Fundo azul, com uma chamada para um PlayStation 5 no centro. À esquerda, a frase “Ofertas de verdade, lojas seguras e os melhores preços da internet.” À direita, “Baixe o app do Promobit”.

Quando um computador se torna obsoleto?

Dois notebooks e um iMac rodando macOS Ventura de um lado, e um MacBook Air, cortado do enquadramento, com o macOS Monterey (versão anterior).

Em junho de 2021, a Microsoft deu um banho de água fria em muita gente no anúncio do Windows 11: a nova versão só seria compatível com computadores que têm o Trusted Platform Module (TPM) 2.0, um módulo de segurança que só se popularizou em processadores e placas-mãe comerciais a partir de 2017.

Um ano depois, na última segunda (6), durante a abertura da WWDC, foi a vez da Apple promover ruptura similar, porém sem especificar o motivo. A próxima versão do seu sistema para computadores, o macOS Ventura, é incompatível com qualquer Mac lançado antes de 2017 — e com alguns lançados em 2017, como o MacBook Air.

É uma pena. A menos que você tenha rotinas específicas no computador — renderização de vídeos, programação, cálculos complexos ou games —, é bem provável que computadores lançados há mais de uma década ainda deem conta do recado.

Escrevo este texto em um MacBook Pro de 2015, o último modelo antes da conversão da Apple ao USB-C e daquela sucessão de notebooks com teclados ruins, suscetíveis a falhas. Funciona. Ele reclama na hora de editar os vídeos simples do nosso canal e demora um pouco mais do que eu gostaria para abrir aplicativos pesados e lidar com arquivos grandes, mas para navegar na web, ler e escrever textos como este — ou seja, boa parte da minha rotina —, é suficiente. Satisfatório, até.

Por que ele foi deixado de lado? Não sei. Alguém cínico diria que é obsolescência programada. Alguém mais analítico, que deve haver uma limitação técnica.

São explicações convincentes, ainda que mesquinhas e/ou insatisfatórias. Não acredito, de verdade, que este computador seja incapaz de rodar o novo aplicativo de previsão do tempo, os novos recursos de agendamento de e-mails no Mail.app ou o revolucionário recurso de marcar mensagens como não lidas do Mensagens — algumas das novidades do macOS Ventura a que eu e meu computador não teremos acesso.

A Apple tem um esquema padronizado para suporte a hardware. Produtos que deixam de ser vendidos passam por dois estágios antes de serem completamente abandonados. Primeiro, quando estão fora de catálogo há cinco anos, tornam-se “clássicos”, eufemismo para suporte limitado. Depois, quando o período fora das gôndolas ultrapassa sete anos, eles são tachados de “obsoletos” e perdem qualquer garantia de suporte.

Esse arranjo diz respeito apenas ao hardware, a reparos e consertos de aspectos físicos dos produtos. Nada de software. Mas se a ideia é desenvolver produtos “para serem duráveis” em respeito ao meio ambiente, como a referida página da Apple destaca logo no início, não seria de bom tom estender ao máximo as atualizações de software de todos eles?

(Nem entrarei no mérito do Apple Watch Series 3, que ainda é vendido pela Apple, mas não receberá o watchOS 9, anunciado também na WWDC.)

Os ciclos cada vez mais curtos da indústria, no hardware (novos computadores lançados o tempo todo) e no software (uma grande atualização todo ano), aumentam na mesma proporção o trabalho de manter sistemas antigos atualizados. Isso talvez explique o abandono precoce de produtos ainda capazes.

É verdade que o meu notebook e outros abandonados em anos anteriores continuarão recebendo correções de segurança. Até hoje versões antigas do macOS, como Mojave e Big Sur, continuam sendo remendadas. Bom, mas isso é o mínimo.

(Outro assunto que não detalharei, mas que vale uma revisita, é o aparente esforço da Microsoft em acabar com o computador físico e voltar ao modelo de terminal remoto. Em julho de 2021, a empresa lançou o Windows 365, um Windows “por streaming”/assinatura, rodando na nuvem da empresa e, por ora, disponível apenas para clientes corporativos.)

O problema, ao que parece, é sistêmico. Mesmo a Apple, que conseguiu transformar longevidade do seu hardware em diferencial competitivo, mantendo iPhones de cinco anos atualizados, tem um limite na conciliação desse discurso com o da necessidade de vender mais e mais1.

Quando soube do fim da linha do meu MacBook Pro, por curiosidade fui procurar os requisitos mínimos de algumas distribuições Linux, como Ubuntu e Fedora. Processador dual core, 2 ou 4 GB de RAM, 15–25 GB de espaço em disco — em outras palavras, qualquer batata lançada nos últimos 15 anos. O Linux para computadores pessoais tem suas particularidades e deficiências, mas em matéria de longevidade é exemplar.

