E acho que, com o tempo, talvez até cheguemos ao ponto em que possamos gerar conteúdo [por inteligência artificial, em feeds] diretamente para as pessoas com base no que elas possam estar interessadas.

— Mark Zuckerberg, CEO da Meta.

Compartilhei um texto fantástico no Órbita em que o autor argumenta que os avanços tecnológicos não facilitam a nossa vida, mas sim a torna mais rápida. A IA é um belo exemplo (mencionado lá) dessa percepção equivocada que se tem da tecnologia.

Talvez seja menos um problema da tecnologia, mais dos negócios. O tempo ganho costuma ser apropriado por gente como Zuckerberg, executivos de modo geral, ávidos por mais, mais e mais. Sempre mais.

Não é preciso ir muito longe, nem imaginar cenários futuristas, para medir o impacto que a IA terá na economia.

A brasileira Wine, um clube de assinaturas de vinhos, já usa e abusa de IA gerativa em seu marketing:

“Normalmente [a campanha] é com influenciador e, neste ano, em vez de influenciador usamos a IA”, apontou [Paulo Boesso, head de e-commerce]. “Tivemos um ganho de produtividade de 80% dentro do universo tangível; diminuímos um trabalho de dez horas para duas horas para esta campanha do Sr. Desconto em junho.”

Via The Verge (em inglês), Convergência Digital.

Inteligência artificial: a que custo?

Muita gente acha que a inteligência artificial gerativa mudará o mundo. É provável que sim, de diversas maneiras. Entre outras — uma que as empresas do setor não gostam de abordar —, piorando ainda mais a emergência climática.

Quase um ano depois do ChatGPT dar o ar da graça, começam a pipocar estudos que dimensionam o impacto ambiental da tecnologia.

O consumo de água da Microsoft, principal financiadora da OpenAI e que fornece os potentes servidores em nuvem usados pela dona do ChatGPT, saltou 34% entre 2021 e 2022, segundo um relatório ambiental da própria empresa.

No Google, o aumento no consumo de água no mesmo período foi de 20%.

Pesquisadores independentes atribuem o aumento ao uso intenso necessário para treinar os grandes modelos de linguagem (LLMs) e processar os comandos dos usuários de IAs.

Uma pesquisa ainda não publicada, de pesquisadores da Universidade da Califórnia, estimou que cada sessão de 5 a 50 perguntas e/ou mensagens para o ChatGPT consome cerca de 500 mililitros de água. Uma garrafinha d’água para escrever um e-mail robótico ou fazer uma “pesquisa” com resultados imprecisos e/ou inventados, ou — no eufemismo do Vale do Silício — em que a IA “alucina”.

Outra, esta de um doutorando da Universidade de Amsterdã, prevê que até 2027 o consumo energético de serviços de IA poderá ser o equivalente ao dos Países Baixos, um país inteiro.

As empresas de tecnologia estão em uma nova corrida do ouro, sim, mas até agora só conseguiram garimpar prejuízo.

O GitHub Copilot, assistente para programação da Microsoft baseado no ChatGPT, custa US$ 10 por mês e dá US$ 20 de prejuízo, em média, segundo informações de uma fonte próxima à empresa dada ao Wall Street Journal (sem paywall).

Tanto Microsoft quanto Google cobram US$ 30 mensais para liberar os poderes da IA gerativa em suas aplicações de escritório. Esse valor é somado ao valor padrão da assinatura básica, sem IA.

No início do ano, Satya Nadella, CEO da Microsoft, dizia que a IA “tirava o Google para dançar”, como se a nova tecnologia tivesse potencial para acabar com a hegemonia do rival nas buscas na web.

Nadella foi ouvido como testemunha no julgamento antitruste contra o Google, movido pelo Departamento de Justiça dos EUA, ainda em andamento. O executivo se retratou: “Chame [aqueles comentários] de a exuberância de alguém que tem 3% de participação [de mercado].”

De que outras maneiras a IA gerativa mudará o mundo? Na real, ninguém sabe. Nadella teme que as mudanças trazidas ajudem a manter as coisas como elas são, ou seja, que a IA sedimente a liderança monopolista do Google no setor.

O Google, por sua vez, parece meio perdido.

A Bloomberg obteve mensagens de um grupo no Discord, criado por funcionários do Google, para colher feedback de usuários entusiastas do Bard, rival do ChatGPT.

“O maior desafio em que ainda estou pensando”, escreveu Cathy Pearl (sem paywall), líder de experiência do usuário do Bard, “[é] para que LLMs [grandes modelos de linguagem, base das IAs] são realmente úteis? Digo, que façam a diferença mesmo. A ser descoberto.”

