O guia rápido, direto e sem enrolação dos principais anúncios da Google I/O 2014

Se nas apresentações da Apple o “one more thing” é (ou era) um tipo de marca registrada, as do Google também estão ganhando uma espécie característica própria: a (looooooonga) duração.

Ano passado foi 3h30min de Google I/O; hoje, chegamos a 2h40. Para quem não tem tanto tempo disponível e largou a bets no meio do evento ou sequer se arriscou a ficar na frente do computador vendo demonstrações e comentando no Twitter, o Manual do Usuário traz um guia direto, sem enrolação e super rápido de tudo de relevante que foi anunciado. Foi sobre Android, múltiplas telas, Chrome(book|OS|cast), Google Drive… foi sobre bastante coisa, na verdade. (mais…)

Apple e Google fazem as pazes nos tribunais para combater um inimigo comum: o sistema de patentes

Fachada de uma Apple Store.
Foto: Adam Fagen/Flickr.

Em várias partes do mundo, com maior incidência nos EUA, empresas de tecnologia vão aos tribunais regularmente reclamar da concorrência. Não por estratégias de marketing ou táticas de vendas agressivas, mas por infrações de patentes. Indo na contramão dessa tendência, sexta-feira Apple e Google anunciaram um cessar fogo que pode, em última instância, beneficiar a todos.

Nos últimos anos a Apple apareceu bastante no noticiário pelo afinco com que recorreu aos tribunais para defender suas propriedades intelectuais. O caso mais famoso, ainda em trâmite, foi o processo movido nos EUA contra a Samsung, uma rixa quase pessoal do ex-CEO Steve Jobs, que a classificou como “guerra termonuclear” e foi motivada principalmente pelas similaridades entre o Galaxy S, da concorrente, e seu iPhone.

Batalhas judiciais paralelas se desenrolaram contra HTC, Motorola e outras, as quais somadas com imbróglios alheios, transformaram o setor da alta tecnologia de consumo em uma intrincada rede de acusações. O infográfico abaixo, do começo de 2012, dá uma boa dimensão do emaranhado que são essas relações:

Infográfico mostrando processos entre empresas de tecnologia.
Quem processava quem em janeiro de 2012. Infográfico: Verizon/PCMag.com.

Em 2010 a Motorola, então independente, acusou a Apple de infringir algumas das suas patentes, incluindo relacionadas à 3G e essenciais ao funcionamento de um smartphone. A Apple contra-atacou, e a disputa vem se desenrolando desde então em uma corte na cidade de Chicago. Ou vinha, já que o anúncio da última sexta pôs um fim nela e em outras envolvendo as duas.

Com a compra da Motorola Mobility em 2012, o Google levou seu portifólio de patentes e herdou as disputas judiciais da empresa adquirida. O Google atua em processos de fabricantes que usam sua tecnologia, como no talvez maior caso do gênero nos EUA, a já mencionada disputa entre Apple e Samsung, mas nesse caso se viu envolvido diretamente como parte — e como a venda da Motorola Mobility à Lenovo ainda não foi finalizada, ela continua respondendo nele.

Na declaração conjunta que encerrou essa disputa, as duas se comprometeram a, além de retirarem as acusações (cerca de 20, nos EUA e Alemanha, segundo o GigaOm), cooperarem na reforma do sistema de patentes. A mensagem foi a seguinte:

“Apple e Google concordaram em remover todos os processos em trâmite que existem diretamente entre as duas empresas. Apple e Google também concordaram em trabalhar conjuntamente em algumas áreas da reforma de patentes. O acordo não inclui trocas de licenças.”

O sistema de patentes norte-americano é duramente criticado pela abrangência e facilidade com que aprova pedidos, mesmo os mais absurdos. Um caso recente foi a patente conquistada pela Amazon para fotografias de coisas contra um fundo branco. Outra, mais antiga, foi a conversão para links de certas mensagens encontradas em mensagens de e-mail, base de um dos processos da Apple contra a HTC. Para além dos smartphones, encontramos coisas ainda mais descabidas, como a patente da roda (?) e a de um penteado para disfarçar a calvície.

É por essas e outras que a decisão conjunta de Apple e Google transcende as implicações jurídicas que decisões do tipo têm. Na real, essas disputas são mais sobre intimidação do que reparação monetária; alguns milhões de dólares não fazem nem cócegas em quem lucra bilhões a cada trimestre. A consequência mais importante desse anúncio é o desejo compartilhado de reformar um sistema que invariavelmente tira o foco da inovação e drena recursos que, de outra forma, poderiam ser investidos no aperfeiçoamento e barateamento da tecnologia.

Por que tanta gente assiste a vídeos de jogos no YouTube e no Twitch?

Google pode comprar Twitch.
YouTube + Twitch?

Fontes da Variety dizem que o Google, através do YouTube, está na iminência de anunciar a compra do Twitch por mais de US$ 1 bilhão. O serviço é uma plataforma gratuita de streaming de vídeos feitos por proprietários de consoles de última geração. Parece muito dinheiro? Talvez — o próprio YouTube foi comprado em 2006 por US$ 1,65 bilhão –, mas há interesse e dinheiro nesse mercado de streaming. Por mais estranho que pareça a quem é de fora, ver gente jogando é um grande filão.

Lançado em meados de 2001 por Justin Kan e Emmett Shear, cofundadores do Justin.tv, o Twitch alcançou rapidamente o status de local para transmitir e assistir vídeos ao vivo de jogos. Ele vem incorporado nos novos consoles (Xbox One e PlayStation 4) e PC, e já foi palco de experimentos curiosos envolvendo jogos, como o Twitch Plays Pokémon e o robô que joga Threes, um sensacional e difícil jogo para smartphones. A empresa diz receber mais de 45 milhões de visitantes únicos por mês.

Números grandiosos e a crescente popularidade das transmissões ao vivo de jogatinas dá nós na cabeça de quem está fora desse universo. Por que alguém assistiria a uma mídia criada para ser jogada, para ser interativa?

Um fenômeno mais conhecido é o dos vídeos de Minecraft. São muitos canais, aqui e lá fora, recheados de aventuras, reuniões de amigos, MODs malucos. Esses canais desfrutam de popularidade e faturamento em cima da flexibilidade que o jogo oferece. Em sua análise, o Aquino comenta as alegrias que compartilhou com seu filho, companheiro de aventuras no jogo da Mojang:

“Temos nossas próprias lendas, momentos de alegria e tensão alternados em um mundo que forjamos na medida em que descobrimos. (…) Com desafios auto-impostos vem problemas auto-impostos e narrativas pessoais que não podem ser replicadas. É a tal da narrativa emergente.”

É isso o que se compartilha nos vídeos de Minecraft. E essa é só uma das possibilidades. Nos e-sports, partidas tão frenéticas e tensas quanto uma final de futebol são vistas por muita gente. Finais de futebol virtual, inclusive.

O confronto derradeiro do mundial de League of Legends ano passado foi visto por 32 milhões de pessoas; a final do “brasileirão”, por mais de 8 milhões. Todo ano a EVO, torneio mundial de jogos de luta, comove uma parte considerável da Internet. Eventualmente, recompensa o público com batalhas memoráveis.

Ver pessoas fazendo algo que está ao alcance de todos em um nível acima da média é o que faz a audiência desses canais. É a mesma lógica dos esportes.

Embora desempenhe um papel importante nesse contexto, o YouTube não fincou sua bandeira no vídeo ao vivo. Daí o interesse (e o caminhão de dinheiro) do Google para ser relevante em uma das poucas subáreas da área “vídeo na Internet” em que não está absurdamente distante do segundo colocado.

Nem Google, nem Twitch confirmaram ainda o negócio, e caso ele se concretize, provavelmente passará pela avaliação dos órgãos regulatórios anti-monopólio dos EUA. Não que precisemos de mais provas, mas essa aí apenas soma contra àquela ideia, retrógrada, de que video game é só coisa de criança.

O Google quer transformar a URL em um botão — e isso não é ruim

Uma das bases da web é a URL, ou URI, aquele endereço precedido por um http://www. que identifica páginas e permite a mágica do hiperlink. Nesses 25 anos já declararam a morte da web, vimos alguns navegadores dominarem as estatísticas de uso ao redor do mundo e a interface deles mudar radicalmente, da prosaica do Mosaic à minimalista do Chrome, hoje ditadora de regras. Ainda em estágio de experimentação, a provável próxima mexida do Google na forma como navegamos tem inflamado alguns ânimos mais puristas: querem simplificar a URL.

A proposta surgiu no canal Canary do Chrome, uma versão anterior à Alpha, geralmente cheia de bugs e desaconselhada a qualquer um que não tenha interesse em caçar problemas e relatá-los ao Google. Nela, é possível ocultar a URL. Como? Digite chrome://flags/#origin-chip-in-omnibox na barra de endereços e habilite a opção “Ativar o chip de origem na omnibox”.

“Ocultar” talvez seja um termo errado; o que essa opção faz é transformar o domínio em um botão e sumir com o que vem depois do TLD.

O caminho até o fim da URL

Screenshot do Safari Mobile com um post do Manual do Usuário aberto.
Safari no iOS 7.

Entre o público técnico a novidade caiu como uma bomba. Um dos desenvolvedores do Google que trabalham nela, Paul Irish, escreveu em um tópico do Hacker News que é contra a mudança. “Minha opinião pessoal é de que essa é uma mudança muito ruim e que vai contra os ideais do Chrome”. Em blogs, fóruns e no Twitter, vimos reações similares.

Acabar com a URL é, de certa forma, acabar com a web. Seria loucura até mesmo propor algo assim, por isso é importante esclarecer que o novo comportamento experimental do Chrome não visa exatamente exterminar os endereços dos sites, mas sim ocultar o que sobra para além do domínio. Esse continua sendo exibido e, com um clique, revela a URL completa — vide a montagem que abre este post.

De certa forma, é mais uma etapa do processo de humanização da URL, processo esse que já vem ocorrendo há alguns anos. Primeiro, os principais navegadores ocultaram o protocolo: você não vê mais http://, salvo quando é uma página criptografada. Depois, o Opera passou a remover parâmetros; em vez de exibir manualdousuario.net/?s=celular em uma busca aqui, por exemplo, ele só vai até a barra. Entre idas e vindas, esse comportamento voltou agora como padrão no recém-lançado Opera 21. No iOS 7, o Safari Mobile passou a exibir apenas o domínio no campo de endereços após carregar a página. O próximo passo, pois, é levar esse comportamento para os desktops, eliminando parâmetros e reforçando o que importa ao usuário: o domínio.

Como meros mortais (não) lidam com a URL

Imagem clássica de menino surfando na Internet.
Imagem: DA INTERWEBZ.

Você deve ter entendido bem o início deste post, mas mostre-o a alguém menos ligado a tecnologia, que não acompanha o Manual do Usuário ou outro site do gênero. Pergunte se termos como URL, TLD, domínio e aquele endereço esquisito significam alguma coisa. É bem provável que não.

Desde que Chrome e Firefox mudaram as barras de endereço para que elas atuassem também como campo de busca, um comportamento que antes era motivo de risadas se estabeleceu: as pessoas usam o Google como intermediário para os sites que visitam regularmente.

