Contra as grandes: Como tirar das Big Tech o monopólio do futuro

Edição impressa da revista Zero, aberta na matéria Contra as grandes, contra um fundo em tecido azul.

Nota do editor: Alguns meses atrás, a Laura Castanho, que está se formando em Jornalismo pela USP, entrou em contato comigo para perguntar se eu topava escrever um artigo de opinião para a revista Zero, seu trabalho de conclusão de curso. Topei e, com a ajuda dela, o resultado é o que você lê abaixo. A revista impressa (na foto) ficou sensacional e pode ser comprada aqui. Não deixe de dar uma passada no site, no perfil no Instagram e de assinar a newsletter gratuita.


Quando uma startup dá certo — recebe investimento, cresce vertiginosamente, encontra um modelo de negócio rentável e abre capital —, é difícil preservar os traços dos seus primeiros dias. Um que costuma resistir, ainda que apenas por peso simbólico, autoengano ou como lembrete de uma época que ficou para trás, são os slogans e as missões da empresa.

Nas startups de tecnologia, a megalomania e o altruísmo se confundem em algumas das frases usadas pelas que deram certo de acordo com seus próprios critérios. “Não seja mau”, dizia o mantra do Google, cuja missão é organizar e tornar acessível toda a informação da Terra. O Facebook, nascido em um dormitório de faculdade a partir de um site para ranquear as alunas mais atraentes, com fotos obtidas do diretório acadêmico sem a permissão delas, em algum momento dos seus primeiros anos passou a ser uma ferramenta para “conectar o mundo”.

A oferta de serviços de ponta a custo zero aos usuários finais é um paralelo quase perfeito à ideia do divino, de uma entidade etérea que concede graças a quem tem fé e aceita recebê-las do alto —onde, em outra dessas coincidências semânticas, está a “nuvem”, que no jargão técnico se refere à amálgama de servidores conectados que potencializa as empresas de tecnologia. Tudo isso, intencionalmente ou não, reforça a imagem pretensiosa de salvador da humanidade com a qual o setor da tecnologia se veste desde o início do século.

Antes de salvar a humanidade, a cultura das startups concebeu as cinco maiores empresas de capital aberto dos Estados Unidos, algumas das mais poderosas de todos os tempos. Elas influenciam praticamente o mundo inteiro — com a grande exceção da China — e inspiram as startups que, hoje, tentam trilhar caminhos semelhantes, crentes de que esta história é cíclica. Se for mesmo, as voltas que ela dá estão se alargando cada vez mais: a Microsoft, hoje a maior empresa dos EUA, com valor de mercado de 1,3 trilhão de dólares, foi fundada há 45 anos e não dá qualquer sinal de estar em declínio.

Ilustração com uma mãozinha depositando uma moeda em uma caixa com o logo do Manual do Usuário em uma das faces, segurada por dois pares de mãos. Ao redor, moedas com um cifrão no meio flutuando. Fundo alaranjado.

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Escultura com luminárias em LED em ambiente azulado.
Escultura de LED que integra a série “Entreter” (2018), da dupla Gisela Motta e Leandro Lima.

A história, aliás, é meticulosamente fabricada por essas empresas e por vezes alterada sem grande cerimônia. Seu cânone não resiste a uma folheada (a essa altura, metafórica) em jornais e publicações especializadas que se dedicam a cobrir o setor.

Para cada pequeno negócio que encontrou clientes via compra de anúncios no Facebook e no Google, há inúmeros casos de outros arruinados por erros do algoritmo e práticas anticompetitivas, ou no mínimo questionáveis, das grandes empresas. Para cada grupo identitário que conquistou espaço no debate público via redes sociais, há outro de ódio arquitetando campanhas de difamação e intimidação nos mesmos ambientes, com frequência mirando aqueles mesmos grupos historicamente oprimidos. A oportunidade de tornar-se um influenciador a partir do nada abriu brecha, também, para que eleições em vários países, incluindo as últimas presidenciais nos Estados Unidos e no Brasil, sofressem interferências indevidas pelos feeds das redes sociais comerciais norte-americanas.

