Assinaturas do Substack pelo app do iOS: Preços inflados e nova “prisão” para newsletters

Quem hospeda uma newsletter paga no Substack precisa ficar atento à nova oferta de assinaturas pelo aplicativo do iOS. A plataforma publicou uma página de perguntas e respostas (em inglês) da mudança.

A Apple obriga todos os apps que oferecem conteúdo digital pago a usar o seu sistema de pagamentos — aquele que cobra uma taxa de 15% a 30%. O Substack aproveitou a brecha da recente decisão de um processo movido pela Epic Games, nos EUA, para adequar seu app à regra da App Store, dando a opção (padrão) a quem usa o app do iOS de assinar uma newsletter pela web, evitando a taxa da Apple.

O problema é que a decisão só vale para os EUA.

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Não foram uma nem duas vezes que ouvi/li alguém se referindo a uma newsletter como “um Substack”. Em seu blog, Anil Dash pede para que não façamos isso:

O e-mail existe há anos, mas a razão pela qual o Substack quer que você chame seu trabalho criativo pelo nome da marca é porque eles controlam seu público e distribuição, e também querem possuir seu conteúdo e sua voz. / anildash.com (em inglês)

Além do “branding” em cima das newsletters, tenho a impressão de que a centralização que o Substack — com o processo de inscrição que se resume a um clique e o gerenciamento de todas elas na mesma tela — fomenta uma sensação de que sistemas alternativos são arcaicos, estranhos ou até perigosos.

“Por que este site quer que eu coloque meu e-mail aqui?”

A cartilha do Substack é a mesma do Spotify com os podcasts, do Medium e do Twitter para os blogs. Não à toa defini o Substack como “a maior ameaça às newsletters que já existiu” em abril de 2023.

Pode parecer que sim, mas eu não gosto de ser profeta do apocalipse, menos ainda de intimidar quem usa o Substack para disparar newsletters por qualquer motivo que seja. É gratuito e funciona! É, também, um campo minado, e se pudesse pedir alguma coisa, pediria cuidado para não cair na armadilha e se prender dentro de uma plataforma que, ao que tudo indica, cedo ou tarde se fechará para a “portabilidade” que é característica das newsletters.

Botão de “seguir” do Substack gera temor entre donos de newsletters

Eu gosto de estar certo (quem não gosta?), mas para algumas previsões eu gostaria de estar errado. Uma desse tipo, a de que o Substack é uma bomba-relógio, realizou-se mais cedo do que eu imaginava.

Em agosto de 2023, o Substack lançou uma novidade estranha: um botão para seguir (“follow”) pessoas na rede. Por que uma plataforma de newsletters, que por definição emprega esse recurso (a gente “segue” uma newsletter quando se inscreve nela), precisa ter um botão de “seguir”?

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O Substack lançou um recurso de “mensagem direta” (DM), no site e no aplicativo próprio, para que escritores e leitores troquem mensagens. Tenho certeza de que alguém lá dentro deve ter se lembrado, em algum momento, de que as newsletters trafegam por e-mail. E, embora possa haver ligeiras diferenças, pode-se dizer que o e-mail é um tipo de DM.

Não surpreende, porém, que o Substack esteja reinventando o e-mail em uma versão fechada/proprietária. Porque o lance do Substack nunca foi servir newsletters, mas sim alavancar o formato para acabar com ele, para substitui-lo. Via On Substack (em inglês).

Boicote ao Substack ganha força

Na segunda (8), via Platformer, a popular newsletter de Casey Newton, os fundadores do Substack disseram ter banido cinco newsletters nazistas apontadas por Casey e que estão desenvolvendo ferramentas de denúncia para que os leitores sinalizem outras publicações infratoras.

Resposta tardia e fraca, nem o próprio Casey, que havia dado um ultimato ao Substack prometendo migrar para outro canto se a política “nazi-friendly” não fosse revista, se convenceu.

Atualização (12/1, às 6h50): Casey anunciou que a Platformer deixará o Substack em poucos dias.

Há quem argumente que “eram só cinco newsletters”. O problema é que… bem, o Substack continua sendo um lugar receptivo a nazistas (literalmente nazistas), e isso não pega bem com quem não é nazista porque, para nós, “incitação à violência física” — a diretriz que enseja banimentos no Substack — é inerente à ideologia nazista.

Essa conexão não existe para os fundadores do Substack. O que causa estranheza. É meio zoado você dizer abertamente que não se incomoda com nazistas no seu quintal, promovendo e lucrando em cima do seu serviço (e você mesmo lucrando em cima deles), ainda que seja o caso.

