Estamos acostumados a ler notícias de app X que adicionou stories à sua interface. Desta vez, a notícia é no sentido contrário: em 3 de agosto, os “fleets”, nome dado pelo Twitter aos stories da plataforma, serão descontinuados. “Desde que anunciamos o recurso globalmente [em novembro de 2020], não tivemos um aumento no número de novas pessoas participando de conversas com Fleets da forma que esperávamos”, justificou Ilya Brown, vice-presidente de produto do Twitter. Via Twitter.
No Twitter, o usuário @bubblegui viralizou com uma postagem denunciando supostas alterações no funcionamento da Uber que, segundo ele, explicariam por que “está tão ruim de usar Uber”. Algumas passagens causaram estranhamento, então fui conversar com a Uber para tentar descobrir o que ali é verdade e o que não é.
@bubblegui, ou gui, com sua foto na praia de óculos escuros e o GIF de um meme na descrição do seu perfil, afirma que “a Uber alterou a forma como cobra e distribui as viagens de algumas semanas pra cá”. Agora, além da região do destino da corrida, os motoristas estariam vendo também “uma estimativa do tempo e distância da viagem”, o que os desestimularia de aceitarem corridas demoradas, mas de curta distância.
A Uber nega ter alterado a distribuição de corridas, mas confirma que os motoristas agora dispõem de mais informações. O texto abaixo é da empresa:
A Uber não alterou o sistema de distribuição de viagens. O que ocorreu é que, recentemente, algumas cidades como o Rio de Janeiro passaram a ter um novo cartão de oferta desenhado para atender pedidos de que o motorista parceiro tivesse mais informações sobre a viagem antes de aceitar. O que ele vê no cartão, agora, é: o valor que ele irá receber pela viagem, a distância e tempo de onde ele está até o passageiro, a duração e a quilometragem estimada da viagem (igual ao usuário) e o destino do passageiro. Com isso, cada motorista parceiro fica mais à vontade para escolher as viagens que fazem mais sentido para a rotina dele.
“Outro ponto é que o dinâmico agora é um valor fixo, então para o motorista é muito melhor quando pega uma viagem curta com dinâmico”, diz nosso amigo do Twitter. Segundo a Uber, meia verdade (ênfase deles):
Não, o preço dinâmico continua sendo ativado, temporariamente, em situações de alto desequilíbrio entre oferta e demanda. O que ocorreu é que em algumas cidades, entre elas o Rio de Janeiro, a multiplicação do preço dinâmico foi recentemente substituída pela adição. Pesquisas com os parceiros que usam esse sistema mostraram que eles não viram mudança em seus ganhos ou viram seus ganhos aumentarem, em comparação com quem usa a multiplicação. Na prática, no sistema de adição o montante extra é somado ao preço final da viagem independentemente do tamanho dela. No entanto, mesmo no sistema de adição, o tamanho desse montante continua, sim, variando conforme a demanda por viagens.
No trecho mais estranho, que colocou em xeque a postagem, @bubblegui afirma que “as viagens passaram a ter preço 100% fechado”, ou seja, que “se o passageiro mudar o trajeto, o motorista não ganha um centavo a mais; se pegar transito, idem”. Segundo a Uber, nada mudou nessa área e a informação, portanto, está incorreta:
Não, o sistema de preços da Uber continua realizando ajustes para mais ou para menos nos casos em que o tempo e a distância finais da viagem variam de maneira significativa em relação ao pedido original.
O usuário do Twitter diz, por fim, que o Uber Promo prejudica o motorista, pois a diferença de preço para o UberX normal seria custeada por quem dirige. Perguntei à Uber se é verdade. Resposta:
Não. O Uber Promo oferece viagens a preços menores, portanto os usuários pagam menos, a Uber ganha menos e os motoristas parceiros também. Os motoristas parceiros são livres para escolher se querem ou não atender essa modalidade, que só fica disponível em algumas horas do dia (fora dos horários de pico, quando a quantidade de chamados de UberX cai e o parceiro fica mais tempo esperando entre uma viagem e outra).
