O homem mais rico do mundo e os dois pesos da privacidade

Foto de Jeff Bezos, fundador e CEO da Amazon.

Em 14 de junho de 2011, a capa do jornal Folha de S.Paulo estampava uma série de quatro fotos tiradas na Cracolândia, quando as gestões recentes da Prefeitura ainda não tinham resolvido definitivamente o problema (essa frase contém ironia e, se você não entendeu, sugiro ler jornal). Nelas, um homem de meia idade, cabeça cheia de cabelos brancos e terno e gravata passeia pela região, no centro de São Paulo, compra uma pedra, fuma no cachimbo e vai embora. Embaixo das fotos, a legenda lia: “O gravata da Cracolândia”.

Dezenas de leitores mandaram emails e cartas à ombudsman da Folha na época, Suzana Singer, chamando a decisão do jornal de expôr o viciado na capa do jornal de “antiética”. Na coluna escrita no domingo seguinte à publicação das fotos, Singer concordou e criticou a decisão do jornal. “O correto é não expor ninguém, independentemente da sua situação econômica, porque o vício deve ser tratado como doença, e não como crime. (…) O fato de estar em público não implica necessariamente abrir mão de decidir sobre a sua imagem”, diz ela na coluna.

Houve quem afirmasse que, ao se sujeitar à região para consumo de drogas, o homem de gravata tinha aberto mão da própria privacidade e que o jornal, ao publicar, exercia seu direito de informar o público, mostrando a contradição entre o ambiente sujo e degradado e um usuário mais alinhado esteticamente.

É uma discussão sem resposta fácil. Todo jornal, não só a Folha, fotografou a Cracolândia por anos sem se preocupar em esconder a identidade dos frequentadores. Quando o viciado usa terno, a discussão surge. Ainda assim, o ultraje à exposição do engravatado deveria valer a todos os outros, com camisetas rasgadas e havaianas usadas nos pés. Ao mesmo tempo, a exposição em uma mídia de larga escala só tende a dificultar o caminho de um viciado para a abstinência. Isso quer dizer que qualquer veículo precisa se abster de cobrir o caso? Longe disso. Se o problema das drogas é de saúde pública, é necessário que a imprensa o cubra, sem, no entanto, expor os envolvidos.

Os mais atentos já perceberam que a discussão usa drogas só como pano de fundo. O Tecnocracia da semana é sobre privacidade. Por que, quando a discussão é sobre privacidade, são poucos os casos em que não existe, pelo menos, argumentos razoavelmente bons do outro lado.

O assunto voltou à tona na semana passada com um destes raros casos, tendo no centro o homem mais rico do homem. Jeff Bezos, fundador e CEO da Amazon, publicou um texto afirmando que o grupo de mídia AMI o estava extorquindo. A briga era antiga — o tabloide National Enquirer, do grupo, tinha revelado os detalhes que levaram à separação de Bezos, o levou o bilionário a montar um grupo de investigação com fundos ilimitados para entender de onde tinham saído os materiais que estamparam a primeira reportagem.

Conforme a investigação avançou, o grupo sob as ordens de Bezos encontrou possíveis ligações da AMI com sauditas. Incomodada com a investigação, a AMI reagiu ameaçando publicar fotos íntimas de Bezos caso ele não concordasse em dissolver o grupo de investigadores. Foi uma das respostas mais burras da história do capitalismo mundial: um grupo de mídia tentou chantagear o homem mais rico do mundo por e-mail (quem falou isso foi o Scott Galloway no podcast Pivot, que eu te aconselho fortemente a ouvir depois que terminar o Tecnocracia). Bezos publicou os e-mails em um post no Medium. Xeque. Ao mesmo tempo em que expôs a AMI e arregimentou aplausos do mercado, Bezos deixou nas entrelinhas uma possível ligação da AMI não só com sauditas, mas também com o Governo Trump. Bezos e Trump vinham trocando farpas pela imprensa antes mesmo da eleição em 2016 e o presidente norte-americano já ameaçou algumas vezes rever a política fiscal a qual a Amazon está submetida, o que aumentaria os impostos que a empresa tem que pagar. Jogada de mestre.

