A Apple deveria mudar este detalhe do iOS para manter seu discurso pró-privacidade coerente

iPhone sobre mesa com mensagem pró-privacidade escrita por cima da imagem.

A nova campanha de marketing da Apple ressalta a privacidade que a empresa garante em seus produtos (veja o vídeo). Não é de hoje que a Apple transformou a privacidade em argumento de venda — e item de luxo — em contraponto ao Android do Google e a praticamente toda a indústria de tecnologia. Por isso, ao ver a nova campanha da Apple, a Fundação Mozilla trouxe à tona um questionamento pertinente: e o IDFA?

IDFA é a abreviatura em inglês de “identificador para anunciantes”. Trata-se de um número único que todo iPhone tem e que pode ser acessado por aplicativos e anunciantes a fim de traçarem perfis de consumo e comportamento dos usuários. “É como um vendedor que te segue de loja em loja enquanto você faz compras e registra cada produto que você olha”, compara a Mozilla.

Embora o iOS e o tvOS (do Apple TV) ofereçam uma opção que, ativada, anula o IDFA, a Mozilla argumenta que ela não deveria ser opcional, mas sim vir ativada por padrão. Dada a ênfase com que a Apple ressalta a privacidade dos seus produtos, parece um pedido razoável.

A opção fica em Ajustes > Privacidade > Publicidade. Ali, ative o seletor de Limitar Publicidade Rastreada.

Print das configurações do iOS onde é possível anular o IDFA.
Ative esta opção para não ser monitorado. Imagem: Apple/Divulgação.

Não encontrei confirmação, mas aparentemente o iOS retorna à opção padrão do IDFA toda vez que é atualizado. Então, lembre-se de reativar a limitação sempre que atualizar o sistema.

Esse recurso já teve uma melhoria importante em 2016, no iOS 10. Até então, ao limitar o compartilhamento do IDFA, o sistema enviava a apps que o requisitava um “alerta”. Desde então, passou a mandar um IDFA padronizado (uma sequência de zeros). Desse modo, fica mais difícil a anunciantes conseguirem identificar um aparelho por outros sinais. Bom, mas de nada adianta esse cuidado se a maioria dos usuários jamais descobrir que esta opção existe.

A Mozilla colocou no ar um abaixo-assinado para pressionar a Apple a mudar o comportamento padrão do iOS em relação ao IDFA. A fundação propõe um meio-termo: que a Apple altere automaticamente o IDFA dos aparelhos mensalmente. Desta forma, os usuários ainda receberiam anúncios personalizados, mas ficaria mais difícil aos anunciantes criarem perfis detalhados.

A Mozilla reconhece que a Apple tem um “histórico notável de proteção da privacidade do usuário” e diz que, além de alinhar discurso e prática, a mudança na configuração do IDFA tem o potencial de reverberar em toda a indústria. “Se a Apple fizer essa mudança”, diz a Mozilla, “não seria apenas a privacidade do iPhone que melhoraria — ela enviará ao Vale do Silício a mensagem de que os usuários querem empresas que resguardem sua privacidade por padrão”.

O mesmo no Android

Por incrível que pareça, o Android tem uma opção similar. Para desativar o identificador de publicidade, acesse as configurações, entre em Google e, depois, em Anúncios. Ali, ative a opção Desativar a Personalização de anúncios. Note que, em alguns modelos de Android, o caminho para se chegar a essa configuração pode ser levemente diferente.

Prints mostrando como desativar o ID de personalização de publicidade no Android.
Caminho na One UI, interface dos celulares Android da Samsung.

É uma boa ideia, caso o seu intuito seja limitar a exibição de publicidade segmentada, desativar essa personalização em sua conta Google também. Para isso, acesse a página de configurações de anúncios, certifique-se de estar logado em sua conta e, nessa tela, desative o grande seletor de personalização de anúncios.