@bubblegui não está de todo errado, mas… né, também não está 100% correto. Talvez ele seja motorista da Uber? Não sei. Eu não morro de amores pela Uber, tenho severas ressalvas à empresa, mas é preciso ser justo, especialmente na crítica.
Este post não alcançará uma fração mínima da repercussão do fio original do Twitter — no momento desta publicação, com 3,9 mil retuítes e 27,5 mil curtidas só no primeiro post. Vida que segue.
Toda quinta, na newsletter do Manual (cadastre-se gratuitamente), indico leituras longas/de fôlego (artigos, reportagens, ensaios) publicadas em outros sites.
Seria o máximo se esse trabalho fosse colaborativo, feito com a sua ajuda.
Indique nos comentários uma leitura longa da última semana, relacionada aos temas que costumam aparecer aqui no site, que você acha que deveria ser lida por mais gente. Vale em português ou inglês.
Pedro Burgos, jornalista, professor e chapa deste Manual do Usuário, teve uma surpresa desagradável ao tentar acessar sua conta no Dropbox: ela foi excluída pela empresa. Para piorar, o Dropbox tem ignorado ativamente suas tentativas de reaver a conta e até mesmo de entender o que aconteceu.
Ao expor a situação em uma rede social, Pedro afirmou ser cliente do Dropbox há mais de 10 anos. Em privado, disse que desde 2014 paga pelo serviço. Não bastasse o horror de ter seus arquivos apagados, o tratamento “pós-catástrofe” do Dropbox tem piorado a situação: “Fiquei bastante impressionado com o desdém da empresa”, disse ele. “Criei uns quatro tickets lá e nada. Escrevi dois posts na comunidade, o outro canal que eles recomendam, e os posts foram apagados e meus usuários banidos de postar. O outro canal era o Twitter. O @DropboxSupport pede DM com o número do ticket. Mandei e nunca mais eles responderam.”
Os termos de uso do Dropbox preveem cenários que podem ensejar o encerramento de uma conta, como a hospedagem de arquivos piratas, mas Pedro garante que não era seu caso. E, mesmo nesses, o protocolo prevê um aviso prévio.
“Tinha muita coisa de pesquisa”, conta. “Tipo, 87 GB de fake news da eleição de 2018 que outros pesquisadores usavam — a pasta era compartilhada para leitura com outras pessoas. Essa aí eu tenho num HD, mas outras coisas de pesquisas mais recentes eu perdi porque troquei de computador recentemente e não havia baixado tudo.”
Embora não sejam frequentes, casos do tipo sempre aparecem aqui e ali. Hoje foi com o Dropbox, mas há relatos de situações igualmente desesperadoras envolvendo empresas como Apple e Google. Isso não os justifica, muito menos o tratamento péssimo do Dropbox para com Pedro. Eles servem, porém, como lembretes de que esses serviços de sincronia na nuvem não são backups, e que backups precisam ser redundantes.
No Twitter, Pedro disse que pretende processar o Dropbox.
A Polícia Federal (PF) anunciou, na segunda (6), a aquisição do ABIS, um novo sistema de identificação de pessoas por biometria. O ABIS é uma evolução do AFIS, em uso há 16 anos pela PF e centrado na impressão digital. O ABIS, além de expandir a capacidade de registros (para 50,2 milhões em 48 meses, podendo chegar a 200 milhões de indivíduos no futuro), incorpora reconhecimento facial e de íris ao banco de dados da PF. Segundo o site TeleSíntese, o consórcio Iafis Brasil e Idemia é o fornecedor da solução. Via Ministério da Justiça e Segurança Pública e TeleSíntese.
O TeleSíntese pediu a opinião de especialistas em privacidade. Eles manifestaram desconforto com a iniciativa, “uma vez que não há menção a salvaguardas dos dados, não houve debate prévio sobre o tema com a sociedade civil organizada, e a tecnologia de reconhecimento facial é considerada ainda imatura e enfrenta a repulsa de organizações e reguladores de todo o mundo”. Via TeleSíntese.