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Montagem do topo: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário, com fotos da Apple/Divulgação.

  1. A propósito, iPhone 6S, SE de 1ª geração e 7 ficaram de fora da lista dos elegíveis a receber o iOS 16.

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24 comentários

  1. Quando um computador se torna obsoleto? Não sei responder, mas deveria demorar muito mais do que as pessoas normalmente pensam. Muita gente sai comprando o novo mesmo que o antigo ainda lhe atenda muito bem, pelo simples fato de ter o novo, te estar “por dentro”.

    Em casa, no momento, estou usando o ‘Noah’. Ele é o meu desktop de trabalho/diversão/etc, e constitui em um Core2Quad Q9550S, 8 GB DDR2, SSD 120 GB, Geforce GTX 645. Atende perfeitamente o meu uso (serviços de administração da minha empresa, estudos em TI e um pouco de programação).

    No trabalho tenho um laptop da Acer, velhinho, velhinho. Pentium P6000, 4 GB DDR3 e SSD 120 GB. Serve para serviços burocráticos da empresa e controlador da minha CNC laser através do Lightburn.

    Ambos são máquinas consideradas ‘velhas’, mas estão aí funcionando firme e forte.

  2. Minha máquina pessoal é um Lenovo ThinkPad T430, uma máquina lançada em 2011, vim um processador Intel Core I5, 8GB de RAM e um SSD de 128GB. Rodo distribuições Linux atuais, como o Fedora, Ubuntu, Mint, Deepin, sem engasgo algum. 90% do tempo uso o browser, mas ainda edito fotos no Gimp e Vídeos no kdenlive, logicamente com moderação.

  3. No início a gente sofre, depois acostuma. Quando meu iMac de 2009 deixou de receber versões mais novas, ficando no El Captan, uma ponta de decepção surgiu em relação a Apple. Tentei digerir isso e acabei me senti frustrado. Com o tempo a gente relaxa e aceita, porque dói menos. Já com o MacBook Air não tive essa insatisfação. Acostuma-se a encarar com naturalidade quando a Apple “mata” um hardware que ainda tem potencial e que não é barato. Como sou cria do Linux, nada que uma instalação da distro preferida não resolva. O que mais me deixa indignado é que eles te entregam um puta de um hardware que em no máximo cinco, seis anos, pra eles fica obsoleto. Tá explicado o lucro da maçã.

  4. Divagando sobre o assunto, meu último iMac, de 2011, deixou de ter atualizações apenas em 2017 no High Sierra, porém, apenas mais tarde deixou de ter suporte a vários apps que eram importantes para o meu trabalho. Entre a obsolescência “programada” e a obsolescência real foram 3 anos. Vendi ele com 9 anos de estrada para uma nova dona que considerava ele ideal para suas tarefas e cumpria suas expectativas. Ele deixou de ser obsoleto e voltou a ser útil.

    Bom, a minha resposta para a pergunta proposta na chamada é: Algo se torna obsoleto quando ele deixa de atender suas tarefas e expectativas.

  5. Estava indo responder a pergunta do título, mas você comentou no último parágrafo.
    “Quando um computador se torna obsoleto?”
    “Quando nenhum sistema baseado em Linux rodar nele.”

    Infelizmente, o conceito de obsoleto se distorceu muito. Cansei de pegar computadores que foram descartados, dar um reformada e doar estando funcionais.

    Dependendo do uso, esse prazo para se tornar obsoleto demora e muito.

  6. “O Linux para computadores pessoais tem suas particularidades e deficiências, mas em matéria de longevidade é exemplar.”

    E ainda assim, está matando o suporte a processadores de 32 bits mais rápido que o Windows, algo que eu jamais pensei em ver. Embora velhas, algumas dessas máquinas ainda dão conta de tarefas mais leves e, mesmo assim, praticamente nenhuma distro das “grandes” suporta essa arquitetura. E mesmo as distros mens conhecidas estão aposentando o suporte.

    1. O que ainda tá segurando é o Debian também. Fedora não vai construir mais pacotes 32bits, só alguns que a Steam e outros mais essenciais usam.

      1. Exato! Quase todas as menores que vejo, são baseadas em Debian. Fora isso, acho que o OpenSuse Thumbleweed também mantém uma versão 32bits.

  7. Acho peculiar esse conceito de que, por não poder utilizar a última versão disponível do SO em seu computador, em seu celular, em seu relógio, passa a considerá-lo obsoleto.

    Um produto só deveria ser considerado obsoleto quando não atende mais suas necessidades.