Nunca se pôs em xeque os avanços que tais empresas trouxeram — caso contrário, não teriam acumulado tanta relevância e poder. O que vale questionar é o saldo, ou seja, se esses avanços foram maiores que os danos diretos e colaterais causados por elas, se esses danos eram evitáveis, se foram deliberados, se não havia outra maneira de atingir esses mesmos avanços, talvez até mais, sem toda a carga negativa.

Ao mesmo tempo em que servem de inspiração, essas empresas travam a competição. Em meio à maior pandemia dos últimos cem anos, as cinco maiores — Facebook, Alphabet, Amazon, Apple e Microsoft, ou FAAAM — afirmam que continuarão investindo em pesquisa e desenvolvimento. Dinheiro não falta: além de terem batido recordes de receita num momento em que setores inteiros quebram, as cinco têm quase meio trilhão de dólares em caixa, segundo o Wall Street Journal. É um orçamento de fazer inveja à maioria dos fundos soberanos de países, sendo usado para a manutenção de uma hegemonia sem precedentes na história do capitalismo de mercado.

Não há ideia genial que resista a tamanho poderio econômico. O que se destaca ou é comprado pelas gigantes ou esmagado por elas. Os órgãos reguladores, com a exceção — tímida perante a dimensão do problema — do europeu, não interferem como deveriam em um cenário explicitamente avesso à competição, apegados a definições anacrônicas de monopólio e concorrência desleal. O preço ao consumidor final, linha vigente no ordenamento jurídico norte-americano, deixa de ser o principal fator quando há excesso de crédito no mundo e o valor se desloca do produto ou serviço prestado para os dados que podem ser expropriados de seus usuários.

E ainda assim, essas empresas são paradigmas para quem está começando. Jovens ambiciosos sonham em criar o próximo Facebook, o novo Google, a Amazon do futuro.

É fácil apontar os problemas das chamadas Big Tech, as grandes empresas de tecnologia. O maior deles, e que por vezes escapa aos diagnósticos, é que para além das questões particulares de cada uma, todas reforçam um modelo de negócios que representa, quando muito, uma ideia torta de progresso.

No pitch de qualquer startup de tecnologia há a constante do fim nobre, a pretensão de ajudar um grupo desassistido ou que enfrenta algum problema — uma “dor”, como se diz no meio — ainda não solucionado por outras empresas já estabelecidas. Essa motivação pode ser, e muitas vezes é, genuína, mas raramente vem isolada. Por trás das rodadas de investimento e da ideia de mudar o mundo, o maior incentivo para correr tantos riscos é o enriquecimento exponencial.

Investidores injetam dinheiro em startups porque sabem que, com um único acerto, cobrem dez investimentos ruins e ainda lucram horrores. Empreender desse modo virou aspiração de mentes talentosas. Os estragos causados por essa dinâmica, derivada do excesso de crédito, já são visíveis. Ela gerou devaneios colossais como a Uber, um táxi barato que jamais se pagará, ou o iFood, um serviço luxuoso de entrega de comida que só é viável porque explora a ponta mais fraca da relação — a dos entregadores, que trabalham muito, ganham pouco e carecem de direitos trabalhistas.

Quando alguém ousa falar em “um mundo melhor”, é de se esperar que essa melhoria seja distribuída. O que a experiência tecnocrata tem nos mostrado é que, embora ela melhore a vida de uma fatia da sociedade — e entenda esse “melhore” como quase sinônimo de “a torna mais cômoda” —, isso ocorre à custa da coletividade em menor ou maior grau. A precariedade dos entregadores de aplicativos é escancarada, mas os efeitos da dominação das empresas de tecnologia são muito mais profundos, do debate público deteriorado à destruição sistêmica do direito à privacidade, tornados possíveis por máquinas milionárias de relações públicas e lobby político, eficientes e ardilosas.

