Meu grupo do bairro no Telegram: Um experimento social

Ilustração de uma cidade miniaturizada, com várias pessoas com balões de mensagens parecidos com os do Telegram sobre suas cabeças.

Em junho de 2019, o Telegram lançou uma atualização com novos recursos de geolocalização. A partir dali, passou a ser possível procurar por pessoas fisicamente próximas para conversar e criar “grupos locais” com base no mesmo critério, ou seja, acessíveis a quaisquer pessoas ao seu redor, mesmo que você não as conheça. Naquele mesmo dia, criei um grupo local para o bairro onde moro. Sem querer, iniciei um esquisitíssimo experimento social que acabou durando mais de dois anos.

O grupo cresceu bastante nesse tempo todo, para pouco mais de 300 participantes. Suspeito que só não cresceu mais porque esses recursos de geolocalização do Telegram vêm desativados por padrão, ficam enterrados no app e, convenhamos, são bizarros. Eu mesmo só ativei a geolocalização naquele dia, para ver como era e criar o grupo. Desculpem-me, pessoas estranhas, nada pessoal, mas não quero esbarrar virtualmente com vocês em um aplicativo de mensagens sem qualquer propósito pré-definido.

Na minha cabeça ingênua, imaginava que o grupo se tornaria uma mini-comunidade local, com vizinhos se ajudando, tirando dúvidas e conversando sobre assuntos do bairro.

Nada disso aconteceu.

Conversa no grupo do bairro no Telegram sobre ufanismo e Enéas Carneiro.No começo, até havia conversas… profundas. Não era um grupo movimentado, mas teve manhãs em que acordei com algumas dezenas de mensagens não lidas, ainda que nunca de assuntos relacionados ao intuito do grupo. Numa dessas, o pessoal falava animadamente de alienígenas. Em outra, rolou uma exaltação ao finado Enéas Carneiro em meio a uma onda levemente preocupante de mensagens ufanistas. E quando Curitiba foi tomada por fumaça, perguntei no grupo se alguém sabia do que se tratava, o que gerou uma pequena mobilização.

Tais eventos eram raros, porém. E na medida em que o grupo foi crescendo, tornaram-se ainda menos frequentes, o que não significa que o grupo ficasse em silêncio. Tinha sempre alguém postando mensagens esparsas, em tentativas frustradas de puxar conversa. Chegou um ponto em que, confesso, silenciei o grupo e passei meses sem dar as caras por lá.

Antes do meu “retiro”, quando eu já não acompanhava muito de perto o dia a dia do grupo, fui chamado para ativar um robô de jogos do Telegram. Jamais faça isso, o grupo fica insuportável. Para mim, foi a desculpa perfeita para silenciá-lo.

Três prints do grupo do bairro no Telegram, do dia em que me pediram para liberar robôs de jogos. No último, uma partida de forca rolando.
Eu já estava semi-ausente quando pediram para que eu instalasse um robô de jogo no grupo. Cuidado com o que deseja…

Aí, em março deste ano, voltei. Àquela altura, o grupo tinha quase 300 participantes. Talvez o distanciamento tenha restaurado minha esperança e disposição para transformá-lo naquilo que ele fora criado para ser. Se eu me dedicasse um pouco, fomentasse discussões, puxasse assunto, talvez a coisa engrenasse?

Só que não engrenou. Pedi, dentro do próprio grupo, ajuda para moderá-lo, mas não tive retorno. Tentei colocar umas notícias locais, como as alterações das bandeiras da pandemia, e ninguém se importou muito. No fim, até removi o lance da geolocalização, que na prática sempre foi meio figurativo, e expandi a ambição do grupo para toda a cidade. Passou a ser um grupo de Curitiba.

Aliás, uma hipótese que talvez explique tamanha indiferença e falta de compromisso é que muita gente que não era do bairro acabou entrando. Como aqui é um local de passagem, pessoas de outros lugares devem tê-lo encontrado por breves momentos e entrado. Ou não. Em retrospecto, juntar centenas de pessoas estranhas num mesmo espaço sem a mínima disposição para orientá-las na entrada e cuidar do espaço me parece uma ideia bastante equivocada.

Outra hipótese, e uma em que só reparei agora, enquanto editava este texto, é que durante boa parte da existência do grupo o nome dele estava errado, “Curitba — Centro”, faltando um “i”. Em um mundo ideal, cada pessoa ter um “personal editor” para corrigir esses errinhos que, veja você, às vezes passam — literalmente — anos sem serem notados.

Mesmo após fracassada a tentativa de ressuscitar o grupo, continuei acompanhando as conversas. Ou as mensagens, para uma descrição mais precisa. De lá para cá, apenas três tipos apareceram:

  • Vendedores e pequenos comerciantes locais fazendo propaganda. Isso me deixava contente, apesar do desespero crescente no tom das mensagens, reflexo da situação caótica que o Brasil atravessa. Ainda assim, nesses momentos o grupo se aproximava daquele objetivo inicial, do que me motivou a criá-lo. Numa dessas, comprei uns frutos do mar frescos de um cara que trabalha com pescadores artesanais do litoral paranaense. (Afinal, o grupo foi útil para alguma coisa!)
  • Mensagens de pirâmides e links para “ganhar dinheiro” no TikTok e no Kwai. Isso virou uma praga. Excluía todas e, se fosse um perfil que só fazia isso ou reincidente, bania-o.
  • Mensagens de “bom dia” e “boa noite”.