Excesso de inteligência

A chegada do ChatGPT, da OpenAI, em novembro de 2022, foi a largada de uma nova corrida do ouro.

Empresas na vanguarda do que se convencionou chamar “inteligência artificial” (IA), como Google e Meta, até então não arriscavam colocar chatbots não confiáveis e recursos de edição super poderosos nas mãos de qualquer pessoa.

(mais…)

Um dos receios dos especialistas acerca da inteligência artificial (IA) é o antropomorfismo: a tendência que temos de “humanizar” o que não é humano.

Daí que, nesta quarta (27), na abertura do evento Connect, da Meta, Mark Zuckerberg anunciou 28 IAs com rostos de celebridades norte-americanas, como Snoop Dogg, Tom Brady e Paris Hilton, que “interpretam” personagens especialistas em certos domínios, como esportes, RPG e moda, e podem ser invocadas nos apps de mensagens da empresa. Eles têm até perfis no Facebook e Instagram! Via Meta (em inglês).

[A inteligência artificial] Requer o modelo de negócios de vigilância; é uma exacerbação do que vemos desde o final dos anos 1990 e o desenvolvimento da publicidade de vigilância. A IA é uma maneira, acho eu, de consolidar e expandir o modelo de negócios de vigilância. O diagrama de Venn é um círculo.

— Meredith Whittaker, presidente do Signal, no palco do evento de startups TechCrunch Disrupt, em São Francisco, Califórnia.

Via TechCrunch, @TechCrunch/YouTube (em inglês).

O Spotify vai “dublar” podcasts, com a ajuda de inteligência artificial para manter a voz dos apresentadores, em outros idiomas. O projeto começa com episódios de três podcasts em inglês, dublados para o espanhol e, depois, francês e alemão. Não deve demorar muito para estar ao alcance de qualquer pessoa interessada. Via Spotify (em inglês).

O robô do Google Meet

No final de agosto, o Google organizou o Cloud Next, uma conferência para clientes corporativos. Lá, lançou (mais) alguns recursos de inteligência artificial, dessa vez voltados ao trabalho.

Um deles é o Duet AI, uma espécie de assistente para o Google Meet.

O Duet toma notas em tempo real da reunião em curso e faz resumos para atualizar quem chega atrasado. Mais que isso: ele pode “participar” de uma reunião em seu nome. Um botão no Google Agenda, ao ser clicado, manda o robô no seu lugar.

Dá até para dar instruções à IA do que você gostaria de debater nessa reunião que… sabe como é… emergência aqui… foi mal, não posso ir… e ela passará seu recado aos colegas.

A primeira coisa que me ocorreu foi um cenário em que todos os participantes de uma reunião (que provavelmente poderia ter sido um e-mail) enviam seus robôs para participarem.

O Google também. Se isso acontecer, o Google Meet detecta a presença unânime de seres etéreos (ou a falta de gente de carne e osso) e encerra a chamada, poupando o mundo de mais uma reunião.

Bom demais, não? Ou não? Pensando melhor, o mais provável de acontecer é o chefe marcar a reunião para sexta-feira, às 17h, exigir a presença personalíssima de todos os ~colaboradores, mas mandar seu robô Duet AI. “Resolvam esse pepinão aí e depois a IA me atualiza”, dirá ele, com outros termos, por seu emissário virtual.

Talvez o Duet possa ajudar a modular o tom da mensagem do chefe: “Precisamos entregar esse job ainda hoje para bater o target do mês. Meu digital assistant vai dar um help.” Bem melhor!

Viver no futuro é uma droga.

Google, Meta e X decidem que usarão nossos dados e conteúdo para treinar IAs

O acordo entre pessoas e empresas da chamada web 2.0 já não era dos melhores: em troca de espaço para publicar na internet, conexão e alcance, cedemos nossos dados mais íntimos para que elas lucrassem horrores direcionado anúncios invasivos.

A explosão da inteligência artificial gerativa, liberada pela OpenAI e seu grande sugador de dados da internet, piorou os termos para o nosso lado.

De maneira unilateral, as big techs que veiculam conteúdo gerado pelos usuários alteraram seus termos de uso, garantido a elas o direito de usar os nossos dados para treinar IAs.

Google, Meta e, em breve, X (antigo Twitter). Não houve grandes anúncios nem nada do tipo. Coube à imprensa e aos ativistas pró-privacidade jogar luz nessas alterações faustianas.

A Meta disponibilizou um formulário que (supostamente) permite às pessoas excluírem dados pessoais de fontes/conjuntos de terceiros obtidas ou comprados pela empresa para treinar IAs.

