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Foto lateral de uma mulher, sentada em sua escrivaninha, usando um Meta Quest Pro com três telas projetadas à sua frente.
Foto: Meta/Divulgação.

Na abertura da Meta Connect, conferência da Meta focada em metaverso, o foco de Mark Zuckerberg foi em aplicações para o corporativo.

O Meta Quest Pro, capacete de realidade mista mais avançado do mercado, foi anunciado com preço de computador topo de linha (US$ 1,5 mil), o tipo de coisa que só entusiasta e empresa tem disposição para comprar.

E por que uma empresa compraria isso? Já existem aplicações práticas em realidade virtual, ainda que de nicho. Em outra parte da apresentação, Satya Nadella, CEO da Microsoft, apareceu para anunciar uma grande parceria entre as duas gigantes.

Quem trabalhar com um Meta Quest Pro no rosto poderá acessar o Windows 365 e o Teams em versões virtuais.

O novo capacete tem um punhado de sensores para captar e reproduzir expressões faciais, o que é legal, mas a ideia de passar horas em reuniões com um capacete que, segundo Lauren Goode na Wired, ainda deixa uma marca profunda na testa — e ainda no Teams — não me soa agradável.

A propósito, acho curioso como todas as fotos de divulgação do Meta Quest Pro são como aquela ali em cima: mostram pessoas sozinhas usando o capacete. Vi um post engraçado no Twitter (perdi o link) em que alguém falava de como é legal voltar ao escritório presencial e interagir com os colegas e, anexa ao texto, uma foto de quatro pessoas num escritório usando esses capacetes. Estranho. Será que isso passou pela cabeça do Zuck? Via Meta, @Meta/YouTube, @CNET/YouTube, Wired (todos em inglês).

A DappRadar, consultoria especializada em aplicações de blockchain, levantou alguns números intrigantes de duas startups de metaverso, a Decentraland e a The Sandbox: os picos de audiência diária nelas foram de 675 e 4.503 usuários, respectivamente. Elas são avaliadas em US$ 1,3 bilhão cada.

A contagem da DappRadar é meio estranha, só leva em conta usuários que transacionaram nas blockchains desses ambientes — a maioria não quer/não faz negócios, só está ali para interagir e socializar.

Ao Coinbase, porém, Sam Hamilton, diretor criativo da Decentraland, disse que a média de audiência diária do metaverso da startup é de 8 mil usuários. Pouco, né?

Sim, pouco, e talvez o cenário seja o mesmo em todos esses universos supostamente “revolucionários” de realidade virtual. O Horizon Worlds, metaverso líder da Meta (aquele do gráfico feião que nem os funcionários da Meta querem usar) tinha, em fevereiro, 300 mil usuários mensais. Via Coinbase (em inglês).

O The Verge conseguiu uns memorandos internos da Meta, assinados por Vishal Shah, vice-presidente do metaverso da empresa, em que ele aborda um problema constrangedor: os funcionários que criam o Horizon Worlds, o ambiente virtual/metaverso da casa, pouco acessam o local.

É surreal. No segundo memorando, de 30 de setembro, Shah escreveu que a missão de todos na empresa é “apaixonar-se pelo Horizon Worlds”. E disse que vai responsabilizar os gerentes se a galera continuar ignorando o metaverso.

Em outro momento, Shah diz que o Horizon Worlds ainda não tem razão de existir:

Quero deixar isto bem claro. Estamos trabalhando em um produto que ainda não encontrou espaço no mercado. Se você está no Horizon, preciso que você abrace completamente a ambiguidade e a mudança.

Horizon Worlds, vale lembrar, é aquele aplicativo de realidade virtual que foi zoadaço mês passado depois que Mark Zuckerberg postou um print que parecia um jogo do Nintendo Wii de 2000 e bolinha. Via The Verge (em inglês).

Close no rosto sem expressão do avatar de Zuckerberg.
Imagem: @zuck/Facebook.
Avatar de Mark Zuckerberg com gráficos melhores.
Imagem: @zuck/Instagram.

Você se lembra daquele print do metaverso (o mundo virtual Horizon Worlds, para ser mais preciso) que Mark Zuckerberg postou semana passada? É impossível esquecer aquele boneco medonho em gráfico 2000 e bolinha. Eu nem vou postar o print de novo aqui para não te traumatizar outra vez.

