Opinião

Quarentena do coronavírus será prova de fogo para grupos de WhatsApp

Mulher sentada no sofá olha para celular no escuro, com a tela iluminando seu rosto. Ao fundo, uma janela.

Após os estragos causados pelo impeachment de Dilma Rousseff (2016) e as últimas eleições presidenciais (2018), grupos de WhatsApp do Brasil inteiro estão prestes a passar por mais uma prova de fogo: a quarentena provocada pelo SARS-CoV-2, o novo coronavírus. É como se nós, sobreviventes ainda se recuperando dos estragos de duas grandes guerras (de informação), estivéssemos prestes a enfrentar um poderoso furacão. Mas, apesar do tempo fechado, alguns raios de Sol despontam no horizonte.

Epidemiologistas do Brasil inteiro estão batendo na tecla, desde a semana passada, de que o auto-isolamento é uma medida vital para conter a proliferação dos casos de COVID-19, a doença provocada pelo coronavírus. Essa medida “achatará a curva”. Não, nada a ver com Terra plana ou outra sandice; é a curva do gráfico de novos casos. O potencial de aumento de contaminados pelo novo coronavírus é exponencial e, se assim for, pode saturar o nosso sistema de saúde. Ao achatar a curva, ou seja, espalhar as contaminações em um intervalo maior, damos chances para que o sistema consiga receber e tratar todos que precisarem dele.

Gráfico animado mostrando a diferença entre a curva acentuada e a achatada na transmissão do novo coronavírus.
Eixo Y: número de casos. Eixo X: Tempo desde o primeiro caso. Linha pontilhada: Capacidade do sistema de saúde. Gráfico: The Spinoff/Reprodução.

O governo federal ainda não determinou um “lockdown” da população, mas a sociedade civil e governos locais não esperaram o exemplo de cima para interromperem aglomerações preventivamente. Eventos esportivos, espetáculos culturais, festas, convenções, aulas, cursos, trabalhos presenciais — tudo parado. A ordem é simples: se possível, não saia de casa. E tem que ser assim mesmo, por mais difícil que seja.

Quem costuma ficar muito tempo em casa ou já passou por situação parecida, sabe que não demora muito para que o conforto do lar se transforme em estresse. É muito tempo olhando para as mesmas paredes, limitado a algumas dezenas de metros quadrados, sozinho ou com as mesmas poucas pessoas. A internet, essa “janela para o mundo”, acaba se tornando uma grande aliada para amenizar os efeitos do isolamento.

Números de locais em fase mais avançada da crise dão a medida do impacto da quarentena no uso da rede. A CloudFlare, uma das líderes globais em infraestrutura de internet, notou um aumento de 10% nos picos de tráfego. Na Itália, país ocidental mais afetado pelo novo coronavírus até o momento, os picos aumentaram em 30%. Em um provedor italiano, o consumo de dados da banda larga fixa subiu dramaticamente, em mais de 70%, puxado por serviços de streaming de vídeo e pelo popular jogo gratuito Fortnite. Por lá também, o uso do WhatsApp mais que dobrou e o Facebook já avisou que incrementou a infraestrutura do aplicativo para lidar com a demanda crescente no mundo inteiro.

Imagine um “lockdown” aqui de proporções similares ao do italiano. Dada a nossa predileção pelo WhatsApp, é provável que o uso do app se acentue. E então, nos combalidos grupos de amigos, colegas de trabalho e familiares, os sobreviventes das guerras de memes e debates acalorados dos eventos políticos dos últimos quatro anos teriam, pois, mais uma árdua batalha para manterem os laços intactos. Sai o PT, entra o coronavírus — mas, de alguma maneira e para seu profundo desgosto, seu tio reaça vai conseguir conectar as duas coisas e se transformar em um difusor do vírus da ignorância sob a forma de notícias falsas.

