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Foxconn de Jundiaí (SP) não libera funcionários na pandemia mesmo batendo recordes de produção

Fachada da fábrica da Foxconn em Jundiaí (SP).

Na guerra contra o SARS-CoV-2, o coronavírus causador da COVID-19, é unânime entre os especialistas a opinião de que o distanciamento social, aquele isolamento voluntário dentro de casa, é a melhor aposta para desacelerar o contágio, achatar a curva e dar uma chance ao sistema de saúde de tratar todos os contaminados. Entre os empresários, essa unanimidade não existe.

Um funcionário da planta fabril da Foxconn em Jundiaí, no interior de São Paulo, enviou ao Manual do Usuário um relato de como tem sido trabalhar lá nas últimas semanas sob a ameaça do coronavírus.

A Foxconn é uma empresa taiwanesa a quem grandes marcas globais terceirizam a produção de eletrônicos de consumo. São computadores, celulares, componentes de informática — nada que, a princípio, possa ser classificado como “essencial”. A unidade de Jundiaí, com cerca de 1.500 funcionários, atende três empresas: Asus, Apple e Dell.

O relato segue abaixo. Ele foi editado para dar maior clareza ao texto e remover informações sensíveis que poderiam comprometer a identidade da fonte, que obviamente pediu anonimato:

Medo. é esse o sentimento que alguém que trabalha em serviços essenciais sente quando sai do aconchego de seu lar para enfrentar o mundo externo em meio à pandemia da COVID-19.

Conheço bem o sentimento desde que Wuhan, cidade chinesa onde o novo coronavírus apareceu, teve seu lockdown decretado. Com um detalhe: não trabalho em Wuhan, nem em serviços essenciais.

Trabalho em uma planta fabril da Foxconn na cidade de Jundiaí (SP). Sim, a empresa de origem taiwanesa que fornece componentes, material semipronto e pronto para marcas como Dell, Asus e Apple. Que, entre outras controvérsias, foi palco de dezenas de casos de suicídios em suas plantas na China continental em 2010.

A Foxconn, bem como mais de 80% das indústrias da cidade, não parou sua produção por conta da COVID-19. Ela se juntou a indústrias alimentícias e de equipamentos médicos — itens essenciais — e se distanciou de outras não essenciais, como a Liz Lingerie, uma das maiores fornecedoras de lingerie do país, e a Deca, de louças e sanitários, que vi fechada a caminho do trabalho nesta segunda-feira (30).

A Liz não pode ser considerada uma fornecedora de produtos essenciais, não nesse primeiro momento. A Foxconn, tampouco. A Liz parou sua produção há quase duas semanas (23/3). A Foxconn Jundiaí, ainda não.

Trabalhar num ambiente fabril neste momento em que o coronavírus se espalha rapidamente é deveras estafante. Na Foxconn, há alguns agravantes.

O primeiro vem de longe. Há uma grande planta fabril da Foxconn em Wuhan. Ela tem contato direto com a nossa, aqui no Brasil. Desde janeiro, projetos que dependem de Wuhan estão totalmente parados ou andando a passos de tartaruga. É pouco provável que os responsáveis pelo funcionamento da fábrica daqui possam alegar que não sabiam da gravidade ou que não tiveram tempo para se prepararem para um fechamento total ou parcial. Desde janeiro, o caso vem sendo acompanhado pelos gestores, que recebiam os relatos e informações não só de Wuhan, mas de outras partes da China continental, de Taiwan e da Malásia — locais onde há fornecedores de tecnologia e insumos para a filial jundiaiense.

Além disso, não tivemos, até o momento, gargalos no fornecimento de matéria-prima similar ao que atingiu a Motorola (Flextronics) e a Samsung e que causaram reduções drásticas nas operações. Impactos dessa natureza foram pouco sentidos na nossa devido a fatores como realocação de ordens de produção e ao fato de termos um estoque de materiais que vem garantindo o funcionamento normal da fábrica desde o início da crise.

A fábrica não parou. Estamos produzindo praticamente o mesmo que antes da COVID-19; em algumas linhas, mais. O quadro abaixo mostra o número de placas-mãe produzidas para o cliente Dell. Nele é possível verificar que houve um aumento na produção em março frente à média de todo o ano de 2019. Em um cenário em que outras empresas estão sendo fortemente impactadas, a Foxconn Jundiaí anda na contramão e produz mais. A média de placas produzidas por hora também subiu em comparação a 2019.

Gráfico mostrando a produtividade da Foxconn de Jundiaí até dia 26 de março.
Entre 24 e 26 de março, a produção (UPH, sigla de unidades produzidas por hora) foi acima da média. O mesmo para a parcial de março, acima da média de todos os períodos anteriores. Clique para ampliar.