Parece insanidade escrever “facebook” e clicar no primeiro resultado do Google. Racionalmente é difícil justificar, mas muita gente faz isso na prática. Quando não, digitam “face” e o autocompletar do navegador preenche o resto. É meio que consenso que pulamos de página em página e que cada uma tem um endereço único, mas mesmo quando são semânticos, como os do Manual do Usuário, é raro prestar atenção ao que elas dizem. Botões sociais e navegadores móveis diminuíram a necessidade de copiar e colar a URL na hora de compartilhá-la com os outros. De qualquer forma, para desenvolvedores, gente que produz conteúdo, todos aqueles a quem o acesso à URL é imprescindível, ela continua lá.

A proposta do Google meio que adapta a realidade ao navegador. Ela não altera o funcionamento da barra de endereços; ela continua igual à atual. O que muda é a apresentação. Afinal, o conceito de URLs, um dos mais antigos ainda vigentes na tecnologia de consumo, nunca foi muito amigável a despeito da sua importância vital, como colocou Allen Pike:

“Eu sei que as URLs são feias, difíceis de lembrar e um pesadelo para segurança.”

É óbvio que o Google quer, com isso, também incentivar ainda mais o uso do seu buscador, mas além de adequar seu software ao comportamento da maioria, há outros ganhos para os usuários na abordagem proposta. Ataques do tipo phishing que replicam páginas com URLs diferentes, por exemplo, sofreriam uma baixa considerável – menos gente inseriria dados em uma cópia do Itaú se, em vez de itau.com.br, aparecesse um endereço russo no botão de domínio do futuro Chrome.

Não se sabe ainda se essa mudança chegará ao canal estável do Chrome. Desde que foi lançado, o navegador do Google se destacou pelas mudanças drásticas e foi graças a elas que se estabeleceu, tirou a hegemonia do Internet Explorer e relegou o Firefox ao terceiro lugar na guerra dos navegadores.

Se acontecer de mudar, porém, não vejo motivos para desespero, protestos ou coisas do tipo. A tecnologia de consumo avança a passos largos e, normalmente, quem se apega muito a convenções fica para trás. Quem imaginaria, há dez anos, que a Microsoft seria coadjuvante no segmento de sistemas operacionais, que a Symantec desistiria dos antivírus e que o celular seria a plataforma número um de acesso à Internet entre os mais jovens? Tudo isso era passível de internação no manicômio. Mas aconteceu, e se tais guinadas nos ensinaram alguma coisa é de que dá para esperar qualquer coisa desse universo.

Câmera do Google: pequenos acertos e o novo Efeito foco

Nessa semana o Google deu mais um passe no desmonte que vem fazendo do Android. Não entenda isso como algo negativo; ao remover apps e funções do sistema e permitir a atualização “por fora”, via Google Play ou Google Play Services, os efeitos negativos da fragmentação da plataforma são mitigados. Desta vez foi a câmera que passou a ser distribuída e atualizável pela loja de apps oficial.

A Câmera do Google funciona em qualquer Android rodando a última versão do sistema (4.4 “KitKat”). O app mantém a pegada minimalista do que acompanha o sistema, mas traz mudanças estéticas, simplificações e um modo de disparo totalmente novo, o Efeito foco, que tenta reproduzir o que a Lytro faz nativamente: brincar com a profundidade de campo após tirar a foto. Voltarei a isso depois.

Interface da câmera mais simples e com boas novidades

A nova interface da Câmera do Google.
Câmera do Google.

A interface foi simplificada e, no geral, ficou melhor. O Google finalmente adequou o viewfinder à proporção da foto. Antes, o usuário via uma imagem em 16:9 mesmo quando a foto saía em 4:3, um detalhe que, aos incautos, prejudicava todo o cuidado com a composição. A saída agora bate com a da foto e o espaço que sobra, à direita, transformou-se em um grande disparador — a foto é feita ao tocar em qualquer ponto daquela área, não só no ícone. No viewfinder, um toque ajusta o foco para a área selecionada.

Alguns controles, como troca de câmera, flash e HDR, ficam ocultos em um pequeno ícone no canto superior direito. E foi uma grande felicidade reparar que agora dá para colocar uma grade 3×3 no viewfinder!

Os modos de disparo ficam ocultos na borda à esquerda, e são trazidos à tona com um deslizar de dedo, mais ou menos como na câmera do Moto X. Toda vez que a câmera é aberta eles aparecem ali antes de sumirem, detalhe importante para evitar que caiam no esquecimento junto a usuários menos ligados. Do outro lado, ficam as últimas fotos feitas.

São os mesmos modos de sempre, mais o novo Efeito foco. Cada botão ganhou uma cor própria e um visual bastante “flat” que se estende por todo o app. O atalho para as configurações gerais fica oculto, só é revelado ao puxar os modos de disparo. É a engrenagem à direita. As opções são bem limitadas, mas valem uma visita para aumentar a resolução de tudo — os modos Efeito foco e Photosphere não vêm configurados na resolução máxima; a do Photosphere, aliás, agora subiu para 50 mega pixels contra 8 da versão antiga.

Efeito foco, ou a Lytro fazendo escola

Começou com a Lytro. Depois, foi a vez da Nokia trazer o recurso para as câmeras PureView atavés do Refocus. A nova leva de Androids, encabeçada por Galaxy S5 e HTC One (M8), também entrou na dança; no caso do modelo da HTC, o UFocus, nome do recurso, se utiliza de uma câmera auxiliar para calcular o espaço tridimensional e refinar os resultados.

Desfocar o fundo de uma fotografia é uma coisa legal e muito procurada. Em alguns grupos de smartphones no Facebook, o efeito bokeh é febre — as pessoas procuram por apps que façam isso e ficam fascinadas com os resultados práticos de uma grande profundidade de campo mesmo quando eles são absurdamente ruins, caso de quase todos esses apps de pós-edição. Agora, qualquer um com o Android 4.4 terá essa opção embutida no app da câmera. Mas é uma opção viável?

Sendo uma câmera específica para esse fim, a Lytro oferece os melhores resultados e tem um mecanismo fechado e otimizado para tanto, composto por conjunto de lentes extras dedicado a capturar mais luz de todas as direções possíveis. No caso da Nokia, a técnica é mais rudimentar, mas alcança resultados bem competentes: o app tira uma sucessão de fotos com diferentes pontos focais ao mesmo tempo em que cria um “mapa de profundidade” da cena, juntando tudo depois em uma imagem que é manipulável no app e externamente — dá para brincar no site oficial e incorporar essas fotos dinâmicas em qualquer página web. Abaixo, uma que fiz com o Lumia 920:

A técnica adotada pelo Google é similar, mas exige um movimento extra para ajudar os algoritmos responsáveis pela mágica do foco posterior. Ao fazer uma foto no Efeito foco, é preciso “levantar” a câmera; um tutorial na tela ensina o que e quando fazer. Além disso, diferentemente da solução da Nokia, na do Google dá para, além de alterar a área focada, mudar a intensidade do desfoque no restante da imagem. A desvantagem é que tudo isso só fica disponível para quem tirou a foto, e no próprio aparelho. Ao compartilhá-la em outro local, ela vai como um JPG comum.

O Efeito foco não é perfeito, mas diverte.
Efeito foco em ação.

Neste post, Carlos Hernández, engenheiro de software do Google, explica em termos mais técnicos como isso funciona:

“O Efeito foco substitui a necessidade de um grande sistema ótico com algoritmos que simulam lentes e abertura grandes. Em vez de capturar uma só imagem, você movimento a câmera para cima a fim de capturar um conjunto completo de quadros. A partir dessas fotos, o Efeito foco usa algoritmos de visão computacional para criar um modelo 3D do mundo, estimando a profundidade (distância) de cada ponto na cena.”

Após tirar uma foto nesse modo, a galeria exibe um botão extra de edição que permite mudar o desfoque simplesmente mexendo em uma barra.

É uma implementação engenhosa, mas nem sempre funcional. Em vários casos o desfoque invade o objeto em primeiro plano e vice-versa, ou então não consegue delinear corretamente o que deve estar em evidência. E tem o problema da resolução, já que a qualidade máxima (e que torna a captura mais lenta) só alcança 2048×1536.

Quebra o galho, mas não faz frente a uma boa câmera com lentes bem abertas, ou mesmo ao trabalho que a Nokia fez com o Refocus. Embora mais limitado, o efeito nas câmeras PureView é, na média, mais natural. Às vezes, dependendo da situação, o Efeito foco da Câmera do Google gera algumas aberrações, como essas cebolinhas:

Um caso em que o Efeito foco não funcionou direito.
Foto: Rodrigo Ghedin

Em condições ideais, porém, dá para alcançar resultados magníficos, como esse da laranja (ambas são a mesma foto, com o foco alterado via software depois do clique):

Laranja desfocada.
Sem foco.
Laranja focada.
Com foco.

É um começo. Com o tempo o algoritmo deve ser aperfeiçoado e os resultados ficarão mais consistentes e chegarão a resoluções maiores. É esperar para ver — e, enquanto isso, se divertir mesmo com as limitações.

Nada de filmar em modo retrato!

A Câmera do Google pede ao usuário para deixar o smartphone em modo paisagem na hora de filmar.
Vire o celular!

Lembra do meu apelo para não filmarmos em modo retrato? A nova Câmera do Google engrossa o coro.

Quando no modo de vídeo com o celular em pé, um ícone na tela recomenda ao usuário que ele incline o dispositivo. É um ícone animado pouco descritivo, e não será surpresa se muita gente ficar coçando a cabeça tentando entender do que se trata ao se deparar com ele, mas é um toque legal, gentil (ele não te proíbe de filmar assim, como o YouTube Camera do iOS) e talvez capaz de conscientizar alguns que ainda insistem em filmar na vertical.

Câmera do Google, mais uma (boa) opção

No geral, quem usa o Android padrão (Nexus) tem bons motivos para atualizar a câmera para essa nova. Proprietários de outros modelos já no Android 4.4, como Moto X, Moto G, Galaxy S4 e Galaxy S5, não perdem nada testando, embora o apelo seja menor nesses casos — Motorola e Samsung se dedicam a criar apps de câmera poderosos ou mais acessíveis.

De qualquer modo, não custa nada experimentar. Às vezes é na simplicidade de um app como o Câmera do Google que mora o conforto ou, no caso, a melhor interface para se fazer fotos memoráveis.

A melhor brincadeira de 1º de abril que o Google já fez

Nos últimos anos o Google se especializou em celebrar o 1º de abril, também conhecido como Dia da Mentira, com ideias cada vez mais malucas e elaboradas. Em 2014, já na véspera, 31 de março, algumas foram ao ar, como o mashup entre Google Maps e Pokémon. Este ano também marca o décimo aniversário de uma das mentiras mais incríveis da empresa — em parte, curiosamente, porque ela acabou se revelando não ser uma.

As (poucas) brincadeiras do Google até 2004

Imagem ilustrativa do Google Copernicus Center.
Google na Lua. Imagem: Google.