A desinformação é um risco iminente e, nesse caso, com possíveis consequências gravíssimas. Por ignorância ou má-fé, correntes inoportunas, com “dicas” inúteis e orientações desastrosas, já circulam pelos grupos. O site Aos Fatos, especializado em monitorar e desbancar notícias falsas, tem uma coleção das relacionadas ao novo coronavírus. Isso ajuda, mas pode criar mini-crises familiares nos grupos porque, sabemos bem, no Brasil de 2020 fatos se confundem com opinião e correções factuais por vezes são encaradas como ataques pessoais. É preciso tato para contradizer alguém em um grupo e estar ciente de que mesmo assim alguns abalos serão inevitáveis.

O isolamento mexe com a nossa cabeça. O contato virtual, embora amenize a solidão dos cenários de confinamento, não é a mesma coisa. A internet, em especial as redes sociais (e inclua aí o WhatsApp), tem um poder descomunal de achatar relações e reduzir a nossa empatia. Escrevemos e dizemos coisas no celular que, ao vivo, provavelmente não repetiríamos. O consenso é mais difícil, a paciência, menor.

O que acontece na tela do celular é uma espécie alternativa do fenômeno sociológico da “interação parassocial”, como lembrou Christopher Mims em sua última coluna no Wall Street Journal, intitulada “A internet não nos salvará da solidão na pandemia”. Cunhado nos anos 1950 pelos pesquisadores Donald Horton e Richard Wohl, ele descreve o vínculo emocional que muitos de nós criamos com pessoas e personagens dos meios de comunicação de massa. Explicando pelo exemplo, é quando respondemos “boa noite” ao William Bonner no encerramento do Jornal Nacional. A internet transformou essa relação, que no rádio e na TV era de mão única, em uma via expressa que vai e volta, potencializando a ilusão da companhia, ou um substituto pobre de interação humana real, presencial. Nada, nem mesmo as vídeo conferências, substitui esse contato direto do qual estamos sendo privados temporariamente por um motivo absolutamente justificado.

O Brasil ainda coloca um ingrediente extra picante nesse caldeirão: um presidente irresponsável, que já definiu a pandemia como “fantasia”, desafia reiteradamente as orientações e ações do seu próprio ministro da Saúde e se aproveita da situação para avançar agendas pessoais. Em grupos que não racharam por divergências políticas, o comportamento de Jair Bolsonaro, que no mínimo deveria atuar para nos unir face à ameaça do coronavírus, serve de combustível para atiçar os ânimos.

Vendo o copo meio cheio, é provável que, após as últimas eleições, muitos de nós tenhamos feito uma limpa nos grupos mais explosivos e criado anticorpos para conter impulsos e ignorar discussões com pessoas mais próximas das quais divergimos. (Quantas vezes já não apaguei mensagens antes ou imediatamente após enviá-las ou saí de grupos para evitar conflitos virtuais com pessoas queridas.) São medidas drásticas de auto-controle — ou covardia pura e simples, defina como quiser —, mas que em situações estressantes ajudam a acalmar o ambiente.

Esses últimos anos de polarização deixaram marcas em muitos de nós. Noto-as em mim, nesta coluna: ao perceber que a comunicação virtual se intensificaria na mesma proporção em que nos isolamos a fim de combater o novo coronavírus, me veio primeiro à cabeça as consequências negativas, e não as positivas da tecnologia. Mas é bom relembrar que elas existem e serão especialmente úteis agora.

Foto do topo: Mikoto.raw/Pexels.

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9 comentários

  1. Inútil, Ghedin. Incentivados por imbecis, as pessoas vão continuar se aglomerando, negligenciando protocolos básicos de comportamento, espalhando desinformação via redes sociais e insultando a inteligência alheia.

  2. Eu já apaguei o Zápi Zápi e estou só no Telegram. Mente cansadíssima de tanta confusão, barraco, áudio, vídeo e notícia falsa.

  3. O Ghedin devia começar a pegar leve nas cutucadas em quem olha pro lado diferente do dele.. Já tá cansando….

  4. Ghedin é um dos poucos jornalistas que, mesmo tendo visão política diferente da minha, consigo ler (e até gostar) suas matérias. Parabéns!

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