Nem Elon Musk, ele próprio cada vez mais embriagado de ideias erradas, ousou cruzar essa linha. (Ainda. Dia desses o assunto na pocilga dele era imigrantes ilegais tendo filhos nos EUA, o que talvez esteja a um passo de, sei lá, controle de natalidade para pobres? Eugenia?)

Quando abordei o assunto pela primeira vez neste Manual, disse que:

Para quem está estabelecido e tem muitos inscritos, é um caminho válido. Para o resto de nós, é complicado.

Essa frase gerou alguns ruídos. Por “estabelecido”, referi-me a donos(as) de newsletters com muitos inscritos e uma base de assinantes estável e grande o suficiente para se viver disso. Para eles é, de fato, mais fácil sair: há dinheiro e estrutura para uma migração complexa.

Já vemos essa previsão se materializar.

Molly White, do hilário Web 3 Is Going Great, pulou fora: migrou sua newsletter, a Citation Needed, para um servidor próprio usando o Ghost.

A Garbage Day, de Ryan Broderick, também vai zarpar do Substack.

A gratuidade do Substack dificulta a saída de quem tem uma newsletter apenas por hobby ou não faz grana o bastante para bancar alternativas (todas pagas), ou seja, é difícil para “o resto de nós”. Não julgo quem permanece lá.

No dia em que Hamish McKenzie, um dos fundadores do Substack, publicou aquela nota patética sobre como lidam com nazistas usando seu serviço, fiquei meio puto e cancelei todas as newsletters em que estava inscrito no Substack, umas 20 ou 30.

Em vez de receber os textos delas por e-mail, peguei os endereços dos feeds RSS e cadastrei todas no meu agregador (Miniflux dos assinantes do Manual).

Foi o ponto de equilíbrio que encontrei para ler pessoas interessantes e queridas e, ao mesmo tempo, dar distanciar-me do Substack. Pelo feed RSS, as pessoas perdem um inscrito, mas o mais importante é que o Substack perde um “usuário” e outras métricas que serão úteis na próxima vez que tiverem que mendigar dinheiro de investidores para manter aberto o bar de nazis que construíram.

Substack e o nazismo

Em novembro de 2023, a revista The Atlantic denunciou a presença de newsletters explicitamente nazistas no Substack, algumas delas ofertando assinaturas pagas.

Isso significa que o Substack hospeda, promove e fatura com publicações nazistas.

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O TinyLetter será encerrado. Que pena.

Muito antes do Substack surgir, quem queria ter uma newsletter sem gastar nada tinha ali uma opção decente, que parou no tempo depois de adquirida pelo Mailchimp, em 2011, mas que continuou funcionando, apesar de tudo.

Daria até para argumentar que o abandono do Mailchimp foi uma bênção. A interface ficou datada? Sim, e aquele iPhone 5 na home do site não me deixa mentir.

Existe, porém, um universo alternativo em que o TinyLetter cresceu e, em algum momento, um techbro diz que não se trata de apenas newsletters, que “a ideia central por trás é muito maior”. (Essa é uma citação literal de um dos co-fundadores do Substack ao Washington Post, por ocasião do lançamento de novidades para vídeos. Triste dia para as newsletters.)

O TinyLetter será encerrado em 29/2/2024. Quem quiser continuar com o Mailchimp tem uma conta aguardando. E se alguém aí preferir usar uma alternativa mais saudável, o Buttondown, parceiro do clube de descontos do Manual, está migrando contas do TinyLetter. Via Mailchimp (em inglês).

Substack é a maior ameaça às newsletters que já existiu

O Substack é para newsletters o que o Spotify está sendo para podcasts, o Medium foi para blogs e o que o Google Reader foi para o RSS: um player agressivo, que domina e subjuga todo um segmento com vantagens artificiais e insustentáveis, numa aposta arriscada. É uma espécie de bomba relógio corporativa que, quando explodir, destruirá incontáveis pequenos negócios baseados em newsletters.

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A última treta do Twitter é hilária porque Elon Musk conseguiu irritar uma galera que costuma ficar do seu lado, como a firma de capital de risco Andreessen Horowitz (a16z) e o jornalista Matt Taibbi, um dos que participaram daquele patético #TwitterFiles.

Na última quarta (5), o Substack anunciou o Notes, um clone do Twitter. Mais um, bem-vindo à guerra, quem se importa… né? Musk sim, pelo visto. No dia seguinte, o Twitter passou a impedir interações com posts mencionando o Substack e quebrou todos os links para lá com uma tela medonha, dizendo que o domínio do Substack poderia conter malware. Chegou-se ao cúmulo de interferir na pesquisa do Twitter, de modo que buscas por “substack” passaram a ser convertidas para “newsletter”.

