Primeiras impressões do Threads

A Meta antecipou o lançamento do Threads, seu clone do Twitter, para a noite de quarta (5).

Após dar uma boa olhada no aplicativo, essas são as minhas primeiras impressões.

Onboarding

Cadastrar-se no Threads é bem fácil se você já tiver uma conta no Instagram. Literalmente um toque.

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Threads aparece antes da hora com famosos, marcas e Marcos Mion pedindo POSITIVIDADE

A nova rede social da Meta, Threads, fez uma breve aparição antes da hora nesta quarta (5), na web. Ela deve ser liberada amanhã (quinta, 6), exceto na Europa, onde a mistura de dados entre Threads e Instagram é muito provavelmente ilegal.

A Meta concedeu acesso antecipado a famosos e marcas para criar burburinho e atrair geral. E parece ter funcionado: os posts que consegui ver antes dos perfis sumirem no site eram todos entusiasmados.

Marcos Mion estava radiante: pediu POSITIVIDADE!!! para que o Threads não vire um Twitter e alega ter emplacado a primeira “trend” do novo local — uma corrente mostrando os primeiros seguidores.

A julgar por esse vislumbre, é o Twitter mesmo que deve dançar com a nova concorrência. O visual do Threads é bem simples, agradável, leve, e, apesar de ser um produto da Meta, empresa que coaduna com extremistas e já ajudou a promover um genocídio, os primeiros habitantes compraram o discurso de que ali é um lugar melhor. O que, em relação ao Twitter de Musk, ele próprio um extremista, é verdade.

No que interessa, a conexão com o ActivityPub/fediverso, Adam Mosseri, head do Instagram na Meta, disse no Threads que isso está nos planos, mas que não houve tempo hábil para implementar a integração nesse primeiro momento.

Ao lado dos nomes de usuários, aparece um pequeno selo fazendo referência ao servidor/comunidade (threads.net). Quando se clica nele, uma mensagem informa que em breve será possível interagir com pessoas em instâncias do Mastodon — o nome é citado expressamente.

Depois de toda a celeuma no fediverso, é uma grande decepção.

Como desgraça pouca é bobagem, o Twitter avisou que em 30 dias vai fechar o TweetDeck para assinantes do Twitter Blue (R$ 42/mês) e começou a forçar a “nova” versão (em testes há dois anos), que é basicamente um Twitter web com colunas — bem pior que a antiga. Via @TwitterSupport/Twitter (em inglês).

Não me surpreenderia saber que os eventos desastrosos do Twitter no fim de semana precipitaram o lançamento do Threads. Se sim ou não, não importa: ele vem aí. O novo app da Meta já aparece agendado para a próxima quinta (6) na App Store e na Play Store de alguns países, como a da Itália. Traz “Instagram” no nome e zero menção a ActivityPub ou Mastodon, como era de se esperar.

Ao rolar um pouco a página do Threads para iOS, chama a atenção o tanto de “dados vinculados a você” listados, bem como o tamanho do app (254 MB). É um contraste chocante com outros apps “first party” do mesmo tipo, como Bluesky (3 tipos de dados, 24,8 MB) e Mastodon (nenhum dado coletado, 57,9 MB).

Desde outubro de 2022, os fiascos do Twitter beneficiaram sobremaneira o Mastodon/fediverso. O último — limitação de posts nos feeds dos usuários — está ajudando o Bluesky a bombar. A rede teve que fechar para novos cadastros no domingo (2) e, ao reabrir, nesta segunda (3), a demanda por convites parece ter aumentado um bocado. Via @bsky.app/Bluesky (2) (em inglês).

Temos uma conversa no Órbita para distribuir convites. (Não é para pedir; é para distribuir.) Se você tem um sobrando aí, considere compartilhá-lo lá.

Manual em um universo alternativo

Em meados de 2019, publiquei algumas matérias em uma série que batizei de “Universo alternativo”. Eram histórias de aplicativos e ambientes digitais populares no Brasil, até então ignorados pela imprensa.

