Project Ara e Phonebloks: o futuro dos smartphones é modular?

O gadget que mais se vende e mais se usa, hoje, é o smartphone. Ele está quase sempre por perto, é rápido e fácil de manusear e nos últimos anos tomou para si o papel de protagonista da tecnologia de consumo. Redes sociais e apps em geral usa o smartphone como palco e nós, consumidores, o abraçamos sem muita cerimônia.

A evolução do smartphone é notável. Processadores ficam mais rápidos, telas ganham maior resolução, os aparelhos afinam e emagrecem a cada geração. O único contra, aparentemente, é ter que trocar de aparelho vez ou outra. Pela dinâmica do mercado de telefonia móvel norte-americano, em média a cada dois anos; idealmente para as fabricantes, todo ano ou até antes.

Como combater esse ritmo assustador de atualização que alguns acusam de obsolescência programada, outros de obsolescência percebida, e que muitos são incapazes de ou não querer seguir? Ainda é difícil responder a essa pergunta, e talvez seja o caso de investir no barateamento dos aparelhos para viabilizar essa passada frenética — se não pode com eles, junte-se a eles. Mas os smartphones modulares querem ser, pelo menos, uma alternativa.

Phonebloks, Project Ara e Modu

Project Ara: smartphone modular.
Foto: Motorola Mobility/Reprodução.

A Motorola Mobility, desde 2011 uma empresa Google, revelou o Project Ara, iniciativa que visa possibilitar a existência de smartphones modulares, ou seja, que usam blocos, ou módulos, para ditar suas especificações. Assim, um smartphone do tipo poderia ter o processador atualizado substituindo um bloco, ou ganhar um teclado com a inclusão de um desses, ou ainda ter sua autonomia estendida com um módulo de bateria mais robusto. É como se fosse um Lego de smartphones. As possibilidades são, nas palavras da Motorola, infinitas.

No anúncio feito no blog institucional da empresa, a ideia é melhor explicada por Paul Eremenko:

“O Project Ara está desenvolvendo uma plataforma de hardware gratuita e aberta para criar smartphones altamente modulares. Queremos fazer para o hardware o que a plataforma Android fez para o software: criar um ecossistema vibrante para desenvolvedores terceiros, diminuir as barreiras para aderir, aumentar o ritmo da inovação e diminuir substancialmente os prazos de desenvolvimento.

Nosso objetivo é estabelecer uma relação mais aberta, expressiva e contemplativa entre usuários, desenvolvedores e seus celulares. Dar a você o poder de decidir o que seu smartphone faz, o visual que ele tem, onde e do que ele foi feito, quanto custa e o tempo que você o manterá.”

Para tanto, a Motorola se aproximou de Dave Hakkens, idealizador do projeto Phonebloks. Apresentado recentemente, ele parte da mesma premissa: um smartphone composto por blocos que se encaixam e podem ser trocados/atualizados.

O Phonebloks chamou muito a atenção quando apareceu, mesmo sendo apenas uma ideia. Hakkens pede, no site da iniciativa, que os interessados assinem uma espécie de projeto de crowdfunding que, em vez de dinheiro, espalha a palavra. Conseguiu até o momento quase um milhão de interessados, atenção da mídia e, o mais importante, da Motorola — desde o início a ideia era fazer barulho para conseguir se aproximar de alguma fabricante grande.

Essa opção pode ter mais significado do que parece. Sendo uma empresa Google, testar maluquices, de email com 1 GB de espaço quando o concorrente mais generoso oferecia apenas 25 MB, a projetos megalomaníacos como carros autônomos, Internet em balões e balsas misteriosas que surgem no meio de um rio, é uma prática da casa. Experimentar possibilidades, especialmente as menos plausíveis, é algo que demanda dinheiro, coisa que o Google tem de sobra. Mesmo que a ideia de smartphones modulares não cole… por que não?

Há outra peça nesse quebra-cabeça que vale mencionar. Em 2007 a Modu, uma empresa israelense, já comercializada celulares modulares em seu país. Inundada em dívidas, ela fechou as portas em 2011 e nessa o Google arrematou o portfólio de patentes por US$ 4,9 milhões. No post da Motorola, Eremenko diz que o a empresa vinha trabalhando com essa ideia há mais de um ano antes de torná-la pública. Tudo acaba convergindo para o Project Ara.

Qual a viabilidade do Project Ara?

O Modu provou, lá atrás, que celulares modulares são possíveis. Era outro contexto, uma era pré-histórica à dos smartphones modernos. Hoje, isso funcionaria?