Eu falei lá atrás que esse é um dos casos raros em que não há que se discutir o direito à privacidade por que se o homem mais rico do mundo ou você ou eu quisermos tirar fotos pelados ou fazendo qualquer tipo de atividade, é nosso direito e ninguém nada a ver com isso. Nada. Aqui não existe qualquer tipo de moralismo. Você pode questionar se isso aumenta os riscos para figuras públicas. Mas é inegável que é direito do sujeito se fotografar e guardar aquilo sem que isso dê a terceiros o direito de explorar de alguma forma — de qualquer forma — os arquivos. É um princípio inabalável de privacidade. Não tem zona cinzenta aqui: as fotos são dele e da namorada dele e pronto. Mais que isso: a prática de extorsão é crime. Bezos trouxe o caso não só aos olhos dos curiosos, mas também aos da polícia.

O caso da tentativa de extorsão sobre alguns nudes de Bezos é interessante não apenas pelo teor indiscutível do mérito — cada um de nós merece um espaço próprio para fazermos o que quisermos sem as atenções de terceiros voltadas a nós. Mas também porque situa Bezos em outro ponto desta discussão enorme sobre privacidade digital que vem se desenrolando há décadas. E, no ponto original que sempre ocupou, Bezos não é a vítima, mas o facilitador para que se devasse a privacidade de milhões de pessoas (não a privacidade do caso de semana passada). Como escreveu Glenn Greenwald, o jornalista responsável pelo furo de Edward Snowden, “o National Enquirer assumiu comportamentos tão baixos e inescrupulosos que criou uma narrativa aparentemente impossível: bilionário mais rico do mundo e notório violador de leis trabalhistas, o CEO da Amazon, Jeff Bezos, como uma vítima simpática”.

A gente precisa ter cuidado aqui para não criar uma falsa relação de causa e efeito. Bezos não merece ser extorquido com fotos pessoais por ser bilionário ou sua empresa fechar contratos que facilitam a fiscalização de civis por governos autoritários. Ninguém merece. A exposição de fotos íntimas é um mal terrível, principalmente para as mulheres. Mas a contraposição entre o Bezos–vítima e o Bezos–empreendedor deixa claro como a noção que nós temos de privacidade mudou muito nos últimos 20 anos e como o assunto é cheio de meandros e não tem respostas fáceis.

Privacidade, essencialmente, é o direito de você tocar a sua vida sem ser importunado ou fiscalizado por ninguém ou de ter as atenções voltadas para você, por qualquer motivo que seja. Privacidade é um véu que você tira para algumas pessoas em algumas situações quando você quer que aquela pessoa tenha acesso mais profundo à sua vida. Mas, de novo, não é eterno. Assim como você dá, você pode tirar. É seu direito. O fato de você compartilhar sua privacidade uma vez com uma pessoa não significa que você compartilhou para sempre — é só pensar nos seus ex-namorados ou namoradas. Eles já te viram pelado ou pelada das mais diferentes formas, mas não é por isso que hoje, depois que terminou o relacionamento, vocês têm esse nível de intimidade. A privacidade voltou a se fechar um para o outro. Eu uso o exemplo de se mostrar pelado em frente a outra pessoa porque é mais fácil de entender, mas a privacidade envolve questões bem mais sérias que um peito ou um pinto, como histórico financeiro, aonde se vai, segredos de família etc.

São esses detalhes mais complicados que a nudez que alimentam os modelos de negócios das empresas digitais. Desde que a America Online apareceu, as pontocom destroçaram a intimidade online de todos nós. Mas o fizeram com o consentimento do usuário. Você só pode usar Facebook, Google, Twitter, Instagram, YouTube e afins se concordar com os termos de serviço. Se nem manchete direito a galera consegue ler na internet, que dirá um texto enorme com termos jurídicos? O modelo de negócios da maioria das empresas de internet — pelo menos das gigantescas — envolve coletar o máximo possível destes dados online, o que significa dizer, com a digitalização das nossas vidas, todos os dados da sua vida.