Note a engenhosidade do texto: em momento algum a Meta diz que os dados em suas plataformas abertas (Facebook e Instagram) estão no pacote. Você usa Facebook? Instagram? Parabéns, você está treinando as IAs da Meta.

Esse “trabalho forçado” invisível não é novidade. Há mais de uma década, o Google treina seus algoritmos de computação visual com CAPTCHAs — aqueles desafios que nos pedem para identificar pontes, faixas de pedestres e carros em pequenas imagens borradas.

Quando muito, essas empresas pagam uma mixaria a trabalhadores precarizados em países do Sul Global.

A diferença desta nova fase de exploração generalizada com a IA gerativa, é a (falta de) transparência, abrangência e escala.

Até então, as big techs “apenas“ lucravam com os nossos dados. Agora elas querem mais que isso; querem nos usar para criar novos produtos que, depois, pagaremos para usar.

OpenAI ensina a barrar robô sugador de sites do ChatGPT depois de sugar todos os sites

Na melhor tradição do Vale do Silício de pedir desculpas em vez de por favor, no início de agosto a OpenAI disponibilizou um documento ensinando a barrar o robô deles de acessar um site.

Ótimo, mas só agora? Depois de a empresa sugar toda a web para treinar seus grandes modelos de linguagem (todas as versões do GPT)?

Inteligências artificiais gerativas, como o ChatGPT, são, em essência, imitadores descerebrados daquilo que seus donos enfiaram no modelo. Você reúne e processa uma tonelada de conteúdo (em geral, alheio) e o robô vomita frases que aparentam (e, com frequência, fazem) sentido, ainda que incorretas ou fantasiosas.

Quem tem sites não ficou muito contente de ver seu material apropriado por uma empresa com fins lucrativos e ambições megalomaníacas, cujo objetivo é, entre outros, substituir esses mesmos sites por chatbots.

Em alguns sites muito grandes, como Reddit e Twitter, digo, X, o sucesso avassalador do ChatGPT juntou-se à ganância de executivos para servir de bode expiatório à tomada de decisões hostis aos usuários, como fechar APIs públicas e destruir aplicativos de terceiros.

A OpenAI, mais uma vez, muda de postura no momento em que tem a dianteira de uma questão sensível à concorrência do setor de IA — a mesma estratégia do seu lobby em regulação.

No documento, a empresa diz que seu “crawler” (o tipo de robô aspirador de conteúdo alheio) já filtra páginas que contêm informações pessoais identificáveis, como se isso fosse trivial ou garantido. Diz, ainda, que “permitir que o GPTBot acesse seu site pode ajudar os modelos de IA a se tornarem mais precisos e melhorar suas capacidades gerais e segurança”. Ótimo, mas para quem?

Para bloquear o crawler da OpenAI, inclua essas linhas no arquivo robots.txt na raiz do domínio:

User-agent: GPTBot
Disallow: /

Se a OpenAI vai respeitar isso? Impossível saber. Quem tem dinheiro e mais coisas em jogo não confia na benevolência de Sam Altman e companhia e, em vez disso, convocou uma legião de advogados para levar a discussão à Justiça.

É o caso do maior jornal do mundo, o norte-americano New York Times, que cogita processar a OpenAI.

Certos problemas ainda se resolvem melhor com os bons, velhos e falhos seres humanos.

Zoom tenta explicar suposto uso de videochamadas para treinar IA

Uma atualização de março de 2023 nos termos de uso do Zoom, popular aplicativo de videochamadas, colocou a empresa na defensiva nesta segunda (7).

Alguns sites acusaram o Zoom de estar usando dados dos usuários para treinar modelos de inteligência artificial, sem dar a chance de rejeitar a cessão de dados para essa finalidade.

É verdade, mas uma verdade menos maquiavélica do que algumas manchetes levam a crer.

A celeuma está centrada em duas cláusulas:

  • A cláusula 10.2, que prevê que o Zoom pode usar “dados gerados por serviços” para, entre outras coisas, “aprendizado de máquina ou inteligência artificial (inclusive para fins de treinamento e ajuste de algoritmos e modelos)”.
  • E a cláusula 10.4, que prevê que o usuário do Zoom concede uma licença ao Zoom que pode usar seu conteúdo (aí sim: videochamadas, arquivos e mensagens de texto) para, entre outras coisas, “fins de desenvolvimento de produtos e serviços […] aprendizado de máquina, inteligência artificial, treinamento […]”.

“Dados gerados por serviços”, os que são usados de maneira compulsória, são “quaisquer dados de telemetria, dados de uso do produto, dados de diagnóstico e conteúdo ou dados semelhantes”.

Em outras palavras, nada relacionado ao conteúdo do usuário — videochamadas, arquivos ou mensagens de texto —, apenas metadados que, regra geral, empresas comerciais e até algumas não-comerciais usam para aprimorar o serviço, identificar falhas etc.

