iOS 14 e o “absurdo” do consentimento informado na cessão de dados pessoais

iPhone visto sobre os ombros de uma pessoa.

Se este site que lhe perguntasse, sem enrolação, se você permitiria que ele coletasse dados pessoais seus para fins de publicidade e medição de audiência, você concederia? Desde que a GDPR, a lei de proteção de dados pessoais da Europa, entrou em vigor, isso virou rotina em sites estrangeiros. Pode parecer que não, mas só porque os donos de sites tentam maquiar o pedido para dissuadi-lo de negar a cessão de dados.

O dinamarquês Mark Saric resolveu fazer um teste. Ele configurou dois sites, um de tecnologia com a maior parte do tráfego recebido de buscadores como o Google, outro de estilo de vida com o grosso das visitas de redes sociais, com um popup que perguntava ao leitor, bem objetivamente e com botões de “sim” e “não” destacados, se ele topava conceder seus dados.

Sem surpresa, apenas 9% dos visitantes concederam seus dados.

O anúncio do iOS 14 tem causado comoção na indústria publicitária. Semana passada, 16 associações, algumas apoiadas por Facebook e Alphabet (holding do Google), criticaram publicamente a Apple, segundo a Reuters. Na nova versão, que deve chegar a centenas de milhões de iPhones e iPads até o fim do ano, um app que queira rastrear a atividade do usuário usando o identificador de publicidade (IDFA) precisará obter uma autorização expressa dele, na forma de um popup com botões de “sim” e “não”, exatamente como no experimento de Saric. O resultado deste explica a preocupação das associações do setor.

Exemplo de popup do iOS 14 de app pedindo autorização para rastrear usuário.
“[App] quer permissão para rastreá-lo em apps e sites de outras empresas. Seus dados serão usados para entregar publicidade personalizada a você.”
A abertura da web, sua grande virtude, representa uma desvantagem nessa negociação da privacidade dos usuários. A GDPR e, antes dela, iniciativas como a Do Not Track, confiam na boa vontade de quem depende da publicidade para existir. Traduzindo em uma metáfora, essas iniciativas bem intencionadas confiam ao lobo os cuidados do galinheiro.

Ilustração com uma mãozinha depositando uma moeda em uma caixa com o logo do Manual do Usuário em uma das faces, segurada por dois pares de mãos. Ao redor, moedas com um cifrão no meio flutuando. Fundo alaranjado.

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O jardim murado da Apple, que pese todos os seus problemas, tem essa vantagem: as políticas apresentadas são aplicadas, e raramente gambiarras para burlá-las funcionam. Há alguns anos, por exemplo, o iOS permite a instalação de “bloqueadores de conteúdo” — na prática, bloqueadores de anúncios abusivos. Há anos, também, tecnologias de bloqueio automático de rastreamento cruzado de sites têm sido aperfeiçoadas no Safari, o que faz desse navegador um dos melhores do mercado. (Justiça seja feita, o Firefox também está na vanguarda nesse aspecto.) Agora, chegou a vez de acabar com os abusos perpetrados pelo IDFA.

A existência do IDFA, um identificador de uso exclusivo da publicidade, era uma mancha no discurso pró-privacidade da Apple. Este Manual do Usuário já havia chamado a atenção ao problema. Em vez de eliminá-lo, a solução encontrada pela Apple é melhor: expor as empresas que abusam do IDFA. Ninguém pode acusar a Apple de não oferecer aos anunciantes um mecanismo de rastreamento dos usuários. Quer usá-lo? Sem problema, mas agora o usuário será informado e terá que consentir primeiro.

A choradeira da indústria antevê o resultado que todos, ela inclusive, esperam: que o usuário bem informado não topará ceder seus dados a troco de nada. Não é confabulação; aquele grupo de associações europeias informou que a novidade representa “um alto risco do usuário se negar [a ceder dados pessoais]”.

Esta situação demonstra como a publicidade digital está quebrada — e como isso é intencional. Parte-se da premissa equivocada de que as pessoas concordam ou não se importam em serem rastreadas para que lhe sejam exibidos anúncios personalizados.