Quando o Phonebloks foi anunciado, a empolgação com a ideia dividiu espaço com o ceticismo. Não é difícil, mesmo para leigos, enxergar as dificuldades de uma empreitada do gênero. Smartphones são peças minúsculas, com uma engenharia de alto nível e baixo índice de reparabilidade. Modular esse cenário é um desafio e tanto.

John Brownlee desconstruiu as promessas do Phoneblok ponto a ponto, inclusive a de um futuro mais verde para os smartphones. No Reddit, uma legião de interessados também escrutinou a iniciativa. Há desafios de várias ordens, alguns envolvendo a compreensão e a colaboração de muita gente (empresas) com objetivos diversos. O Google, por mais poderoso que seja, conseguiria materializar uma meta tão ambiciosa dozinho? Não sei, embora seja exatamente o que eles estejam fazendo com o Glass. No caso do Project Ara, a situação é mais delicada porque a ideia é que fabricantes terceiros ofereçam módulos especializados. Como convencê-los a fazer isso?

Este é o possível visual dos smartphones do Project Ara.
Foto: Motorola Mobility/Reprodução.

Calma que a coisa complica. O (teoricamente) maior problema de smartphones modulares é que eles nadam na direção contrária à da evolução desse tipo de aparelho. Ao longo dos últimos anos os smartphones encolheram, ficaram mais finos, mais leves, com projetos de engenharia bem particulares e mais difíceis de serem reparados. Não é apenas para trocarmos de aparelho todo ano que essas medidas foram adotadas pela indústria, mas também para viabilizar smartphones fantásticos que pesem menos de 130 g e tenham a espessura de um lápis. Tudo está intimamente ligado e cada espaço dentro da carcaça é bem pensado e usado da melhor forma possível. Um dos preços pagos por um eventual smartphone modular seria abrir mão desses avanços, pelo menos inicialmente.

E tem outro fator: o desperdício. O Phoneblok usa a bandeira verde, do e-waste, ou lixo eletrônico, a seu favor. Mas imagine o tanto de módulos que serão descartados caso essa ideia pegue? Seja pela mera atualização, seja por módulos falhos que acabem descartados, o volume de lixo derivado dos módulos não dá sinais, pensando de uma forma lógica, de que esse problema será amenizado. E esse tira-e-põe constante não deve ser positivo do ponto de vista da durabilidade — quanto mais partes móveis, mais suscetível um gadget é a quebras.

Brownlee, da matéria da Fast.Co citada acima, condensa seu pessimismo acerca do Phoneblok em um parágrafo:

“De maneira simples, os Phonebloks são o oposto do que aparentam ser. Os Phonebloks fazem um apelo ao nosso amor por organização e simplicidade, mas na verdade são notoriamente mais complexos. Os Phonebloks nos dizem que smartphones podem custar menos, mas fazem cada componente dentro deles custar mais. Os Phonebloks dizem que podemos atualizar nossos smartphones sem desperdícios, mas fazem ser significativamente mais provável ter que jogar nossos smartphones fora porque eles quebraram. E assim por diante.”

Um monte de módulos para montar seu próprio smartphone!
Imagem: Phonebloks/Reprodução.

Não vou cravar aqui que o Project Ara ficará só na teoria. Pode ser que, mesmo contra todas as adversidades, e essas não são poucas, o projeto dê certo, ora. Mas uma mudança tão profunda demandaria mexer em bastante coisa já estabelecida nesse segmento, de contratos com operadoras à forma com as fabricantes lucram com hardware. E em um momento em que software está virando brinde, diminuir as margens de lucro do hardware parece arriscado — mas um passo que o Google, que lucra tão e somente com serviços e publicidade, pode se dar ao luxo de dar.

Falar em software, aliás, traz à tona outro problema: otimização e compatibilidade. O Android é “aberto”, qualquer um pode usá-lo, mas cada smartphone exige modificações no sistema para que ele o execute bem. É por isso que quando uma nova versão do Android sai, não dá para pegá-la e instalar imediatamente em qualquer smartphone. A fabricante (ou hobbistas) precisa adaptar o sistema para cada modelo específico. Imagine um que possa ter infinitas configurações. Quem dará suporte a essa multiplicidade de cenários?

Há espaço, ainda que pequeno

Mulher segurando smartphone Project Ara.
Foto: Motorola Mobility/Reprodução.

Mesmo que esses entraves permaneçam quando (e se) o Project Ara se materializar, ainda há espaço para um smartphone modular. Não o imagino nos bolsos de muita gente, muito menos vendendo o que um Galaxy S ou iPhone vendem hoje, mas para públicos bem específicos algo assim seria bem interessante.