Após a repercussão negativa, com muitos jornalistas e escritores ficando do lado do Substack (incluindo o nosso amigo Matt Taibbi), Musk veio a público e fez uma série de acusações infundadas: que o Substack estava baixando dados ilegalmente do Twitter para lançar o Notes (!?) e, por isso, os links passaram a ser vetados, e que Matt Taibbi seria/teria sido funcionário do Substack. Todas foram desmentidas por Chris Best, cofundador do Substack, no… Notes.

A a16z ainda não se manifestou. A firma é a maior investidora do Substack (participou de duas rodadas que totalizaram ~US$ 80 milhões) e financiou US$ 400 milhões na vaquinha que Musk teve que fazer para fechar a compra do Twitter. Sobrou também algumas farpas entre Musk e Paul Graham, da Y Combinator, primeira investidora do Substack (e que já teve seu perfil no Twitter suspenso por Musk por ter mencionado o Mastodon).

Em meio a todas essas brigas, fica a nossa torcida pela briga. Via The Verge, @mtaibbi/Twitter, @paulg/Twitter (todos em inglês).

Vez ou outra temos a sensação de que a história humana está condenada ao mesmo roteiro repetido eternamente, apenas com personagens e contextos um pouco diferentes.

Há alguns anos, o Substack despontou como destino principal para escritores de fim de semana e gente que quer levar a sério o radical ato de escrever textões na internet. Não por acaso: é uma ferramenta fácil de usar, bem apresentável e em constante evolução. Mais importante, é totalmente gratuito a menos que você cobre pelas sua newsletter, e não há qualquer pressão para que ela seja cobrada.

Não surpreende, pois, que uma centralização no Substack esteja em curso. Além de ver cada vez mais newsletters com endereços terminados em substack.com, fui chamado à atenção para o fenômeno por este texto do Erik Hoel (no Substack!). Nele, Hoel exalta algumas características descentralizadas do Substack, seus efeitos de rede e o potencial de crescimento (“growth”) que desencadeia em newsletters de todos os tamanhos.

Não é algo muito diferente do que aconteceu no Facebook, Twitter, Instagram, do que acontece em paralelo no TikTok. Produza seu conteúdo ali, em uma plataforma de terceiros cheia de facilidades e gratuita, em troca da atenção das pessoas.

Isso funciona bem até o dia em que a plataforma passa a querer capitalizar, a realizar sua promessa (de lucro). Aí o alcance do Facebook/Instagram desaba e, caso você queira se comunicar com as pessoas que seguiram/curtiram sua página em algum momento do passado, precisa tirar o escorpião do bolso.

O Substack ainda está na fase de crescimento e tem uma aura descolada, anti-redes sociais. No fundo, é uma startup clássica, com +US$ 80 milhões levantados em quatro rodadas de investimento feita por firmas como a16z, Y Combinator e Quiet Capital — as de sempre.

Por tudo que o Substack faz de bom (e é bastante coisa), o saldo de concentrarmos a escrita ativa na web e no e-mail em uma startup só tende ao negativo. Porque é questão de tempo (ainda que seja bastante tempo) para que o arrocho dos escritores comece. Quando isso acontecer, é bom que o próximo Substack esteja pronto. Essas viradas costumam ser abruptas e destrutivas.

Um dia o Google anuncia o encerramento do Stadia, no outro a Meta avisa que o Bulletin, serviço de newsletters premium vinculado ao Facebook, criado em junho de 2021 para concorrer com o Substack, sairá de cena em 2023.

O Bulletin durou pouco mais de um ano. O serviço atraiu ~120 escritores e jornalistas com gordos cheques e a promessa de apoio, mas, sem surpresa, não colou.

A Meta promete que pagará os valores prometidos integralmente, mesmo dos contratos que venceriam em 2024, e que os parceiros poderão levar bases de assinantes e arquivo de conteúdo para outras plataformas.

Pelo menos em um aspecto a Meta cumpriu sua palavra: a empresa bradava, no lançamento do Bulletin, que, diferentemente de rivais como o Substack, não cobraria taxas dos parceiros “até no mínimo 2023”. Dito e feito. Via New York Times (em inglês).

O Substack, aquela startup de newsletters, lançou um agregador de feeds RSS na web. Eles já haviam lançado um aplicativo para iOS capaz de ler feeds RSS. Agora, essa funcionalidade chegou à web.