A primeira brincadeira do Dia da Mentira do Google data de 2000, quando a empresa lançou o MentalPlex, um sistema que prometia projetar a imagem mental dos usuários enquanto esses olhavam para um GIF animado. Dois anos depois, foi a vez do PigeonRank, um trocadilho com o PageRank, sistema que analisa e atribui peso às páginas para mostrar sempre as mais relevantes no buscador do Google.

Em 2004, foi a vez do Google Copernicus Center, uma subsidiária do Google na Lua! Foram abertas vagas de emprego com a promessa de que as operações começariam dali a três anos, em 2007.

Além dessa maluquice (convenhamos!), outro anúncio foi feito naquele ano. No comunicado à imprensa, o Google revelou que após ouvir as reclamações de uma usuária sobre os webmails da época, decidiu criar o seu próprio serviço de e-mail. “Pesquisa é a atividade online número dois — o e-mail é a número um; ‘Heck, Yeah’, disseram os co-fundadores do Google”.

Nascia ali o Gmail.

Gmail em 2004: 1 GB de espaço!? Isso é brincadeira?

Ícone do Gmail.
Imagem: Google.

Mas nascia mesmo? Parecia bom demais para ser verdade e, no contexto da época, poderia ser uma brincadeira e tanto. As reclamações da usuária (teoricamente) fictícia no comunicado eram dramas reais das pessoas que acessavam a Internet em meados da década passada:

“‘Ela reclamava sobre gastar todo o seu tempo arquivando mensagens ou tentando encontrá-las’, disse [Larry] Page. ‘E quando ela não estava fazendo isso, tinha que apagar e-mails feito louca para ficar abaixo do limite de quatro mega bytes. Então ela pediu, ‘Vocês aí podem consertar isso?””

Hotmail e Yahoo! Mail, líderes da época, eram tiranos com espaço: com 2 e 4 MB de espaço para mensagens, respectivamente, eles nos forçavam a manter uma rotina quase robótica de apagar definitivamente mensagens da caixa de entrada. Até essa época, aliás, clientes de e-mail locais como Outlook Express (RIP), Thunderbird e outros menos conhecidos hoje faziam sentido porque no computador não havia limites, logo ao baixar as mensagens do servidor rolava um grande alívio no parco espaço disponível para receber novas mensagens.

Imagine o choque que foi um e-mail, gratuito, com 1 GB de espaço? Dava para desconfiar. Muita gente desconfiou, inclusive a mídia especializada.

No Slashdot, a pergunta era “O Gmail do Google ofecerá 1 GB de espaço?” e, em uma atualização datada em 1º de abril (a notícia do Gmail foi publicada no New York Times um dia antes), a descrença se manifestou com força (grifo meu): “O site do Google agora tem um comunicado oficial, naturalmente datado em 1º de abril.”

Outra interrogação cravou seu espaço no título desta notícia do WebProNews, cujo lide pisava em ovos e tinha uma abordagem bastante precavida: “No que pode ser uma elaborada brincadeira, o Google anunciou o lançamento do GMail, um serviço de e-mail gratuito”. O Erik, ao descobrir que o Gmail era de verdade 30 minutos depois de tomar conhecimento dele, ficou desapontado: “Eu testei. Não tem nada de impressionante. Não há nada aqui que eu já não tenha visto antes”. Ah, Erik! Como assim?

Naquele mesmo dia, porém, Jonathan Rosenberg, então VP de Produtos do Google, confirmou a veracidade do Gmail a vários sites. Primeiro acessível mediante convites, depois liberado a todos, a confirmação marcou o fim do racionamento de espaço para e-mails. E fica o convite à reflexão: quantos mega bytes teríamos em nossos webmails hoje se essa história fosse apenas uma brincadeira?

À frente da sua época, e assim por muitos anos

Para os padrões da época 1 GB era um espaço tão colossal que apagar e-mails no Gmail não era uma tarefa trivial ou mesmo incentivada. O site do Gmail não tinha um botão “Delete” destacado na interface — embora existisse, ficava soterrado em um menu à parte. Só em 2006 o “Delete” ganhou um espaço mais digno na interface. A proposta do Google era que com aquele latifúndio de espaço você jamais precisaria apagar um e-mail novamente; no máximo, arquivá-lo, um conceito interessantíssimo que, infelizmente, ainda passa batido por muita gente. (Se você não arquiva mensagens no Gmail, está usando errado.)

E não era só no espaço que o Gmail se destacava. A interface, baseada em AJAX, uma técnica que permite carregar partes da página sem recarregá-la por inteiro, dava uma sensação de velocidade típica dos serviços da empresa. O Gmail era extremamente ágil, anos-luz à frente do Hotmail, na época ainda preso ao visual esquisitão do MSN, e do Yahoo! Mail com suas pastinhas a la Windows 3.11.

Hoje, aquela interface beira o ridículo, como o Mashable nos mostra nesta galeria:

Como o Gmail era em 2004.
Gmail em 2004. Imagem: Google.

Mas acredite, era um negócio simples e interessantíssimo naqueles dias mais ingênuos na web. Disso aí em cima, chegamos ao visual atual, na imagem abaixo devidamente ornamentado com uma “shelfie”:

Shelfie, a nova moda do Gmail.
Gmail Shelfie, a brincadeira de 1º de abril em 2014. Imagem: Google.

Sem falar, claro, nos apps móveis. Em 2004 não existia iOS, Android ou Windows Phone. O mercado era dominado por Symbian, BlackBerry e Windows Mobile e o estado dos apps, deprimente. Já em 2014…

App do Gmail em um tablet Android.
Gmail em um tablet Android. Imagem: Google.

Ao longo dos anos o Gmail mudou um bocado, nem sempre de forma positiva. Alguns redesigns foram duramente criticados (incluindo o atual), o uso da sua popularidade para emplacar serviços sociais do Google, como Buzz e Google+, sempre ganhou a rejeição da maioria maioria dos usuários e a concorrência, ainda que atrasada, avançou e hoje oferece serviços equivalentes — especialmente o Outlook.com, da Microsoft, que ficou bem bom depois que largou o nome “Hotmail” e passou por um banho de loja.

Se toneladas de giga bytes não são mais suficientes para prender alguém ao serviço, o Gmail apostou em outras frentes para manter sua posição de vanguarda. Ele é onipresente, acessível e continua um tanto rápido. O app para Android é exemplar e com o aumento na importância da Conta Google, inclusive servindo para login em sites e serviços de terceiros depois do Google+, um @gmail.com é passou a ser mais do que um endereço de e-mail, é uma identidade na Internet.

A lista de brincadeiras de 1º de abril do Google tem crescido ano após ano. Mas por mais malucas, surreais ou simplesmente bobas que sejam, é difícil superar a do Gmail, de 10 anos atrás. O que chega a ser irônico: a verdade, afinal, foi a maior surpresa já criada pelo Google para o Dia da Mentira.

Apesar das alternativas gratuitas e na nuvem, o Office segue firme na liderança. Por quê?

Nos domínios da Microsoft, o Office é uma força espetacular. Imparável, implacável, avança e conquista novos territórios sem dar espaço à concorrência. O leitor Paulo Alcantara perguntou, à luz dos recém-anunciados add-ons do Google Drive, se as alternativas à suíte da Microsoft estão maduras o bastante para viabilizar a migração de quem (pessoas e empresas) está habituado ao Office.

O Office não é para mim, nem para você

Antes de qualquer suposição ou fato, é bom esclarecer a quem esses aplicativos se destinam. Eu, por exemplo, não sou público-alvo. Não uso o Office regularmente, embora tenha uma licença da versão 2010 com os apps mais básicos à disposição no meu notebook de trabalho. Vez ou outra recorro ao Word (especialmente para trabalhos acadêmicos) e ao PowerPoint (mesmo motivo); não me recordo da última vez que abri o Excel.

Meu perfil é, para as tarefas que o Office promete dar conta, um tanto simplista. O app que teoricamente eu mais usaria, o Word, é um exagero e um caminho que se fecha em si: dali, ou o texto é enviado para ser lido em outra instância do Word, ou é convertido para PDF ou papel. É possível utilizar o Word a fim de escrever para a web, mas convenhamos: com Markdown, apps mais ágeis e leves na web, e fluxos de trabalho menos complexos, não sobram motivos para recorrer ao Word.

Quando se fala na mítica versão do Office para iPad, o ceticismo de quem desdenha essa investida toma como público perfis parecidos com o meu. Para nós, gente que respira web e consegue viver sem maiores enroscos com ferramentas modernas, livres de legado, o Office de fato não tem lá tanto apelo, e não é de hoje. Olhando em retrospecto, mesmo sempre tendo uma cópia dele instalada nos meus computadores nunca as usei com tanta assiduidade para justificá-las. No passado, com alternativas limitadas em quantidade e qualidade, ele servia a um número maior de atividades; hoje, existe um app para isso — e não é força de expressão.

Nas empresas, o Office reina

Mulher demonstra o Office em uma tela sensível a toques.
Foto: Microsoft/Reprodução.

O que se costuma esquecer é a dimensão que o Office tem onde pagar por software sempre foi um gesto natural: o ambiente corporativo. O Office é uma máquina de fazer dinheiro não por todos os estudantes e blogueiros que compram licenças ou assinam o Office 365, mas pelos contratos de volume que levam Word, Excel, PowerPoint e Outlook para grandes parques de máquinas, para centenas, milhares de computadores de uma só vez, conectados via SharePoint, Exchange, Lync e outros nomes que, para quem conhece o Office de casa, são alienígenas.

Em 2010, a comScore revelou que havia no mundo, englobando todas as situações possíveis (inclusive estimativas da pirataria), mais de 1 bilhão de usuários de Office. Dados mais recentes da Forrester, de outubro do ano passado, mostraram que em três anos o Office 2010 dominou o mercado corporativo. Nessa pesquisa, conduzida com 155 empresas, 85% delas disseram usar essa versão da suíte. A 2013, já respondia por 23% (a soma das porcentagens supera 100% porque várias empresas usam duas ou mais versões em paralelo), quase o dobro da adoção do Google Docs/Drive e muito mais que o OpenOffice e variantes, que despencou no ranking em apenas dois anos.

As soluções na nuvem, personificadas principalmente pelo Google Drive, apesar do “oba oba” não conseguiram fazer a cabeça dos CIOs e penetrar no ambiente corporativo. E não por ignorância ou preconceito. Acontece que o Office da Microsoft tem duas características difíceis de serem batidas: ele é popular e, sejamos honestos, muito bom.

Espaço Office no Shopping Eldorado, em São Paulo.
Espaço Office, no Shopping Eldorado, em São Paulo. Foto: Emerson Alecrim/Flickr.

A popularidade advém da idade — e, créditos à Microsoft pela capacidade de adaptar um software tão antigo a toda e qualquer tendência que emplaque. Ter sido a única opção decente por tanto tempo também criou a cultura da compatibilidade; outros aplicativos, embora conversem com os arquivos gerados no Office, se enrolam com os mais complexos. É um jogo de força bruta, mas que no final pesa a favor da Microsoft.

