Uma reflexão (quase) lúdica sobre capitalismo de vigilância

Imagem de “Neo Cab” mostrando Lina e uma passageira dentro do carro.

Lutando contra uma empresa de tecnologia que domina diferentes setores da sociedade em uma cidade cada vez mais automatizada, Lina, uma motorista de aplicativo, sobrevive graças a uma relação de quase dependência com seus passageiros e as avaliações que eles lhe atribuem. A bordo de um carro elétrico e com dinheiro muitas vezes suficiente apenas para recarregar as baterias, suas decisões são tomadas em torno de uma pergunta recorrente: pegar mais um passageiro ou descansar?

Poderia ser a descrição da rotina de um trabalhador autônomo em uma metrópole brasileira qualquer, mas esse é, na verdade, o enredo de Neo Cab, jogo narrativo do estúdio Chance Agency lançado em 2019, que propõe, de maneira lúdica, uma conversa séria sobre capitalismo de vigilância.

Embora não seja novo, o jogo voltou aos holofotes após ser disponibilizado no Arcade, serviço de assinatura de jogos da Apple. Neo Cab é uma boa pedida, bonito e fácil de jogar, mas não espere exatamente um descanso para a cabeça.

Você encarna Lina, uma mulher atravessando o deserto para chegar à Cidade da Automação e reencontrar sua melhor amiga, Savy, com quem deseja voltar a morar depois de um tempo afastadas. No caminho, e durante todo o jogo, você só pode tomar dois tipos de decisões: o que fazer a seguir — e isso geralmente se resume a escolher que passageiro pegar ou onde dormir — e como se comportar quando há alguém no banco de trás. O jogo se passa quase completamente dentro do veículo, mas o jogador não tem autonomia sobre ele. Tudo o que se pode controlar, no desenrolar da história, são as falas de Lina.

Lina trabalha para a Neo Cab, a última empresa de transporte de passageiros que aceita motoristas humanos. A concorrente, Capra, utiliza veículos autônomos e os vende como o ápice da segurança — com menos decisões tomadas por humanos, menores são as chances de erros. Lina, como esperado, não é simpática à Capra. Ela perdeu seu emprego de motorista na companhia quando os humanos foram substituídos por carros autônomos e, o desenrolar da história deixa claro, tal evento deixou mágoas da grande corporação. O problema é que a Capra domina basicamente todos os serviços na Cidade da Automação. O de transporte é um deles. A maioria dos hotéis também é da Capra. Os celulares, gadgets vestíveis e até os equipamentos da polícia, robôs que fiscalizam a cidade, são da companhia.

A briga com a Capra, no entanto, corre em paralelo a outra linha do tempo na história. Ao encontrar sua amiga, logo no começo do jogo, Lina recebe de presente um super lançamento tecnológico: a Feelgrid, uma pulseira que identifica seus sentimentos e reflete, em cores, como o corpo está naquele momento. Qualquer personagem pode ver como Lina se sente em tempo real e suas escolhas de palavras são moldadas de acordo com o estado de espírito da personagem. Essa é a única vez que Lina e sua amiga, Savy, se encontram. Depois disso, Savy desaparece e você precisa escolher, de maneira frequente, entre procurar por ela ou seguir trabalhando. Sempre vestindo um dispositivo que dedura como você está se sentindo.

Neo Cab exponencializa questões práticas da nossa relação com a tecnologia, afinal é um jogo. Ainda assim, o título guarda representações preocupantes de uso de dados, limite de automação, poder empresarial, relações de trabalho e escolhas, invariavelmente.

Em 2018, a linha 4 do Metrô de São Paulo, uma concessão do governo estadual para a empresa ViaQuatro, integrou às plataformas de embarque grandes painéis de reconhecimento facial. A tecnologia podia contar pessoas, o tempo de permanência e de atenção, gênero e faixa etária delas e quais emoções demonstradas. O interesse, claro, era publicitário. Todos os dias, 700 mil pessoas passam pelo local, mas nenhuma delas deu permissão para a coleta ou tratamento de dados tantos dados íntimos. À época, o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) processou a ViaQuatro. Em maio deste ano, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) condenou a concessionária ao pagamento de uma multa de R$ 100 mil pela captação indevida dos dados pessoais.

