O coronavírus tirou qualquer freio à invasão da tecnologia na sociedade

Mulher com máscara cirúrgica mexendo em um celular no escuro.

Quando conquistadores holandeses aportaram na Austrália para explorar uma região no oeste do país, a crença global era de que cisnes só eram encontrados em uma cor: branco. A certeza era tamanha que, na Inglaterra medieval, um dos ditados populares usava a expressão “cisne negro” para professar algo impossível. Acreditava-se na época que a probabilidade de ver uma ave negra era a mesma de ver um porco voando.

Foi por essa razão que a expedição liderada por Willem de Vlamingh ficou atônita quando viu, nadando no Swan River (Swan é cisne em inglês), um cisne negro. O bicho existia. Além de ter virado uma ave ornamental nos séculos seguintes e povoado todos os continentes depois que os holandeses levaram centenas de espécimes embora, o cisne negro virou também o mote de uma teoria econômica.

No livro A lógica do Cisne Negro: O impacto do altamente improvável, o ensaísta Nassim Nicholas Taleb usa a descoberta da ave para nomear fenômenos altamente improváveis que acontecem sem que a sociedade pudesse ter qualquer ideia anteriormente. Para ser um “cisne negro”, é preciso obedecer a três regras:

Primeiro, ele é um outlier, já que se situa fora do reino das expectativas regulares já que nada no passado pode convincentemente indicar sua possibilidade. Segundo, ele carrega um “impacto” extremo. Terceiro, mesmo sendo um evento outlier, a natureza humana nos faz pensar em explicações para sua ocorrência após o fato, tornando-o explicável e previsível.

Entre os exemplos de “cisnes negros” da sociedade, Taleb cita o Google, as gravatas (“há milhares de anos ninguém imaginaria que os humanos diminuiríam seu fluxo de sangue”), os Beatles, o Viagra, Harry Potter, o computador e os ataques de 11 de setembro. A teoria do Taleb, que trabalhou durante anos no mercado financeiro em Nova York fazendo modelagens preditivas para grandes bancos, é que alguns eventos de enorme impacto são impossíveis de prever porque as análises consideram majoritariamente o passado e não há nada no passado que justifique esperar por aquele “cisne negro”. Ainda assim, eles acontecem.

O Tecnocracia é um podcast que tem uma pauta. O que isso quer dizer: eu tenho um arquivo que abro algumas vezes por dia em que já organizei inúmeros episódios do futuro. Este é o episódio 30. Até o episódio 41, esses temas já estão definidos. Ou melhor: os temas estavam definidos. Ainda que eu me esforce para sair das notícias diárias, dar aqueles dois passos para trás para ter tempo de analisar friamente, não tem como não falar da crise do coronavírus. Ainda não passou tempo suficiente para entendermos exatamente o que está acontecendo. As notícias são novas a cada dia. Tem uma música linda da Dinah Washington que se aplica exatamente ao que estamos vivendo: “What a difference a day makes”, que diferença que um dia faz, ainda ela fizesse referência a um encontro amoroso com a pessoa amada, não sobre o ritmo de aceleração da curva de novos casos de uma pandemia global.

Falar de algo ainda em curso é sempre um perigo. Afinal, ele não está parado, definido. Algumas coisas do que podemos falar aqui com toda certeza morrerão idosas daqui a semanas. Ainda mais em um alvo que está se movendo em alta velocidade. Pare para pensar em como era sua vida há um mês, no começo de março. É tudo muito rápido. O tom deste episódio não é de respostas definitivas, mas de pensar em voz alta. Nesse turbilhão de informações, é bom de vez em quando parar para organizar.

Pela introdução, você pode esperar que eu argumente que o que estamos encarando no coronavírus é um “cisne negro”. Não, é o contrário. A crise do coronavírus não é cisne negro, está mais para uma pomba de rua, dessas que a gente vê no centro de toda cidade brasileira. Lembra dos três fatores essenciais? O SARS-CoV-2, nome oficial do vírus, não cumpre o primeiro, que determina um fenômeno fora da expectativa humana. Quem está falando isso não sou eu, mas o próprio Taleb:

Algumas pessoas alegam que a pandemia é um “cisne negro”, algo totalmente inesperado, o que significa que é desculpável não ter se preparado. Tivessem lido o livro, eles saberiam que tal evento global pandemônico é explicitamente apresentado como um cisne branco: algo que eventualmente aconteceria com grande certeza.