Apenas para reforçar: em ambos os casos, Android e iOS, desativar a personalização não significa bloquear os anúncios. O que muda é que, em vez de os sistemas automatizados de entrega de publicidade terão menos sinais de interesses e gostos na hora de servir as peças publicitárias.

Imagem do topo: Apple/Divulgação.

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8 comentários

  1. Obrigado ao Manual do Usuário por dar a importância que o tema merece. É um dos poucos blogs que fala disso. As pessoas, em geral, dizem o famoso “não tenho nada a esconder” (quando todos sabem que todo mundo tem algo a esconder), e alguns até o exemplo matrixiano “eu prefiro é que mandem anúncios de produtos que eu vou gostar em vez de liquidificador”.

    Enfim, é sempre uma luta. O problema dessas soluções é que não sabemos se a empresa respeita ou não a intenção do usuário. Eu pessoalmente DUVIDO que o Google pare de rastrear um usuário porque ele pediu.

  2. Acredito que a informação da matéria está correta. Ativei o IDFA há um tempo e quando fui ver agora se continuava ativo, estava desmarcado…

  3. Fiquei impressionado pelo Android ter essa opção, já até ativei aqui.

    E em relação a conta google, já tinha feito de acordo com o tutorial do MdU outra vez.

    O Safari teve uma atualização (não lembro o nome) que tornava impossível rastrearem o usuário, acho que era fingerptrint o nome, quase nunca vi ninguém falar sobre, conhecem outros navegadores que adotem? pq na época testei um site e nenhum navegador conseguia bloquear.

    1. O Safari é, até onde eu sei, o único que tem esse recurso. Ele é chamado de Intelligent Tracking Prevention e faz mais do que apenas prevenir fingerprint — algo que o Firefox vai trazer em uma versão futura —, ele faz com que botões sociais, por exemplo, parem de te rastrear de um site para outro.

      A Apple comprou uma puta briga com anunciantes na época em que isso foi anunciado, por isso pra mim não faz muito sentido o IDFA não estar ativo por padrão no iOS, já que mostraram ter “coragem” de bater de frente com a indústria publicitária antes.

      Off-topic: Mozilla, tá na hora de focar na privacidade do Firefox também. Desativar a telemetria que vem ativa por padrão seria um bom começo.

      1. Telemetria é usada pra vender anúncios?

        Quando eu instalo o FF aqui ele pergunta se eu quero ativar ou deixar desativado (o padrão é ativado) como quase todos os outros SW no Windows que perguntam se eu quero enviar informações sobre o uso/bugs automaticamente.

        1. Telemetria são relatórios técnicos de uso/crash que são enviados para a empresa que desenvolve o produto, e depende da política de privacidade das empresas. Eu ainda iria além e diria para ver quais tipos de produtos a empresa vende, por exemplo: a Mozilla tem o Firefox, mas também tem o Pocket (que também tem personalização de anúncios), a Microsoft tem o Bing, que lucra via anúncios personalizados também (apesar que em ambas o lucro desses produtos é ínfimo, sendo a Microsoft sustentada mais pelos serviços como Office 365, Xbox Live Gold e Azure e a Mozilla via doações), e dá para tirar suas próprias conclusões se deve confiar ao menos um pouco nessas empresas.

          1. Confiar eu não confio em nenhuma, mas certamente confio menos na Apple pelo que ela faz com as revendas e suporte técnico terceirizado. Ainda me cheira muito mais como verniz essa coisa de “privacidade” vinda da Apple, não que eu não acredite que ela tem mais privacidade que o Android, MS e Facebook (não é uma régua muito alta, vá lá), mas privacidade sem liberdade não me adianta de nada, e liberdade é tudo o que não se tem na Apple.

      2. Aliás, o Privacy Badger da EFF é uma solução melhor do que o Tracking Prevention do Safari. O do Safari, até onde me recordo, tem uma lista para se basear, ao passo que o PB usa o comportamento do site para ter uma melhor resposta.

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