O jogo tem uma passagem muito parecida à da situação acima. Ao chegar à Cidade da Automação, Lina e um passageiro também novo na cidade descobrem que os manequins reproduzem seus rostos e adaptam as propagandas de acordo com quem querem atingir. Assim como no Metrô de São Paulo, não há consentimento.

No pano de fundo do jogo, a Cidade da Automação pega fogo. A iminência da aprovação da Lei Sophie, que proíbe definitivamente a condução de veículos por humanos em nome da segurança, divide a cidade entre apoiadores e quem rejeita a medida. Com a aprovação, a Capra passa a dominar o transporte da cidade em sua totalidade. Só que a falta de concorrência não é exatamente a crítica do jogo. Sem concorrentes, com acesso irrestrito aos dados de todos e a desculpa de estar revolucionando a vida, a Capra se torna inatingível e inescapável. E esse parece ser, compreensivelmente, o medo de Lina e dos outros que se opõem aos avanços da mega-corporação.

Imagem do jogo “Neo Cab” mostrando um prédio da empresa Capra.
Prédio da Capra. Qualquer semelhança com a nossa realidade não é mera coincidência. Imagem: Chance Agency/Divulgação.

As gigantes de tecnologia da nossa realidade não estão muito distantes da Capra e, ao apostarem na evolução da segurança como atalho para a maximização dos lucros, entraram no filão dos carros que dirigem sozinhos. Além da Tesla, que comercializa veículos semi-autônomos, Google e Apple já trabalharam em projetos de carros que andam sozinhos. Até a Uber já teve um projeto desse pra chamar de seu, e isso deixa claro qual é o nível de parceria que o aplicativo deseja manter com seus motoristas humanos. Em 2018, a companhia acabou se desfazendo da sua divisão de carros autônomos depois que um deles atropelou e matou uma mulher nos Estados Unidos, mas o CEO da Uber manteve um assento no conselho de administração para acompanhar o andamento do bonde.

No jogo, o dilema entre a tecnologia e a humanidade fica claro com uma dupla de passageiros que Lina pega. Mesmo após fazerem uma série de perguntas para a motorista, em algo que lembra o Teste de Turing, eles desembarcam sem saber ao certo se ela é humana ou um robô. Esse diálogo pareceria impossível se o jogo retratasse Lina em qualquer outra profissão, mas não parece distante dos motoristas de aplicativo que hoje mesmo cortam as nossas cidades em busca de passageiros. Para os dois passageiros da Lina, ela seria um robô que simula um ser humano para reconfortar e criar interação com os passageiros.

A piada do jogo é clara: no mesmo ano de lançamento do Neo Cab, a Uber introduziu “melhorias” nas viagens da categoria Black nos Estados Unidos, a mais luxuosa oferecida pela empresa, entre elas o “modo quieto”, para quando você não quiser conversar com um motorista. No melhor estilo revolução tecnológica, o comunicado da empresa dizia que basta “apenas um toque” para seu motorista saber que você não está no clima de bater papo. O sistema também funcionava de maneira contrária, avisando ao motorista quando você quisesse conversar. O aplicativo dos motoristas jamais teve a mesma função.

Pelo trailer do jogo para Nintendo Switch, tendo a crer que existam diferentes finais para a história. No meu, Savy, a amiga, é encontrada. Ela havia roubado informações da Capra, e é você quem escolhe o que fazer com elas. Eu escolhi divulgar para a imprensa documentos que provam que a Capra fez lobby para a aprovação da Lei Sophie. Embora seja pouco comum conversarmos sobre a prática no Brasil, todas as gigantes de tecnologia fazem lobby — e não é o nosso interesse que elas pagam para especialistas defenderem.

Em 2020, o Facebook aumentou seus investimentos em lobby em em 17%, chegando a mais de US$ 19 milhões e se consolidando como a empresa de tecnologia que mais gasta para mobilizar a opinião pública, os políticos, órgãos reguladores e o sistema judiciário em favor de decisões e políticas que lhe beneficiam.

Ao longo de Neo Cab, você desbloqueia conquistas personalizadas. Após publicar os documentos internos, que conseguiram frear a aprovação da Lei Sophie, conquistei minha última: “Capra-Jato”.

Além do Apple Arcade, o jogo também está disponível para Nintendo Switch e no Steam para Windows e macOS.