O Taleb não é epidemiologista. Como ele sabia? Qualquer um que estivesse prestando o mínimo de atenção na área saberia. Há anos, dezenas de epidemiologistas e até gente que não fez sua carreira na área estão avisando que existia uma grande chance da humanidade enfrentar uma pandemia global para a qual ninguém estava preparado. Se o mundo não dava bola para epidemiologistas, certamente deveria dar para um sujeito como Bill Gates. Em 2015, o cofundador da Microsoft deu uma palestra em um TED alertando que a humanidade não estava preparada para a próxima pandemia. Vista hoje, a palestra é assustadoramente profética. “Se alguma coisa vai matar mais de 10 milhões de pessoas na próxima década, será provavelmente um vírus altamente infeccioso, não uma guerra. Não mísseis, mas micróbios”.

Quem acompanha o filantropo Bill Gates já o ouviu falando sobre a importância das vacinas e do saneamento básico. No TED, Gates usa o exemplo do ebola para argumentar que não temos planos de contenção prontos ou profissionais suficientes em cada país para entender os efeitos regionais e indicar as soluções. Se um vírus com a mesma letalidade da Gripe Espanhola de 1918 (muito maior que a mortalidade do SARS-CoV-2) surgisse hoje, mataria mais de 33 milhões de pessoas em um ano. É assustador.

Cinco anos depois, a humanidade continua despreparada. Aliás, se você não sabe o que foi a Gripe Espanhola, o Malcolm Gladwell escreveu em 1997 um pequeno livro para a revista The New Yorker sobre aquela pandemia. Um trecho só: a Gripe Espanhola de 1918 “matou tanta gente tão rápido que algumas cidades foram forçadas a transformar seus bondes em carros funerários e outras cidades enterraram seus mortos em covas coletivas, já que não existiam caixões suficientes”. Aliás 2, nota mental: jamais duvidar do raciocínio do Bill Gates. Ele deu projeção a estudos da área. Em 2007, pesquisadores da Universidade de Hong Kong publicaram um artigo com o título “Coronavírus da Síndrome Respiratório Aguda Grave como um agente de infecção emergente e reemergente”. Há 13 anos, o artigo já pintava o cenário que estamos enfrentando hoje.

Determinada a cor do cisne, agora que a pandemia chegou a hora é não só de encarar as consequências, como também de entender que a COVID-19 não deve ser um fenômeno isolado. A primeira coisa a se entender é que a família coronavírus não é a única que a gente vai ter que encarar adiante. Segundo um estudo publicado pelo Fórum Econômico Mundial em maio de 2018, em apenas oito anos (entre 2011 e 2017), a humanidade enfrentou mais de mil eventos epidêmicos, inclusive 47 casos de peste (sim, a mesma peste negra da qual você lê nos livros de história). Quem chamou atenção foi o Silvio Meira.

O coronavírus que estamos enfrentando agora ainda é envolto mais em dúvidas do que em certezas, ainda que comecemos a ver algumas direções. A doença realmente pega os mais velhos e pessoas com condições que comprometem o sistema imunológico, como diabetes e problemas cardíacos, mas já foram registradas mortes de jovens, gente de até 21 anos, sem qualquer doença pré-existente. Uma droga usada originalmente para tratar malária e lúpus mostrou algum potencial em testes clínicos, mas carrega com si efeitos colaterais horrendos, como perda da visão e sobrecarga cardíaca1. Países que testaram mais tiveram melhores resultados na quarentena. Respiradores podem ser adaptados para funcionarem em vários pacientes simultaneamente. Talvez a principal delas seja a que a gente nunca deve voltar ao normal, sendo o “normal” aquela realidade em que uma pandemia global parecia restrita a obras de ficção ou à cabeça de bilionários paranóicos.