As mais recentes, nuvem e venda por assinatura, convergiram no Office 365, disponível tanto para empresas quanto para usuários domésticos a preços interessantes. A versão doméstica do Office 365, por exemplo, custa R$ 21 por mês, dá direito à instalação dos apps em até cinco computadores, minutos no Skype, espaço extra no OneDrive e acesso aos apps para iPhone e Android. Para empresas, entram na conta soluções corporativas rodando na nuvem, como o sistema de comunicação Lync, SharePoint e servidor de e-mail Outlook, além do suporte sempre prestativo.

As alternativas são mais baratas, mas também inferiores

Uma planilha complexa no Excel.
Imagem: Microsoft/Reprodução.

As alternativas são gratuitas ou mais baratas? Sim. Mas carecem da maturidade do Office, do poder das suas ferramentas e da integração, entre apps e com as empresas. Para usuários casuais, um Google Drive ou iWork quebra o galho; para quem está inserido em uma grande rede corporativa cheia de protocolos e regras, não.

A última reformulação no iWork simplificou, muito até, os apps. É um caminho contrário ao do da Microsoft, que conseguiu algo raro com seu Office: ser ao mesmo tempo poderoso para quem precisa e simples para quem não o entender. O leitor Gustavo Vieira usa o Office no trabalho e em casa e explicou seus motivos:

“Uso [o Office] tanto na empresa quanto em casa e a justificativa é a mesma: é o que tem os melhores recursos avançados no pacote. Simplesmente não há alternativa decente (principalmente em relação ao Excel — fórmulas matriciais, macros VBA, tabelas dinâmicas) que consiga suplantar a suíte da microsoft. Até o Word, que a maioria acha que é apenas um editor de texto feioso, tem suas vantagens insubstituíveis (opções de formatação, smartart, referências, alterações controladas…).”

O Paulo, que sugeriu esta pauta, detalhou o que torna o Office, em especial o Excel, insubstituível para ele — e é curioso notar como os motivos vão além dos técnicos:

  • Porque quando comecei a trabalhar na área (design de interiores) há 10 anos já faziam assim, então, é algo muito difícil de mudar na cabeça das pessoas.
  • Macros. Querendo ou não, criar uma macro é algo muito difundido e relativamente fácil, então a planilha que eu uso tem macros criadas anos atrás que ainda funcionam muito bem.
  • Velocidade e confiabilidade com planilhas grandes. É sensível a diferença aqui. Uma planilha online como a do Google não tem a mesma velocidade de cálculo, nem a mesma confiabilidade. Já aconteceu de eu ter lançado algumas coisas na planilha do Google, e quando vou abrir, dá algum bug e o dado desaparece! Coisa que NUNCA, NUNCA, aconteceu com o Excel.
  • Fórmulas. As fórmulas do Excel são traduzidas para português, e quando meu pai me ensinou a mexer no Excel, ele me ensinou as fórmulas em… adivinha: português, como SOMA, CALC, etc. As fórmulas do Google Docs estão em inglês e são ligeiramente diferentes, o que me atrapalha um pouco.
  • Ambiente diferente. Querendo ou não, as pessoas ainda se sentem meio coibidas usando uma planilha fora do computador delas. “Mas fica nos Estados Unidos?”, disse uma funcionária aqui. “Mas o arquivo não é mais meu?”, disse outra funcionária. A pessoa perde a ilusão da “posse” daquele arquivo, acha que literalmente pode perder o arquivo ou outras pessoas podem ler. (E isso tem um fundinho de verdade.)
  • Ninguém quer aprender a mexer no Google Script para substituir macros! Sério, nem eu, que gosto de tecnologia, tive paciência de chafurdar em manuais para criar scripts que substituiriam as macros. A Macro é algo tão difundido, que é bem difícil substituir agora. Mas eu tenho uma missão comigo mesmo de resolver isso pelo menos aqui, no escritório.
  • Look and feel diferente. Imagina uma secretária, que faz o trabalho dela, repetitivo e sem criatividade, há 20 anos (uma grande amiga minha, por sinal), ter que se acostumar com os Ribbons do Excel 2007/2010. Não rolou. Ela pediu para trocarem de volta pelo Excel 2003, com os menus que ela estava acostumada.
  • Zoom. É normal fazer uma planilha grande no Excel e diminuir o zoom para ela caber na tela. Esse conceito não existe no Google Docs, a planilha que você tem é sempre 100% da visão, você não consegue reduzir ela na tela. Imagina isso com uma planilha com milhares de entradas!
  • Letargia profissional. Quase ninguém num ambiente corporativo quer melhorar as coisas, são poucos que querem arranjar uma encrenca. As pessoas querem fazer o trabalho delas e ir embora. Ninguém quer encarar o problema de transferir uma planilha monstruosa, com dados de 15 anos, para o Google, adaptar toda a formatação, ajustar as letras, recriar as macros em script, ensinar as pessoas a usar o novo conceito e convencer o chefe. É muito mais fácil simplesmente avisar o pessoal do TI a instalar a mesma versão do Excel 97/2003 no computador dele, que vai funcionar de qualquer jeito.

Nem toda empresa precisa de tudo o que o Office oferece, claro. Quanto mais simples as exigências, quanto mais enxuto o workflow e menor o número de funcionários, mais fácil é adotar alternativas. Embora o iWork foque na simplicidade para agradar o usuário doméstico, o Google tem a mesma abordagem de olho no corporativo. E funciona, pelo menos para cinco milhões de empresas — esse número, o último divulgado oficialmente, de junho de 2012.
É muito bom ter opções e não depender apenas de uma fornecedora, mas tratar o Office como uma tecnologia ultrapassada e em desuso é, no mínimo, exagerado, um discurso que não bate com a realidade, ainda que uma restrita à corporativa.

Talvez seja o mesmo caso do Internet Explorer: nos fins de semana, a sua fatia no gráfico de uso dos navegadores despenca. Só que funcionário também é gente e o software que ele usa é real, conta. Google Drive, iWork, OpenOffice e outros estão a quilômetros de distância do Office. Se duvida, tente fazer uma planilha complexa, com macros e outros recursos avançados, nessas alternativas. E boa sorte!

O que muda com a compra da Motorola pela Lenovo

K900, o smartphone topo de linha da Lenovo.
Foto: Lenovo/Reprodução.

Semana passada tivemos a Campus Party, vimos Rudy Huyn ser convocado pelo Tinder para criar o app oficial da rede para o Windows Phone, o início das vendas do Nexus 5 no Brasil (e que caro!), o novo nome do SkyDrive (OneDrive?), o anúncio do Paper (o do Facebook, não o da FiftyThree)… quanta coisa!

Nada disso superou o susto que foi a compra da Motorola Mobility pela Lenovo. Por US$ 2,91 bilhões os chineses levaram-na do Google e deixaram todos surpresos. Havia indícios de que algo do tipo aconteceria, mas justo a Motorola? Ninguém esperava.

O valor é bem menor que os US$ 12,5 bilhões que o Google, ex-dono da Motorola, pagou há menos de três anos. A diferença se deve ao fato de que apenas uma parte foi vendida, a de dispositivos móveis. Antes disso o Google já havia se desfeito da unidade de set-top boxes por US$ 2 bilhões e na negociação com a Lenovo ficou de fora boa parte do valioso portifólio de patentes da Motorola.

O negócio, aliás, espanta quaisquer dúvidas que porventura existissem sobre os motivos da compra da Motorola pelo Google. Eram as patentes mesmo, uma arma de defesa e ataque contra Apple e Microsoft que, no fim das contas, embora ainda hoje importante, acabou subutilizada pela diminuição da tensão na guerra fria das patentes.

Os bons frutos de uma relação estranha

A Motorola enquanto uma empresa Google conseguiu se reinventar e provar um ponto importante. Moto X e Moto G foram aclamados por público e crítica e mostraram à concorrência como se fazem smartphones bons, bonitos e baratos. Ideias simples, como usar uma variante limpa do Android e apostar em otimização em vez de processamento bruto, são pequenos detalhes que mostraram, na prática, que os anseios dos usuários mais entendidos tinham algum fundamento. E, importante, sem perder em cada venda, como acontece com a linha Nexus — ainda que não tenha lucrado ou vendido o bastante para impedir sucessivos trimestres no vermelho.

Por melhores que sejam, porém, os novos smartphones da Motorola-Google se posicionam de maneira estranha no mercado. Com a aquisição da Motorola, o Google passou a concorrer com seus parceiros. Samsung, LG, Sony, HTC, todos que confiam no Android em seus equipamentos viram com desconfiança esse affair, uma estratégia que não combina com o modelo de negócios do Android e colocava o Google em uma disputa acirrada (e arriscada) num segmento onde as margens de lucro caem cada vez mais e pouca gente faz dinheiro de verdade. Como disse o CEO Larry Page no anúncio oficial, “(…) para prosperar [no mercado de smartphones], ajuda dedicar-se totalmente à fabricação de dispositivos móveis”.

A Lenovo leva, com a aquisição, a marca Motorola e derivadas (Moto X, Moto G, Droid), o CEO Dennis Woodside e todo o pessoal da empresa, 2000 ativos intangíveis e um acordo de licenciamento das patentes, que continuam sob o domínio do Google para defender o sistema de ataques da concorrência. A promessa do Presidente da Lenovo na América do Norte é manter o que quer que esteja em desenvolvimento na Motorola.

Como será a Motorola da Lenovo

Vi muita gente preocupada e até transtornada com a venda. Calma! Acho que não é para tanto. O histórico da Lenovo, pelo menos, é animador: em 2005 comprou a divisão de PCs domésticos da IBM por US$ 1,25 bilhão e, hoje, é a maior fabricante de computadores domésticos do mundo. Há duas semanas adquiriu, também da IBM, sua divisão de servidores de entrada por US$ 2,3 bilhões. E ano passado, levou a brasileira CCE por US$ 300 milhões.

Eles não são conhecidos por aqui, mas os smartphones da Lenovo existem e são populares na China, terra natal da companhia e o maior mercado em potencial do mundo. Lá, eles só ficam atrás dos da Samsung em distribuição.

Dependendo da consultoria a Lenovo já figura, sozinha, em terceiro lugar no ranking de smartphones. Agregar os números da Motorola não ajuda muito a se aproximar de Apple e Samsung (~17% e ~30%, respectivamente, contra ~6% da Lenovo-Motorola), mas permite fincar um pé nos EUA e em regiões menos maduras e mais sensíveis a preços, como América Latina e leste europeu, onde aparelhos como o Moto G se saem muito bem.

No fim, todos ganham. A Lenovo reforça a sua oferta de produtos “PC Plus” e ganha presença nos mercados mais fortes do planeta, e o Google volta a fazer as pazes com as fabricantes-parceiras do Android, a focar no desenvolvimento do sistema e apostar em segmentos inexplorados e futuristas, como termostatos inteligentes, robôs corredores e carros que andam sem condutor.

Para se aprofundar no assunto:

Leia também:

O que Google e WhatsApp podem fazer para evitar armadilhas como o Balloon Pop 2

Um jogo aparentemente inocente, chamado Balloon Pop 2, foi removido da Play Store pelo Google. Motivo? Ele copiava os históricos de conversas do WhatsApp para um site e permitia que qualquer um visualizasse esses arquivos mediante pagamento. De quem é a culpa?