O Supremo Tribunal Federal (STF) agora tem um perfil oficial no TikTok. Se você, ao ler esta notícia, imaginou Luis Fux e Carmen Lucia dançando alguma música ruim que viralizou no app, não se anime tanto. Os poucos conteúdos já postados contemplam notícias e curiosidades da corte em uma linguagem mais acessível, cheia de GIFs animados. Via @STF_oficial/Twitter.
No Apple Mapas, aplicativo de mapas nativo do iOS, é possível iniciar um trajeto com orientações curva a curva, bloquear o iPhone e continuar recebendo orientações sonoras e visuais na tela. Dica do MacMagazine.
Esse comportamento é ótimo para quem anda de carro seguindo as orientações do GPS, pois caso o celular seja levado por uma daquelas quadrilhas “limpa-contas”, o celular estará bloqueado. Foi exatamente isso o que aconteceu ao vereador Marlon Luz (Patriotas), de São Paulo, quando saída da Câmara na noite de 17 de junho. Seu iPhone estava no painel do carro, com o Waze aberto, quando foi roubado por alguém. Em menos de duas horas, a quadrilha desviou R$ 67 mil das contas de Marlon. Via G1.
Infelizmente, o recurso parece ser daqueles que só a Apple pode usar. O MacMagazine fez testes com o Google Maps e o Waze, e eu, com o HERE WeGo, sem sucesso. O duro é depender do Apple Mapas, que, no Brasil, parece estar ainda está muito aquém dos concorrentes.
Razor Computadores: máquinas feitas sob medida para o trabalho pesado
Muita gente compra computadores da mesma maneira (e na mesma loja em) que compra geladeira: sem saber muito bem o que está levando porque não precisa de desempenho ou confiabilidade. Se for o seu caso, este texto não é para você. A Razor Computadores, uma empresa brasileira, fabrica máquinas sob medida para quem sabe o que quer e do que precisa.
Achados e perdidos #24
Todo sábado, pego uns links que acumulei ao longo da semana e que, embora curiosos e/ou interessantes, não renderam nem notinhas, e os publico num compilado que chamo de “achados e perdidos”. É um conteúdo mais leve, curto, quase lúdico — a cara do fim de semana.
A Raia Drogasil, dona das farmácias Drogasil, Droga Raia e Onofre, interrompeu a coleta da impressão digital após ser questionada pelo Idec e pelo Procon-SP. O dado, considerado sensível pela legislação brasileira, era pedido com base nela própria: atendentes das lojas eram orientados a justificar o pedido impressão digital por tratar-se de uma suposta exigência da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). O condicionamento de generosos descontos à cessão da impressão digital deixava muita gente sem alternativa, mesmo sendo “opcional”.
A LGPD prevê situações excepcionais e específicas para a coleta de dados sensíveis em seu artigo 11. Em nota, ao tentar explicar a necessidade de uma farmácia coletar a impressão digital dos clientes, a Raia Drogasil foi evasiva: “O uso da identificação biométrica ocorreu com o único objetivo de garantir a praticidade e a segurança desse processo.” Via Uol Tilt.
Uma reflexão (quase) lúdica sobre capitalismo de vigilância
Lutando contra uma empresa de tecnologia que domina diferentes setores da sociedade em uma cidade cada vez mais automatizada, Lina, uma motorista de aplicativo, sobrevive graças a uma relação de quase dependência com seus passageiros e as avaliações que eles lhe atribuem. A bordo de um carro elétrico e com dinheiro muitas vezes suficiente apenas para recarregar as baterias, suas decisões são tomadas em torno de uma pergunta recorrente: pegar mais um passageiro ou descansar?
Poderia ser a descrição da rotina de um trabalhador autônomo em uma metrópole brasileira qualquer, mas esse é, na verdade, o enredo de Neo Cab, jogo narrativo do estúdio Chance Agency lançado em 2019, que propõe, de maneira lúdica, uma conversa séria sobre capitalismo de vigilância.
