Onde estão os bons apps de e-mail?

Será que estou mal acostumado ao Apple Mail? Ou apenas acostumado a ele? Afinal, é quase uma década usando-o diariamente. Após passar por vários outros aplicativos de e-mail no último fim de semana, fiquei com a impressão de que não fazem mais bons apps de e-mail, ou comparáveis ao Apple Mail.

Tive essa revelação enquanto configurava o Fedora 39 em um desses “mini PCs”, para ficar mais próximo do sistema e usá-lo vez ou outra. E não é como se eu quisesse algo elaborado, certamente nada que envolva “IA” nem que processe meus e-mails em servidores alheios. (E que não custe US$ 30/mês, rs.) Tudo que peço é um app com interface e atalhos que fazem sentido e que converse com os protocolos IMAP e SMTP. É pedir muito?

Antes de enveredar pelo Linux, aproveitei que o Windows 11 veio pré-instalado no computador para dar uma olhada no “novo” Outlook, a rendição da Microsoft ao elefante na sala, o webmail.

Se você usa Windows e ainda não teve a infelicidade de topar com o novo Outlook, é apenas uma casca em torno do Outlook da web, aquele acessível pelo navegador. Bom para a Microsoft, para os 766 parceiros dela que recebem dados dos usuários, e só. Não, não é bom para você.

Windows superado, instalei o Fedora padrão, com o ambiente gráfico Gnome, e iniciei a minha via crucis pelos clientes de e-mail no Linux. Primeira parada: Thunderbird.

Mesmo com a repaginada visual em curso, o Thunderbird continua… esquisito. São muitos botões, atalhos estranhos ao sistema, visual fora do lugar. Vários desses problemas são comuns ao Firefox, mas, por motivos que não consigo articular, o Firefox não me passa essa sensação. Poderia usá-lo? Sim, meio a contragosto. Funciona. Vamos testar outros apps antes de bater o martelo.

O próximo da lista foi o Evolution, uma espécie de equivalente ao Thunderbird para o ambiente Gnome: lida com e-mail, calendário, listas de tarefas, notas. (Só faltou mensagens via Matrix, coisa que o Thunderbird incorporou não faz muito tempo.) Com um pouco de paciência dá para tirar os excessos de botões e barras e deixar o Evolution mais agradável, ou menos feio. Não num nível ideal, porque tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, mas ok, não é de todo ruim.

Continuei os testes. O aplicativo seguinte, Geary, é o que mais se parece com o Apple Mail. Simples, focado em e-mail, atalhos no teclado ok, funciona mais ou menos dentro do que se espera de um app moderno.

O problema é que o Geary padece de alguns defeitos injustificáveis a essa altura. O pior deles é o das colunas fixas.

Por motivos que talvez nem Deus explique, não é possível redimensionar as colunas de pastas/filtros, lista de mensagens e mensagem aberta. Para piorar, a coluna da lista de mensagens tem quase a mesma largura da da mensagem, mesmo em telas enormes.

A situação é essa desde abril de 2021. O histórico do Geary é acidentado, com longas lacunas de baixa ou nenhuma manutenção. Esse defeito, porém, é uma regressão. Não era assim e não poderia ter ficado assim, jamais.

Cheguei ao extremo de testar o Claws antes de dar por encerrado meu giro por apps de e-mail. Gosto e só escrevo e-mails em texto puro (text/plain), logo, por que não? Talvez eu me adaptasse com dedicação e paciência para arrumar a configuração padrão, um tempo que não quero gastar com isso.

Será que a maioria já migrou para o webmail em computadores, aplicativo só no celular? Para quem usa app de e-mail no computador: qual? Esqueci de testar algum? Sou todo ouvidos.

Boicote ao Substack ganha força

Na segunda (8), via Platformer, a popular newsletter de Casey Newton, os fundadores do Substack disseram ter banido cinco newsletters nazistas apontadas por Casey e que estão desenvolvendo ferramentas de denúncia para que os leitores sinalizem outras publicações infratoras.

Resposta tardia e fraca, nem o próprio Casey, que havia dado um ultimato ao Substack prometendo migrar para outro canto se a política “nazi-friendly” não fosse revista, se convenceu.

Atualização (12/1, às 6h50): Casey anunciou que a Platformer deixará o Substack em poucos dias.