Gráfico mostrando os picos de distanciamento social para conter novos surtos de COVID-19.
Gráfico: Imperial College/Reprodução.

“Para parar o coronavírus, nós precisaremos mudar radicalmente quase tudo que fazemos: como trabalhamos, nos exercitamos, socializamos, compramos, gerenciamos nossa saúde, educamos nossas crianças, cuidados de membros da família. Todos queremos que as coisas voltem ao normal rapidamente. Mas o que a maioria de nós tem dificuldade em perceber — mas vamos rapidamente — é que as coisas não vão voltar ao normal após algumas semanas ou mesmo meses. Algumas coisas nunca voltarão”. Enquanto alguém no mundo tiver o vírus, breakouts podem e vão continuar acontecendo sem controles rígidos para contê-los, segue a Technology Review.

Uma das coisas que ainda não sabemos ao certo é se quem pegou a doença desenvolve imunidade. A teoria da “imunidade em massa” alardeada pelo Governo Federal ainda não pode ser confirmada. (Aliás, muito pouco do que sai do Governo Federal desde o ano passado é fundamentado em dados e pode ser confiado de olhos fechados, mas enfim.) Existe uma chance considerável de que, após essa primeira curva de crescimento de casos, existam outras curvas menores nos próximos anos, segundo um estudo divulgado por pesquisadores da Imperial College London. Se o estudo for comprovado, o distanciamento social e a quarentena na qual você está hoje, no fim de março de 2020, deverão se repetir em intervalos regulares até que uma vacina esteja disponível. O tempo necessário para desenvolvimento, testes, produção em larga escala e distribuição é, no melhor dos cenários, de 18 meses. Ou seja, está esperando sair da quarentena para nunca mais voltar? Lave as mãos e espere sentado — e isolado.

A economia

Pintado o cenário desse novo “normal”, há uma gangorra entre os que ganham e os que perdem. Vamos começar separando sociedade e economia. Ambas são interligadas, mas é bom analisá-las separadamente.

Primeiro, na sociedade, porque o resumo vai ser simples e As Meninas já cantavam isso há quase 20 anos. Quem não tem reservas para se proteger de momentos turbulentos precisa se sujeitar a ambientes e situações de perigo para encher a própria barriga. Por outro lado, quem tem grana vai perder um caminhão (os 500 investidores mais ricos perderam US$ 444 bilhões em uma semana), mas vão continuar com dinheiro suficiente para se isolar, comer bem e ter acesso aos melhores médicos e hospitais do mundo. Mais que isso, quando o mercado se estabilizar, CNPJs e CPFs ricos terão dinheiro para explorar a situação de fim de feira e comprar ativos por preços ridículos ou contratar pessoas desesperadas por salários baixos.

Você acha que a crise que tivemos após de 2014 foi ruim? A que vem agora, provavelmente, será pior. O que não significa que todos tenhamos que ignorar os direcionamentos de cientistas e países que já passaram por isso para retomar a vida, como sugere a besta que ocupa o Palácio do Planalto. Com mais gente na rua hoje, o efeito tende a ser pior a médio prazo, já que o número de doentes tende a crescer e, junto com ele, o impacto no SUS e o investimento necessário para conseguir evitar ou postergar um eventual colapso. O Brasil votou em Jair Bolsonaro com a esperança dele recuperar a economia depois da teimosia idiota de Dilma Rousseff, mas ele vai entregar quando sair um cenário ainda pior – e há uma movimentação cada vez maior para que esse caos não chegue a 2022. Ufa, o mundo está muito louco, mas há o mínimo de bom senso.

