Palco da WWDC exibindo o Fotos com recursos de privacidade.

Ao fazer da privacidade um diferencial, empresas de tecnologia transformam direito em luxo para poucos


13/6/18 às 15h35

Recentemente, a Apple fez uma pequena alteração nas regras da App Store. Agora, apps estão proibidos de criar bancos de dados de contatos para uso próprio ou para venda ou distribuição a terceiros a partir dos contatos cedidos pelo usuário, podendo ser banidos se forem flagrados fazendo isso. É uma mudança significativa em prol da privacidade, mas que, para mais de 90% dos brasileiros que usam Android, não fará muita diferença.

Não é de hoje que a Apple usa a privacidade como diferencial no acirrado mercado da tecnologia pessoal. É um posicionamento raro para uma empresa do setor — esse que, em geral, bebe sem moderação de grandes quantidades de dados para gerar receita. A postura mais consciente em relação à privacidade costuma ser vista apenas em organizações sem fins lucrativos, como a Mozilla (do navegador Firefox) e a Open Whisper Systems (do Signal, app similar ao WhatsApp).

Praticamente tudo que há nessa lacuna entre a Apple (maior empresa de capital aberto do mundo) e essas iniciativas quase filantrópicas (que dependem de doações para funcionarem), ou seja, o grosso do que abastece a maior parte do mercado de tecnologia pessoal, dificilmente escapa do uso de dados para fins lucrativos.

Se Facebook e Google são os alvos mais óbvios, eles estão longe de serem os únicos ou os mais perigosos. Uma infinidade de empresas menores absorve o máximo possível dos nossos dados para, quase sempre, direcionarem anúncios. Recentemente, o BuzzFeed publicou uma grande reportagem sobre o tema.

A brecha que a Apple fechou deve impedir que a lista de contatos, um dos tipos de dados pessoais mais valiosos que existem, seja violada indiscriminadamente, como vinha acontecendo.

No Android, não há nada parecido. E mesmo que houvesse, seria uma medida hipócrita porque o próprio Google, que controla o sistema e a Play Store, é a maior empresa de tecnologia que depende de dados para gerar receita. É por esse mesmo motivo que o bloqueador de anúncios nativo do Chrome é tão ruim e fica apenas na superfície, sem afetar o monitoramento do usuário. Há um conflito de interesses.

Nesse cenário, alguém que se preocupa com a própria privacidade não precisa pensar muito: basta escolher um iPhone em vez do Android. Certo? Não exatamente. O iPhone mais barato custa R$ 2 mil; o Android mais em conta, menos de R$ 400. Para a maioria das pessoas conectadas e para o próximo bilhão que o Google quer conectar através de smartphones super baratos rodando o Android Go, o iPhone não é uma opção.

Essa fragmentação se repete frequentemente na tecnologia pessoal. Ora, se repete em todos os setores, é inerente ao capitalismo. Em linhas gerais, quanto mais dinheiro, melhor o serviço. Enquanto as diferenças estão limitadas a uma roupa mais bonita, a uma TV maior ou a um sofá mais confortável, tudo (mais ou menos) bem. O problema acontece quando se vincula direitos básicos, como a privacidade, à lógica do mercado. Sim, a conta precisa ser paga por alguém e de alguma forma, mas não sacrificando a privacidade, transformando-a em uma mercadoria de luxo.

Alguém inevitavelmente dirá que “não tem nada a esconder” ou que não se importa que o Google, o Facebook ou qualquer terceiro desconhecido coletem, usem e vendam seus dados. É algo ignorante a se dizer, mas muito corriqueiro e, em certa medida, compreensível. Privacidade é um conceito recente, meio abstrato e como o ar — no sentido de que só damos por sua falta quando somos privados dele.

Quando confrontado por argumentos assim, gosto de recorrer aos juristas Samuel D. Warren e Louis Brandeis, que, em 1890, escreveram um artigo intitulado O direito à privacidade, considerado o marco inicial da ideia moderna de privacidade. Para eles, em linhas gerais a privacidade é “o direito de ser deixado em paz”. Online, isso se desdobra na tranquilidade de não ser perseguido por anúncios de um produto que pesquisei agora pouco, bombardeado por propaganda segmentada o tempo todo ou ter meus dados vendidos ou vazados por terceiros.