Cenas em que pessoas estão em uma sala azul, exibidas como se vistas por óculos de realidade virtual.

Não é coincidência que o fosso da desigualdade social esteja aumentando no mesmo compasso do aumento do poder das grandes empresas de capital aberto. Essa simetria reduz o leque de ações de vozes dissonantes. Mas elas ainda existem.

Uma das alternativas possíveis é rejeitar o modelo de investimento de risco e tentar construir soluções digitais com capital próprio ou pequenos investimentos feitos sem a expectativa do retorno exponencial. É o que se chama, no meio, de bootstrapping. Essas empresas já nascem com um modelo de negócio minimamente viável, o que reduz os riscos de incorrerem em alguns dos piores vícios das startups investidas com capital de risco, como a concorrência predatória, o dumping e a deslealdade em geral.

Seguindo tendências mais amplas da nossa relação com a economia de mercado, uma startup adepta do bootstrapping talvez seja o equivalente ao comerciante local, ou à agricultura orgânica: ela não deixa ninguém rico (o que, convenhamos, é por si só um ponto bastante positivo), mas pode prover uma vida digna ao empreendedor e ter um impacto positivo, localizado e de caráter agregador, em vez de divisionista.

Claro que empreender com dinheiro do próprio bolso é um grande privilégio. Não cabe a ninguém julgar aqueles que, por qualquer motivo que não a aderência incondicional ao discurso das grandes empresas, se sujeita a trabalhar para elas; é preciso barriga cheia e um mínimo de segurança para pensar em mudar o mundo. Esse contingente, porém, tem margem para trabalhar em prol da mudança.

Nos últimos anos, as Big Tech escalaram sua marcha totalizante, desnudando intenções e barganhas com bandas podres do poder que seriam condenáveis caso aqueles mantras e slogans dos primórdios tivessem algum valor. Vimos o Google considerar a criação de um buscador submisso à censura estatal para o mercado chinês, e a Microsoft e a Amazon disputarem contratos bilionários com a máquina de extermínio do exército dos Estados Unidos.

Os grupos de funcionários dessas empresas não se calaram: assinaram cartas abertas aos seus diretores, exigiram revogações, cruzaram os braços e saíram às ruas para protestar contra seus empregadores — o que é tanto uma forma de privilégio quanto um ato de coragem. (Em alguns casos, a ideia de que é possível forçar mudanças a partir de dentro de uma empresa tem sido absorvida pelos níveis hierárquicos mais altos; recentemente, por exemplo, executivos sêniores do Facebook se uniram para criticar publicamente a decisão de Mark Zuckerberg de não apagar uma publicação na qual Donald Trump incitava violência contra os manifestantes do movimento Black Lives Matter.)

Apesar da prevalência esmagadora das grandes, todas elas, sem exceção, se fundam em tecnologias abertas, desenvolvidas por programadores voluntários, pela academia, por gente desinteressada em modelos comerciais. Este é um vetor poderoso de atuação: o licenciamento permissivo desses componentes de software vitais poderia ser endurecido para livrá-los de toda a sorte de mau uso. Já há precedentes de ativismo nesse sentido, como no caso de um programador do Chef, um software de armazenamento em nuvem, que tirou o sistema inteiro do ar após ele ser contratado pela agência federal de imigração norte-americana, um órgão cujo abuso contra imigrantes está amplamente documentado.

É quase irônico falar em ação individual como uma saída para esta crise — a ideologia atomizante das últimas décadas está na raiz de muitos dos nossos problemas atuais —, mas ela pode ter um efeito positivo. Renegar as tecnologias comerciais dessas grandes empresas, apesar do custo considerável, faz diferença. Quanto menos gente depositar informações pessoais nos seus servidores, pagar por produtos e serviços que as têm como intermediárias e sujeitar seus olhos à publicidade que elas veiculam, menos poderosas elas ficam. #DeleteFacebook é um posicionamento político.