O papel do governo não é só salvar as empresas que vão afundar com a crise, mas também as pessoas incapazes de se protegerem dos impactos financeiros. O papel do governo é também coordenar os esforços do país para responder à crise, seja retirando impostos sobre a importação de produtos essenciais, como kits para testes, álcool etílico e gaze, ou envolvendo as empresas na fabricação de outros produtos essenciais, como respiradores. Na Segunda Guerra Mundial, as lideranças de Inglaterra e Estados Unidos transformaram o parque fabril de máquinas de lavar roupa para tanques, já que aquilo era o necessário em curtíssimo prazo e ninguém ia sair de casa para comprar uma lava-roupas. Agora, a situação é semelhante. O impacto da economia é financeiro, mas é também de expectativas. Com tempos difíceis adiante, é natural que qualquer pessoa segure seu próprio dinheiro, corte supérfluos e gaste só no essencial. Quem, em sã consciência, vai abrir um crediário para comprar um carro zero quilômetro nas próximas semanas? https://www.theguardian.com/commentisfree/2020/mar/25/there-is-no-trade-off-between-the-economy-and-health

Falamos da sociedade. Agora vamos falar de economia. Se a gente tiver que resumir, partamos da premissa de que todo mundo está no vinagre. Quase todas as empresas das grandes bolsas mundiais tomaram um tombo histórico.

Algumas caíram bem mais que outras. São empresas que atuam em áreas que exigem presença física. Por exemplo: as indústrias do turismo e do luxo. Algumas multinacionais de cruzeiros perderam mais de 80% do valor de mercado. Empresas aéreas, principalmente as estrangeiras que controlam o mercado global, ainda têm um agravante de terem investido muito dos incentivos dados pelos governos locais na recompra de ações, que a Luciana Gimenez e o mercado chamam de ‘shares buybacks’. O que é isso: você tem um dinheiro e, em vez de investir na sua operação ou em pesquisa e desenvolvimento, você coloca um premium sobre o preço da ação e a recompra dos acionistas (ou seja: se a ação vale R$ 10, você compra por R$ 14).

A recompra de ações é uma forma de afagar quem investiu na sua empresa e atrair novos acionistas, ainda que pelo motivo errado. O acionista não vai comprar a ação porque sabe que o negócio é bem gerido ou que é inovador. Ele vai comprar por benefício próprio, dane-se se o C-level da empresa está aumentando o endividamento. Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro. É o tipo de estratégia corporativa que se popularizou muito a partir da década de 1980 e atingiu seu ápice antes da crise imobiliária norte-americana de 2008. Segundo o estudo do professor William Lazonick, da Harvard Business School, o número de empresas entre as 500 maiores do mundo que recomprou ações com um premium entre 2003 e 2007 mais que quadruplicou. Se sua empresa está nadando em dinheiro, premiar o acionista que ficou do seu lado desde a época das vacas magras faz sentido. Mal aplicada, a estratégia facilita recessões, como aconteceu em 2008.

Empresas aéreas, é até meio óbvio falar, não estão nadando em dinheiro. Agora que a crise chegou pesada, não tem como pegar de volta o dinheiro pago em premium para os acionistas como forma de criar um colchão financeiro. O desenlace você já sabe: passar o chapéu para o governo. Recomprar ações quando o orçamento é apertado é uma péssima maneira de gastar, mais ou menos como eu na adolescência quando, incomodado com a fila para jogar Marvel vs. Capcom no fliperama, ia gastar fichas no Metal Slug.

As poucas empresas cujo valor de mercado cresceu durante a crise estão envolvidas diretamente com o modelo de vida nesse novo “normal” do qual estamos falando. São empresas que introduzem alterações no dia a dia das pessoas para que elas continuem suas vidas de um jeito mais ou menos parecido com antes. Empresa que permite que você faça em casa o que antes precisava sair de casa para fazer está numa situação boa em médio prazo — serviços de entrega, plataformas de vídeochamada, streaming e jogos online, provedores de conteúdo. Algumas, como varejo, tomaram um tombo agora, mas estão se organizando para fazer da venda online uma operação mais relevante para o negócio. Em médio prazo, a recuperação é garantida independente do cenário — todo mundo precisa fazer compras diárias.

Nenhum exemplo é melhor que o da plataforma de videochamadas Zoom. Em um mês, seu valor de mercado dobrou para US$ 40 bilhões, o que a tornou mais valiosa que nomes como Uber e General Motors. Todas as companhias aéreas, somadas, estão valendo menos que a Zoom sozinha. É claro que a gente está falando de um retrato: as valuations de American Airlines e GM estão menores que o normal e a da Zoom talvez esteja maior pelas incertezas frente à pandemia. Por qualquer métrica que você analisar, o valor de mercado da Zoom é irracional. Até quando vai durar? Boa pergunta.