Em uma sociedade livre e saudável, isso não deveria ter preço.


Leia também: Privacidade é um luxo, da mesma forma que um iPhone de US$ 1 mil (em inglês)

Foto do topo: Apple/YouTube.

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7 comentários

  1. Ghedin, o Blackberry Key2 pode fazer frente na questão privacidade do iPhone (e produtos Apple) ou sem chance por ser Android? Ando lendo que ele é forte em segurança e pode ser uma opção com preço, talvez, melhor que um iPhone… Eu acho iPhone caro e me ligo em privacidade. Talvez até pudesse comprar um se juntasse uma grana e tal, mas ainda não vejo a Apple como uma empresa bem resolvida no quesito privacidade, pois eles já agiram de modo “sorrateiro” em outras questões, como a busca por formas de pagar menos impostos enqto cobravam moralidade nessa área.

    De todo modo, ainda espero o smartphone perfeito ser lançado pra mim: tecladinho físico (o do blackberry key2), câmera monocromática (como qualquer um da huawei com esse recurso), amplificador de som (tem o lg v20 e o v30 q, parece, são bons nisso) e forte em privacidade (tipo o librem 5, da purism, q ainda não é comercializado)…

  2. Porém nem tudo são flores. Ela cobra caro por essa privacidade, oferece serviços inferiores à concorrência e ainda com um baita atraso. Ela está vendo que não está adiantando apenas ter privacidade, então está tentando dar a volta nisso usando o conjunto de privacidade + processamento local para vender algo que já é oferecido faz tempo. Isso se oferecer. Exemplo a Siri, introduziu o Shortcuts que nada mais é que um Workflow onde o usuário é que tem que ser inteligente, criar os atalhos e tudo mais. Não estou criticando a utilidade em si (adoraria ter isso mesmo que usando em pouquíssimos momentos), só que a Siri continua ruim, simples. Oferecer machine learning local também é massa, porém em serviço ainda inferior à concorrência. Quando um usuário percebe que não adianta seu aparelho ser blindado se a pessoa em si não é e tem tudo sobre ela online, a “privacidade” vendida pela Apple passa a parecer um doce gourmet, parece melhor mas dá elas por elas como qualquer outro, só que mais caro.

    1. Maicon, novamente você joga argumentos anedóticos como se fossem fatos. “Serviços inferiores” e “com um baita atraso”, no caso. Eu uso os serviços da Apple e usei, por muito tempo, os do Google. São abordagens diferentes, mesmo nos casos em que os apps/serviços servem a um mesmo fim.

      Os Shortcuts são mais que o Workflow. Desenvolvedores poderão sugerir atalhos para a Siri e a Apple traz alguns pré-definidos, ou seja, não depende exclusivamente do usuário. Tem um texto bem detalhado no MacStories que explica todas as nuances dos Shortcuts: https://www.macstories.net/stories/shortcuts-a-new-vision-for-siri-and-ios-automation/

      E quanto a ser mais caro, isso está posto. É o argumento central do texto, de que a privacidade que a Apple oferece custa caro e isso não deveria ser algo tão restrito.

  3. Algumas das melhores coisas é para quem pode pagar por elas. Quem discordar que se mude para outra dimensão.

    Lamentável a privacidade eletrônica não ser um direito, mas um produto.

    abs!

  4. Pena que muita gente não liga pra isso, e os que tem iphone também não ligam, pois o tem por outros motivos, não por causa da privacidade.

    1. Acho q não é por aí. As pessoas não estão suficientemente informadas sobre esses aspectos ligados à privacidade, pois as empresas não esclarecem, o governo tb não e uma parte pequena da imprensa especializada chama a atenção para este ponto (o MdU é uma exceção). Se as pessoas ficarem mais por dentro desse assunto, aumentará a pressão sobre as emempresas e governos. O Marco Civil da Internet taí pra ajudar tb.

      E tem outra: qdo ativistas se mobilizam são logo tachados de vagabundos pela turminha reacionária dita afeita ao pensamento científico, mas q no fundo é obscurantista que só.