Em julho, farei um experimento no Manual do Usuário que me remete a algo de um universo alternativo: ao longo do mês, usarei todas as redes sociais, até as mais tóxicas, como Twitter, Facebook e Instagram, para espalhar os textos, vídeos e tudo mais que produzir aqui.

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Elon Musk limitou a quantidade de posts que alguém pode ver no Twitter para combater a raspagem de dados da plataforma. Usuários não verificados (leia-se: não pagam a assinatura) podem ver 800 posts por dia. (Antes, o limite era 600.) Do ponto de vista do Twitter, é uma das decisões mais estúpidas que a direção poderia tomar — ver posts é a base de todo o negócio. Para os usuários, é uma boa notícia, meio que um tratamento de choque para reduzir o vício em um ambiente tóxico. Via @elonmusk/Twitter (2) (ambos em inglês).

É hoje, 30 de junho: último dia dos aplicativos de terceiros do Reddit mais populares, como Apollo e RIF. A partir de amanhã, só com o (terrível) oficial. Minha conta lá precede o uso do Apollo, mas só passei a frequentar o Reddit pelo e por causa do Apollo, que descobri em meados de 2018. Foi bom enquanto durou.

Estava lendo o perfil de @Fiatjaf, o misterioso criador do protocolo Nostr, quando descobri que ele é brasileiro, nasceu na região Sudeste e tem ~30 anos. Tem outras curiosidades no perfil escrito por Michael del Castillo, como a influência neoliberal (sem surpresa) na formação do programador e… números muito estranhos do Nostr, em especial o de usuários: 18 milhões. Tenho dificuldade em crer que um negócio que depende de pares de chaves criptográficas para ser usado tenha quase o dobro de usuários do Mastodon (que não é fácil, eu sei, mas achei mais fácil que o Nostr). Via Forbes (em inglês).

Shein leva influenciadoras dos EUA à China e posts delas geram questionamentos

por Shūmiàn 书面

A Shein convidou seis influenciadores de moda e beleza estadunidenses para visitar seu centro de inovação em Guangzhou e um centro de distribuição em Zhaoqing. Até aí, normal.

O que causou alvoroço foram as afirmações que as jovens fizeram em seus posts: de que as condições de trabalho nas fábricas da marca seriam ótimas (“eles nem suam!”), que só ouviram depoimentos elogiosos dos funcionários e que dizer o contrário seria uma narrativa usada nos EUA contra a marca.

Muito rapidamente, seguidores começaram a encontrar indícios de que os cenários e pessoas escolhidas para a visita talvez não fossem tão autênticos quanto as jovens afirmavam e que elas estavam fazendo um trabalho de limpeza de imagem para a empresa — algo de que a Anitta também vem sendo acusada.

Talvez não tenha valido o investimento do time de marketing: algumas influenciadoras acabaram apagando as postagens ou mesmo se retratando, e as redes sociais receberam uma onda de comentários negativos sobre a empresa, relembrando notícias negativas sobre as condições trabalhistas associadas a seus produtos.

A Shūmiàn 书面 é uma plataforma independente, que publica notícias e análises de política, economia, relações exteriores e sociedade da China. Receba a newsletter semanal, sem custo.

O PC do Manual, nosso espaço para aplicações web, ganhou mais uma: Libreddit, um front-end alternativo para o Reddit. Com ele, é possível navegar de maneira privada pelas comunidades e conversas do Reddit. Mais detalhes aqui. O PC do Manual é mantido por Jonatas “jojo” Baldin.

De volta ao Mastodon

Quando subimos um servidor próprio para a presença do Manual no fediverso, optei pelo Microblog em vez do Mastodon.

Isso pode soar complexo — como muitas coisas do fediverso —, mas vamos lá: no fediverso, diferentes softwares/aplicações podem “conversar” entre si usando o mesmo protocolo. No caso, o ActivityPub. Além desses dois, existem ainda o GoToSocial, Misskey, Calckey, Pleroma… só entre os similares ao Twitter. O fediverso é amplo.