    1. Concordo contigo, Marlon. Meu computador continuará funcionando depois que o macOS Ventura for lançado.

      Acho, também, que hoje não existe software finalizado. Tudo está em constante transformação, então quando há uma interrupção nesse fluxo, existe o risco de perder novas soluções mais inteligentes (ou não, nunca se sabe) para problemas que temos hoje ou que serão criados no futuro.

      1. Acho, também, que hoje não existe software finalizado. Tudo está em constante transformação, então quando há uma interrupção nesse fluxo, existe o risco de perder novas soluções mais inteligentes (ou não, nunca se sabe) para problemas que temos hoje ou que serão criados no futuro.

        Outra provocação: não é meio bizarro a gente ter FOMO do que nem existe ainda? Ainda mais nesse caso específico, em que um dos grandes mérito do MacOS nesses últimos anos, é ter evoluções incrementais e estabilidade de conceitos…e não revoluções desastradas como o Windows 8 e o Gnome 3.

        Eu não uso muitos softwares nativos, então para mim é até difícil lembrar as mudanças nos últimos anos do MacOS, só as maiores em UI como Big Sur e El Capitan. Mesmo que eu tenha esquecido de algo relevante, difícil sentir falta de algo que nunca usou.

        Software não termina, mas segue uma dinâmica de rendimentos decrescentes e acaba entrando no ciclo de mudança por mudança (os famosos redesigns) discutível.

        Produtos como os iPad atuais e smartphones da década passada, que tem muito espaço para melhorias, eu consigo entender melhor essa ansiedade.

        1. Não acho que seja estranho por dois motivos: 1) Há um histórico de pequenas melhorias aqui e ali a cada nova versão; e 2) Já conhecemos as novidades do Ventura e a tendência é que ano após ano o rol de recursos e funcionalidades ausentes no Monterey aumente, na medida em que novas versões forem lançadas.

          Para ficar num exemplo, eu adoraria ter os novos recursos do Mail, como a pesquisa mais poderosa e as opções de lembrete de mensagens e agendamento de envio. Vivo sem? Sim, mas… né.

          Acho que é uma situação similar à do hardware. Você não sente que está perdendo muita coisa quando sai uma nova versão do seu celular, e não dá diferença mesmo trocá-lo tão cedo, mas depois de cinco anos…

          1. Estranho talvez não seja a palavra, mas que se parar um pouco para respirar, faz muito pouco sentido se preocupar ou fazer alguma mudança a médio prazo (1-2 anos). O computador não ficou mais obsoleto hoje do que estava semana passada, só ficará com o decorrer dos anos e atualizações, se o hardware não ficar antes do software.

            Os próximos Windows ou MacOS podem trazer coisas incríveis e impossíveis de replicar, mas é esperar para ver se isso se materializa. Ignorar os ciclos rápidos, que inflacionam uma percepção de evolução: basta ver como eram longevas as versões do Windows (mesmo considerando Vista e 8).

            O recurso de e-mail é legal, mas não seria um exemplo de como não é grande coisa? Sei que você tem predileção por apps nativos, mas é algo que existe há décadas em outros clientes e poucas pessoas têm expectativas sobre o cliente nativo do sistema.

            Sempre tem algo que você está perdendo, tipo snapping de janela que existe em qualquer sistema nos últimos 10 anos, menos no MacOS.

          2. @ Gabriel Arruda

            Ah sim, mesmo travado no Monterey, esse computador continuará usável por uns bons anos ainda, até a Apple parar com as atualizações de segurança ou acontecer uma ruptura muito grande (improvável, mas nunca se sabe).

            Reconheço que fui um pouco dramático no argumento do texto :)

          3. Hoje estava observando a quantidade de pessoas reclamando das novidades que apenas os iPads M1 receberão em vários canais gringos, vulgos techtubers. E uma das minhas constatações é de que eles são os grandes responsáveis por essa enxurrada de reclamações, pois em seus reviews do iPads M1 (Pro e Air) eles recomendavam que as pessoas comprassem o modelo descontinuado ou da prateleira de baixo para que todos economizassem US$60… E isso vale pro Apple Watch, iPhone, Galaxy S, Galaxy Tab recém lançado, as melhorias incrementais às vezes não parecem boas o suficiente para serem adotadas, mas quando se pensa em longevidade a história pode ser diferente. A Apple já está adotando essa tendência de privilegiar hardware mais recente a alguns anos. Talvez este ano em especial tenha chamado mais atenção diante da quantidade de melhorias que cada sistema vai trazer.

    2. Depende.
      E quando o software do banco por exemplo não abre mais em Android anterior ao 10 ou ao iOS 12?
      Ou atualiza, ou fica sem.

      Eu odeio isso, mas é uma realidade que vivemos. Isso é somente para gerar fluxo de caixa para essas big techs.

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