O terceiro fator se refere às medidas tomadas para mitigar o risco de contágio dentro da fábrica. Sim, várias foram tomadas, em momentos e com intensidades distintas. O cenário atual é o seguinte:

  • Muitos pontos de distribuição de álcool gel por toda a fábrica. Esses pontos têm aumentado gradativamente desde janeiro;
  • Aferição da temperatura de todos os funcionários e fornecedores na entrada da fábrica. Desde o início de março, qualquer um cuja temperatura corporal esteja acima de 37,5º é impedido de entrar;
  • Distribuição de cartazes e e-mails informativos sobre a forma correta de se lavar as mãos;
  • Funcionários com quaisquer sintomas de gripe ou resfriado são encaminhados ao ambulatório. Se há febre, ele é afastado automaticamente por 14 dias. Se não há febre, o afastamento é de 3 dias. Em ambos os casos, ele é aconselhado a se dirigir a uma unidade de saúde apenas “se piorar”;
  • Na semana passada, funcionários dos chamados “grupos de risco” tiveram férias adiantadas ou foram mandados para home office, quando suas atribuições permitiam. O home office também foi implementado para outros setores com essa possibilidade;
  • Medidas de distanciamento dentro da fábrica avançam a passos curtos. Pessoas foram realocadas por toda a fábrica para se manterem distantes o máximo possível e marcações no chão, feitas em locais onde filas são inevitáveis. Porém, respiramos o mesmo ar condicionado, tocamos os mesmos produtos, comemos no mesmo restaurante (que também tomou ações de distanciamento nas filas e mesas coletivas).
  • Na quinta-feira (26), máscaras cirúrgicas foram distribuídas na entrada do turno para todos os funcionários e seu uso foi “recomendado”, como é possível ver nos e-mails abaixo trocados entre gestores e que foram repassados a alguns funcionários:

Nota do editor: Em vez de publicar os prints dos e-mails, optamos por transcrever as mensagens, mantendo eventuais erros de digitação, a fim de preservar a identidade da fonte. Atente ao detalhe de que os gestores confirmam, nas mensagens, que funcionários já foram afastados por suspeita de infecção pelo coronavírus.

Bom dia.

Pessoal conforme falei com alguns de voces ontem, é altamente recomendável que usemos a máscara fornecida pelo RH.

Não se fala em obrigatoriedade , porém todos nós tivemos algum contato com nossos colegas afastados sob suspeita de infeção pelo COVID-19 e na ausência de confirmação melhor previnirmos, pois segundo os especialistas a transmissão pode ocorrer sem sintomas.

Portanto favor usar.

Obrigado!

Pessoa,

Compartilho da opinião do [NOME].

Houve um desencontro de informações ontem à tarde, mas o uso não é obrigatório, é recomendável.

Obrigado,

Dois cartazes com orientações de prevenção da COVID-19 espalhados pela fábrica da Foxconn.
Cartazes com dicas de prevenção da COVID-19 espalhados pela fábrica da Foxconn de Jundiaí (SP).

Todas as medidas são obviamente bem-vindas. Há uma sensação geral de menor insegurança do que no começo da pandemia. Contudo, são medidas paliativas. Uma única pessoa, assintomática, pode infectar a fábrica inteira em questão de semanas.

Infelizmente, o problema não é só esse. É ético, justo, arriscar a vida e a saúde de mais de mil funcionários para produzir placas-mãe da Dell em um momento tão perigoso? Placas-mãe de computados não são produtos essenciais. Ainda mais quando se tem os estoques cheios de produtos acabados, como é o caso. Os gestores da Foxconn Jundiaí estão arriscando vidas — as deles próprios e a dos funcionários e de suas famílias — para cumprirem contratos e, em última análise, faturar.

Isso sem contar as dezenas de funcionários terceirizados dos setores de limpeza, segurança e cozinha, que, como todos sabemos, já sofrem diariamente com a precarização de suas ocupações e, em tempos como esses, sofrem ainda mais. Não vi e não tenho a informação de que algum desses funcionários tenha sido dispensado ou colocado de férias por estar em um dos chamados grupos de risco para a COVID-19.

Outro aspecto do problema: é justo uma fábrica de — desculpe o reforço — produtos não essenciais viver uma verdadeira abundância de álcool gel e máscaras cirúrgicas enquanto hospitais de todo o planeta sofrem com a falta desses materiais? Na minha opinião, não. Não é justo. Não é ético. Não deviria estar acontecendo. Manter a fábrica funcionando é um atentado à saúde e, possivelmente, levará a vida de um ou mais funcionários. A troco do cumprimento de contratos, de dinheiro.

Pressão de sindicatos e a situação legal da indústria

A maioria dos decretos estaduais e municipais de lockdown tem poupado as indústrias, de qualquer natureza, de fecharem. Os de Jundiaí e do estado de São Paulo seguem essa linha. Em declarações públicas, o governador João Dória (PSDB) chegou a fazer apelos para que o setor industrial não interrompa a produção.

Em nota enviada ao Manual do Usuário, o Sindicato dos Metalúrgicos de Jundiaí diz estar negociando com as empresas da região, incluindo a Foxconn, a suspensão total da produção. Porém, o fato dos decretos do executivo — incluindo as medidas provisórias do governo federal — não contemplarem esses trabalhadores tem sido usado pela Foxconn para manter a produção, o que o sindicato classifica como “inaceitável”. A Foxconn também alega que a demanda por computadores e celulares aumentou devido ao aumento no número de pessoas trabalhando de casa.