O Microblog é uma aplicação mais leve que o Mastodon, feita para ser usada por apenas um usuário. Funciona bem, é compatível com bastante coisa do Mastodon/fediverso, mas, ao longo dos meses, parece ter sido abandonada. Tickets no fórum de suporte ficam semanas sem resposta, não por falta do que fazer, mas por falta de tempo dos desenvolvedores.

Por isso, nessa segunda (25) voltei ao Mastodon. No caso, estou no mastodon.social, o servidor dos desenvolvedores do Mastodon.

Fiz essa opção para evitar os dramas do fediverso brasileiro e, assim, manter abertos os canais de comunicação com o maior número de comunidades nacionais possível.

Quem já me acompanhava no Microblog ou em outros perfis no fediverso foi migrado automaticamente para o novo. Quem ainda não, é só pesquisar por @manualdousuario@mastodon.social e seguir o perfil.

Após muita pressão dos protestos, o Reddit anunciou um cronograma de melhorias em acessibilidade para as ferramentas de moderação dos seus aplicativos para Android e iOS, entre 1ª de julho e agosto. Medida tardia e que não aplaca a perda dos aplicativos de terceiros, mas bem-vinda mesmo assim. (E quem diabos é u/joyventure? Desde quando apelido no Reddit substitui o nome verdadeiro de diretores de empresas?) Via r/modnews (em inglês).

O Reddit não confirmou quando questionado pelo The Verge, mas há indícios de que a empresa começou a destituir moderadores ainda engajados no “apagão” contra a cobrança da API. Algumas comunidades grandes em inglês, como r/TIHI, r/MildlyInteresting e r/interestingasfuck, que haviam alterado o status para “NSFW” (de conteúdo sexual), estão sem moderadores. Via r/ModCoord, The Verge (ambos em inglês).

O pacto anti-Meta

Não é mais segredo que a Meta prepara uma nova rede social para aproveitar o vácuo que Elon Musk criou após destruir, digo, assumir o Twitter.

O Projeto 92 — provável nome comercial Threads — já teve imagens vazadas e, ouviu-se da boca de um executivo da Meta, será compatível com o ActivityPub, o protocolo por trás do Mastodon e de outras aplicações do fediverso.

No último fim de semana, um burburinho insinuava que administradores de grandes servidores do Mastodon teriam se encontrado, em segredo, com representantes da Meta.

A suposta notícia virou uma bola de neve com centenas de administradores assinando um “pacto anti-Meta”: desde já, eles se comprometem a bloquear a nova rede social da Meta assim que ela for lançada.

Entendo essa postura. Se tem uma empresa nessa área que não é confiável, é a Meta. Há todos os motivos do mundo para desconfiar das suas intenções. Imaginar que Mark Zuckerberg ameace a existência do fediverso não é um delírio; é uma avaliação sensata de um risco real.

Só a escala com que a Meta é capaz de lidar, e que provavelmente terá no primeiro dia da sua nova rede (ela será derivada do Instagram, com +2 bilhões de usuários), já coloca em xeque a sobrevivência da maioria dos servidores no fediverso. Uma conexão abrupta com um par gigantesco pode sobrecarregar sistemas e nocauteá-los.

Lembremo-nos da migração em ondas do Twitter para o Mastodon, que, em uma escala muito menor, fez muito servidor suar para continuar de pé.

Por outro lado — e corro o risco de estar sendo ingênuo —, pesa o genuíno interesse em estabelecer contato com gente que apenas não se importa tanto a ponto de buscar alternativas às redes sociais comerciais e saber ou aprender o que é “Mastodon”, “ActivityPub” e “fediverso”.

Essa galera é maioria e continua no Instagram, no Facebook, no Twitter. A perspectiva de ficar onde estou e poder interagir, daqui, com mais gente, é empolgante.

Até onde sei, duas instâncias brasileiras, bantu.social e nuvem.lgbt, assinaram o pacto anti-Meta. O meu humilde servidor monousuário, não. Seguirei atento.