O caso da Zoom deixa claro também um outro lado maligno da adoção de tecnologia pela crise da COVID-19. A quarentena foi tão urgente que não coube às empresas planejar, mas simplesmente reagir. Em vez de criar um comitê para analisar e decidir a melhor maneira de prosseguir, as empresas mandaram seus funcionários para casa e apelaram para as ferramentas que conheciam para manter a operação rodando de alguma forma. Há um lado positivo no movimento: companhias que estavam há anos postergando ações que as tornarão mais ágeis, finalmente, encontraram uma razão. É uma coisa que eu vejo constantemente na Novelo, meu estúdio de data analytics: existe uma percepção de que trabalhar com dados, por exemplo, é vantajoso, mas essa percepção sempre estaciona quando a empresa percebe que é preciso fazer mais do que simplesmente analisar um banco de dados. Há uma mudança necessária que poucas empresas ainda estão aptas a encarar. A crise do coronavírus força essa mudança. É uma lógica que serve não apenas para dados, mas para trabalho remoto, por exemplo. Uma consequência inesperada da quarentena é mostrar aos gestores que, sim, home office funciona para muitos modelos (não todos). O coronavírus tende a acelerar a transformação digital das empresas — se não foi planejado, vai ser na marra. As empresas tendem a sair da crise com processos melhores.

Aproveitando que estamos no assunto, uma outra consequência óbvia parece ser o desmonte de produtos/serviços baseados em blablablá — e essa conclusão tem um pouco de análise e um pouco de torcida da minha parte. Num ambiente em que empresas e consumidores seguram seu dinheirinho frente às incertezas, quem não tiver uma proposta muito clara de valor para seu produto e/ou serviço vai derreter. A teoria serve tanto para quem tem empresa que só vende promessas, mas é ruim de entregar, ou quem tem empresa baseado só na verborragia. Quer um exemplo claro? A onda dos coachs vai quebrar com a COVID-19 (você não está me vendo fazendo figa nesse momento).

Enfim, voltando à Zoom. Nos últimos 20 anos, a gente já viu como crises como a que estamos passando agora — e o frenesi causado por elas — são usadas para justificar um aumento na devassa online. A máquina de espionagem da NSA só existiu porque o Congresso norte-americano aprovou uma lei, o Patrioct Act, um mês depois dos ataques de 11 de setembro, dando ao governo superpoderes para interceptar, armazenar e analisar comunicações digitais. A aprovação da lei, que só foi rejeitada por uma senadora, é amplamente vista hoje como um exagero. O governo ganhou poder demais em um momento de medo e, assim que esse momento passou, não voltou ao estado original. Agora a gente está vendo um exemplo claro, mas centrado na iniciativa privada.

No afã de continuar reuniões e aulas, centenas de milhares de pessoas baixaram o aplicativo da Zoom sem se atentar sobre suas práticas medonhas de privacidade. Instalado na sua máquina, o Zoom tinha uma falha que permitia qualquer site entrar nas suas conferências secretamente. Uma semana depois, a Vice descobriu que o app mandava dados de uso dos clientes para o Facebook, ainda que você não tivesse conta na rede social. É uma prática comum de quem instala o SDK do Facebook. Seguiu-se uma pequena crise, contornada quando a Zoom tirou o SDK. Mas o recado já estava dado.

“Vamos simplificar: o Zoom é malware. A história maior é que o Zoom está vendendo dados de usuários para ter apelo entre seus reais clientes: gerentes e empresas”, resume o professor de Princeton, Arvind Narayanan. E ainda assim, a empresa não para de crescer. O exemplo da Zoom escancara que, em tecnologia, os principais beneficiados por essa quarentena são as integrantes do Big Tech.