Há quem argumente que “eram só cinco newsletters”. O problema é que… bem, o Substack continua sendo um lugar receptivo a nazistas (literalmente nazistas), e isso não pega bem com quem não é nazista porque, para nós, “incitação à violência física” — a diretriz que enseja banimentos no Substack — é inerente à ideologia nazista.

Essa conexão não existe para os fundadores do Substack. O que causa estranheza. É meio zoado você dizer abertamente que não se incomoda com nazistas no seu quintal, promovendo e lucrando em cima do seu serviço (e você mesmo lucrando em cima deles), ainda que seja o caso.

Nem Elon Musk, ele próprio cada vez mais embriagado de ideias erradas, ousou cruzar essa linha. (Ainda. Dia desses o assunto na pocilga dele era imigrantes ilegais tendo filhos nos EUA, o que talvez esteja a um passo de, sei lá, controle de natalidade para pobres? Eugenia?)

Quando abordei o assunto pela primeira vez neste Manual, disse que:

Para quem está estabelecido e tem muitos inscritos, é um caminho válido. Para o resto de nós, é complicado.

Essa frase gerou alguns ruídos. Por “estabelecido”, referi-me a donos(as) de newsletters com muitos inscritos e uma base de assinantes estável e grande o suficiente para se viver disso. Para eles é, de fato, mais fácil sair: há dinheiro e estrutura para uma migração complexa.

Já vemos essa previsão se materializar.

Molly White, do hilário Web 3 Is Going Great, pulou fora: migrou sua newsletter, a Citation Needed, para um servidor próprio usando o Ghost.

A Garbage Day, de Ryan Broderick, também vai zarpar do Substack.

A gratuidade do Substack dificulta a saída de quem tem uma newsletter apenas por hobby ou não faz grana o bastante para bancar alternativas (todas pagas), ou seja, é difícil para “o resto de nós”. Não julgo quem permanece lá.

No dia em que Hamish McKenzie, um dos fundadores do Substack, publicou aquela nota patética sobre como lidam com nazistas usando seu serviço, fiquei meio puto e cancelei todas as newsletters em que estava inscrito no Substack, umas 20 ou 30.

Em vez de receber os textos delas por e-mail, peguei os endereços dos feeds RSS e cadastrei todas no meu agregador (Miniflux dos assinantes do Manual).

Foi o ponto de equilíbrio que encontrei para ler pessoas interessantes e queridas e, ao mesmo tempo, dar distanciar-me do Substack. Pelo feed RSS, as pessoas perdem um inscrito, mas o mais importante é que o Substack perde um “usuário” e outras métricas que serão úteis na próxima vez que tiverem que mendigar dinheiro de investidores para manter aberto o bar de nazis que construíram.

Minhas expectativas — positivas e negativas — para 2024

A convite do Fernando Paiva, diretor editorial do Mobile Time, escrevi no final de 2023 quais eram as minhas expectativas — positivas e negativas — na tecnologia para o ano que se avizinhava.

Transcrevo-as abaixo, e deixo o convite a você para ler as dos outros colunistas do Mobile Time.

Qual tendência do mundo da tecnologia mais te entusiasma para 2024? Por quê?

Soluções não comerciais para comunicação via internet.

Coisas como o Mastodon e o protocolo que o move, o ActivityPub, não são novas, mas ganharam um impulso importante desde os primeiros rumores de que Elon Musk poderia comprar o Twitter, no início de 2022.

Sinto que, até pouco tempo atrás, protocolos abertos eram quase uma excentricidade. Hoje ainda são poucos que se aventuram nesse universo — o Mastodon, talvez o projeto de maior sucesso do tipo, tem ~2 milhões de usuários ativos —, mas ganhamos espaço no mainstream, uma barreira dificílima de transpor.

Seria ótimo se soluções do tipo — para redes sociais, mensageiros instantâneos e tantas outras aplicações — fossem dominantes, mas me darei por satisfeito se elas apenas se sustentarem como alternativas viáveis às comerciais.

Qual tendência do mundo da tecnologia mais te preocupa para 2024? Por quê?

O domínio da inteligência artificial no mundo do trabalho.

Arrisco dizer que, em 2024, o ritmo de inovação não será tão intenso quanto foi em 2023. Em vez disso, é provável que o novo ano seja de racionalização e “pé no chão”, de separar o que é realmente útil daquilo que é apenas curioso.

O “realmente útil” da minha previsão é o que me preocupa, porque o termo enseja uma questão vital: útil para quem?