Graham Cluley descobriu o problema e o divulgou em seu blog pessoal. Só que o “problema”, na visão dos criadores do joguinho, não existe. Tanto que a página do site para onde as conversas são copiadas, o WhatsappCopy, anuncia o Balloon Pop 2 explicitamente como o meio de copiar as conversas para lá.

O Balloon Pop 2 sumiu do Google Play, mas ainda é possível baixá-lo.

Entendo que encarar uma barra de progresso por alguns minutos seja tedioso. A Microsoft, nos primórdios do SkyDrive, oferecia uma bola de praia manipulável com o mouse para que aqueles minutos de upload fossem mais divertidos. Situações diferentes, óbvio, e a do Balloon Pop 2 é, para dizer o mínimo, insustentável.

O jogo não avisa que as conversas estão sendo copiadas. Não avisa sequer que tem alguma relação com o WhatsApp. Segundo Cluley, o Balloon Pop 2 não informa em momento algum, nem na página do Google Play, ter essa funcionalidade de “backup”. O WhatsappCopy diz que se trata disso, de uma ferramenta de backup; na prática, parece uma forma maldosa de conseguir históricos sem que os usuários saibam e, com a posse deles, extorqui-los.

Screenshots do Balloon Pop 2.
Imagem: Graham Cluley.

O Google faz o que pode para protegê-lo de apps como o Balloon pop 2

O Balloon Pop 2 já foi removido do Google Play. O Google tem um arsenal de tecnologias preemptivas com o objetivo de coibir apps maliciosos. Como esse caso exemplifica, ele nem sempre funciona.

Ainda assim, a incidência de código malicioso, considerando o mar de apps existente no Google Play, é pequena. Tanto que uma das boas práticas de segurança no sistema consiste em ficar na loja oficial na hora de baixar novos apps.

De todo modo, é sempre bom desconfiar de apps muito novos, ainda sem avaliações, de desenvolvedores desconhecidos. Embora exista, a triagem do Google Play fica atrás da que Apple, Microsoft e BlackBerry fazem em suas lojas. Há vantagens e desvantagens nessa abordagem mais aberta do Google — uma das desvantagens, você deve ter adivinhado, é a probabilidade maior de furos como esse ocorrerem, além daqueles apps quem parecem mas não são grandes sucessos, como os clones de Angry Birds e Instagram que fazem sabe-se lá o quê.

O Android 4.2 bloqueia apps maliciosos.Ainda que o Google Play fosse imune a apps com segundas intenções, o Android permite a instalação por fora, o “sideloading” de apps. O WhatsappCopy oferece link direto para o APK (instalador) do Balloon Pop 2. Uma indicação para a vítima, e o estrago está feito. Ou estaria, já que a verificação de apps perigosos, presente no Android 4.2 e mais recentes, felizmente já consegue impedir a instalação do jogo.

(A minha intenção era testar o Balloon Pop 2 em um smartphone que não tem, e nem terá antes de um wipe total, o WhatsApp. Parei na tela ao lado porque o app pede acesso a todas as contas cadastradas no Android, o que nesse aparelho em questão inclui Google, Facebook e Twitter. Melhor não arriscar, né?)

O WhatsApp também precisa melhorar

Nada disso aconteceria se o WhatsApp criptografasse direito as mensagens. Até 2011, as conversas eram salvas em texto puro! Ninguém sabe qual padrão de criptografia o serviço usa atualmente, mas há acusações de que sejam protocolos fracos e casos como o do Balloon Pop 2 atestam que, qualquer que seja a técnica usada, ela não é muito eficaz.

O WhatsApp sempre foi um app muito frágil no que diz respeito à segurança. Vineet Bhatia escreveu em maio uma compilação de tropeços do serviço na tentativa de reforçar a privacidade dos usuários. Não mudou muita coisa até hoje, ele continua facilmente hackeável, perigosamente inseguro.

Hemlis, o app de mensagens focado em privacidade.
Foto: Hemlis/Reprodução.

Da popularidade aliada à fragilidade do WhatsApp, alternativas têm surgido. A mais promissora é o Hemlis, “segredo” em sueco. Idealizado por Peter Sunde, co-fundador do The Pirate Bay, o Hemlis tem foco total em privacidade. O projeto foi financiado via Kickstarter e terá apps para Android e iPhone.

A menos que você negocie produtos ilícitos, seja um agente secreto ou leve a sua privacidade muito, mas muito a sério, não há motivo para pânico, nem para abandonar o WhatsApp. Apesar de frágil, é preciso algum conhecimento e muita dedicação para ter acesso a conversas de terceiros. Preocupe-se, e muito, com quem tem lábia boa. Não é de hoje que a engenharia social é a técnica mais bem sucedida no intento de obter informações privadas.

Os novos comandos do Google Now em português

Google Now esperando um comando no Moto X.
Foto: Rodrigo Ghedin.

Bater um papo com o celular ainda é visto como algo excêntrico e, em muitas situações, mais demorado e suscetível a erros do que usar os dedos para digitar ou acessar alguma coisa na tela. Isso mudará no futuro? O Google acha que sim e, na busca por tornar a sua tecnologia de voz mais confiável e popular, liberou diversos novos comandos para o Google Now em português.

Há algumas semanas pairava o rumor de que o Google Now brasileiro ganharia novos comandos, juntando-se aos quatro que o Moto X apresenta na sua ajuda. Recebi uma mensagem do leitor Rodrigo Bittencourt dizendo que o serviço tinha aprendido novos comandos em português do Brasil e… olha só, aprendeu mesmo! (mais…)

Amazon Appstore e o universo de lojas de apps alternativas do Android

App da Amazon Appstore em um Nexus 4.
Foto: Rodrigo Ghedin.

Semana passada uma nova loja de apps desembarcou no Brasil. Presente em mais de 200 países, a Amazon Appstore é compatível com Android e se apresenta como alternativa ao Google Play. Mas… por que ter outra loja de apps instalada no seu celular?

A possibilidade de instalar apps de terceiros é um dos grandes trunfos do Android frente a seus concorrentes diretos, iOS e Windows Phone. Além de outras lojas que não o Google Play, o sistema ainda permite a instalação manual de apps, através de arquivos APK, da mesma forma que se faz no Windows com executáveis (EXE, MSI e alguns outros). São maneiras de se conseguir apps que o Google não aprova, por quaisquer motivos, ou com preços menores ou até mesmo de graça, via promoções.

A Amazon Appstore não é a primeira alternativa. Ela existe há algum tempo lá fora e, embora seja acessível a qualquer usuário de Android, em alguns países tem importância estratégica para a Amazon: abastecer os tablets Kindle Fire com apps. Como eles rodam um Android modificado, sem a experiência Google, o Google Play não é uma opção neles. Quem tem um Kindle Fire precisa recorrer à própria Amazon para baixar novos apps e jogos para seus tablets.

Por que eu instalaria a Amazon Appstore no meu Android?

A Amazon Appstore no Android.

É difícil concorrer com o Google. Além da Play Store vir pré-instalada em boa parte dos Androids vendidos no mundo, ela é a primeira opção para a maioria dos desenvolvedores. É o dilema do ovo e da galinha superado: a loja tem muitos clientes e muitos desenvolvedores publicando lá. Todos ganham, inclusive o Google, que faz a ponte entre essas duas partes, coordenando tudo — e fisgando uma porcentagem de cada transação que rola ali dentro.

Uma parcela de smartphones e tablets Android, porém, vem sem a Play Store. Além dos gadgets da Amazon, outros que não licenciam os serviços e apps do Google também não oferecem tal comodidade a seus usuários. É muito difícil encontrar exemplares do tipo no ocidente; por aqui, quando isso acontece é em dispositivos obscuros e baratos de marcas semi-desconhecidas. No oriente, porém, especialmente na China, onde o Google não tem a mesma presença que aqui e vive se estranhando com o governo autoritário do país, é o cenário mais comum. Lojas alternativas são numerosas e populares por lá.

Para se tornarem atraentes a quem tem acesso ao Google Play, as demais apelam para diferenciais. No caso da Amazon Appstore, há uns interessantes:

  • Um app grátis por dia. Na semana de lançamento tivemos um Angry Birds, Paper Camera e TuneIn Pro.
  • Usar cartão de crédito nacional, coisa que ainda não é possível pelo Google Play no Brasil.
  • Escapar da flutuação do dólar, que pode trazer surpresas desagradáveis no vencimento da fatura do cartão, e do IOF. Como a Amazon tem uma operação comercial completa no Brasil, ela pode cobrar localmente, em Real e livre do imposto sobre operações financeiras que incide em compras no exterior — a modalidade que ocorre nas transações feitas pelo Google Play.
  • Recomendações de apps baseadas no que você costuma baixar/comprar.

Além desses benefícios para quem tem um Android no Brasil, a chegada da Amazon Appstore abre espaço para especulações sobre a vinda dos tablets da empresa para cá. Os e-readers já são vendidos; estariam os Kindle Fire, baratos e bem avaliados lá fora, prestes a estrearem aqui?

As alternativas à alternativa: lojas de apps além da Amazon Appstore

Como dito, a Amazon Appstore não é a primeira loja que se apresenta como alternativa ao Google Play. Outras estão no mercado, lutando pela atenção dos usuários e o amor dos desenvolvedores.

A primeira que usei, aliás, precedeu o Android Market — antigo nome do Google Play. Nos idos de 2010 a AppBrain tinha um recurso matador e único: instalação remota de apps. Usando um computador, dava para “mandar” instalar um app no celular à distância. Hoje a Play Store faz essa comodidade, mas naquela época era o grande diferencial da AppBrain e o que levava muita gente a usá-la em detrimento da loja oficial.

Perder tal exclusividade não fez com que a AppBrain acabasse. Atualmente ela oferece um SDK, o AppLift, para que desenvolvedores integrarem publicidade em seus apps, um sistema de recomendação de apps próprio e a possibilidade de compartilhar na web listas com os apps que você tem instalado. E, embora tal detalhe não vá despertar o desejo de baixar todos os seus apps de lá, ela tem um blog bacana onde saem comentários de mercado, estatísticas e opiniões.

Outra loja alternativa é a App Center, do conglomerado AndroidPIT. Os diferenciais são a janela de arrependimento na compra de apps, de 24 horas (contra 15 minutos no Google Play), a aceitação de PayPal na hora de pagar por eles e reviews de apps feitos pela própria equipe do site.

Existem mais, inclusive algumas especializadas em nichos. A MiKandi, por exemplo, só tem apps adultos. Ela se diz a maior loja de apps pornográficos do mundo, com quatro milhões de usuários e mais de oito mil apps, e não tem vergonha de apostar em invencionices a partir da união entre tecnologia e sexo — aquela paródia de filme pornô com Google Glass, por exemplo, foi iniciativa dos caras.

Desconheço de pronto, mas devem existir outras tantas lojas alternativas, de nicho e até que disponibilizam apps piratas. A exemplo da maioria dos usuários, para mim essas mainstream são suficientes. Ter opções, porém, é sempre uma boa — e o app gratuito diário da Amazon Appstore, por si só, já é um bom motivo para tê-la em qualquer aparelho.