Assim como as pessoas adotaram a Zoom sem pensar no que ela fazia com seus dados (o SDK do Facebook é só um ingrediente na sopa), qualquer movimento de impor limites à atuação monopolista da Big Tech parou. Não tem mais briga no conselho para substituir Jack Dorsey no comando do Twitter, não tem discussão no Congresso norte-americano sobre quebra de monopólio. Por outro lado, na sua quarentena, você está protagonizando e vendo lives pelo Instagram, falando com amigos pelo WhatsApp, vendo vídeos no YouTube, assistindo a séries pela Netflix ou Amazon Prime Video, fazendo aulas pelo Google Classroom, hospedando seus aplicativos na AWS, Azure ou Google Cloud… Você entendeu o raciocínio. Até mesmo produtos que apanhavam mais que cachorro magro, como o Portal do Facebook, viraram sucesso da noite para o dia a ponto de esgotarem das lojas.

Todas as ondas de tecnologia hoje desaguam no Big Tech, ainda que tenham nascido em empresas que você nunca ouviu falar, como é o caso da Zoom. Não só porque Google, Amazon, Netflix, Microsoft, Apple e afins têm centenas de bilhões de dólares em caixa para queimar em tempos difíceis, mas porque, ainda que se espere uma queda na receita, os lucros continuarão crescendo, dessa vez alimentados não só pela inércia, mas pelos novos consumidores ganhos na crise. É a mesma lógica dos bancos no Brasil, que atravessaram uma das piores crises econômicas da história do país com aumentos de dois dígitos na lucratividade.

A história da economia está cheia de exemplos de empresas que aproveitaram crises globais para criarem negócios enormes. O Elio Gaspari lembra na sua coluna como, no terremoto seguido por incêndios na Los Angeles de 1906, um sujeito tachado de louco começou a emprestar dinheiro na rua para quem tinha perdido tudo. Décadas depois, o banco do louco virou o Bank of America, um dos maiores do Estados Unidos. São várias as razões para que crises permitam a ascensão de novos players. Pode ser um evento catastrófico, como uma guerra, uma peste ou um terremoto, ou uma inovação que muda a topologia do setor, como foi o iPhone. Neste novo “normal” que estamos passando, já dá para ter uma certeza: independentemente do tipo de evento, ao fim dele, enquanto quase todo mundo cata os cacos, as Big Tech saem maiores do que entraram.

Por fim, eu sei que não é padrão, mas quero terminar esse episódio numa nota otimista – as últimas semanas têm sido muito duras para todo mundo. Em momentos de crise a gente vê a ascensão de comportamentos mesquinhos (como desse grupo de imbecis que se comporta normalmente como se fosse imbatível), mas também a ascensão de comportamentos profundamente humanos. Existem compilações de vídeos e podcasts que mostram a forma como a humanidade, encerrada em sua própria casa, se organiza para tentar interagir e ajudar o outro. Existem campanhas de arrecadação de comida e remédios, estranhos que fazem compras para vizinhos idosos e infindáveis grupos virtuais para manter a socialização em tempos tão bicudos: clubes de leitura, de exercício, de poesia, de música, de culinária, de filosofia, de maquiagem… A lista é longa. Presos em casa e com medo do que ainda não podemos entender, o nosso lado humano aflora e isso enche o peito de uma esperança meio besta. O Tecnocracia vem explorando o impacto negativo da tecnologia na nossa vida há mais de um ano, mas, nas últimas semanas, temos visto como a tecnologia pode ser inegavelmente positiva. Como a internet consegue fazer com que milhões de pessoas isoladas consigam interagir. Não parar a vida totalmente. Ter uma válvula de escape. Essa é a maior força da internet, ainda que o modelo de negócios da publicidade tenha a transformado num bicho horrendo com milhões de olhos e nenhum interesse nesse lado humano. É o uso mais nobre dessa tecnologia. Em meio ao turbilhão, é um alento presenciar esse lado mais “humano” do uso da tecnologia. Tente você também.

Foto do topo: Engin_Akyurt/Pixabay.


  1. O que não quer dizer que você tenha que sair para comprar depois que a besta da presidência anunciou como se fosse a panacéia que terminará com a pandemia. O governo liberou o uso apenas para casos graves e ministrado por médicos.

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