Entusiastas que querem ter o SoC mais rápido, a melhor câmera e a bateria mais duradoura, por exemplo. Desenvolvedores que poderiam usar a modularidade para testarem seus apps em uma gama de configurações mais ampla a um custo menor. Nada capaz de estancar a sangria de dinheiro da Motorola, mas áreas válidas.

A Motorola promete um kit de desenvolvimento modular (MDK) para o fim do ano e garantiu descontos e smartphones modulares gratuitos para os colaboradores mais ativos do projeto — se você se interessou, pode fazer um pré-cadastro aqui. Os primeiros modelos, em alpha, são esperados para daqui a alguns meses. Meta ambiciosa, prazo ainda mais.

Nos EUA, o Moto X pode ser personalizado durante a compra. Antes de ser anunciado, muita gente sonhava com um sistema de configuração pleno, que permitisse escolher SoC, memória, câmera, características internas e vitais de um smartphone. Não foi o caso. O Moto Maker, sistema que permite a personalização do Moto X, fica restrito ao visual do aparelho, com várias cores e mimos que podem ser escolhidos; suas especificações técnicas são inalteráveis. O Project Ara parece o passo adiante, o que aquele pessoal mais progressista esperava já estar disponível com o Moto X.

Um smartphone modular seria uma ruptura com o padrão atual da indústria. Os smartphones tradicionais estão cada vez mais fechados; se antes dava para trocar a bateria e inserir um cartão SD para ter mais espaço, hoje esses itens são exceção no segmento high-end. Até mesmo outras categorias de gadgets tradicionalmente reparáveis, como notebooks, estão se fechando. Um Ultrabook que se preze tem a carcaça selada, impedindo a troca da bateria, do disco de armazenamento e da RAM.

O Project Ara foi anunciado nessa semana, ainda é cedo para dizer se estamos vendo o nascer do futuro ou apenas um devaneio do Google. No que você aposta?

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14 comentários

    1. Conhecia a regra, não sabia o nome.

      Para mim, escrever títulos é quase mais complicado do que o texto do post… Nesse pensei muito e acabei violando a lei de manchetes de Betteridge conscientemente; o assunto não tem muita informação concreta (a Motorola não divulgou), mas acho importante pensando lá na frente e com argumentos suficientes para suscitar a discussão. No momento a pergunta do título se encerra em um “não” mesmo, mas há espaço para discutir, não? :-)

  1. A ideia de poder trocar a câmera daquele smartphone que você gosta muito mas não tira fotos muito boas ou trocar o processador sempre que você ver que o aparelho novo do amigo está mais rápido que o seu é tentadora. Difícil não se entusiasmar quando uma grande fabricante como a Motorola faz um projeto que segue na contramão da indústria a favor do consumidor. Quando eu vi pela primeira vez o vídeo do Phonebloks achei o projeto fantasioso demais, apesar de ter adorado o conceito. Mas se a Motorola está investindo nisso e mostrando publicamente seus esforços creio que é porque eles já devam ter uma boa ideia de como fazer, ainda mais prometendo um kit pra desenvolvedores pro final do ano.

    1. Não sei se o fato de a Motorola tornar esses esforços públicos é uma garantia de que ela saiba o que está fazendo. É um sinal de interesse, mas entre isso a um produto funcional, do jeito que se imagina, há um longo caminho…

  2. Eu adoro a ideia mas realmente não parece plausível. Quebrar em módulos o que hoje se concentra em um espaço mínimo num chip único, aumenta o tamanho (peso/espessura), aumenta consumo de energia e para as comunicações entre módulos mais distantes, ao invés de ligados diretamente, pode-se esperar perda de desempenho =/

    1. Sim. Além de difícil de conceber, há várias implicações técnicas negativas nesse sistema baseado em módulos. Mas… a Motorola parece comprometida, né? Vejamos o que ela consegue fazer.

  3. O conceito do vídeo parece muito utópico, nem os PCs são flexíveis dessa forma. Entretanto, acho que é possível criar produtos com alguns padrões sim, mas como você mesmo apontou, não sei o interesse dos consumidores e dos fabricantes nessa empreitada.

    Além dessas questões, acho que a necessidade de trocar os produtos se reduzirá com o tempo também. Acredito que muitos de nós trocamos menos de computador atualmente, afinal para o uso do dia-a-dia um computador mediano atende faz tempo. Para ajudar, os sistemas operacionais já estão sendo otimizados, vide o lançamento do Windows 8 e OS X Mavericks que prometem reduzir o consumo de recursos. De alguma forma, meu computador melhorou com o tempo, antigamente novo SO significava upgrades e não sobrevida do seu dispositivo.