Há mais de um século, novas tecnologias prometem futuros utópicos aos trabalhadores, de menos trabalho, mais lazer e a distribuição da riqueza excedente gerada pelas inovações. Na prática, até agora, essas promessas não se realizaram. Ao contrário: temos mais gente trabalhando mais do que antes e a riqueza ainda mais concentrada nas mãos de poucos.

Nada indica que com a IA será diferente. De inédito, apenas o perfil de profissional afetado — talvez pela primeira vez, os trabalhadores intelectuais, criativos.

A ver como essas disputas serão travadas.

Substack e o nazismo

Em novembro de 2023, a revista The Atlantic denunciou a presença de newsletters explicitamente nazistas no Substack, algumas delas ofertando assinaturas pagas.

Isso significa que o Substack hospeda, promove e fatura com publicações nazistas.

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Conversando com a Luzia no WhatsApp

O ChatGPT foi o software que mais rápido atingiu 100 milhões de pessoas — em apenas dois meses. Quase um ano depois, durante o primeiro evento para desenvolvedores da OpenAI, foi revelado que o chatbot ainda é usado por 100 milhões de pessoas pelo menos uma vez por semana.

São números gigantescos, mas não tão grandes (ainda?) quanto os de redes sociais e aplicativos de mensagens. Esses, por já fazerem parte da rotina das pessoas, podem acabar se tornando catalisadores da IA gerativa.

Não que a ideia seja exatamente nova. Chatbots existem há uns bons anos e, até o lançamento da OpenAI, eram tidos como ineficientes e apenas uma pedra no caminho até um atendente humano.

Talvez ainda seja cedo para fazer essa comparação, mas lá vai: o ChatGPT pode ter sido o “momento iPhone” dos chatbots, quando uma tecnologia já disponível deixa de ser mera curiosidade ou ferramenta para poucos e se transforma em indispensável para bilhões de pessoas.

Falar em aplicativos de mensagens no Brasil é falar de WhatsApp. O app da Meta (e o Telegram) é palco para a Luzia, persona e startup espanhola que se coloca como “a IA que todo mundo sabe como usar”, nas palavras do CEO, Álvaro Higes.

Diálogo no WhatsApp com a IA Luzia, em que peço para ela não usar ponto final nas mensagens, ela topa, mas continua usando.
A IA está tão evoluída que já é capaz de debochar com sutileza. Imagem: Manual do Usuário.

Bebendo de diversos modelos de linguagem, como os da OpenAI, Llama (Meta) e Stable Diffusion, a Luzia é um contato que responde a… bem, a qualquer dúvida ou pedido. Ela tira dúvidas, transcreve áudios, gera imagens e até ajuda a escrever código.

Em outubro, quando levantou US$ 10 milhões em uma rodada de investimentos série A, 16 milhões de pessoas conversavam com a Luzia. A conversa, por ora, é gratuita, e Higes garante que sempre haverá uma parte de recursos sem custo.

Muita gente, mas uma gota no oceano de +2 bilhões de usuários do WhatsApp.

Era apenas questão de tempo para que a Meta se voltasse à IA gerativa para seus aplicativos. Em novembro, em um evento dedicado à tecnologia, Mark Zuckerberg anunciou um chatbot da empresa, o Meta AI, e “personas” especializadas em certos assuntos, como esportes e moda, interpretadas por celebridades, como Tom Brady e Paris Hilton.

As IAs da Meta ainda não estão disponíveis em todo canto, apenas nos EUA. Elas sinalizam um futuro repleto de IAs especializadas, para finalidades distintas.

O grande salto deve ocorrer quando os chatbots vierem de todos os lugares, e não só da própria Meta ou de startups especializadas no assunto. Quando isso acontecer, tomara que sobre um espaço para nós, seres humanos.

Canais do WhatsApp: novo recurso, velhos hábitos

Por muito tempo, o WhatsApp era posicionado como um aplicativo de mensagens entre pessoas, um a um, no máximo em pequenos grupos. Tentativas de distribuir conteúdo em massa usando gambiarras, como múltiplos grupos, eram coibidas.

Isso mudou. Em 2022, a Meta engrenou uma sequência de novidades no WhatsApp que segue com força total até agora, reposicionando o app para brigar por mercados que rivais como Discord e Telegram criaram ou conquistaram.

É para conversar com os amiguinhos, sim, mas também para se informar, comprar, organizar os grupos do condomínio, do trabalho, enfim, passar o maior tempo possível ali dentro. O WhatsApp é o mais próximo que o Ocidente tem de um “super app”.