Você usa alguma loja de apps além do Google Play?

Nexus 5 e Android 4.4 KitKat: o que já era muito bom ficou melhor

Sem alarde (não precisava mesmo), o Google finalmente oficializou o Nexus 5, novo smartphone que, como sempre acontece com o Android, traz de carona uma nova versão do sistema, funcionando como uma espécie de modelo de referência para a plataforma.

O Nexus 5 já era conhecido de todos. Ele vazou inteiro, das especificações ao visual. O aparelho é tudo o que se esperava, uma peça de hardware aparentemente sensacional. Combinado com o Android 4.4 KitKat, acho que é bem seguro dizer, mesmo sem ter tido a chance de colocar as mãos em um ainda, que o Nexus 5 se posiciona como o melhor Android à venda, brigando fácil com iPhone 5s pelo posto de melhor smartphone da atualidade.

A essa altura você já deve ter lido e visto muita coisa sobre Nexus 5 e Android 4.4 KitKat, então vamos embarcar naquela viagem já tradicional pelas entrelinhas e detalhes mais sutis.

Nexus 5

O novo Nexus 5.
Foto: Google/Reprodução.

Mas antes, aquele passeio habitual pelas especificações do aparelho que, novamente, foi feito em parceria com a LG.

Por baixo da tela, aparece um Snapdragon 800, 2 GB de RAM, memória interna de 16 ou 32 GB (dobrando os valores oferecidos no Nexus 4), suporte a redes 4G LTE (inclusive as frequências brasileiras, na versão internacional), tela de 4,95 polegadas com resolução de 1920×1080 (resultando em uma densidade de 445 pixels por polegada) revestida com Gorilla Glass 3 e câmera traseira de 8 mega pixels com estabilização ótica de imagem. O acabamento mudou também: sai o vidro da parte de trás, entra o material do último Nexus 7, um tipo de plástico com textura suave. E desde já, ele está disponível nas cores branco e preto.

É uma senhora configuração, com o que há de mais moderno no mercado. Apesar do aumento da tela, fisicamente ele cresceu pouco: ficou 4 mm mais alto e 0,5 mm mais largo. A explicação é que a tela está mais “fina” graças à proporção 16:9 (contra a de 5:3, em decorrência dos botões virtuais fixos até o Android 4.3, vista no Nexus 4). Tela que, à parte as polegadas extras e resolução apurada, continua a mesma ótima do modelo anterior. Não sei ao certo tudo o que a LG quer dizer com True Full HD IPS Plus LCD, mas para mim essa combinação de letrinhas soa como “tela incrível”.

O mais impressionante é que o Nexus 5 ficou mais fino e mais leve que o Nexus 4. São 8,6 mm contra 9,1 mm de espessura, e 130 g contra 139 g de peso, respectivamente. E isso com um ligeiro incremento na bateria, que agora conta com 2300 mAh contra 2100 mAh da versão passada. Nessa brincadeira, o Google e a LG prometem mais tempo longe da tomada em stand by, porém menos falando ao telefone.

Outra coisa muito legal que aparece ali é a estabilização ótica de imagens, um mecanismo embutido na câmera que ajuda a dar firmeza na hora do disparo. Existem smartphones no mercado que contam com essa tecnologia, como os Lumias da Nokia com câmeras PureView e o One, da HTC, mas não é, ainda, uma característica padrão na indústria, o que torna surpreendente vê-la no Nexus 5. Embora a linha não seja exatamente sinônimo de baixo custo (mesmo com os preços irrisórios), ela não costuma lançar tendências. As vantagens são fotos melhores no escuro, menos incidência de imagens tremidas e HDR de verdade — que o Google chama de HDR+.

O Google não diz exatamente quais ou como são, mas entrega, nas novidades do Android 4.4 para desenvolvedores, a presença de novos sensores de baixo consumo energético para a coleta de movimentos — como aquele chip que integra o SoC customizado do Moto X e o chip M7, do iPhone 5s.

Duas novas APIs, TYPE_STEP_DETECTOR e TYPE_STEP_COUNTER, são capazes de identificar quando o usuário está andando, correndo ou subindo escadas, e guardar esses dados de maneira centralizada para distribui-los aos apps que os requisitarem. O Google diz estar trabalhando junto a fabricantes de chipsets para levar esses sensores a outros smartphones, o que significa que os atuais não devem se beneficiar da novidade.

Vem também do Moto X um Google Now mais presente. A ativação por voz está lá (“Ok Google”), mas não é persistente como no smartphone da Motorola. No Nexus 5, ela funciona com o aparelho desbloqueado. Outra opção é arrastar a tela inicial da esquerda para a direita. Vai funcionar também.

Além de incrementar o Google Now, o serviço passa a trabalhar com apps. São dez no lançamento, então quando você pesquisar por um restaurante, por exemplo, ele é capaz de trazer resultados do OpenTable. Com um clique, o usuário passa da busca do Google para o restaurante escolhido no app, onde pode fazer a reserva normalmente. A intenção é expandir essa integração para mais apps e, no futuro, fazer com que ela funcione mesmo com aqueles não instalados.

Nexus 5 na mão.
Foto: Ariel Zambelich/WIRED.

A cereja do pudim no Nexus 5 é o Android. Puro, sem modificações duvidosas, com o melhor que o Google oferece. Usar o sistema assim, como foi concebido, é uma experiência completamente diferente da de um Galaxy ou Optimus da vida. Bem melhor, se me permitem o comentário. O Moto X parece ser o primeiro aparelho fora da linha Nexus a levar essa abordagem ao grande público e, mais que isso, ele antecipou alguns recursos que só agora chegam ao Android limpo. Quais? Vejamos esses e mais algumas novidades, no momento, exclusivas do Nexus 5.

Alguns hands-on (todos muito elogiosos): Wired, Engadget, The Verge.

Android 4.4 KitKat: desempenho e design mais democráticos

Estátua do KitKat e outros doces/Androids antigos.
Foto: Google/Reprodução.

A natureza “aberta” do Android é uma coisa intrigante. Muitas fabricantes adotam o sistema, sambam em cima dele, entregam soluções pioradas aos consumidores que xingam a mãe do Andy Rubin mesmo sem saber quem é esse cidadão. A vida segue, o Android evolui, muitos aparelhos morrem sem ver atualizações e acabam manchando a reputação do sistema.

Assim, aos trancos e barrancos, a plataforma evolui a passos (bem) largos. A virada aconteceu com o Ice Cream Sandwich, ou Android 4.0, que trouxe com muito atraso uma linguagem visual consistente e diretrizes de design na forma do tema Holo. O Android ficava, enfim, bonito.

Com o Android 4.1, veio o Project Butter para suavizar animações e aumentar a sensação de velocidade do sistema. Transições ficaram mais bonitas e aquela sensação de “travado”, pelo menos em equipamentos high-end (e, arrisco dizer, com Android puro), se foi. No Android 4.4 KitKat, o processo se intensifica com foco nos low-end.

Project Svelte

Batizado de Project Svelte, a intenção desse esforço é melhorar o desempenho do Android em smartphones com 512 MB de RAM. Isso, para os padrões atuais, é bem pouco. Como fazer essa mágica? Otimizando o uso da memória, um dos componentes mais caros da construção de um aparelho.

O Google refez algumas partes primárias do sistema para que ele se torne mais amigo da memória. De todas as novidades, a maioria técnica e que me foge completamente, duas chamam a atenção por serem compreensíveis e, no papel pelo menos, certeiras:

  1. A nova API ActivityManager.isLowRamDevice() permite que desenvolvedores definam comportamentos distintos para o app de acordo com a quantidade de memória disponível. Com ela aplicada, um app será capaz de deixar de lado certos recursos em prol dos mais vitais, que aproveitarão toda a (escassa) memória disponível.
  2. Proteção do sistema de memória contra apps gulosos. Na descrição do Google: “Quando vários serviços abrirem ao mesmo tempo — como quando a conectividade de rede muda –, o Android agora abrirá os serviços de forma seriada, em pequenos grupos, para evitar a demanda por picos de memória”. É como se antes o Android tentasse engolir um pão inteiro e, agora, ele cortasse esse pão em fatias e comesse uma de cada vez.

Tais mudanças devem impactar até mesmo dispositivos de ponta e, para dar o exemplo, todos os apps do Google (que não são poucos) foram atualizados para refletirem essas mudanças.

Sempre me fascina como alguns softwares são tão eficientes a ponto de rodarem bem em máquinas que, hoje, se arrastam por meramente existir. O IrfanView, do Windows, é talvez o melhor exemplo que eu conheço. Nos smartphones, o Moto X é outro bom caso de otimização, no caso do Android — mesmo com um SoC do ano passado e dual core, ele se sai bem contra modelos com especificações mais parrudas. Deve ser um desafio otimizar um sistema que será usado em centenas de dispositivos e servirá de base para milhões de aplicações, mas sempre dá para fazer.

O Google justifica esse esforço, em seu blog oficial, na busca pelo próximo bilhão de usuários de smartphones. É fácil encontrar smartphones que sofrem para rodar o Android em países subdesenvolvidos, e é nesses que o foco do Project Svelte está ajustado. Em vez de vir com o datado Gingerbread (2.3) ou um Jelly Bean (4.1-4.3) se arrastando, a promessa é de que o KitKat será a melhor opção mesmo para dispositivos básicos. É uma abordagem diferente da da Nokia, que aposta em uma linha básica e totalmente diferente das suas mid-range e high-end na busca pelo próximo bilhão.

Interface adaptável: os apps e o conteúdo brilham

Nexus 5 e Nexus 7, lado a lado.
Foto: Google/Reprodução.

O azul característico do tema Holo praticamente some no Android 4.4 KitKat. Diversos elementos dessa cor existentes até o Jelly Bean ficaram brancos e/ou agora usam variações de sombra para indicarem quaisquer coisas. A tela de bloqueio agora exibe álbuns de música em tela cheia quando algum player está em execução e, logo de cara, informa ao usuário que ele está diante de um sistema um bocado mais elegante.

Nos apps, agora cabe ao desenvolvedor/designer decidir o tom predominante nos pontos de interação da aplicação — ícones, caixas de seleção, barras de rolagem etc. Imagine, por exemplo, as seleções e toques no WhatsApp e no Hangouts ficando verdes; no Google Keep, amarelas; mais ou menos isso.

O Android respira melhor na versão 4.4. Expandindo a barra de navegação do Moto X, na nova versão do sistema ela e a de status, onde aparecem ícones de notificação e o relógio, são translúcidas. Gradientes sutis garantem a legibilidade e a interface parece mais leve com essa mudança.

Visual refinado no Android 4.4.
Fotos: Google/Reprodução.

O problema dos botões da barra de navegação persistentes em apps que rodam em tela cheia foi resolvido. De duas formas, na realidade: uma em que um toque revela as barras, e outra, destinada a jogos, apps de leitura e outros que exigem toques constantes na tela, que é ativada ao deslizar o dedo a partir de uma borda da tela. O modo tela cheia imersiva resolve o problema crônico dos toques acidentais nos botões de navegação virtuais durante sessões de jogos e fazem com que apps em tela cheia não tenham que dividir a atenção do usuário com elementos da interface.

