Pavel Durov, CEO do Telegram, aproveitou o anúncio do serviço de publicidade da plataforma em inglês (ele já havia dado o recado em russo) para disparar contra o WhatsApp.

“Com o Telegram, você está mais livre de anúncios [‘ad-free’] do que com o WhatsApp”, escreveu Durov. “O WhatsApp já compartilha dados dos usuários com anunciantes — mesmo que o app em si não exiba anúncios. No Telegram, por outro lado, os anunciantes jamais obtêm seus dados privados.”

O CEO do Telegram cita dois links, do The Guardian e da Reuters, para embasar a alegação de que o WhatsApp compartilha dados com terceiros. É verdade, mas, convenientemente, ele não diz que o conteúdo das conversas está mais protegido no WhatsApp, onde a criptografia de ponta a ponta é o default. (No Telegram o recurso existe, mas é opcional e pouco usado.)

Apesar das promessas e do modelo de publicidade projetado para preservar a privacidade dos usuários, ele não é à prova de falhas. Segundo o Russia Beyond, os primeiros anúncios veiculados foram de baixa qualidade, com cursos de investimento e esquemas de criptomoedas.

(Considere, porém, que o Russia Beyond é ligado ao governo russo e o Kremlin não morre de amores pelo Telegram.) Via @durov/Telegram (em inglês) e Russia Beyond (em inglês).

Não há bolso fundo o suficiente capaz de sustentar eternamente um empreendimento global com 500 milhões de usuários, por isso o Telegram começou a testar sua plataforma de publicidade.

Os detalhes estão nesta página. E… são bem bons? Os anúncios só são exibidos em canais com mais de mil inscritos, estão limitados a 160 caracteres, não podem conter links externos e não têm o desempenho (cliques) salvo ou analisado.

Os únicos critérios para a veiculação de anúncios são o idioma e o assunto/tema do canal. “Isso significa que nenhum dado do usuário é minerado ou analisado para veicular anúncios e que todos os usuários que estiverem em um canal específico no Telegram veem as mesmas mensagens patrocinadas”, diz o Telegram.

Os anúncios precisam seguir certas diretrizes que, entre outras coisas, proíbem discurso de ódio e conteúdo político.

Em seu canal russo, Pavel Durov, fundador e CEO do Telegram, deu mais detalhes. Usuários poderão pagar uma “assinatura barata” para não verem anúncios e estuda-se a opção de permitir que donos de canais desliguem os anúncios para todos os seus inscritos — desde que haja “condições econômicas” para isso.

O Telegram queima cerca de US$ 100 milhões por ano, segundo o Wall Street Journal (sem paywall), e no começo do ano teve que emitir dívidas entre US$ 1 bilhão e US$ 1,5 bilhão para manter a operação rodando e restituir um rombo de US$ 700 milhões de investidores que entraram na frustrada emissão de criptomoedas do serviço, em 2017.

A publicidade é, segundo Durov, um dos artifícios que ele e sua companhia estão empregando para “permitir que o Telegram feche as contas.” Via Telegram (em inglês), @durov_russia/Telegram (em russo).

O Telegram registrou um salto gigantesco em novos usuários na segunda-feira (4), em decorrência da queda catastrófica do Facebook que deixou o WhatsApp indisponível por cerca de 7 horas. Segundo Pavel Durov, fundador e CEO do Telegram, o serviço ganhou 70 milhões de novos usuários. O aumento no fluxo motivou alguma instabilidade para usuários nas Américas (fator Brasil?). Pavel deu boas-vindas aos novos usuários e cutucou o rival: “Não falharemos com vocês quando outros falharem”. Via @durov/Telegram (em inglês).

Não é segredo que o Telegram é uma espécie diferente de rede social, sem representação no Brasil e sistemas de moderação fracos, e que seu uso para fins políticos tem aumentado por aqui. Em entrevista ao Aos Fatos no início de agosto, a secretária-geral do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Aline Osorio, foi questionada sobre como a Justiça eleitoral espera lidar com plataformas que não cooperam, caso do Telegram, nas eleições de 2022.

A estratégia do TSE, no momento, é “atuar com parceiros, em rede, para [fazer] o monitoramento da desinformação que circula no Telegram”, explicou Aline. Entre esses parceiros estão as agências de checagem. Ela explicou a dificuldade em lidar com o aplicativo: “Acho que não dá para ser ingênuo de achar que eles [Telegram] vão ser hiper cooperativos, celebrar termos de cooperação com o TSE. A gente tem tentado de alguma forma alcançar e acho que isso não é uma realidade aqui, não é em quase todo mundo, mas a gente precisa sim de estratégias para esses aplicativos que lidam com uma lógica diferente.”