Então. Zuckerberg sentiu demais as críticas. Não por coincidência, na sexta (19) o CEO da Meta foi ao Instagram anunciar que “grandes atualizações no gráfico de Horizon Worlds chegarão em breve”.

Que coisa, parece criança mimada quando alguém fala que o brinquedo dela é feio e bobo e aí ela volta com outro brinquedo mais caro — e feio e bobo.

No post, Zuckerberg colocou duas imagens: a de um ambiente aberto com texturas melhores e um avatar dele próprio, meio cartunesco. Parabéns, agora está parecendo um boneco de The Sims 4. Mas… né, quem se importa.

Zuckerberg admitiu que a primeira foto postada “era bem básica”, porque “foi tirada rapidamente para celebrar um lançamento”.

Longe de mim dar pitaco de negócios a Mark Zuckerberg, mas talvez não seja uma boa postar “fotos tiradas rapidamente” de um negócio em que você apostou o futuro da sua empresa e que está consumindo dezenas de bilhões de dólares.

Via @zuck/Instagram (em inglês).

O metaverso proposto pela Meta/Facebook já nasceu morto

por Guilherme Felitti

Vamos começar o episódio com um exercício. Eu vou ler três declarações e você vai me dizer quem falou aquilo e quando. Vamos lá:

  1. “O tablet expande o poder da computação pessoal em empolgantes novas áreas. Combinar a simplicidade do papel com o poder do computador tornará as pessoas ainda mais produtivas. Ele torna o computador uma ferramenta ainda mais valiosa para executivos que gastam tempo em reuniões e longe de suas mesas.”
  2. “Eu imagino levá-lo a reuniões, mas também me deitar com ele à noite para ler meus e-mails e um livro. Quando meu marido me lembrar que um fim de semana especial está chegando, eu posso fazer as reservas [do hotel] online.”
  3. “O tablet representa a próxima grande evolução de design e funcionalidade do computador.”

(mais…)

Imagem virtual de um avatar de Mark Zuckerberg com a torre Eiffel e uma igreja ao fundo, num gramado verde.
Imagem: @zuck/Facebook.

Para celebrar o lançamento na França e na Espanha do Horizon World, o ambiente de realidade virtual da Meta, Mark Zuckerberg postou uma imagem do seu avatar virtual e… que diabo é isso? O gráfico é tenebroso!

Vira e mexe alguém compara os esforços da Meta com o metaverso ao Second Life, o ~metaverso original lançado em 2003, mas talvez a comparação seja injusta — o Second Lifetinha gráficos menos zoados 20 anos atrás.

Não, sério: olhe bem dentro destes olhos verdes sem vida, este rosto sem expressão, as texturas piores que as daqueles joguinhos de boliche e tênis furreba do Nintendo Wii.

Close no rosto sem expressão do avatar de Zuckerberg.
Imagem: @zuck/Facebook.

É aí que você quer que a gente passe 20 horas por dia, Zuckerberg? É nisso que você está queimando US$ 10 bilhões por ano???

Boa sorte aí.

Eu tô fora.

Via @zuck/Facebook.

 

Após turistar no Apple Park, o ministro Fabio Faria e o presidente da Anatel, Carlos Manuel Baigorri, fizeram uma reunião no “metaverso” com o presidente Jair Bolsonaro (PL).

Constrangimentos à parte (cada passo do passeio do ministro pela Califórnia, basicamente), chamou-me a atenção o logo estampado nos óculos de realidade virtual usados pelo trio: Dual 360, uma empresa da qual nunca tinha ouvido falar.

A Dual 360, sem surpresa, é uma empresa de realidade virtual. Em seu site, cujo domínio está registrado em nome de Alan Augusto Morais, ela destaca “treinamentos corporativos” em duas áreas: simulações de vendas e atendimento, e de segurança. Há também uma menção à plataforma Seniors, que oferece soluções em realidade virtual a idosos.

A empresa dona da marca Dual 360, Folk Promoções Ltda, foi registrada em 2018, usa o CNPJ 17.325.293/0002-60 e está sediada na Bela Vista, em São Paulo.

Por que “a primeira reunião de um presidente da República no metaverso” teve a marca de uma empresa privada estampada? Isso, infelizmente, uma pesquisa rápida como a que eu fiz não é capaz de responder.