Android 4.4 lida melhor com apps em tela cheia.
Foto: Google/Reprodução.

Para fechar esse pacote de agrado ao que o usuário vê, um novo framework de transições promete animações ainda mais suaves e variadas, sem afetar o desempenho dos apps.

Outras novidades do Android 4.4

A lista de adições e mudanças no Android 4.4 é longa. Daria facilmente para chamá-lo 5.0 pela extensão dela. Abaixo, algumas outras interessantes:

  • Framework de impressão — para impressoras Wi-Fi e compatíveis com serviços como Google Cloud Print e HP ePrint.
  • Framework de acesso a serviços de armazenamento, o que deve facilitar o uso de serviços concorrentes do Google Drive, como Box.net e Dropbox, de forma padronizada em apps. O QuickOffice, do Google, será um dos primeiros a dar suporte a esse novo recurso.
  • Suporte a gravação de vídeos da tela. Os vídeos são salvos no formato MP4 e devem ser um adianto para quem precisa preparar aulas, fazer walkthroughs e outras atividades que dependam de gravar o que aparece na tela do smartphone ou tablet.
  • Discador inteligente que tenta identificar números comerciais quando o usuário disca para algum e vice-versa — buscar números de estabelecimentos a partir do discador, sem entrar diretamente no Google Maps.
  • O WebView do Android agora é baseado no Chromium. Traduzindo: páginas web emolduradas em um app antes usavam o motor do antigo navegador padrão do Android, baseado no WebKit, para serem renderizadas. Agora, quando um app abrir uma página web dentro de si, ele usará o mesmo motor do Chrome. Mais velocidade e compatibilidade com padrões web modernos.
  • O Hangouts virou o local padrão para mensagems SMS e MMS — aquele antigo, dedicado, já era. Recentemente o Google anunciou uma atualização que trouxe suporte a GIFs animados e compartilhamento de geolocalização ao app de bate-papo. Mais coisas devem estar a caminho.
  • Emojis, aqueles emoticons tunados, embutido no teclado virtual do Google.
  • Certificação Miracast possível — o Nexus 5 é o primeiro a ter a honraria.
  • Suporte nativo a dispositivos infravermelho, como controles remotos.
  • Close caption (legendas) nativas no sistema.
  • Melhorias no tratamento fino de áudio, novos recursos para NFC e Bluetooth e outras várias coisas.

Tem muita novidade que é restrita a desenvolvedores ou nichos bem específicos. Para saber de todas elas, é preciso saber inglês e consultar estes links: apresentação do Android 4.4 KitKattodos novos recursos, novidades em design e novas APIs (nível 19).

Datas e preços — e Brasil

O Nexus 5 é o primeiro aparelho a ter o Android 4.4 KitKat e já está à venda (esgotado, para ser exato) nos EUA, Canadá, Reino Unido, Austrália, França, Alemanha, Espanha, Itália, Japão e Coreia do Sul (em breve, na Índia também). O preço, se levarmos em conta a memória interna, não subiu em relação ao Nexus 4: US$ 349 pelo modelo de 16 GB e US$ 399 pelo de 32 GB. Valores absurdamente baratos, já que são para aparelhos sem contrato e desbloqueados — nos mesmos termos, por exemplo, um iPhone 5s sai por US$ 650 e um Galaxy S 4, US$ 579 (todos valores nos EUA). Ele já foi homologado no Brasil e, esperamos, dessa vez não deve demorar muito a chegar.

O Google prometeu atualizar todos os seus tablets (os dois Nexus 7 e o Nexus 10) e o Nexus 4. O Galaxy Nexus ficou de fora, provavelmente pelo seu SoC antigo. As variantes Google Play Edition do Galaxy S 4 e do HTC One também serão agraciadas com a atualização. A Motorola se comprometeu a atualizar a linha Droid, nos EUA, e aqui no Brasil, os modelos D1 e D3 — promessa antiga, da época do lançamento.

Agora é esperar pelo KitKat e pelo Nexus 5 nacional, duas atualizações aparentemente tímidas, mas mantêm o Android e seu modelo de referência atualizados e na briga pelo posto de melhor solução móvel do mercado.

Project Ara e Phonebloks: o futuro dos smartphones é modular?

O gadget que mais se vende e mais se usa, hoje, é o smartphone. Ele está quase sempre por perto, é rápido e fácil de manusear e nos últimos anos tomou para si o papel de protagonista da tecnologia de consumo. Redes sociais e apps em geral usa o smartphone como palco e nós, consumidores, o abraçamos sem muita cerimônia.

A evolução do smartphone é notável. Processadores ficam mais rápidos, telas ganham maior resolução, os aparelhos afinam e emagrecem a cada geração. O único contra, aparentemente, é ter que trocar de aparelho vez ou outra. Pela dinâmica do mercado de telefonia móvel norte-americano, em média a cada dois anos; idealmente para as fabricantes, todo ano ou até antes.

Como combater esse ritmo assustador de atualização que alguns acusam de obsolescência programada, outros de obsolescência percebida, e que muitos são incapazes de ou não querer seguir? Ainda é difícil responder a essa pergunta, e talvez seja o caso de investir no barateamento dos aparelhos para viabilizar essa passada frenética — se não pode com eles, junte-se a eles. Mas os smartphones modulares querem ser, pelo menos, uma alternativa.

Phonebloks, Project Ara e Modu

Project Ara: smartphone modular.
Foto: Motorola Mobility/Reprodução.

A Motorola Mobility, desde 2011 uma empresa Google, revelou o Project Ara, iniciativa que visa possibilitar a existência de smartphones modulares, ou seja, que usam blocos, ou módulos, para ditar suas especificações. Assim, um smartphone do tipo poderia ter o processador atualizado substituindo um bloco, ou ganhar um teclado com a inclusão de um desses, ou ainda ter sua autonomia estendida com um módulo de bateria mais robusto. É como se fosse um Lego de smartphones. As possibilidades são, nas palavras da Motorola, infinitas.

No anúncio feito no blog institucional da empresa, a ideia é melhor explicada por Paul Eremenko:

“O Project Ara está desenvolvendo uma plataforma de hardware gratuita e aberta para criar smartphones altamente modulares. Queremos fazer para o hardware o que a plataforma Android fez para o software: criar um ecossistema vibrante para desenvolvedores terceiros, diminuir as barreiras para aderir, aumentar o ritmo da inovação e diminuir substancialmente os prazos de desenvolvimento.

Nosso objetivo é estabelecer uma relação mais aberta, expressiva e contemplativa entre usuários, desenvolvedores e seus celulares. Dar a você o poder de decidir o que seu smartphone faz, o visual que ele tem, onde e do que ele foi feito, quanto custa e o tempo que você o manterá.”

Para tanto, a Motorola se aproximou de Dave Hakkens, idealizador do projeto Phonebloks. Apresentado recentemente, ele parte da mesma premissa: um smartphone composto por blocos que se encaixam e podem ser trocados/atualizados.

O Phonebloks chamou muito a atenção quando apareceu, mesmo sendo apenas uma ideia. Hakkens pede, no site da iniciativa, que os interessados assinem uma espécie de projeto de crowdfunding que, em vez de dinheiro, espalha a palavra. Conseguiu até o momento quase um milhão de interessados, atenção da mídia e, o mais importante, da Motorola — desde o início a ideia era fazer barulho para conseguir se aproximar de alguma fabricante grande.

Essa opção pode ter mais significado do que parece. Sendo uma empresa Google, testar maluquices, de email com 1 GB de espaço quando o concorrente mais generoso oferecia apenas 25 MB, a projetos megalomaníacos como carros autônomos, Internet em balões e balsas misteriosas que surgem no meio de um rio, é uma prática da casa. Experimentar possibilidades, especialmente as menos plausíveis, é algo que demanda dinheiro, coisa que o Google tem de sobra. Mesmo que a ideia de smartphones modulares não cole… por que não?

Há outra peça nesse quebra-cabeça que vale mencionar. Em 2007 a Modu, uma empresa israelense, já comercializada celulares modulares em seu país. Inundada em dívidas, ela fechou as portas em 2011 e nessa o Google arrematou o portfólio de patentes por US$ 4,9 milhões. No post da Motorola, Eremenko diz que o a empresa vinha trabalhando com essa ideia há mais de um ano antes de torná-la pública. Tudo acaba convergindo para o Project Ara.

Qual a viabilidade do Project Ara?

O Modu provou, lá atrás, que celulares modulares são possíveis. Era outro contexto, uma era pré-histórica à dos smartphones modernos. Hoje, isso funcionaria?

Quando o Phonebloks foi anunciado, a empolgação com a ideia dividiu espaço com o ceticismo. Não é difícil, mesmo para leigos, enxergar as dificuldades de uma empreitada do gênero. Smartphones são peças minúsculas, com uma engenharia de alto nível e baixo índice de reparabilidade. Modular esse cenário é um desafio e tanto.

John Brownlee desconstruiu as promessas do Phoneblok ponto a ponto, inclusive a de um futuro mais verde para os smartphones. No Reddit, uma legião de interessados também escrutinou a iniciativa. Há desafios de várias ordens, alguns envolvendo a compreensão e a colaboração de muita gente (empresas) com objetivos diversos. O Google, por mais poderoso que seja, conseguiria materializar uma meta tão ambiciosa dozinho? Não sei, embora seja exatamente o que eles estejam fazendo com o Glass. No caso do Project Ara, a situação é mais delicada porque a ideia é que fabricantes terceiros ofereçam módulos especializados. Como convencê-los a fazer isso?

Este é o possível visual dos smartphones do Project Ara.
Foto: Motorola Mobility/Reprodução.

Calma que a coisa complica. O (teoricamente) maior problema de smartphones modulares é que eles nadam na direção contrária à da evolução desse tipo de aparelho. Ao longo dos últimos anos os smartphones encolheram, ficaram mais finos, mais leves, com projetos de engenharia bem particulares e mais difíceis de serem reparados. Não é apenas para trocarmos de aparelho todo ano que essas medidas foram adotadas pela indústria, mas também para viabilizar smartphones fantásticos que pesem menos de 130 g e tenham a espessura de um lápis. Tudo está intimamente ligado e cada espaço dentro da carcaça é bem pensado e usado da melhor forma possível. Um dos preços pagos por um eventual smartphone modular seria abrir mão desses avanços, pelo menos inicialmente.

E tem outro fator: o desperdício. O Phoneblok usa a bandeira verde, do e-waste, ou lixo eletrônico, a seu favor. Mas imagine o tanto de módulos que serão descartados caso essa ideia pegue? Seja pela mera atualização, seja por módulos falhos que acabem descartados, o volume de lixo derivado dos módulos não dá sinais, pensando de uma forma lógica, de que esse problema será amenizado. E esse tira-e-põe constante não deve ser positivo do ponto de vista da durabilidade — quanto mais partes móveis, mais suscetível um gadget é a quebras.

