No mesmo dia em que o Google lançou seu novo grande modelo de linguagem, o Gemini, a Meta anunciou um punhado de novos recursos de IA em testes ou já disponíveis.

Coincidência? Provavelmente sim.

Os novos recursos estão listados no link ao lado, com imagens. Via Meta (em inglês).

Google lança Gemini, nova geração de seu “motor” para IA gerativa

O Google lançou, nesta quarta (6), o Gemini, seu novo grande modelo de linguagem (LLM). A empresa afirma que ele é equiparável ao GPT-4 em certas tarefas, o melhor LLM da OpenAI, e o construiu desde o início para ser “multi-modal”, ou seja, entender texto, imagens e áudio simultaneamente.

O Gemini Pro para texto escrito já é acessível pelo chatbot Bard, em inglês, em 170 países — Brasil entre eles, embora eu ainda não tenha conseguido acessá-lo.

As outras versões do Gemini são a Nano, menor e mais ágil para uso local em dispositivos como celulares, e a Ultra, para tarefas complexas e multi-modal, com lançamento público previsto para 2024. Diz o Google que o Gemini Ultra supera o GPT-4 na maioria delas e que supera humanos no teste MMLU.

Este vídeo compartilhado no Órbita é bem impressionante. Via Blog do Google (2) (em inglês).

Cerca de 50 empresas, universidades, órgãos de pesquisa e governamentais e fundações sem fins lucrativos se juntaram na AI Alliance, uma espécie de associação para a promoção de modelos de inteligência artificial de código aberto.

O grupo, que conta com alguns pesos-pesados, como Meta e IBM (que encabeçam a aliança), AMD, Oracle, NASA e CERN, parece uma tentativa de fazer frente às três notáveis ausências da lista que trabalham com IAs proprietárias: Google, Microsoft (que financia a OpenAI) e a própria OpenAI, que, apesar do nome, não tem nada de “open”.

Outra ausência notável para nós é a de uma representante brasileira entre os membros fundadores. Não tem.

Luciano Huck ameaçando processar Elon Musk porque o Twitter não tira do ar um anúncio caça-clique supostamente criado por ~inteligência artificial dele, Huck, vestido com uma fantasia tosca de presidiário entre dois policiais, com uma manchete sensacionalista e links que levam a sites golpistas aleatórios. Dei uma boa gargalhada aqui. Obrigado, IA e Elon Musk, nunca critiquei vocês! Via Notícias da TV.

Um aplicativo de escrita que pensa por você é um robô que corre no seu lugar.

— iA.

Com esta frase de efeito e um discurso de como adequar a inteligência artificial gerativa ao seu premiado editor de texto, a iA iniciou uma campanha para criar hype em torno do lançamento do iA Writer 7.

E… o resultado é meio meh? A prometida abordagem é um esquema quase todo manual que ajuda a diferenciar texto (colado) gerado por IAs como ChatGPT das intervenções do ser humano. (Veja o vídeo no anúncio do iA Writer 7.) Confesso que esperava mais.

O que muda (e para quem) com a novela da OpenAI?

Eu poderia apostar que, até o fim do ano, a Netflix ou algum outro streaming comprará os direitos da novela da demissão de Sam Altman da OpenAI (partes 1 e 2).

Nesta segunda (21), Ilya Sutskever, membro do conselho apontado como principal articulador do complô para derrubar Altman, disse estar arrependido e assinou uma carta aberta, junto a +90% dos ~700 funcionários da OpenAI, chamando o conselho de incompetente e dando um ultimato: ou restabelecem Altman e pulam fora, ou vão todos trabalhar na Microsoft.

Todo mundo erra, mas é raro ver alguém classificar o seu eu de três dias atrás de um completo idiota.

De seu lado, a situação de Altman e Greg Brockman, que parecia resolvida, ainda não está. A dupla não descarta voltar à OpenAI, ou seja, ainda não fecharam com a Microsoft.

Em meio a tudo isso, tentei mudar o foco e pensar nas consequências em vez de seguir mergulhado no drama. O que muda? E para quem?

