazer (ele não usava esses termos, claro, mas os pensadores da época já se entreolhavam em relação ao caminho que o capitalismo nos levaria).

  4. Conheci no episódio anterior e foi amor instantâneo. Felitti conduz um roteiro como poucos na web hoje. Episódio excelente com uma pegada de terapia coletiva, haha.

    Sobre Thoreau, eu devo ser um dos poucos que não pirou com a leitura de Walden. Ele têm seus momentos, mas no geral achei repetitivo e prolixo.

    Abraço!

  5. Hoje já se sabe que a mãe do Thoreau lavava sua roupa e fazia sanduíches para seu filho recluso, que nem os liberais do séc. XXI.

  6. Noooossa… Quando vi a foto de capa eu pensei: “Thoreau!”

    Enfim, ainda não cheguei a ouvir o podcast nem ler a matéria, mas acho que o assunto desse episódio vai ser (ou já é) mais ou menos o que eu e minha avó estávamos falando há pouco tempo, cerca de meia hora atrás.

    Estava sentindo falta do Tecnocracia e quase sofrendo com o processo de abstinência (ahahahaha), e só de ler o título e ver a foto de capa já fiquei feliz e empolgado.

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