Contra o tecno-otimismo

Homem branco, careca, de camiseta branca, sorrindo para a câmera. Foto com efeito dithering nas cores branco, preto e rosa.

Nos anos 1990, Marc Andreessen criou o Netscape, primeiro navegador web comercial de sucesso, pivô da disputa que levou a Microsoft ao banco dos réus em um dos maiores julgamentos antitruste dos Estados Unidos.

Hoje, Andreessen é mais conhecido por ser sócio da Andreessen Horowitz, ou a16z, uma das firmas de capital de risco mais badaladas do Vale do Silício. Ele viu antes da maioria o potencial de crescimento de startups como Facebook, Skype, Airbnb e Stripe, e lucrou horrores com essas sacadas.

Andreessen também gosta de escrever. Bastante. Foi um dos que popularizam os detestáveis fios no Twitter (outra empresa em que investiu). Seus longos textos em tom de manifesto são populares no meio tecnológico, frutos da fama adquirida em uma tão rara quanto feliz previsão acertada feita em 2011, no artigo seminal “O software está devorando o mundo”. O que não significa que ele seja ou deva ser encarado como um oráculo.

Nesta terça (17), Andreessen publicou “O manifesto tecno-otimista” (em inglês), uma verborragia que parece escrita por um adolescente que acabou de descobrir o neoliberalismo e filosofia barata.

Em aforismos, Andreessen tenta colar o argumento de que a tecnologia é uma força do bem, a única chance da humanidade prosperar, a única e inequívoca resposta para todos (literalmente todos) os nossos problemas. Todo esse potencial, segundo ele, está a perigo por um suposto “tecno-pessimismo”.

Daria para resumir o manifesto como o grito de um bilionário da tecnologia acuado por leves distúrbios no mundo que ele ajudou a construir e que o serve bem demais. Ele só quer ajudar a humanidade, ora!

Só que no cabeção dele, “ajudar a humanidade” é continuar fazendo o que sempre fez. E não precisa ser dos mais sensíveis para perceber que, talvez, algumas coisas no mundo contemporâneo, no setor de tecnologia em especial, estão bem erradas. Basta levantar a cabeça, olhar para fora.

“David Friedman aponta que as pessoas só fazem coisas para outras pessoas por três razões — amor, dinheiro ou força”, escreve. “O amor não escala, então a economia só pode funcionar com dinheiro ou força. O experimento de força está rodando e descobriu-se ser insuficiente. Vamos ficar com o dinheiro.”

Que ele seja uma pessoa endinheirada em um mundo empobrecido, com o abismo entre classe enorme e crescendo, é apenas uma coincidência, claro.

Andreessen escreve que a renda universal básica “transformaria pessoas em animais de zoológico alimentadas pelo estado”. Crê-se muito esperto, porque para ele inteligência e energia são as forças motoras da humanidade, do progresso — que, claro, é sempre positivo.

Diz, na sequência, que “a desaceleração da IA custará vidas” e compara quem questiona a inteligência artificial a “uma forma de assassinato”. Como ousam tentar regular uma tecnologia!

Abomina textualmente outras formas de organizar a sociedade e a economia, ainda que seu argumento de preços baixos seja meio inexequível, até risível:

Acreditamos que devemos pressionar os preços para baixo em toda a economia através da aplicação da tecnologia até que o maior número possível de preços seja efetivamente zero, impulsionando os níveis de renda e a qualidade de vida para a estratosfera.

No tópico “O Inimigo”, o mais surpreendente por transparecer sem filtros a sua visão de mundo deturpada, Andreessen lista todos eles:

Nossa sociedade atual tem sido submetida a uma campanha de desmoralização em massa por seis décadas — contra a tecnologia e contra a vida — sob nomes variados como “risco existencial”, “sustentabilidade”, “ESG”, “Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”, “responsabilidade social”, “capitalismo de stakeholders”, “Princípio da Precaução”, “confiança e segurança [trust & safety]”, “ética tecnológica”, “gestão de riscos”, “de-crescimento”, “os limites do crescimento”.

Essas ideias, na vanguarda do capitalismo que ainda tem um pingo de vergonha na cara, seriam “ideias zumbis, muitas derivadas do comunismo”. Porque, óbvio, comunistas e luditas, esses fantasmas, são sempre a raiz de todo o mal na cabeça de gente como Andreessen.