  • Os maiores perdedores são a própria OpenAI (em especial se a demissão não for revertida) e toda empresa/startup (com exceção da Microsoft) que criou produtos ou novos recursos em cima da API da OpenAI. É uma velha máxima do mundo da tecnologia: não deixe seu negócio depender de um terceiro, em especial se esse terceiro é uma startup badalada;
  • A Microsoft está com a faca e o queijo na mão, e apontando a faca para a OpenAI. Difícil imaginar um cenário em que Satya Nadella, o habilidoso CEO da Microsoft, saia perdendo.
  • A facção de proponentes apocalípticos da inteligência artificial, que acha que a IA vai acabar com a humanidade, sofreu um duro golpe. O conselho da OpenAI é formado por essa galera esquisita, do altruísmo eficaz e outras ideias erradas de como consertar o mundo (que eles mesmos ajudaram a quebrar).
  • A outra ala, a dos que querem resolver o problema que criaram com mais do que desencadeou o problema (tecnologia resolvendo problemas de tecnologia), se livra das amarras ~éticas da OpenAI, da baboseira de usar a IA para o benefício da humanidade e limites no retorno aos investimentos. As coisas voltam a ser “business as usual”, termo em inglês para “dane-se todo o resto, passe o dinheiro pra cá”.
  • Por fim, nós. Se você usa alguma coisa relacionada à OpenAI, seja o ChatGPT, seja algum app feito em cima das APIs da startups, talvez algo mude a médio prazo. Por ora, dada a vantagem que a OpenAI tem frente aos concorrentes, tudo bem.
  • Para quem não usa IAs gerativas… bom, acho que não muda muita coisa, ao menos por agora.

O Dicionário de Cambridge elegeu o verbo “alucinar” a palavra do ano. No caso, a nova definição usada no contexto da inteligência artificial: “Quando uma inteligência artificial alucina, ela produz informações falsas.” Via Universidade de Cambridge (2) (em inglês).

O fim de semana pareceu um episódio de Succession na OpenAI, com tentativas de restabelecer Sam Altman como CEO, de derrubar o conselho que o demitiu na sexta (17) e uma interferência forte da Microsoft, maior financiadora da startup e dona de quase 50% do braço comercial da OpenAI, pega de surpresa pela demissão do executivo.

No fim, o conselho prevaleceu e apontou um novo CEO (Emmett Shear, co-fundador e ex-CEO da Twitch), e a Microsoft levou Altman, Greg Brockman (co-fundador e ex-presidente da OpenAI) e “colegas”, para “liderarem uma nova equipe de pesquisa em IA avançada” dentro da empresa. Satya Nadella, CEO da Microsoft, disse ainda que sua empresa segue comprometida com a OpenAI. Via @satyanadella/LinkedIn, The Verge (em inglês).

Atualização (11h): A versão original desta nota afirmava que a Microsoft detém quase 50% da OpenAI. Na real, ela detém quase 50% do braço comercial, com intuito de lucro, da OpenAI. (A estrutura corporativa da OpenAI é uma salada.) Perdão pelo deslize!

Conselho da OpenAI demite Sam Altman do cargo de CEO

O conselho administrativo do braço sem fins lucrativos (e controlador) da OpenAI demitiu Sam Altman, CEO da empresa, nesta sexta (17).

O movimento chocou a indústria. Na véspera, Sam participou de eventos públicos e até a manhã da sexta trabalhou normalmente.

No comunicado da decisão, o conselho justificou a demissão dizendo que:

[…] concluiu que ele [Sam] não estava sendo consistentemente sincero em sua comunicação com o conselho, dificultando sua capacidade de exercer suas responsabilidades. O conselho não tem mais confiança em sua capacidade de continuar liderando o OpenAI.

Enigmático, para dizer o mínimo. Desde o momento do anúncio, publicações norte-americanas e insiders tentam decifrar o motivo da saída.

A Bloomberg falou com fontes internas anônimas que disseram que conflitos entre a missão original da OpenAI (avançar a IA para benefício da humanidade) e a postura pró-lucros de Sam no lado comercial da empresa.

Ainda segundo a publicação, Sam estava negociando com fundos soberanos do Oriente Médio para levantar financiamento para uma nova empresa de hardware baseado em IA, o que desagradava o conselho.

Além do próprio (agora) ex-CEO, todos, dentro e fora da OpenAI, foram pegos de surpresa. Greg Brockman, até então presidente da OpenAI, anunciou sua saída. Satya Nadella, CEO da Microsoft, que detém 49% da OpenAI e é sua maior investidora, publicou uma declaração afirmando que nada muda no relacionamento das duas empresas. Nos bastidores, Nadella teria ficado furioso com a notícia e por não ter sido avisado de antemão.

Não é a primeira vez que Sam sai de maneira abrupta do comando de uma empresa quente no Vale do Silício. Em junho de 2021, ele saiu (ou foi saído) sem muitas explicações da Y Combinator, uma popular incubadora de startups do Vale.