Com outras redes, Aline disse que aquelas de maior visibilidade nas eleições de 2018 e 2020 foram incorporadas como parceiras ao programa de combate à desinformação e que, pessoalmente, ela tem as achado mais cooperativas nos últimos anos, apesar de ainda haver trabalho a ser feito. “Nós conseguimos muitos avanços, mas falta muita coisa. […] É preciso que elas digam de antemão o que vão fazer com ofensores repetitivos, com pessoas que vão declarar fraude nas urnas, não reconhecer os resultados, em promover o extremismo e a violência.”

A situação do Telegram desafia outros atores brasileiros, como a imprensa e pesquisadores. “Um serviço que se propõe a operar com milhões de usuários brasileiros, marketing direcionado a brasileiros e com finalidade econômica tem o dever de escutar e participar dessas discussões sobre como mitigar problemas associados a processos eleitorais no país”, disse Francisco Brito Cruz, diretor do InternetLab. “Isso é o mínimo, especialmente se considerada a proteção dos direitos dos usuários brasileiros.”

Dois dados importantes da pesquisa de mensageria móvel do Mobile Time/Opinion Box publicada nesta quinta (1):

  • Apenas 7% dos usuários de WhatsApp cadastraram um cartão de débito no WhatsApp Pagamentos. Dos que não embarcaram nessa, a maioria (50%) não tem interesse no serviço e 33% não confia em ceder dados de cartão ao WhatsApp. Aquele bloqueio do recurso pelo Banco Central, pouco antes da liberação do Pix, parece ter sido providencial. E a má fama do Facebook, justificadamente, segue crescendo.
  • O Telegram já está em 53% dos celulares brasileiros. Em um ano, cresceu 18 pontos percentuais. O clima de terra de ninguém do Telegram, somado a essa ascensão meteórica, pode se transformar em um campo de batalha sem regras nas desde já conturbadas eleições do ano que vem.

Via Mobile Time (2).

Meu grupo do bairro no Telegram: Um experimento social

Em junho de 2019, o Telegram lançou uma atualização com novos recursos de geolocalização. A partir dali, passou a ser possível procurar por pessoas fisicamente próximas para conversar e criar “grupos locais” com base no mesmo critério, ou seja, acessíveis a quaisquer pessoas ao seu redor, mesmo que você não as conheça. Naquele mesmo dia, criei um grupo local para o bairro onde moro. Sem querer, iniciei um esquisitíssimo experimento social que acabou durando mais de dois anos.

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Gráfico em barras, de setembro de 2020 a abril de 2021, mostrando os volumes totais de downloads do Telegram e do Signal, com um grande pico em janeiro.
Imagem: Sensor Tower/Divulgação.

O impacto da nova política de privacidade do WhatsApp nos downloads dos apps rivais Telegram e Signal foi mensurado. Segundo a Sensor Tower, em janeiro deste ano o Telegram foi baixado 63,5 milhões de vezes, aumento de 283% em relação a janeiro de 2020, e o Signal, 50,6 milhões de vezes, aumento de 5.001%.

O crescimento desacelero nos meses seguintes, a ponto do Telegram voltar ao platô anterior. O Signal, porém, até abril ainda experimentava volumes de downloads acima do patamar pré-2021. No mesmo intervalo, os downloads do WhatsApp caíram levemente — embora no acumulado dos quatro primeiros meses eles ainda superem os dos rivais. Via Sensor Tower (em inglês)

A queda e o retorno do maior canal de Big Brother Brasil do Telegram

Não são muitas as atrações televisivas que perduram por longos períodos no ar sem cair no ostracismo. O Big Brother Brasil (BBB), reality show da Rede Globo prestes a encerrar sua 21ª edição, é uma dessas raras exceções, e só conseguiu isso pelo alto nível de adaptação que vem demonstrando há mais de duas décadas.

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Dois prints mostrando o processo de agendamento de um chat em voz num grupo do Telegram.
Imagens: Telegram/Reprodução.

Uma das novidades do Telegram 7.7, lançado nesta segunda (26), é o agendamento de chats de voz. Veio em boa hora: nesta quarta (28), às 18h30, vai rolar o segundo Tecnocracia Balcão, uma versão ao vivo e interativa do Tecnocracia, com Guilherme Felitti. Via Telegram.

O ingresso em nosso grupo do Telegram é um benefício dos apoiadores do Manual do Usuário (a partir do plano II, de R$ 16/mês). Para apoiar o projeto e participar do Balcão, apoie-nos!

O que Telegram e Manual do Usuário têm em comum? A visão sobre publicidade digital e privacidade.

Pavel Durov, CEO do Telegram, já disse que considera anúncios direcionados “imorais” e não deve recorrer a esse artifício quando o aplicativo passar a veicular anúncios. Na matéria do Wall Street Journal desta terça (16), sobre a dívida do Telegram, um porta-voz do aplicativo disse que pretendem mostrar que “a publicidade precisa, baseada em contexto, não só é uma alternativa ética à publicidade direcionada, mas que também pode ser tão eficiente quanto”. Nós também.