Tudo baseado em uma troca: eu sei tudo sobre você, mas te dou anúncios que te interessam. Anunciantes adoram: vou gastar menos e ter maiores conversões por atingir meu público certo. O usuário nem parece ter entendido direito, no afã de querer usar logo o serviço em que todos seus amigos já estavam. A pergunta é: deu certo? De um lado, o monstro ficou tão grande que está fora do controle. Do outro, alguém acha que as recomendações pagas providas por Google, Facebook, YouTube e Instagram melhoraram seus processos de compra? Entre no seu feed do Instagram. Ou em um site noticioso. Analise os anúncios. Você já comprou algum destes produtos? Aliás, você compraria? Foi para isso que você deu todos seus dados? Nessa versão moderna e mais assustadora de Fausto [Amazon], a gente vendeu a alma ao diabo para ganhar em troca anúncios da Outbrain que chegam a ser engraçados de tão histéricos (o meu preferido: VEJA COMO ESSA MULHER FOI QUASE PRESA POR SECAR 30 QUILOS DE GORDURA.)

Tudo isso sem nenhuma regulamentação. O GDPR está começando a valer agora na Europa, vamos lembrar. Já virou um mantra do Tecnocracia: para as pontocons, quanto menos regras, melhor. O ex-presidente do Google, Eric Schmidt, chegou a defender que só preza por privacidade alguém que está tentando esconder algo, como se privacidade fosse um conceito usado apenas como um escudo para esconder ilícitos. De novo: tudo isso feito com a conivência e o ok dos usuários.

O problema é que privacidade não vale só para o mundo digital e a proliferação de câmeras levanta uma outra polêmica envolvendo privacidade. Aí a gente cai na questão do Bezos–empreendedor.

Empresas com grandes operações de computação em nuvem perceberam há alguns anos que só alugar o servidor tinha virado commodity. Era preciso começar a acoplar serviços mais complexos. Amazon Web Services, Google, Microsoft e outras começaram a criar serviços que facilitam muito a criação de sistemas de machine learning e reconhecimento facial. É o caso do AWS Rekognition, capaz de reconhecer até cem rostos em uma mesma imagem.

O foco do Rekognition, sempre disse a AWS, são departamentos de polícia. O BuzzFeed publicou documentos mostrando que a polícia de Orlando começou a usar a tecnologia da AWS sem qualquer regulamentação. O problema não é tanto o reconhecimento, mas o que ele permite em médio prazo, segundo a American Civil Liberties Union (ACLU), grupo dos mais vocais sobre os problemas de privacidade digital: “Com essa tecnologia, a polícia poderia determinar quem vai a protestos. A ICE pode monitorar constantemente imigrantes conforme eles seguem novas vidas. Cidades podem rotineiramente vigiar seus próprios residentes, independente se houver suspeita de atividade criminosa. Como com todas as outras tecnologias de vigilância, estes sistemas certamente serão voltados desproporcionalmente a minorias”.

Pelo menos desde 11 de setembro de 2001, há uma narrativa oficial que prega que menos privacidade é uma forma de ter mais segurança. Pouco mais de um mês depois do 11 de setembro, o Congresso norte-americano, ainda de luto, aprovou o Patriot Act, um conjunto de lei que, entre tantas autorizações, criou a base legal para que a NSA começasse a vasculhar e coletar os registros digitais de quase todos os usuários de serviços online do planeta.

Durante a gestão Obama, a máquina de vigilância ganhou um tamanho monstruoso. A revelação feita por Snowden promoveu mudanças pontuais, mas o bicho ficou tão grande que é impossível desligá-lo. Qualquer tentativa de mudança é rechaçada pela narrativa oficial: menos privacidade, mais segurança.

Numa sociedade apinhada de câmeras em todas as esquinas, esse é o mantra que ainda ouviremos centenas de vezes. Mas, como qualquer discussão sobre privacidade, há pontos delicados a se considerar. O governo tem direito de vasculhar seus dados pessoais quando bem entender? O governo tem o direito de registrar seu rosto quando você está andando no metrô, por exemplo, e colocar num banco de dados uma nova linha falando que você estava na estação X na hora Y? Se você acha que não, considere este outro cenário: você é assaltado ou alguém próximo a você é morto. A vigilância pública pode ser a informação primordial para encontrar o criminoso. E aí? O governo tem o direito?

Mais que isso: alguém garante que essas ferramentas de vigilância só vão ser usadas para garantir sua segurança? No ano passado, a ViaQuatro, que opera a linha amarela do metrô de São Paulo, colocou no ar, sem muito alarde, um sistema de reconhecimento facial para interpretar as expressões faciais dos passageiros. A iniciativa foi barrada pela Justiça, que viu uma razão não relevante: mais que segurança, o sistema poderia colher dados que poderiam ser revendidos a terceiros ou justificarem campanhas publicitárias. Esse uso de reconhecimento facial pelo governo vale?