Os feeds RSS ficam juntos e misturados às newsletters hospedadas no serviço que você assina.

Para acrescentar um feed RSS, clique nos três pontinhos no menu à esquerda da tela e, em seguida, em Add RSS feed — a interface está disponível apenas em inglês. Quer fazer um teste? Inscreva o feed RSS do Manual do Usuário: https://manualdousuario.net/feed

O aplicativo para Android segue em testes. Interessados podem se cadastrar em uma “lista de espera”.

As viúvas do Google Reader precisam ter cautela: o Substack é uma startup ainda bancada por capital de risco e, como todas nessa situação, tem um futuro incerto.

O fim do Google Reader fez florescer uma leva de alternativas que já passaram pelo teste do tempo e estão aí, funcionando há mais de uma década. São serviços como Feedly, Miniflux, Inoreader e NewsBlur.

Se você chegou até aqui e não sabe o que é “feed” ou “RSS”, parabéns, admiro seu comprometimento! Dê uma lida neste material para ficar por dentro do assunto. Via Substack (em inglês).

Fundadores do Substack mergulham de cabeça na guerra cultural

“É preciso haver um limite”: Fundadores do Substack mergulham de cabeça na guerra cultural (em inglês), por Joe Pompeo na Variety:

No post inaugural do Substack, de 17 de julho de 2017, explicando uma visão em que “publicações de notícias e conteúdos similares podem ser lucrativos com pagamentos diretos dos leitores”, Best e McKenzie [co-fundadores do Substack] evocaram a estreia em 1833 do New York Sun de Benjamin Day, que introduziu o modelo sustentado por anúncios à imprensa combinando circulação em massa e um preço baixíssimo. “Benjamin Day alterou radicalmente o futuro do jornalismo com um ajuste no seu modelo de financiamento”, escreveram Best e McKenzie. “Quase dois séculos depois, a indústria jornalística está pronta para outra reinvenção.”

Até certo ponto, o Substack cumpriu essa promessa, pelo menos para um grupo privilegiado de usuários com bases de seguidores substanciais. O serviço se tornou um paraíso para escritores que descobrem, por um motivo ou outro, que os meios de comunicação tradicionais já não funcionam para eles. O Substack nunca poderá oferecer o profundo apoio institucional e a musculatura editorial que vêm com o trabalho num local como o New York Times. Mas é capaz de prestar assistência limitada em apoio de edição, jurídico, em design, bancos de imagens e plano de saúde, sem falar em recursos de bastidores como um sistema de gestão de conteúdos e apoio técnico.

O Substack lançou seu esperado aplicativo para leitura de newsletters, cumprindo promessa feita no final de 2020. É um erro — se não para o próprio Substack, certamente para a maioria das newsletters hospedadas lá, seus donos e leitores/inscritos.

Newsletters vivem no e-mail, um local onde as pessoas estão habituadas a ir e que lhes dá controle. É exatamente isso que as diferencia de outros locais como a web, redes sociais e aplicativos. O eterno “renascimento” das newsletters é, em parte, reflexo da ressaca de estímulos que esses outros locais, que dependem de engajamento, despejam em nós. O Substack mostra-se como mais um desses.

“O framework do Substack tem crescido com base no e-mail e na web, mas agora novas coisas são possíveis”, diz o anúncio. Soa como a uma ameaça.

Newsletters já têm um aplicativo. Chama-se “e-mail”.

Por ora, o aplicativo (do Substack) só está disponível para iOS. Android deve vir em seguida. Via Substack (em inglês).

Atualização (14h36): Por padrão, o aplicativo do Substack interrompe o envio de e-mails das newsletters. O Substack declarou guerra ao e-mail.

“Não seria ótimo se houvesse um lugar onde eu pudesse ir e ver todas aquelas conexões diretas [newsletters] que eu tenho, e que em muitos casos estou pagando? É algo em que estamos muito interessados,” disse Chris Best, CEO do Substack, em entrevista ao The Verge.

O Substack, vale lembrar, é uma startup de newsletters que só fatura quando os assinantes de uma newsletter passam a pagá-la, e que já levantou alguns milhões de dólares em investimento de risco.

Ainda não se sabe como será esse app, embora já exista um formulário para interessados nele. O receio é que seja algo nos moldes do Stoop, um app que mascara o endereço de e-mail do assinante, quebrando a grande vantagem do formato newsletter, ou seja, a conexão direta entre newsletter e assinante. Se for o caso, o Substack virará mais uma plataforma, com um intermediário poderoso, como o YouTube e o Facebook.