Fornecedores da Apple, Apple Watch “carbono neutro” e os créditos de carbono
Interessante este relatório do Greenpeace detalhando os esforços de descarbonização de 11 dos maiores fornecedores das empresas de tecnologia.
As principais descobertas:
- “A mediana reportada da taxa de aquisição de energia renovável para os 11 fornecedores de eletrônicos no ranking foi de 20% em 2022, em comparação com 10% para as mesmas 11 empresas em 2021.”
- Apenas 4 das 11 se comprometeram com a meta de descarbonizar suas redes de fornecedores até 2050. Para 2030, somente a Intel fez a promessa.
- A Foxconn tem as maiores taxas reportadas de emissões e consumo energético na fabricação final do ranking. Em 2022, as emissões da empresa superaram às da Islândia — e com apenas 8% da energia vinda de fontes renováveis.
- A Samsung Electronics recebeu a pior nota entre as fabricantes de semicondutores (D+). Nenhuma fabricante teve nota superior a C+.
O relatório completo (em inglês) pode ser lido aqui (PDF).
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Um detalhe curioso é que a Apple é cliente de todas as 11 fornecedoras analisadas pelo Greenpeace.
Em outubro, a Apple chamou a atenção ao anunciar seu primeiro produto “carbono neutro”, um modelo específico de Apple Watch combinado com uma ou outra pulseira.
A alegação foi contestada pelo Instituto de Assuntos Públicos e Ambientais (IPE, na sigla em inglês), uma instituição sem fins lucrativos da China que, um ano antes, recebera elogios da Apple. O IPE acusou a empresa de faltar com transparência acerca da cadeia de fornecedores dos seus produtos.
Não é o único problema da alegação da Apple e de outras empresas poluidoras que clamam serem ou estarem se tornando neutras em emissões de carbono.
Infelizmente, não é como se a Apple tivesse descoberto uma maneira de fazer seu relógio esperto sugar CO2 da atmosfera. A neutralidade foi atingida, como era de se esperar, com a compra de créditos de carbono — o equivalente a 7–12 kg por relógio, de acordo com o Financial Times.
Esses créditos, segundo a própria Apple, são de projetos na América Latina e usam “padrões internacionais” de certificação do chamado mercado voluntário (ou não regulado), incluindo os da norte-americana Verra, que uma investigação do The Guardian descobriu que ~90% dos créditos não representavam redução alguma na emissão dos gases do efeito estufa.
O funcionamento de créditos no mercado voluntário é bizarro. Sem regulação (e sem surpresa), os incentivos se voltam à maximização do lucro — mais uma vez, o rabo do capitalismo abana o cachorro, ou o meio-ambiente.
A história da floresta de Lake Kariba, no Zimbábue, contada na New Yorker, é um bom exemplo desses incentivos erráticos no mercado de créditos de carbono. (Se achar o texto longo, Matt Levine fez um bom e divertido resumo em sua coluna.)
O Brasil representa outro problema crônico do mercado voluntário, com o loteamento de terras públicas pelos chamados “caubóis do carbono” na Amazônia, como mostrado pela Sumaúma.
Créditos de carbono são vendidos como a solução ao paradoxo de sustentar o crescimento da economia sem piorar a catástrofe climática. Se parece bom demais para ser verdade, é porque não é.
É engraçado quando aparece a opção para os usuários de serviços pagarem a mais para neutralizar o consumo daquele serviço ( Viagens aéreas e serviços de transporte por exemplo). Quanto daquele valor realmente está chegando aos grupos que realmente fazem ações em prol do meio ambiente? Não é mais fácil fazer uma doação direta a causa que deseja?
Eu acho tão vazia essa ideia do “crédito de carbono” pq o problema não é carbono na atmosfera, isso é só uma parte do problema. E o problema é muito grande.
Quando vejo alguém falando de crédito de carbono já penso igual o Pierre falou mais cedo: isso é alucinação!
Crédito de carbono é uma ótima estratégia de green washing né !? No fim leva a vantagem quem tiver os melhores argumentos de ESG (taí outra coisa que é pura alucinação) e atrai mais investidores. Pq sinceramente, as empresas todas (contratantes e prestadores/vendedores) só fazem isso por lucro, não por amor à natureza…
É só lembrar da máxima que a gente vive: privatizar os lucros e socializar os prejuízos.
Se não me falha a memória os povos indígenas que foram na edição da COP de Glasgow já eram contra o mercado de carbono. Ou seja……..
Resumindo: Créditos de carbono são o NFT do meio ambiente.
Sobre o mercado de créditos de carbono, citado nos últimos 4 parágrafos, tem um episódio do podcast Rádio Novelo Apresenta que trata justamente desse assunto, mostrando como isso virou um negócio na região amazônica. De fato, é bizarro como o discurso vende muito e não entrega nada, infelizmente (e como tem gente se aproveitando disso).
Oi, Ivan. Sabes dizer exatamente qual episódio é?
E no Brasil vai piorar. Esperem a regulação que vem aí.
usando o fatalismo com isso se perde a esperança que se tem do brasil. esqueça o fatalismo rapaz. se fosse você pensaria em viver a vida sem se preocupar e usar o fatalismo.
Realismo Capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.