Ainda que você concorde que um governo democrático possa vigiar seus cidadãos 24 horas por dia, o cliente de uma plataforma como essa nem sempre pode prezar muito por essa coisa de voto popular, separação dos poderes e Justiça independente. Vamos lembrar que a negociação de contratos com governos não democráticos — como a China — foi o que levou funcionários de Google, Microsoft e Amazon (olha ela aí) a protestarem contra seus próprios empregadores.

A discussão fica mais complicada por que os serviços como o AWS Rekognition são tão “for dummies” que qualquer um pode montar um serviço de vigilância. Você tem uma webcam, mora em uma região movimentada e entende minimamente de Python? Parabéns, em uma questão de horas você consegue montar seu aparato de vigilância. A Forbes fez o teste e os resultados são assustadoramente precisos por um preço assustadoramente baixo.

O poder de vigilância que, na teoria, deveria estar restrito à forças oficiais do governo — leia-se a polícia — pode estar na mão de milhares de pessoas. Não é um cenário futuro. É hoje. O Tecnoracia sabe de, pelo menos, uma startup apoiada por uma grande empresa de seguros que opera dezenas de câmeras pelas ruas de São Paulo, registrando as placas de milhares de veículos todos os dias. Isso está errado. O uso de algoritmos de reconhecimento facial pelo governo é passível de discussão, mas, quando falamos da iniciativa privada, a gente encontra outro destes casos raros em que não tem zona cinzenta: eu não quero que uma empresa privada, cujos objetivos eu não conheço, registre as horas em que eu passeio com meu cachorro.

Voltemos ao “gravata da Cracolândia”. A foto que parou na capa do jornal foi feita por um fotógrafo, aliás, Juca Varella, um dos melhores fotojornalistas do Brasil. A diferença entre o clique dele e o que o Rekognition faz é de escala. Em vez de ter que ficar plantado esperando alguma cena, é possível apontar uma câmera para a região. Cada imagem captada pela câmera passa por um algoritmo de reconhecimento facial que vai entender a roupa usada pelos focados pela câmera e não só tirar fotos, mas também mandá-las por e-mail sempre que a roupa usada pelo sujeito focado não for a roupa esperada.

Pense em qualquer outra aplicação que envolva câmeras e a necessidade de identificar uma diferença de padrão. Pensou? O que uma câmera com um algoritmo de machine learning pode fazer por um preço ridículo. A dificuldade restringia sistemas do tipo a grandes empresas ou ramos do governo. Não mais. A era da vigilância não vem só de cima, mas de gente como você, sem grandes fortunas, empresas ou votações por trás. Só precisa de um mínimo conhecimento e uns trocadinhos no bolso.

Eu tenho cuidado em escrever o Tecnocracia para não cair naquela armadilha de sempre achar o que vem adiante como uma merda — essa síndrome do velho azedo atingiu a geração dos meus pais e, não tenho dúvida, vai atingir a minha. É inerente do ser humano. As metáforas aqui, assim como todas as de internet, não se encaixam perfeitamente. Faca você usa para cortar o bife ou abrir o bucho de alguém. Vamos parar de vender faca? O problema, de novo, é a escala. O sujeito que tenta esfaquear um grupo uma hora ou outra acaba dominado. O estrago que a vigilância automatizada na mão de todo mundo traz é outro. É mais pervasivo. É mais silencioso.

Privacidade é Amazônia: já foi enorme, mas está cada vez menor. Um grande naco dela já foi tirado com a ascensão de Facebook, Google e afins. Nós demos de bom grado. Com os serviços de reconhecimento facial em escala, outro naco enorme, dessa vez focado no mundo offline, deve se perder. O que a gente ganha em troca? Por enquanto, só o discurso político, martelado à exaustão, de que nossa segurança aumenta caso possam me ver passeando com meu cachorro. Mas nem disso a gente tem 100% de certeza. Não existem provas. A impressão que fica é que o único oásis que vai restar da privacidade digital é nosso direito de tirar foto da própria virilha.

Foto do topo: Steve Jurvetson/Flickr.

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