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Fornecedores da Apple, Apple Watch “carbono neutro” e os créditos de carbono

Interessante este relatório do Greenpeace detalhando os esforços de descarbonização de 11 dos maiores fornecedores das empresas de tecnologia.

As principais descobertas:

  • “A mediana reportada da taxa de aquisição de energia renovável para os 11 fornecedores de eletrônicos no ranking foi de 20% em 2022, em comparação com 10% para as mesmas 11 empresas em 2021.”
  • Apenas 4 das 11 se comprometeram com a meta de descarbonizar suas redes de fornecedores até 2050. Para 2030, somente a Intel fez a promessa.
  • A Foxconn tem as maiores taxas reportadas de emissões e consumo energético na fabricação final do ranking. Em 2022, as emissões da empresa superaram às da Islândia — e com apenas 8% da energia vinda de fontes renováveis.
  • A Samsung Electronics recebeu a pior nota entre as fabricantes de semicondutores (D+). Nenhuma fabricante teve nota superior a C+.

O relatório completo (em inglês) pode ser lido aqui (PDF).

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Um detalhe curioso é que a Apple é cliente de todas as 11 fornecedoras analisadas pelo Greenpeace.

Em outubro, a Apple chamou a atenção ao anunciar seu primeiro produto “carbono neutro”, um modelo específico de Apple Watch combinado com uma ou outra pulseira.

A alegação foi contestada pelo Instituto de Assuntos Públicos e Ambientais (IPE, na sigla em inglês), uma instituição sem fins lucrativos da China que, um ano antes, recebera elogios da Apple. O IPE acusou a empresa de faltar com transparência acerca da cadeia de fornecedores dos seus produtos.

Não é o único problema da alegação da Apple e de outras empresas poluidoras que clamam serem ou estarem se tornando neutras em emissões de carbono.

Infelizmente, não é como se a Apple tivesse descoberto uma maneira de fazer seu relógio esperto sugar CO2 da atmosfera. A neutralidade foi atingida, como era de se esperar, com a compra de créditos de carbono — o equivalente a 7–12 kg por relógio, de acordo com o Financial Times.

Esses créditos, segundo a própria Apple, são de projetos na América Latina e usam “padrões internacionais” de certificação do chamado mercado voluntário (ou não regulado), incluindo os da norte-americana Verra, que uma investigação do The Guardian descobriu que ~90% dos créditos não representavam redução alguma na emissão dos gases do efeito estufa.

O funcionamento de créditos no mercado voluntário é bizarro. Sem regulação (e sem surpresa), os incentivos se voltam à maximização do lucro — mais uma vez, o rabo do capitalismo abana o cachorro, ou o meio-ambiente.

A história da floresta de Lake Kariba, no Zimbábue, contada na New Yorker, é um bom exemplo desses incentivos erráticos no mercado de créditos de carbono. (Se achar o texto longo, Matt Levine fez um bom e divertido resumo em sua coluna.)

O Brasil representa outro problema crônico do mercado voluntário, com o loteamento de terras públicas pelos chamados “caubóis do carbono” na Amazônia, como mostrado pela Sumaúma.

Créditos de carbono são vendidos como a solução ao paradoxo de sustentar o crescimento da economia sem piorar a catástrofe climática. Se parece bom demais para ser verdade, é porque não é.

Um dinossauro contempla o fim da web

Em 2023, por diversas vezes me peguei pensando na web, no site do Manual e no que o futuro nos reserva.

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O que muda (e para quem) com a novela da OpenAI?

Eu poderia apostar que, até o fim do ano, a Netflix ou algum outro streaming comprará os direitos da novela da demissão de Sam Altman da OpenAI (partes 1 e 2).

Nesta segunda (21), Ilya Sutskever, membro do conselho apontado como principal articulador do complô para derrubar Altman, disse estar arrependido e assinou uma carta aberta, junto a +90% dos ~700 funcionários da OpenAI, chamando o conselho de incompetente e dando um ultimato: ou restabelecem Altman e pulam fora, ou vão todos trabalhar na Microsoft.

Todo mundo erra, mas é raro ver alguém classificar o seu eu de três dias atrás de um completo idiota.

De seu lado, a situação de Altman e Greg Brockman, que parecia resolvida, ainda não está. A dupla não descarta voltar à OpenAI, ou seja, ainda não fecharam com a Microsoft.