Na nota, o sindicato afirma que continuará pressionando os representantes da Foxconn e que, enquanto a suspensão total da produção não acontece, está exigindo que se cumpram as recomendações das autoridades públicas para evitar a disseminação do COVID-19 e que os funcionários dos grupos de risco sejam afastados — medidas que, a julgar pelo relato da fonte anônima, estão sendo tomadas.

Em outras fábricas de eletroeletrônicos da região, a pressão já surtiu efeito. Ali perto, em Campinas, o sindicato da cidade pressionou fortemente a Samsung, incluindo um protesto em frente à fábrica da empresa sul-coreana. A eles foram concedidos 12 dias de férias coletivas, iniciadas nesta segunda-feira (30).

O sindicato de Campinas lembrou que, em fevereiro, quando a exportação de peças da China para a fabricação local foi interrompida, afetando a atividade produtiva, a Samsung procurou o sindicato para negociar uma paralisação, mas desta vez, quando o que está em jogo é a saúde dos funcionários e de suas famílias, a empresa ignorou os pedidos de reunião do sindicato. “Ou seja, quando estava preocupada com a sua produção, a Samsung correu atrás do Sindicato”, diz o comunicado.

Em Taubaté, a LG negociou com o sindicato da região a concessão de férias coletivas aos 950 funcionários da sua fábrica. Eles foram divididos em dois grupos: o primeiro ficará 15 dias em casa, contados desde segunda (30), e o segundo, 10 dias contados a partir desta terça (10). De acordo com o sindicato, “(…) a suspensão das atividades é considerada pelo Sindmetau como proteção mais eficaz contra o avanço do coronavíru”.

Uma pesquisa da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), realizada entre os dias 23 e 25 de março, apontou que 24% das fábricas brasileiras de eletroeletrônicos paralisaram total ou parcialmente sua produção. “A nova pesquisa indica que o maior problema agora não é mais o fornecimento de insumos da China, mas a chegada do coronavírus ao Brasil, que obrigou as empresas a adotarem medidas de prevenção, afetando assim a produção local”, disse Humberto Barbato, presidente da Abinee.

“Qualquer ambiente com aglomeração de pessoas, como uma indústria, está sujeito a espalhar o coronavírus”, diz Jônatas dos Santos, professor de virologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Questionado se é o caso de indústrias interromperem suas atividades, ele explica que “é uma questão muito delicada, pois envolve muitos interesse de todos os lados”, mas que, por estar do lado da ciência, prioriza a contenção do vírus: “O isolamento social, se possível, é mais importante que a questão econômica. Sou sensível à economia, todos somos, mas acho que deve prevalecer a saúde. Se tem um estoque, de repente não seria necessário [manter a produção ativa]. Tem que ser avaliado caso a caso”.

O sindicato de Jundiaí afirma, na mesma nota, que a saúde dos trabalhadores é prioridade:

Para o Sindicato dos Metalúrgicos, o mais importante neste momento é cuidar das pessoas e da vida. Para isso, estamos focados na conscientização para sensibilizar as empresas e construímos juntos medidas equilibradas e responsáveis para todas as partes, primando sempre pela vida.

O que dizem as empresas envolvidas

O Manual do Usuário tentou falar com a Foxconn. É praticamente impossível. O site oficial brasileiro não indica uma assessoria de imprensa; colegas a quem pedi essa informação também não souberam indicá-la. Enviei uma mensagem pelo formulário padrão presente no site, explicando o caso e pedindo um posicionamento. Até agora, não houve resposta.

O site também entrou em contato com as três clientes da Foxconn de Jundiaí — Apple, Asus e Dell.

A Dell disse, por telefone, que é apenas cliente da Foxconn e não tem qualquer ingerência no funcionamento da fábrica. Questionei se, como cliente, a Dell não poderia diminuir os pedidos, mas a resposta foi a mesma.

A Apple sinalizou o recebimento da demanda e disse, por e-mail, que iria checá-la. Desde então, nenhum outro retorno foi dado.

A Asus também confirmou o recebimento e disse que enviaria um posicionamento, mas ele ainda não havia chegado até a hora da publicação desta matéria.

Foto do topo: Google/Reprodução.

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4 comentários

  1. O pior é saber que estão batendo recordes de produção de itens que ficarão empacados nos estoques, não terá essa demanda que eles esperam.

  2. Resumo: capitalismo.

    E esse comportamento do empresariado brasileiro tende a ser aprofundado depois das declarações do presidente Bolsonaro, onde ele indica que se o comércio não abrir até segunda-feira ele vai lançar mão de decretos garantindo o funcionamento e a proteção dos empresários – e fodam-se os pobres, não que o ministro Paulo Guedes e o presidente Bolsonaro alguma vez se importaram com pobres; mas agora é evidente.

    A lição disso tudo? Nunca vote em liberais.

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