Importante notar que a Apple não está impedindo aplicativos e sites de veicularem anúncios. O que se combate aqui é a coleta e o processamento de dados pessoais sem o consentimento informado dos usuários. Tampouco se impede a coleta de dados não pessoais — e nem precisa de consentimento para coletá-los. Esses, porém, têm menos valor que os pessoais.

Existe um conceito chamado “janela de Overton”, o que alguém já descreveu como a “zona de conforto das opiniões públicas”. Segundo esse conceito, há uma janela (ou intervalo) na escala de aceitação de temas passíveis de debate público, e essa janela seria móvel, ou seja, mudaria com o passar do tempo, tornando aceitáveis ideias que, anteriormente, eram consideradas radicais. Pense no direito universal ao voto, que devia ser uma excentricidade há um século, mas que, em algum momento posterior, entrou no debate público e se fez prevalecer como o mais justo.

O consentimento informado do usuário na cessão ou não dos seus dados pessoais ainda está fora da janela de Overton da publicidade digital. As empresas do setor agem como se fosse absurda a ideia de que alguém não queira ceder seus dados ao visitar um site ou usar um aplicativo, como se lhe fossem de direito o acesso irrestrito sem o devido consentimento nosso. Mudanças como a da Apple no iOS 14 ajudam a movimentar a janela em direção à razão.

Foto do topo: Charles Deluvio.

Edição 20#24

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16 comentários

  1. Instalei a beta pública do iPadOS e descobri que o site do EAD da Anhanguera é o que tem mais rastreadores. Fico me perguntando pra que tudo isso? 🤔

  2. É muito bom saber que está navegando por sites, e que estes não podem fuçar no seu navegador como se tivesse o direito de “não bater, e já ir entrando”. Parabéns pra maçã!

  3. No meu entendimento as medidas pró-privacidade da Apple soam como um paradoxo.

    Ao mesmo tempo em que a empresa toma uma direção oposta a do Google em termos de recuperação, rastreamento e uso de dados pessoais, criando esse tipo de proteção e escolha dentro do seu ecossistema; também poda toda e qualquer possibilidade de escolha para aplicativos dentro desse mesmo ecossistema (mesmo no macOS, depois de um tempo sem usar eu tive dificuldade de descobrir onde eu desabilitava o File Vault, mas essa política é muito mais forte no iOS e iPadOS) nos direcionando para a loja de aplicativos da própria Apple que, para além das taxas abusivas, é um local de controle total dos aplicativos (funções, operações, assinaturas, métodos de pagamento, políticas de uso etc) que é vantajoso para grandes atores do mercado e para a própria Apple.

    Me soa paradoxal. Ou melhor, business as usual.

    1. Concordo que as restrições da App Store são nocivas e deveriam ser revistas, mas não acho que o modelo em si seja bom só para grandes atores do mercado e a própria Apple. A App Store tem duas enormes vantagens para o usuário comum: segurança e comodidade.

      Se fizermos um contraponto com as soluções que existiam antes dela (Symbian e Windows Mobile), a App Store fica ainda mais interessante. Ela transformou o ato de baixar apps de um risco derivado de um processo muitas vezes complexo (aqueles certificados do Symbian eu mesmo nunca entendi direito) para um negócio que você faz com dois toques, incluindo pagamentos, com toda a segurança na transação e de que a instalação de um app qualquer/desconhecido não vá ferrar seu dispositivo nem te aplicar um golpe. Tanto tem valor que todas as outras empresas de sistemas operacionais emularam o modelo nos anos seguintes.

      Para mim, o modelo do Android é um bom meio termo: tem-se uma loja oficial, da fabricante do sistema operacional, mas deixa-se aberta a possibilidade de instalar lojas alternativas. Pena que, ao que tudo indica, É o Google quem se aproximando do modelo mais restritivo da Apple e não o contrário.

      1. A reposta vem no seu próprio exemplo, não?

        Se o Google vai copiar é, exatamente, porque esse modelo murado é melhor para as big techs do que para os usuários. Eu não vejo uma “preocupação” com a segurança da plataforma ao impedir ou dificultar a instalação de um app fora da loja; o que eu vejo é a tentativa de manter controle sobre os dados de compra/venda de aplicativos e telemetria de uso. Mesmo que de forma anônima.