Em meio a tudo isso, tentei mudar o foco e pensar nas consequências em vez de seguir mergulhado no drama. O que muda? E para quem?

  • Os maiores perdedores são a própria OpenAI (em especial se a demissão não for revertida) e toda empresa/startup (com exceção da Microsoft) que criou produtos ou novos recursos em cima da API da OpenAI. É uma velha máxima do mundo da tecnologia: não deixe seu negócio depender de um terceiro, em especial se esse terceiro é uma startup badalada;
  • A Microsoft está com a faca e o queijo na mão, e apontando a faca para a OpenAI. Difícil imaginar um cenário em que Satya Nadella, o habilidoso CEO da Microsoft, saia perdendo.
  • A facção de proponentes apocalípticos da inteligência artificial, que acha que a IA vai acabar com a humanidade, sofreu um duro golpe. O conselho da OpenAI é formado por essa galera esquisita, do altruísmo eficaz e outras ideias erradas de como consertar o mundo (que eles mesmos ajudaram a quebrar).
  • A outra ala, a dos que querem resolver o problema que criaram com mais do que desencadeou o problema (tecnologia resolvendo problemas de tecnologia), se livra das amarras ~éticas da OpenAI, da baboseira de usar a IA para o benefício da humanidade e limites no retorno aos investimentos. As coisas voltam a ser “business as usual”, termo em inglês para “dane-se todo o resto, passe o dinheiro pra cá”.
  • Por fim, nós. Se você usa alguma coisa relacionada à OpenAI, seja o ChatGPT, seja algum app feito em cima das APIs da startups, talvez algo mude a médio prazo. Por ora, dada a vantagem que a OpenAI tem frente aos concorrentes, tudo bem.
  • Para quem não usa IAs gerativas… bom, acho que não muda muita coisa, ao menos por agora.

O que vem depois do celular?

Após anos de promessas grandiosas, um TED que mais pareceu comercial de TV e US$ 240 milhões em investimentos, a Humane, startup fundada por um casal de ex-executivos da Apple, revelou seu primeiro produto: o AI Pin, uma espécie de broche inteligente.

Seria apenas um produto curioso, inovador, não fossem as tais promessas grandiosas. Com o AI Pin, a Humane quer substituir o celular.

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O efêmero como padrão no digital

Quem tinha mais de 30 anos em 2013 provavelmente nunca usou ou sequer entende o Snapchat.

Hoje, porém, todos sentimos a influência do aplicativo de mensagens efêmeras. Os stories, grande legado do Snapchat à humanidade, rejeitam uma máxima da internet comercial: a de que todos os dados devem ser guardados “ad aeternum”, para sempre.

O efêmero no digital é um conceito não intuitivo. Com os preços de armazenamento em queda e as promessas de novas tecnologias capazes de extrair insights de grandes volumes de dados — big data, machine learning, LLMs! —, dispensá-los se torna uma atitude quase subversiva.

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Brasil é o país do WhatsApp

Uma das muitas promessas da Meta que não resistiram ao tempo foi a de não mexer no WhatsApp. Ela foi feita por Mark Zuckerberg após a aquisição do aplicativo, por US$ 19 bilhões, em 2014.

Nessa semana, Zuckerberg (que era e ainda é CEO da Meta) e Will Cathcart (diretor à frente do WhatsApp) concederam entrevistas a grandes jornais daqui e dos EUA para falarem do app de mensagens.

Nos EUA, Zuck disse ao New York Times que posicionou o WhatsApp como o “próximo capítulo” da história da sua companhia.

A onipresença do WhatsApp só escapa a dois países: a China, por motivos óbvios, e os EUA, o que é difícil de explicar.

A Meta diz que mais da metade dos jovens adultos norte-americanos já tem o WhatsApp instalado. É um primeiro passo para superarem o SMS e o debate batido de “balões verdes/azuis”.

No Brasil, Cathcart concedeu uma entrevista ensaboada à Folha de S.Paulo, onde exaltou o nosso vício no app: somos o país que mais manda áudios (quatro vezes mais que qualquer outro!), mensagens que somem e mensagens no geral.

Em outro momento, Cathcart garantiu que o WhatsApp jamais terá anúncios, com um asterisco: nas conversas. Outras áreas, como Status (stories) e canais, estão em aberto.