    Na minha opinião, os smartphones já estão durando mais, ou seja, o avanço de um ano para o outro já não anima como anos atrás e os sistemas operacionais devem seguir o caminho da otimização que é um ponto sempre em voga nos dispositivos móveis. Fora que excetuando os games, acredito que não haja muitas atividades que mais processamento sempre seja vantagem nos smartphones (para mim, por exemplo, sempre é bom ter mais processamento no computador para algumas atividades específicas…mas no smartphone não vejo muitas vantagens).

    1. Não arrisco dizer que chegamos ao ápice da evolução em smartphones. Mesmo em computadores comuns ainda há espaço para melhorias — baterias mais duradouras, sistemas mais eficientes, telas de alta definição… por aí vai. Talvez os ganhos entre atualizações anuais já não sejam tão notáveis como no passado, não sei. O que noto, porém, é que se antes Android só era viável em dispositivos high-end, hoje tem muito mid-range batendo um bolão e até alguns low-end passáveis. Isso sim é um sinal de progresso!

  4. Gostaria muito de ver esta idéia em prática, apesar que para dar certo é preciso quebrar paradigmas e rever algumas regras de mercado(fabricantes). Talvez um meio termo, onde seja possível adicionar apenas alguns componentes, sendo a memória o mais provável item de upgrade, vide o lumia 920 e 928, que talvez com um celular modular fosse possível realizar um upgrade sem ter que trocar de celular. Mas o ponto aqui é ser economicamente viável e neste ponto é improvável que um celular modular seja.

    1. A memória já é “modular” em alguns modelos, via cartão SD. Isso, mais bateria, é o máximo que se tem hoje, e se explica pela pouca interferência na integração que esses componentes podem ter — embora haja casos, e não são poucos, em que a bateria é selada exatamente para diminuir o tamanho físico do aparelho.

      1. Rodrigo,

        acabei me expressando de forma incompleta, na verdade quando me referi a Memória, estava me referindo a memóriaRam(Volátil).

        Abs e mais uma vez parabéns pela profundidades de seus artigos!

  5. Eu realmente esperava mais do MotoX, porém menos do que um Project Ara, fico com um meio termo :). Vindo de uma “Cia. Google” o lucro com hardware é praticamente descartado (aliás, nas “Leituras da Semana” acabei esbarrando no texto sobre o Less than free, muito bom), então até aí okay.

    Os últimos lançamentos da Apple e Samsung já são considerados apenas atualizações( creio que seja assim em toda a indústria). O Windows tem os mesmos requisitos a um bom tempo, acho que algo do tipo pode afetar a área de smartphones, a Apple lançou os Ipads com hw parecido, especulam sobre o lançamento de iphones com tamanhos diferentes ano que vem(como sempre) e comentam tanto do fim dos “smartphones-mini” pelo hw inferior, então proporcionar hw iguais para tamanhos diferentes, ou dar essa liberdade ao usuário é uma boa opção.

    Porém não imagino que seja de muito sucesso, notebooks não são altamente personalizáveis e uma minoria liga para isso(leigos ou não). Imaginei a lojinha da cidade vendendo um celular com o máximo de memória ram, só que com um processador ruim ou sem 3G/4G, para o usuário leigo esse projeto pode ser um horror.
    Então creio que tenha público, porém essa personalização seja fator de compra para uma minoria.

    P.S: Sobre os diferentes módulos: não seria possível algo parecido com drivers “plug and play”?

    1. Eis um ponto que eu deixei passar batido, mas que é importante mesmo, Adriano: o consumidor não liga muito para tudo isso. Quando alguém aparece com um Galaxy qualquer-coisa, um que não seja o Galaxy S, essa pessoa geralmente não sabe as especificações ou, salvo o tamanho da tela, o que diferencia o modelo do topo de linha da Samsung. E muitas estão felizes, plenamente satisfeitas com modelos mid-range, como Galaxy Win e Galaxy S III/4 Mini… Upgrade em hardware é coisa de micreiro/geek. Até notebooks, historicamente produtos reparáveis, estão passando por uma fase de se fecharem em configurações imutáveis (como cito no texto).

      Não sei mesmo se um esquema plug and play para smartphones funcionaria, mas suspeito que se hoje, com tudo integrado e inalterável, a otimização de software nos Androids já fica longe do ideal (o que explica Galaxy S 4 lento e travando), imagine com essa abordagem mais desleixada?

      1. É que penso em algo não tão aberto, assim como a certificação para usar a Google Play, ou onde já há essa troca: bateria, memória e câmera, essas três tem mais apelo também.

        Claro, seria estranho receber alguma atualização e ser apenas para um módulo e creio que uma base a cada 3~4 anos daria menos dor de cabeça a todos(devs, fabricantes e usuários), mas estou ansioso para ver até onde isso chegará.

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