        Atualmente, a cada anúncio da Apple, me parece que o produto deles é menos um iPhone ou iMac e mais a segurança/privacidade e estas você só alcança usando os produtos (caros) deles. Você pode usar Windows ou Android, mas, com isso você está entregando os seus dados pra todo mundo que quiser.

        Aliás, no próprio Windows, desde o 8, é cada vez mais chato de instalar qualquer aplicativo “não assinado” (leia-se: uma release baixada no Github, por exemplo) porque o Windows Defender (ainda é esse o nome?) te “protege” de um possível software malicioso.

        No meu ponto-de-vista não tem nenhuma proteção aí, apenas um modelo de negócios que visa maximizar o lucro vendendo o medo (de roubarem os seus dados) e a segurança de sempre ter um aplicativo “estudados” pela Apple/Google/MS ou qualquer outra empresa que seja.

        No mais, extrapolando, se esse modelo vira regra o problema atual das escolas com EAD vai se tornar mais e mais comum: pessoas que não sabem usar um computador/telefone de fato e sim apenas determinados aplicativos.

  4. As ações focadas em privacidade e processamento local da Apple vêm me chamando muito a atenção para o seu ecossistema. Acho que só falta o preço dar uma diminuída agora :p

  5. Acho ótimo mais recursos de segurança, especialmente no iOS que é o que uso. Mas li um comentário que dizia que isso não é bom por parte da Apple já que, sabendo que publicidade é o principal ramo de faturamento da Google, essa seria uma forma proposital de “quebrar as pernas” da concorrente e não porque a Maçã realmente se preocupa com os usuários. Faz sentido? Num sei…

    1. Não acho que as empresas tocam seus negócios com essa visão personalista. A Apple apostar em soluções de privacidade é um diferencial competitivo que, por acaso, atrapalha o negócio do Google — é uma consequência, não a motivação para esses recursos pró-privacidade.

      Tanto é o caso que, em outra frente, o Google paga bilhões de dólares todo ano à Apple para permanecer como buscador padrão no Safari. Como disse o Paulo em outro comentário, “business as usual”.

  6. Como usuário de dispositivos Android, gostei muito dessa funcionalidade no iOS 14 pois agora nós usuários de Android vamos perguntar ao Google: “E aí, em qual versão teremos isso no Android?”.

    Sei que o Google vai tentar ignorar ou dificultar esse recurso, no entanto, cabe a nós pressionar (e incentivar os usuários mais leigos a cobrar) e não dar crédito em aplicativos que queiram reduzir funcionalidades quando não quisermos permitir a coleta de dados pessoais para fins de publicidade personalizadas.

  7. A tendência agora é as empresas limitarem as funções de seus aplicativos para usuários que se recusam a autorizar que seus dados sejam dados de bandeja à elas. É o que acontece quando entro em alguns sites com a proteção aprimorada contra rastreamento do firefox ativada. Certas divs só aparecem quando desativo a proteção.

    1. Por que o Google iria ter interesse em oferecer esse recurso ou ter essa preocupação, visto que, mais do que uma empresa de tecnologia, é antes de tudo uma empresa de publicidade?

      (Essa é uma pergunta retórica, e a resposta óbvia dela é o principal entre os muitos motivos que me fazem preferir o ecossistema da Apple.)

        1. Está sim. Ele está com um problema técnico e o meu host é no estilo “a gente cobra pouco mas qualquer problema é com você”. Toda vez que eu tento arrumar eu me frustro com as paradas de servidor, SSH, essas coisas… aí acabo me irritando e deixando pra depois. E assim tá indo, até agora.

          Mas eu definitivamente quero tentar de novo e voltar a escrever lá, tá na lista de tarefas pra esse fim de semana gastar um tempo com isso.

    2. Fiquei surpreso quando descobri que o Google permite desativar a personalização de anúncios (IDFA) no Android. (Aqui explico como, no final do texto.) Óbvio que para o Google isso não faz muita diferença, afinal eles controlam o sistema inteiro, mas é um movimento surpreendente, de qualquer forma.

      O próximo passo seria explicitar a existência desse negócio, que é o que a Apple está fazendo no iOS 14.

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