No futuro, nem tudo é ruim

Print do jogo “Neo Cab”. Visão da Lina do painel do carro, com o rosto de uma mulher no retrovisor.
Imagem: Chance Agency/Divulgação.

Ainda abordando pontos delicados da atualidade, Neo Cab apresenta um grupo sub-representado com um personagem não-binário. Revolucionário de um grupo anti-Capra, Azul é sempre tratado por Lina com linguagem neutra. Ela nunca pergunta ao personagem como deveria se referir nem dá ao jogador a chance de tratá-lo de outra forma. O jogo pressupõe que Lina simplesmente sabe como se referir, que pensar sobre isso não é sequer uma questão. E isso é muito legal. A linguagem neutra ainda não é aceita na forma culta da língua portuguesa, o que configura uma negação da vivência de pessoas que não se encaixam nos gêneros previstos no dicionário.

Conversei com o líder da equipe de tradução do jogo para português, uma surpresa muito boa que tive com o título. Tradutor de jogos há uma década, Thiago Araujo gerenciou mais quatro tradutores no projeto do Neo Cab. Por acaso, ele também é não-binário, o que ressalta a necessidade de se buscar pluralidade nas construções propostas pelos jogos digitais.

Thiago contou que os manuais de linguagem não-binária consultados indicavam, à época, “ile” e “elu” como as construções mais comuns para pronomes de gênero neutro. Isso porque palavras com “x” ou “@”, ele explicou, trazem dificuldades para pessoas com problemas visuais que precisam de ajuda de softwares de leitura: “Eu, particularmente, sempre achei isso excludente. Talvez uma pessoa não-binária se sentisse incluída, mas uma pessoa deficiente visual talvez não conseguisse usar. Achei importante que fosse algo identificável”. Não estranhe, portanto, se algumas frases do jogo tiverem palavras estranhas à primeira vista, como impositive, interessade, zoade.

Neo Cab foi o primeiro projeto de Thiago em que a linguagem neutra foi usada, mas na época da entrevista ele estava empenhado em um novo trabalho em que a linguagem neutra alcança todos os personagens.

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6 comentários

  1. Uau que história interessante, parabéns pelo belo texto, como sempre!

    Esta história de linguagem neutra me deixa de cabelo em pé. Me parece algo tão absurdo que não dá nem pra comentar.

  2. Achei legal o texto abordar a linguagem não-binária, mas percebi que este acaba se referindo a Azul (personagem) e a Thiago (tradutor) no masculino. Será que Thiago se sente confortável com o uso desses pronomes?
    O jogo parece muito interessante! Fiquei com vontade de jogar.

    1. Oi, João. Obrigado pelo seu comentário. Eu sou Paulo, autor do texto.

      Confesso ter editado algumas vezes as frases que haviam o personagem Azul para tentar criar um espaço em que ele efetivamente não fosse reconhecido como unicamente masculino. Parece não ter dado muito certo. Eu agradeço imensamente por esse seu comentário. Na próxima vez em que precisar citar alguém não-binário tomarei ainda mais cuidado.

      Thiago, também não-binário, deixa em seu Instagram todos os pronomes com que se sente confortável – e o masculino é um deles. Por isso o referi assim.

      Por fim, fico feliz que tenha gostado do jogo. Eu fiquei particularmente encantado com a narrativa. Quando tiver oportunidade, jogue sim!

      Um grande abraço!

  3. Paulo Victor Ribeiro, eu não sei quem você é ou como veio parar aqui no Manual… mas eu louvo-o de pés juntos e terço na mão ó, anjo escritor ! Muito obrigado por belo texto (que não li, mas importa?) Importa! Lerei.
    Estou desde antes da pandemia (em 2020) tentando conversar com pessoas sobre capitalismo de vigilancia, videojogos e redes. Neocab (que há época havia jogado apenas a demo) foi pra mim a forma de mais tangível de explicar para pessoas de classes sociais que mesmo sem trabalho não conseguem chegar perto da noção de como é ser uber e ifood.
    Neocab a verdadeira simulação que fará a classe média se juntar na revolução !

    Belo texto, um grande abraço.

    1. Eu não tenho tanta fé de que Neo Cab possa servir como um instrumento de revolução – mas, sem dúvidas, ele traz um formato interessante para tratar de assuntos tão próximos do nosso cotidiano e distantes das nossas reflexões.

      Obrigado pelos elogios. Um grande abraço!

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