Meu grupo do bairro no Telegram: Um experimento social
Em junho de 2019, o Telegram lançou uma atualização com novos recursos de geolocalização. A partir dali, passou a ser possível procurar por pessoas fisicamente próximas para conversar e criar “grupos locais” com base no mesmo critério, ou seja, acessíveis a quaisquer pessoas ao seu redor, mesmo que você não as conheça. Naquele mesmo dia, criei um grupo local para o bairro onde moro. Sem querer, iniciei um esquisitíssimo experimento social que acabou durando mais de dois anos.
Post livre #276
Toda semana, o Manual do Usuário publica o post livre, um post sem conteúdo, apenas para abrir os comentários e conversarmos sobre quaisquer assuntos. Ele fecha no domingo à noite.
Não é todo dia que a Microsoft alerta para uma falha grave no Windows, do tipo “zero-day”, e libera correções até para versões defasadas do sistema, como o Windows 7. A falha batizada de “PrintNightmare” foi divulgada acidentalmente por pesquisadores chineses e permite a execução remota de códigos no Windows via servidor de impressão.
Para versões do Windows que ainda têm suporte, como o Windows 10, basta acionar o Windows Update para baixar a instalar a atualização, identificada pelo código CVE-2021-34527. Para as demais, com Windows 7 e Windows 8 RT, é preciso baixar manualmente o pacote nesta página. Via Lifehacker (em inglês), Bleeping Computer (em inglês).
Um membro de uma gangue “limpa-contas”, preso em novembro de 2020 em São Paulo (SP), revelou à polícia como consegue burlar a criptografia do iPhone. Na real, ele não consegue. Pelo relato, publicado pela Folha de S.Paulo, é mais um golpe de engenharia social do que técnico, aplicado com base no número/chip do celular da vítima. Mais ou menos assim:
- Assaltante tira o chip do celular da vítima, coloca em outro aparelho e ativa o número nele.
- Assaltante procura o endereço de e-mail da vítima usado como Apple ID (iPhone) ou Conta Google (Android) em redes sociais, como Facebook e Instagram.
- Assaltante ganha acesso ao Apple ID/Conta Google.
- Assaltante restaura backup da nuvem (iCloud/Google Drive) em um novo aparelho e procura senhas de outros serviços no backup, encontra-as e repassa o aparelho a terceiros que farão a limpa nas contas bancárias.
Algo que não fica evidente é como o assaltante consegue recuperar a senha do iCloud/Google Drive. Uma hipótese é que ele inicia o processo de recuperação de senha, que tanto na Apple quanto no Google envolvem o número de telefone para a recuperação de contas, conforme as imagens a seguir:


Outro detalhe que chama a atenção é a busca por senhas no conteúdo do celular: “Ao baixar as informações da nuvem no novo aparelho, passa a procurar ali informações ligadas a palavra ‘senha’ e, segundo dele, obtém geralmente os números e acesso do celular e das contas bancárias.”
À luz desse relato, uma medida fácil para dificultar esse ataque é alterar/ativar a senha/PIN do seu chip (SIM card). É um código de quatro dígitos que, depois de ativado, passa a ser pedido quando se insere o chip em outro celular.
Este tutorial do TechTudo explica como configurá-lo no Android e no iOS, e apresenta os códigos padrões de cada operadora. Cuidado na hora de alterar o PIN: após três tentativas erradas, ele bloqueia o chip. Caso você já tenha feito a troca e esqueceu o PIN cadastrado, é necessário o código PUK, que vem impresso na embalagem do chip ou, caso não a tenha mais, pode ser requisitado junto ao atendimento da sua operadora.
Outra dica, básica, mas aparentemente ainda não muito difundida, é jamais salvar qualquer tipo de senha em texto puro ou em apps de anotações. Use um gerenciador de senhas decente e ative o segundo fator de autenticação onde for possível.