Brownlee, da matéria da Fast.Co citada acima, condensa seu pessimismo acerca do Phoneblok em um parágrafo:

“De maneira simples, os Phonebloks são o oposto do que aparentam ser. Os Phonebloks fazem um apelo ao nosso amor por organização e simplicidade, mas na verdade são notoriamente mais complexos. Os Phonebloks nos dizem que smartphones podem custar menos, mas fazem cada componente dentro deles custar mais. Os Phonebloks dizem que podemos atualizar nossos smartphones sem desperdícios, mas fazem ser significativamente mais provável ter que jogar nossos smartphones fora porque eles quebraram. E assim por diante.”

Um monte de módulos para montar seu próprio smartphone!
Imagem: Phonebloks/Reprodução.

Não vou cravar aqui que o Project Ara ficará só na teoria. Pode ser que, mesmo contra todas as adversidades, e essas não são poucas, o projeto dê certo, ora. Mas uma mudança tão profunda demandaria mexer em bastante coisa já estabelecida nesse segmento, de contratos com operadoras à forma com as fabricantes lucram com hardware. E em um momento em que software está virando brinde, diminuir as margens de lucro do hardware parece arriscado — mas um passo que o Google, que lucra tão e somente com serviços e publicidade, pode se dar ao luxo de dar.

Falar em software, aliás, traz à tona outro problema: otimização e compatibilidade. O Android é “aberto”, qualquer um pode usá-lo, mas cada smartphone exige modificações no sistema para que ele o execute bem. É por isso que quando uma nova versão do Android sai, não dá para pegá-la e instalar imediatamente em qualquer smartphone. A fabricante (ou hobbistas) precisa adaptar o sistema para cada modelo específico. Imagine um que possa ter infinitas configurações. Quem dará suporte a essa multiplicidade de cenários?

Há espaço, ainda que pequeno

Mulher segurando smartphone Project Ara.
Foto: Motorola Mobility/Reprodução.

Mesmo que esses entraves permaneçam quando (e se) o Project Ara se materializar, ainda há espaço para um smartphone modular. Não o imagino nos bolsos de muita gente, muito menos vendendo o que um Galaxy S ou iPhone vendem hoje, mas para públicos bem específicos algo assim seria bem interessante.

Entusiastas que querem ter o SoC mais rápido, a melhor câmera e a bateria mais duradoura, por exemplo. Desenvolvedores que poderiam usar a modularidade para testarem seus apps em uma gama de configurações mais ampla a um custo menor. Nada capaz de estancar a sangria de dinheiro da Motorola, mas áreas válidas.

A Motorola promete um kit de desenvolvimento modular (MDK) para o fim do ano e garantiu descontos e smartphones modulares gratuitos para os colaboradores mais ativos do projeto — se você se interessou, pode fazer um pré-cadastro aqui. Os primeiros modelos, em alpha, são esperados para daqui a alguns meses. Meta ambiciosa, prazo ainda mais.

Nos EUA, o Moto X pode ser personalizado durante a compra. Antes de ser anunciado, muita gente sonhava com um sistema de configuração pleno, que permitisse escolher SoC, memória, câmera, características internas e vitais de um smartphone. Não foi o caso. O Moto Maker, sistema que permite a personalização do Moto X, fica restrito ao visual do aparelho, com várias cores e mimos que podem ser escolhidos; suas especificações técnicas são inalteráveis. O Project Ara parece o passo adiante, o que aquele pessoal mais progressista esperava já estar disponível com o Moto X.

Um smartphone modular seria uma ruptura com o padrão atual da indústria. Os smartphones tradicionais estão cada vez mais fechados; se antes dava para trocar a bateria e inserir um cartão SD para ter mais espaço, hoje esses itens são exceção no segmento high-end. Até mesmo outras categorias de gadgets tradicionalmente reparáveis, como notebooks, estão se fechando. Um Ultrabook que se preze tem a carcaça selada, impedindo a troca da bateria, do disco de armazenamento e da RAM.

O Project Ara foi anunciado nessa semana, ainda é cedo para dizer se estamos vendo o nascer do futuro ou apenas um devaneio do Google. No que você aposta?

Recomendações compartilhadas do Google: o que são e como desativá-las

A partir de 11 de novembro o Google passará a usar avaliações/notas, fotos e nomes de usuários do Google+ para endossar anúncios em várias das suas propriedades. São as recomendações compartilhadas. O recurso lembra as “Histórias patrocinadas” do Facebook e, tal qual na rede social de Zuckerberg, nos domínios de Page e Brin essa novidade também levanta algumas sobrancelhas.

Que pese em favor do Google, o processo de conversão de +1 e avaliações de produtos/estabelecimentos está sendo mais transparente. Aqui, uma notificação do Google+ avisando da iminente mudança e uma barra no topo do Google.com surgiram para me alertar. Embora seja do interesse do Google manter o maior número de pessoas com essa opção ativada (é assim por padrão), dar publicidade a ela é um preço, pago adiantado, para evitar uma enorme dor de cabeça no futuro.

Google alerta sobre alterações em seus termos de serviço.

O precedente do Facebook

Quando passou a usar as atividades dos usuários para endossar anúncios, o Facebook não deu todos esses avisos. O site “virou a chave” na surdina, pegou muitos usuários de surpresa, gerou situações inusitadas, algumas até sérias e, como resultado, foi processado nos EUA. Perdeu, teve que pagar US$ 20 milhões em indenizações e rever todo o sistema para deixá-lo mais transparente.

O histórico do Google em grandes mudanças envolvendo privacidade não é dos melhores, também. Na época do Google Buzz, as preferências padrões de compartilhamento eram desastrosas e gerou problemas graves.

Com o Google+ temos visto muita atenção à privacidade, do esquema de círculos para controlar quem vê o quê até a visibilidade das recomendações via +1. No caso das recomendações compartilhadas, se você não quiser que sua foto, nome e avaliações sejam usados ao lado de anúncios, poderá sinalizar isso explicitamente ao Google.

Recomendações compartilhadas: em anúncios, mas não só

As recomendações compartilhadas, na prática, serão assim:

Como ficarão as recomendações compartilhadas do Google em anúncios.

Como bem lembrou Danny Sullivan, tudo isso é na realidade uma expansão do uso de conteúdo gerado no Google+ para endossar produtos, estabelecimentos e anúncios. Desde 2011 o Google usa dados do botão +1 (o equivalente ao “curtir” do Facebook) para reforçar a relevância de peças publicitárias. O que muda, então? Sullivan resume:

“(…) A empresa [Google] explicou que os termos serão alterados para permitir que mais coisas além dos +1 sejam mostradas nos anúncios.

Agora, se você avaliar alguma coisa, ou deixar um comentário, ou seguir [circular] uma marca em especial (em vez de apenas ‘curtir’ ela com um +1), essas e outras atividades sociais poderão aparecer em anúncios no Google ou através da sua rede de exibição, junto com a sua imagem.”

As imagens acima vieram da página de configuração das recomendações compartilhadas. Ela explica, com exemplos, como elas funcionarão na prática, e somada à que avisa os usuários das mudanças nos termos de uso, traz alguns detalhes importantes.

A utilização desse conteúdo pelo Google segue a privacidade definida para os +1 e avaliações originais. Isso significa que se você deu um +1, mandou um comentário ou avaliou alguma coisa de forma restrita, apenas a alguns contatos ou círculos no Google+, esse conteúdo só será eventualmente apresentado em um anúncio ou outra peça a quem já podia vê-lo de forma orgânica. Conteúdo público? Fica ao alcance de todo mundo, mas por motivos óbvios só deve ser usado para quem tem você circulado (não faz sentido algum mostrar endossos de gente totalmente desconhecida) ou contabilizar números globais (“3583 pessoas deram +1” tem um efeito psicológico positivo em nós).

Outro ponto interessante é que publicidade é uma das áreas afetadas, mas não a única. No anúncio, o Google explica:

“Com o feedback de pessoas que o usuário conhece, ele pode economizar tempo e melhorar os resultados para si e para seus amigos em todos os serviços da Google, incluindo Pesquisa do Google, Google Maps, Google Play e publicidade.”

No Google Play e na pesquisa isso fica bem claro. Pesquisando um app ou página, respectivamente, as “curtidas”/+1 de seus contatos já aparecem. Agora, comentários e avaliações poderão ser destacados também.

Os +1 já são usados na Play Store e em pesquisas.

Menores de idade são exceção e, embora expostos às recomendações compartilhadas, quem tiver menos de 18 anos não terá suas atividades usadas para fins comerciais.

Como impedir o Google de me usar em anúncios?

Embora o problema seja complexo, a solução é simples. Acesse esta página e, se estiver marcada, desmarque a opção “Com base em minhas atividades, o Google poderá exibir meu nome e minha foto de perfil em recomendações compartilhadas em anúncios.” e clique no botão Salvar.

O texto é bem explícito, a opção só restringe a exibição desse conteúdo em anúncios. No Google Play, Maps, pesquisa e outros locais cabíveis, suas notas e +1 continuarão aparecendo. Não existe, em lugar algum, uma opção que desabilite de forma universal as recomendações compartilhadas.

O dilema de sermos o produto

Quando uma polêmica junta conteúdo gerado por usuários e publicidade, é inevitável lembrarmos de velhas histórias do tipo “não existe almoço grátis”, ou “se você não paga, você é o produto”. O Google, assim como o Facebook, oferece seus serviços de graça e lucra (bastante!) com publicidade. Tornar anúncios mais atraentes é um passo vital para a empresa e associar pessoas, carinhas conhecidas a essas peças publicitárias, é um mecanismo psicológico muito forte para aumentar a empatia delas e, consequentemente, a taxa de cliques.

No TechCrunch, Josh Constantine, com um ar meio derrotista, diz que é assim que a roda gira, que o melhor mesmo é se render ao sistema e que, nessa, é até legal encontrar anúncios endossados por gente conhecida. É um comentário válido, mas em um contexto mais limitado. O endosso em recomendações de locais no Google Maps, ou as avaliações de apps no Google Play, são uma mão na roda, um equivalente moderno, ainda que mais raso, do bom e velho boca a boca. Gostamos tanto encontrar boas dicas de quem confiamos no Foursquare, por que no Google seria diferente?

Mas quando estamos falando de publicidade, e Constantine parece fechar seu comentário nisso, a questão é mais delicada. Você, pessoa física, não saberá de antemão o contexto em que seu comentário/curtida/avaliação será inserido, nem ganhará um centavo sequer por incentivar uma venda ou assinatura que fará a empresa que anuncia lucrar. O poder concedido ao Google é muito abrangente, e isso é motivo para preocupação.

Ninguém sabe ainda como as recomendações compartilhadas funcionarão no lado dos anunciantes — o Google não revelou, deve estar guardando o ouro para depois de 11 de novembro. A aplicação é um ponto importante, bem como saber a maneira com que tudo isso funcionará. Na dúvida, pelo menos dá para desabilitar facilmente o uso dos seus comentários e curtidas em anúncios.


Links úteis:


Aproveitando, para limitar o uso das suas curtidas em anúncios no Facebook, entre nesta página, selecione a opção “Ninguém” na parte Anúncios & Amigos, e salve a alteração.