Print do grupo do bairro no Telegram com várias mensagens de “boa noite” e “bom dia”.Esse último tipo me intrigava demais. Por que pessoas que não se conheciam em absoluto, em um grupo aleatório com 300 estranhos, mandavam e respondiam “bom dia” e “boa noite” quase todo dia? Eu entendo fazer isso com parentes e amigos, até pratico com alguns, mas… ali? Somos tão carentes assim? Ou muito simpáticos? Freud explica?

Nas últimas semanas, com o frio polar que estacionou sobre Curitiba, mensagens do tipo “que frio 🥶” ganharam espaço.

Estava cansado do grupo, mas não dava para largá-lo sem supervisão porque, além dos golpes de pirâmide e TikTok/Kwai, havia outro problema recorrente mais grave. Vez ou outra, alguém entrava no grupo só para tumultuar o lugar.

Em maio, por exemplo, apareceu um cara de chapéu que só mandava mensagens de áudio, o que já seria motivo para banimento em um grupo público com centenas de pessoas, e que, para piorar, já chegou com uns papos esquisitos, de falar mal de ateus e gays. Um dia ele foi explicitamente preconceituoso, aí tive que bani-lo. Nessas horas eu me perguntava se era Deus me testando.

A gota d’água veio nesta terça (5). O perfil de uma moça oriental, muito bonita, entrou e fez propaganda do Kwai. Ou do TikTok, sei lá. Antes de eu ver a mensagem e apagá-la, ela voltou a postar, acusando outro participante de tê-la assediado em uma conversa privada. O cara me chamou no privado e explicou seu lado da história. Fui falar com a moça para entender o dela. Pedi prints da suposta conversa aos dois. Ninguém tinha. Eu poderia apostar que o cara fez alguma gracinha com ela, e que ela é, na real, um marmanjo que pegou fotos de uma mulher em uma rede social chinesa para tentar ganhar uns trocados no Telegram se passando por gostosa.

Três prints de conversas do Telegram: 1) A denúncia de assédio no grupo; 2) Conversa com a suposta vítima; e 3) Conversa com o suposto assediador.
Quem estava com a razão? Vá saber.

Nunca vou descobrir a real, mas não me importa. Após dois anos e no auge, com 323 participantes, eu finalmente excluí o grupo.

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Ilustração do topo: Telegram/Divulgação.

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8 comentários

  1. Ia morrer e não ia saber desse recurso do Telegram. rs Me parece que pode ser usado para algo útil, como por exemplo, reunir corredores de um parque. Fiz um grupo para os frequentadores do Parque da Aclimação, vamos ver o que acontece.

  2. Cara, pela linguagem que a pessoa escreveu as mensagens, com um português truncado e a formação de frases estranhas, não só era um marmanjo se passando por mulher como um marmanjo gringo que tava traduzindo tudo no Google Translate…

  3. Uma coisa que tenho por certo é que grupos em aplicativos de mensagem instantânea não dão certo, principalmente se for grupo aberto.
    Essa questão de grupo local eu encontrei, acredite se quiser, no Facebook… sim, aquela rede odiosa. Aliás, eu só não excluí minha conta no Facebook pois eu realmente acho o grupo muito útil.
    Qualquer serviço que precisemos, a gente pergunta lá e de pronto aparecem indicações, ou mesmo os próprios prestadores (que são membros do próprio grupo) comentam. Pintura, manutenção, restaurantes, entregas, artesanatos… sempre há uma indicação e com referências. Uma que adoro são as doações de gente que tá se mudando ou trocando de móvel… pela primeira vez, semana retrasada, peguei uma moldura de quadro muito boa que doaram para fazer um painel aqui em casa. :o)

    Também há conversas sobre acontecimentos nos bairros, e até me engajei em algumas sobre sentimento de insegurança que cresceu absurdamente na região nos últimos anos. Posts por exemplo, comentando assaltos e os locais são úteis, porém também perigosos, e é nesse sentido que a organização que o Facebook permite e o trabalho da moderação auxiliam muito para não descambar. Nesse último tipo de post/relato, por exemplo, sempre é fechado os comentários do post.
    Bem pouco dessa organização há em plataformas como WhatsApp, Telegram e outros…

    Vez ou outra eu abro essa opção de grupos próximos do Telegram, e é realmente isso que comentou, os grupos mais badalados são os de putaria, mas mesmo os que não são as mensagens de pirâmide de dinheiro, tiktok, kawai, ou outras pseudociências e promoções fraudulentas dominam. Dá um desespero de ver e de pensar que a realidade de grupos de mensageiros de forma geral é próximo a isso… uma mistura de golpes e assédios com má informação/informação falsa.

    Fez bem ao apagar o grupo.

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