Para quem vive no Brasil, há o benefício extra de diminuirmos a influência de uma cultura exótica e, em vários níveis, incompatível com a nossa no modo de pensar. É inquietante concluir que juízos de valores e padrões de interação e comportamento decididos por uma casta de endinheirados em escritórios assépticos da Califórnia moldem o nosso estilo de vida aqui, na América do Sul, em um país continental com características e riquezas tão peculiares.

Estrutura com vários espelhos contra uma cerca viva, alguns refletindo uma pessoa com um celular na mão, cobrindo o rosto com ele.
Escultura “In Between”, de Gustavo Prado. Ela integra o livro inédito O outro que está em mim, de Ana Calzavara e Wladimir Fontes.

Os prejuízos mais imediatos da existência de empresas trilionárias manifestam-se no mundo que criamos e compartilhamos. Não estamos tentando prever os estragos caso as coisas piorem, estamos constatando a destruição em andamento. As Big Tech inibem a competição, manipulam políticas públicas em detrimento do bem comum e moldam a vida nos grandes centros de acordo com seus interesses.

O maior risco, porém, é de longo prazo. Qualquer grande empresa hoje só consegue ser bem sucedida seguindo a cartilha do mercado, a mesma que justifica lucros trimestrais com a destruição do meio ambiente e o aumento da miséria. O planeta já dá múltiplos sinais de alerta e, em vez de responsabilizar os agentes nocivos que o fazem adoecer, os recompensamos com mais dinheiro e poder. Vimos, nas últimas décadas, um crescimento exponencial da tecnologia, da economia de mercado e da aceleração da degradação climática. Todas essas variáveis estão intimamente ligadas.

Não é possível pensar um mundo diferente, melhor, com as mesmas bases do que temos hoje. Quando a tecnologia é bem utilizada, seu potencial benéfico à humanidade é incomensurável; com os atuais incentivos, esse benefícios despontam apenas como resíduos ou externalidades.

A humanidade, a muito custo, conseguiu se organizar para atuar coletivamente visando o bem comum. Temos ferramentas para isso: a política, a legislação, os sindicatos e demais associações civis. Não é à toa, também, que todas essas formas de organização coletiva estejam sob fogo cerrado, porque em algum ponto elas se apresentaram como obstáculos ao fim único do capitalismo. Cabe a nós usar esse aparato, nossos corpos e nossas vozes para alcançar outros fins que beneficiem mais gente em vez de apenas enriquecer uns poucos que, em algum momento das últimas décadas, tiveram uma boa ideia de negócio calcada em tecnologia.

Publicado originalmente na revista Zero.

Edição 20#26

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1 comentário

  1. Um (): eu acho que o maior monopólio privado da história do capitalismo foi o da Standard Oil (da família Rockfeller) e que foi quebrado em várias empresas pelo governo dos EUA nos anos 10. Eles chegaram a controlar 90% do mercado de petróleo dos EUA e, mesmo atualmente, as suas subsidiárias (oriundas da quebra da empresa) controlam mais de 85% do mercado (com empresas como a ExxonMobil e a Chevron).

    Relacionando as duas informações, a solução apresentada pela senadora Elizabeth Warren era, exatamente, quebrar as empresas de tecnologias em pequenas empresas (com foco principal no Facebook e a Apple, pelo que lembro) para evitar que se consolide um monopólio ainda mais destrutivo. O que, na minha opinião, teria impacto no modelo de negócios dessas empresas apenas no curto prazo, mantendo a concentração de mercado com várias subsidiárias, mas dando a impressão de que algo foi feito para frear o ímpeto delas. Mas ainda assim, é uma saída para tentar controlar melhor esse mercado tão carente de regulamentação.

    Acho uma boa leitura essa entrevista pro “The Verge” dela: https://www.theverge.com/2019/3/9/18257965/elizabeth-warren-break-up-apple-monopoly-antitrust

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