No final, lista os “santos patronos” do tecno-otimismo — entre eles, um dos arquitetos do fascismo italiano. O que, a essa altura, não causa espanto. Em geral, o que separa o capitalista convicto do fascista é apenas uma crise.

Fico na dúvida, porém, se Andresseen realmente acredita nessas bobagens ou se é só uma reação a mudanças no status quo — que ele, ironicamente, afirma se rebelar contra, como se não fosse um dos arquitetos do mundo em que vivemos.

Em 2020, Andreessen escreveu outro manifesto em que lamentava o custo habitacional absurdo de São Francisco, onde mora, que “torna quase impossível para pessoas comuns se mudarem para cá e pegarem os empregos do futuro”.

A revista The Atlantic descobriu que, em paralelo, ele e sua esposa se opuseram a uma proposta de mudança das regras de zoneamento em Atherton, o CEP mais caro dos Estados Unidos, que aumentaria o número de residências em meio às mansões de bilionários (maiúsculas do original):

[O novo zoneamento] diminuirá MASSIVAMENTE o valor da nossa casa, a qualidade de vida nossa e de nossos vizinhos e aumentará IMENSAMENTE a poluição sonora e o tráfego.

Não é uma posição muito tecno-otimista para se sustentar em público.


Quando topei com o novo manifesto patético de Marc Andreessen, me vi em um dilema.

Se alguém explicitamente mal intencionado, mas influente e poderoso, publica algo abjeto na internet que repercute entre os seus, vale a pena tentar rebater os argumentos?

Como se nota, concluí que, sim, que vale. Não é por este texto, de um brasileiro desconhecido, que o famoso e rico norte-americano Andreessen ficará maior. Silenciar, ainda que aqui na nossa insignificância, talvez soe como complacência ou desinteresse. É uma oportunidade boa, e rara, quando alguém na posição de Andreessen expõe sua visão de mundo assim, nua e crua. Aproveitemos.

Fiquei contente em ver que até publicações norte-americanas setoriais (algumas, não todas) adotaram tom crítico ao repercutirem o texto.

O TechCrunch, uma espécie de diário do Vale do Silício, perguntou na manchete quando foi a última vez que Andreessen conversou com uma pessoa pobre. Daria para fazer várias perguntas nessa linha.

Para mim, o grande poder de sociopatas endinheirados como Andreessen é a autoestima inabalável. Com ela e uma forcinha do capital, a que têm acesso irrestrito, o mundo imaginário que criam em suas cabeças ganha materialidade e afeta a todos nós.

A tecnologia pode ser uma força positiva e não há dúvida de que tem um papel fundamental nos desafios que enfrentamos e nos que estão no horizonte. Ela não é o problema. O problema é a influência desmedida de gente como Marc Andreessen, que a instrumentaliza, a transforma em uma arma que dispara destruição e miséria em todos nós para o benefício de poucos, dos seus.

Os Andreessens, Musks e Thiels da vida é que são o nosso risco existencial. Não há tecnologia capaz de consertar o estrago que eles causam.

PS: Esta versão editada do manifesto, pelo Ben Grosser, é mais honesta e curtinha. A falta que um(a) editor(a) faz… né?

Foto do topo: Joi Ito/Flickr.

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22 comentários

  1. Me choca a frase: amor não escala. A pessoa tem que ter deformação emocional profunda pra emitir uma bobagem deste tamanho. Não existe nada no universo mais escalável que amor. Só que ele não vira grana, né?

    1. o cara é literalmente contra o amor… o que esperar de uma pessoa assim? se isso é o que os eua tem de “melhor” a oferecer, eles bem que poderiam ficar com isso só pra eles e deixar o resto do mundo fora disso.

  2. Tecnologia é pôr o conhecimento em prática. A tecnologia (ou o trabalho, diriam os marxistas) define a nossa espécie desde que alguém talhou uma pedra e usou como machado ou desde que alguém transformou a habilidade de desenhar figuras em escrita pra compartilhar ideias. O problema apareceu na hora em que alguém cismou de se apropriar de uma tecnologia e cobrar caro de quem quisesse usá-la. Aí um monte de adultos se viu no direito de se comportar como criancinhas mimadas (O doce é meu! O brinquedo é meu e eu não deixo ninguém mexer!). Esse infantilismo perverso é que alimenta muito discurso e muita prática até hoje, seja por parte dos Andreessen da vida no Vale do Silício ou dos muitos apoiadores das falas de um Javier Milei na Argentina, pra não falar de gente mais próxima de nós aqui… Desculpem o texto longo, mas a qualidade da reação do Ghedin me estimulou a soltas as ideias. E é disso que a gente precisa.