Os recursos do usuário, previstos na cláusula 10.4, podem ser usados para treinar IAs, mas apenas com o consentimento explícito do usuário.

Ao entrar em uma chamada em que esse uso é possível (ele precisa ser ativado previamente pelo anfitrião ou empresa), um aviso é exibido com a opção de deixar a sala, caso a pessoa não concorde com a cessão de dados para treinar IA.

Smita Hashim, diretora de produtos do Zoom, tentou apagar o incêndio de relações públicas com um post no blog da empresa. Em dois momentos, ambos em negrito para dar ênfase, ela escreveu:

Para IA, não usamos conteúdo de áudio, vídeo ou mensagens para treinar nossos modelos sem o consentimento do cliente.

Uma variação da mensagem também foi adicionada à cláusula 10.4 dos termos de uso, por ora apenas na versão em inglês, nesta segunda (7).

Em março, o Zoom lançou recursos de inteligência artificial que automatizam algumas tarefas típicas em videochamadas, como redação de um resumo da conversa/reunião, sob a marca Zoom IQ.

Desde a surgimento meteórico do ChatGPT, as pessoas aprenderam melhor o funcionamento de modelos de IA e a natureza dessa tecnologia, subproduto de quantidades gigantescas de conteúdo, tão grandes que é quase impossível trabalhar apenas com conjuntos de dados sintéticos.

Perto do que OpenAI, Google e outras fizeram — pegar dados da web aberta e de plataformas como Reddit e Twitter sem nem avisar —, a postura do Zoom me parece menos pior.

E até as piores situações têm um lado bom. A confusão com os termos de uso e IA abafou outra notícia com potencial polêmico ainda maior para o Zoom: a empresa, que cresceu horrores durante a pandemia ao viabilizar o trabalho remoto por videochamadas, vai obrigar todos os funcionários que residam num raio de ~80 km de um dos seus escritórios a trabalharem presencialmente pelo menos dois dias na semana.

Também na China, IA se alimenta de trabalho precarizado

por Shūmiàn 书面

Quando trabalho existe em alimentar a inteligência artificial? Muito.

Para criar padrões de análise e oferecer respostas, os programas como ChatGPT ou MidJourney (de imagens) precisam de dados detalhados, estruturados e catalogados.

Esta tradução de Jeffrey Ding (do ChinaAI) de um artigo publicado na 南风窗 (South Reviews) conta a história de mulheres chinesas sem ensino superior, com filhos e morando no campo que estão fazendo esse trabalho — normalmente mal pago, mas que tem sido importante para complementar a renda da família.

A Shūmiàn 书面 é uma plataforma independente, que publica notícias e análises de política, economia, relações exteriores e sociedade da China. Receba a newsletter semanal, sem custo.

Inteligência artificial no banco dos réus

Um escritório de advocacia da Califórnia, processou a OpenAI e o Google por infringirem direitos autorais e a privacidade no treinamento dos seus chatbots, ChatGPT e Bard.

Em outra ação, a comediante e escritora Sarah Silverman e outros escritores processaram a OpenAI e a Meta pelo mesmo motivo. Aqui, a alegação é de que as empresas usaram cópias piratas de seus livros, de repositórios como Z-Library e Biblotik, para treinarem os algoritmos do ChatGPT e LLaMA.

(mais…)

Com atraso, o Google liberou o Bard, seu chatbot de IA, no Brasil e nos países da União Europeia. Esse é o “ChatGPT do Google”.

O primeiro acesso é cheio de ressalvas, incluindo um pedido em destaque para não incluir “informações que possam identificar você ou outras pessoas” na conversa, e o pedido para não usar as respostas como orientação médica, jurídica ou financeira. Fiz um teste rápido e, surpresa: o Google Bard “recomenda conferir” o Manual do Usuário. Via Google.

Sintomático que, ao anunciar a xAI, sua nova empresa de inteligência artificial, Elon Musk tenha dito que o objetivo dela é “entender a realidade”. Nada mais empreendedorismo Vale do Silício do que isso: criar soluções para resolver as próprias dores. Talvez não precisasse de uma IA para isso, mas cada um joga com o que tem. Via @elonmusk@twitter.com (em inglês).

A Volkswagen lançou um comercial estrelado por Maria Rita e Elis Regina, essa uma “deepfake” ressuscitada com inteligência artificial. É a IA ressuscitando pessoas para vender carro. O futuro é agora e ele é uma distopia. Que sacanagem com a Elis… Via G1.

Em 2013, cometeram o mesmo sacrilégio com Audrey Hepburn. No caso, para vender chocolate.