Desde o lançamento do ChatGPT, no final de 2022, Sam tornou-se uma espécie de rosto e porta-voz da inteligência artificial gerativa. Ao longo de 2023, ele promoveu a tecnologia nos EUA e em outros países, participou de debates acerca da regulação e ajudou a catapultar o valor de mercado da OpenAI e a desencadear uma nova corrida do ouro em torno da IA.

Sam não detém participação na OpenAI. Em seu lugar, assumiu como CEO interina Mira Murati, até então diretora de tecnologia. No Twitter, Sam comentou a demissão, mas não detalhes do que a motivou. Ainda há muito mais por vir nessa história. Via OpenAI, New York Times, Bloomberg (em inglês).

Fiz dois adendos às regras de convivência nos comentários do Manual. A primeira (#8), bem a tempo da Black Friday, proíbe a veiculação de links de afiliados/comissionados a fim de manter as nossas recomendações desinteressadas. A segunda (#9) é referente ao uso de inteligência artificial gerativa. Peço a todos para que leiam.

Algumas coisas nunca mudam, vide a confusão com nomes na Microsoft. Nesta quarta (15), a empresa rebatizou o Bing Chat de Copilot e o Microsoft 365 Copilot de Copilot para Microsoft 365. (Sério.) O primeiro é para usuários domésticos; o segundo, para empresas.

Pelo que li, as mudanças têm duas motivações complementares:

  1. Unifica todos os serviços de IA gerativa da Microsoft sob o nome “Copilot” — já presente no GitHub e no Windows, por exemplo.
  2. Reposiciona essa oferta como concorrente direto do ChatGPT — tem até site agora.

O uso da marca Bing pareceu uma tentativa de alavancar o buscador com IA para fazer frente ao Google. Não deu muito certo.

O elefante na sala da nova estratégia é que a Microsoft se posiciona como rival da sua principal parceira e fornecedora de tecnologia, a OpenAI. Via The Verge (em inglês).

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) vai investigar um juiz que usou o ChatGPT para escrever uma sentença. A decisão se baseou em uma jurisprudência inventada (“alucinada”) do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Via Conjur.

Foto em detalhe do AI Pin, da Humane, grudado a um moletom branco com gorro.
Foto: Humane/Divulgação.

A Humane, startup formada em 2018 por ex-executivos da Apple, apresentou nesta quinta (9) o AI Pin, seu primeiro produto. E é… estranho.

Em vídeo, os co-fundadores Imran Chaudhry e Bethany Bongiorno demonstram o que se parece com um celular sem tela, grudado na roupa por ímãs, em que toda a interação é feita por uma espécie de Siri que conversa com diversas IAs e serviços parceiros da Humane.

Por que alguém iria querer usar um celular sem tela? Essa é a grande pergunta que a Humane não responde.

Só de ver esse vídeo já fiquei incomodado com os barulhos e ter que ficar falando todos os comandos.

O AI Pin só será lançado, a princípio, nos EUA. O produto custará US$ 699, com pré-venda a partir de 16/11 e disponibilidade no início de 2024. Não é só: o produto depende de uma assinatura de US$ 24/mês, que dá acesso à rede móvel da T-Mobile e alguns outros serviços. Via Humane (em inglês).

Se você estava ansioso para conversar com a inteligência artificial do Google enquanto tenta achar alguma coisa lá, a empresa liberou sua IA gerativa para 120 países (Brasil entre eles) em quatro novos idiomas (incluindo o português). Precisa se cadastrar aqui, esperar a aprovação, daí ativar a opção “Search Generative Experience (SGE)” e usar o Chrome e vender sua alma. Via Google (em inglês).

A OpenAI fez seu primeiro evento para desenvolvedores nesta segunda (6) e anunciou um caminhão de novidades. Destaque para o gerador de GPTs, uma solução “no-code” para personalizar IAs gerativas com direito a lojinha (em breve) e divisão de receitas com quem criar os GPTs mais populares/úteis.

A empresa também anunciou versões “turbinadas” dos seus modelos de linguagem (GPT-4 Turbo, GPT-3.5 Turbo), com reduções significativas no custo das APIs, e uma nova API para a criação de IAs assistentes para terceiros.

Concentrar todos esses anúncios em um dia passa a sensação de que a OpenAI está atenta às ameaças externas e pronta para jogar pesado a fim de manter sua liderança. Via OpenAI (2), The Verge (2) (em inglês).