  3. Excelente texto. Com certeza, a tecnologia tem a capacidade de mudar muita coisa pra melhor, o problema são os camaradas por trás, como mencionado. Outro episódio interessante pra ilustrar, Europa está começando a titubear com adoção de carros elétricos, afinal quem está vendendo são os chineses.

  4. “Em geral, o que separa o capitalista convicto do fascista é apenas uma crise.”

    Sem tirar nem por, o único risco existencial a humanidade é sistema capitalista de produção. Estamos a algum tempo em limbo onde não existe um projeto de futuro estabelecido, o Capital conseguiu impor seu projeto neoliberal no final do século passado mas ainda não apresentou uma alternativa aos problemas criados por esse mesmo projeto.

    Já está mais do que na hora da classe que move o mundo colocar sua proposta de futuro na mesa.

  5. Bilionário de tecnologia escreveu um textão pra falar que bilionário de tecnologia devia ter carta branca pra fazer o que quiser, é isso mesmo?

  6. O “lado bom” de ver essas rachaduras nos discursos dessa galera é que me parece, ter cada vez menos pessoas caindo nesse papinho. Mas pode ser apenas percepção.

    Como o Ghedin apontou diretamente no texto:

    “Se alguém explicitamente mal intencionado, mas influente e poderoso, publica algo abjeto na internet que repercute entre os seus, vale a pena tentar rebater os argumentos?”

    Vejo isso acontecer nos discursos do menor homem do mundo™ (aka Musk). Não passa por nenhuma análise um pouco mais fundamentada.
    Acho, de fato, que essa galera só fala para os seus. Performam e parecem esperar palmas. Mas AÇÕES para mudar as coisas, dificilmente acontecem, pois não são “sexys”.

    Semanas atrás ouvi uma frase no podcast Pivot que me chamou a atenção e acho que se encaixa neste contexto.

    “Watch the hands, not the mouth”

  7. O que esse cara tem, assim como muito outros, em vários ramos, é a famosa autoindulgência. Quando você chega a um certo tamanho, param de ter pessoas ao seu redor que discordam de você e aumenta sobremaneira o numero de puxa-sacos. Assim, tudo que o caboclo faz, acha que tá certo.
    O que as redes sociais fazem, com suas bolhas, é trazer isso para o common people, sem poder ou grana ou fama ou cocaína o suficiente para ter isso da forma clássica.

  8. Baita artigo, Ghedin! Te confesso que estava com saudades de seus “direto ao ponto” artigos críticos. Belo trabalho. Abraços.

  9. Infelizmente, essa ideologia está entranhada intimamente não apenas na mente de bilionários em geral, mas especialmente em startups, tech bros etc. E se dissemina por toda a sociedade.

    1. Eu vi isso de perto e posso dizer que é assustador, mentalidade que pode se comparar a de seitas.

        1. Não, eu tive contato por bastante tempo com o mundo das startups, incluindo figuras dessas big techs, infelizmente eu quase fui zumbificado por isso, tive sorte que minha formação Marxista-Leninista me salvou. Ajudei a organizar eventos como Startup Weekend, fui mentor em vários deles, convivi com os “investidores anjos” e vi como funciona os bastidores do projeto de incurtir na mente dos participantes a ideia de que vão salva o mundo com seus projetos e enriquecer ao mesmo tempo.

  10. Puxa, quando eu crescer, quero escrever que nem tu!! 👏

    Excelente analise do texto e bela crítica as bobagens ali escritas. Confesso que ficaria surpreso se o Manual endossasse tal manifesto. Parabéns!

    1. Em NewsLetters eu busco informação, não opinião. Descadastrando.

      1. Quem dera se existisse algo como uma informação pura boiando no espaço, sem nenhuma opinião para apoiá-la. O própria fato de escolher qual informação soltar, já é uma opinião fortíssima.
        Acho que vale muito mais a opinião explícita e sincera, do que a opinião oculta da grande mídia.