Na chamada, Bolsonaro voltou a acenar aos jovens e às mulheres, duas demografias que mais o rejeitam nas pesquisas eleitorais, e a espalhar mentiras, como a de que o Brasil está na vanguarda do 5G — outros países já têm a tecnologia há dois anos. Via @fabiofaria/Twitter.

A quarta fase da Operação 404, deflagrada nesta terça (21) pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública e as polícias civis de 11 estados, entrou para os anais da história: nela foi feita a primeira busca e apreensão no metaverso do Brasil.

Alessandro Barreto, coordenador do Laboratório de Operações Cibernéticas da Secretaria de Operações Integradas (Seopi), disse que mapas e eventos eram criados no metaverso como forma de promover as plataformas piratas e atrair usuários.

Infelizmente, as notícias da Agência Brasil e de outros veículos não detalham esse mandado. Em que metaverso ele foi cumprido? Algum avatar foi preso? E o dono do avatar? Qual a responsabilidade da plataforma onde o crime ocorreu?

O repórter Lucas Negrisoli, do jornal mineiro O Tempo, disse no Twitter que há dias tenta obter mais detalhes junto ao Ministério da Justiça e Segurança Pública. Só que está difícil: “Ninguém soube explicar, até agora, o que diabos é um mandado cumprido no metaverso. Assessoria da pasta chegou a me mandar — literalmente — a definição de metaverso da Wikipédia”, desabafou.

Na sexta (24), Lucas bateu um papo com um dos coordenadores de Operações Cibernéticas do Ministério da Justiça que deixou a coisa toda ainda mais confusa

O repórter segue “tentando entender”. Nós também, Lucas. Via Agência Brasil, G1, @lucasnegrisoli/Twitter (2).

Imagem de um ambiente virtual de uma sala do fórum, com vários avatares (pessoas cartunescas sem pernas) entre as cadeiras.
Imagem: Justiça do Trabalho/Divulgação.

A vara do trabalho Colíder (MT), do Tribunal Regional do Trabalho da 23ª Região, criou uma versão virtual de si mesma para explorar o potencial do metaverso, relata a Folha de S.Paulo.

O projeto foi desenvolvido pela empresa View 3D Studio, em caráter pro bono (sem custo), usando o AltspaceVR da Microsoft, que dispensa óculos 3D para ser usufruído. É tipo um Second Life sob demanda.

Cá entre nós, sempre acho um desperdício de mão de obra e falta de criatividade essas tentativas de replicar, pixel por pixel, experiências reais no mundo virtual. O que virá depois? Fila do INSS no metaverso? Chá de cadeira para falar com o gerente do banco só que no sofá de casa, com um óculos grudado na cara?

Aparentemente, uma ala do Judiciário, que inclui a juíza Graziele Cabral Braga de Lima, da vara do trabalho de Colíder, vê potencial no metaverso para exercerem atividades e ampliar o acesso da população por meio de palestras e visitas virtuais.

Há, ainda, a preocupação com litígios que possam ocorrer dentro do metaverso. Por que isso enseja a entrada da Justiça nele, fica no ar. Via Folha de S.Paulo.

A maioria das pessoas falando de metaverso não faz a menor ideia do que estão falando. E, aparentemente, nunca jogaram um MMO. Eles pensam: ‘Oh, você terá este avatar personalizável’. E é como, bem… entra em La Noscea no Final Fantasy 14 e me diga se este não é um problema resolvido há uma década, e não uma coisa incrível que você está inventando.

— Gabe Newell, co-fundador e CEO da Valve.

Em outra parte da entrevista, Gabe foi mais direto: “Tem um monte de esquemas ‘fique rico rápido’ em torno do metaverso.”

E sobre a tendência de executivos de empresas de tecnologia de adotarem ideias distópicas da literatura e as repaginar como algo bom ou desejável: “Sou amigo do Neal Stephenson [que cunhou o termo ‘metaverso’] e toda vez que nos encontramos, ele leva as mãos ao rosto. É meio ‘certo, qual notícia do metaverso me deixará maluco hoje?’” Via PC Gamer (em inglês).

Em outra entrevista, a respeito de NFTs e criptoativos: “[…] Com os atores que estão no momento neste espaço de NFTs, eles não são pessoas com quem você realmente queira fazer negócio.” Via Rock Paper Shotgun (em inglês).