Anúncios no Facebook e Instagram que direcionam usuários aos aplicativos de mensagens da Meta (WhatsApp, Messenger e DMs do Instagram) já são um negócio de US$ 10 bilhões, e continuam crescendo.

A Meta precisa continuar entregando crescimento a cada três meses a seus acionistas. O WhatsApp é um “gigante adormecido”, um aplicativo com +2 bilhões de usuários e um potencial inexplorado de receita enorme. Com Zuck torrando bilhões em metaverso e outros negócios estagnando, parece que chegou a hora de acordá-lo. As entrevistas em jornalões são o alarme tocando.

O Manual tem um canal no WhatsApp. Siga para receber comentários, imagens e links por lá.

O ano da destruição do Twitter

exatamente um ano, Elon Musk tornava-se o dono do Twitter. Literalmente. O empresário pagou US$ 44 bilhões pela empresa inteira e prometeu transformar a rede em uma espécie de “super app”, ou — como ele diz — um “everything app”.

Um ano é pouco tempo, é verdade, mas a essa altura era de se esperar pelo menos sinais de que uma virada positiva está em curso ou é possível. Os sinais existem, mas no sentido contrário.

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Infelizmente, novos óculos inteligentes da Meta parecem ótimos

O fracasso da primeira colaboração entre Meta e EssilorLuxottica (a dona da marca Ray-Ban) na criação de um par de “óculos inteligentes”, em setembro de 2021, baixou muito as expectativas com uma eventual segunda versão.

Anunciado em um evento em setembro, espremido entre o mais badalado Meta Quest 3 e a nova inteligência artificial da Meta, o Ray-Ban Meta não chamou muita atenção de primeira.

Com o produto nas lojas — e nos rostos de repórteres de sites especializados norte-americanos —, porém, veio a surpresa: é um negócio… bem bom?

Os novos Ray-Ban Meta corrigem os pontos fracos do antecessor: a câmera é de boa qualidade (os microfones, excepcionais) e a bateria é ok (e tem uma caixa que se desdobra em bateria portátil com várias recargas).

E eles mantêm a característica mais importante de um produto do tipo: são bonitos, parecem óculos comuns.

Todos os que relataram suas experiências com o Ray-Ban Meta afirmam que os óculos não chamam a atenção, a ponto de ninguém perceber que são óculos especiais, inteligentes.

Bem diferente do Google Glass, por exemplo, que chegou a ganhar algum capital social em 2013, antes de Robert Scoble sepultá-lo com aquela foto medonha debaixo do chuveiro (não vou linkar; de nada).

O mundo é outro, também. Em 2013, a ideia de termos câmeras apontadas para nós o tempo todo, de todos os lados, estava restrita às distopias. Não à toa, o Google Glass foi rejeitado — e não apenas por causa do Scoble.

Óculos insuspeitos com câmeras e microfones de alta qualidade tão discretas que parecem camufladas não são uma ideia radical nem ultrajante em 2023. São, de qualquer forma, um passo extra no caminho da devassa da privacidade e da espetacularização da vida. (O Ray-Ban Meta faz streaming ao vivo no Instagram.)

Por US$ 299, uns trocados a mais que as versões “dumb” dos óculos de sol da EssilorLuxottica, os “smart glasses” se aproximam perigosamente do trivial.


Dos muitos vídeos que vi, recomendo a análise/ensaio da Victoria Song, do The Verge. Ela define a chegada do Ray-Ban Meta como “um ponto de virada”.

Contra o tecno-otimismo

Nos anos 1990, Marc Andreessen criou o Netscape, primeiro navegador web comercial de sucesso, pivô da disputa que levou a Microsoft ao banco dos réus em um dos maiores julgamentos antitruste dos Estados Unidos.

Hoje, Andreessen é mais conhecido por ser sócio da Andreessen Horowitz, ou a16z, uma das firmas de capital de risco mais badaladas do Vale do Silício. Ele viu antes da maioria o potencial de crescimento de startups como Facebook, Skype, Airbnb e Stripe, e lucrou horrores com essas sacadas.

Andreessen também gosta de escrever. Bastante. Foi um dos que popularizam os detestáveis fios no Twitter (outra empresa em que investiu). Seus longos textos em tom de manifesto são populares no meio tecnológico, frutos da fama adquirida em uma tão rara quanto feliz previsão acertada feita em 2011, no artigo seminal “O software está devorando o mundo”. O que não significa que ele seja ou deva ser encarado como um oráculo.

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