Quem compra tablet de menos de R$ 300?

Um tablet bem barato -- e ruim.
Foto: Giovana Lago.

A parte mais interessante da tecnologia de consumo, para mim, não é ela por ela, não são os gadgets que analiso aqui. É a parte que fala sobre como os dispositivos, serviços online e todas as demais coisas legais (e não tão legais) que orbitam esse mundo nos afetam. “Nós”, aqui, tanto enquanto indivíduos como no todo, a sociedade.

É preciso estar atento para perceber as alterações mais sutis. Pensar nas grandes, porém, facilita o entendimento do que quero dizer. Um exemplo fácil é como a popularização do celular destruiu os telefones públicos, os famosos orelhões. Eles passaram de utilidades urbanas tão presentes que viraram até tema de música a peças de museu a céu aberto em menos de uma década. Esse tipo de transição acontece a todo momento, a dificuldade está em percebê-la durante o processo, especialmente naquelas que não são aferíveis tão facilmente quanto os orelhões, ou seja, que não estão visíveis a qualquer um que põe o pé na rua.

Por interessar-me nisso e escrever a respeito, fico um tanto incomodado pela posição que ocupo. E falo isso quase que no sentido literal: sempre escrevi sobre tecnologia de casa, em regime home office, e tenho círculos de amizades relativamente homogêneos no que diz respeito a como eles consomem tecnologia. Nessa, acabo meio desconectado da realidade, basicamente o que disse Paul Thurrott no Twitter: (mais…)

Por algumas horas, a Xiaomi foi a terceira maior fabricante de smartphones do mundo

Se o mercado de smartphones chacoalhasse literalmente a cada novidade anunciada, os sismógrafos responsáveis por medir essas oscilações teriam ficado malucos essa semana. Com a divulgação de relatórios financeiros, estudos de consumo e a fusão de duas gigantes, a topografia das fabricantes mudou — e isso pode ter reflexos a longo prazo.

A Samsung, ainda a maior fabricante de celulares do mundo, revelou aos acionistas que no intervalo de um ano seu lucro despencou 60,1%, de ₩ 10,16 trilhões para ₩ 4,06 trilhões. As vendas de smartphones caíram 8%, e se esse número já seria suficiente para acender a luz de alerta em Seul, ele fica ainda pior quando quando posto ao lado do crescimento de 25% do setor no mesmo período. As previsões apontam que este será o pior ano da empresa desde 2011. (mais…)

Com vendas abaixo do esperado, iPad será campo para experimentos em 2015

A divulgação dos números da Apple referentes ao último trimestre fiscal de 2014 reforçaram algumas constantes de longa data. O iPhone segue vendendo como pãozinho quente. Foram 39 milhões de unidades, um recorde para o período. A Apple lucrou bastante também, como sempre. Só nesses três meses, embolsou mais US$ 8,5 bilhões. E o iPad, a despeito dos primeiros trimestres de crescimento incessante, segue a tendência de queda inaugurada esse ano.

A Apple vendeu 12,3 milhões de tablets, número menor que o esperado (13,1 milhões) e 13% abaixo do que foi vendido no mesmo período de 2013 (14,1 milhões). É o terceiro trimestre consecutivo em que as vendas de iPad se retraíram na comparação direta com o ano anterior e não bastasse isso, a lucratividade desse segmento também tem caído sistematicamente. (mais…)

HP se dividirá em duas: uma corporativa, outra de PCs e impressoras

A HP anunciou que se dividirá em duas. Uma parte, a Hewlett-Packard Enterprise, focará em serviços, software e tecnologia de infraestrutura. A outra, HP Inc, ficará com sistemas pessoais (pense em PCs) e impressoras.

Em lucratividade, a divisão foi isonômica. A Enterprise lucra bastante com servidores, armazenamento, rede e software para empresas, mas tem margens curtas na prestação de serviços. Já a HP Inc sofre para lucrar com computadores, mas tem nas impressoras, especialmente as voltadas a clientes corporativos, uma grande fonte de renda. (Via Gizmodo.)

Antes de ser demitido, em 2011, o ex-CEO da HP, Leo Apotheker, tinha essa divisão em seus planos imediatos. O conselho não gostou da ideia e o substituiu por Meg Whitman, que continuará como CEO da HP Enterprise e chairman da HP Inc. Dion Weisler será o CEO dessa. A justificativa de Whitman para essa mudança de posicionamento ocorreu graças aos investimentos feitos em inovação e da nova equipe de liderança dos últimos anos.

Como ficam as novas HPs.
Imagem: HP. (Clique para ampliar.)

Esse é apenas mais um capítulo da reconfiguração das grandes fabricantes de PCs. Recapitulando:

A divisão, que segundo a HP não acarretará no pagamento de impostos pelos acionistas, deve ser completada até o final do ano fiscal de 2015 da HP, que termina no dia 31 de outubro de 2015.

Com a compra da Aviary, Adobe expande sua presença online

A Adobe acabou de comprar mais uma empresa, a Aviary. Essa produz um kit de desenvolvimento que fornece capacidades de edição de imagens para outros apps. O Twitter, por exemplo, recorre à tecnologia para dar a seus usuários filtros e ferramentas básicas.

A quantia paga pela Adobe não foi revelada, mas uma coisa a empresa, conhecida pelo PDF e pelo Photoshop, não pode esconder: a transição para um mercado centrado na nuvem tem sido bem sucedida.

Em 2011 os principais aplicativos de produção da Adobe tiveram sua distribuição repensada. Em paralelo às versões anuais vendidas a peso de ouro, Photoshop, Illustrator, Premier e outros passaram a ser comercializados também em um sistema de assinatura, com preços mais acessíveis. Desde maio de 2013, esse passou a ser o modelo exclusivo para as novas versões desses apps. No Brasil, o pacote para fotógrafos, que inclui Photoshop e Lightroom para desktop, dispositivos móveis e na nuvem, custa R$ 22 por mês. A Creative Cloud completa, com apps e extensões a perder de vista? R$ 65 R$ 1091 por mês.

Ao mesmo tempo em que mudava seu ganha-pão, a Adobe reforçou a presença online comprando startups. A lista de aquisições nos últimos anos é vasta e inclui o Typekit, um serviço de distribuição de fontes para a web; Behance, portfólio para artistas digitais; soluções para gerenciamento de campanhas, como Demdex e Neolane; e, por último, o Aviary. Ela também lançou soluções próprias, como o Revel, para armazenar fotos na nuvem e permitir o acesso a elas via dispositivos móveis.

Apesar de ter desapontado levemente os acionistas no último trimestre, a base de usuários da Creative Cloud continua subindo. Já são 2,81 milhões de clientes pagando mensalmente para ter acesso à tecnologia mais recente da empresa. Para uma empresa tão antiga, dona de um dos softwares que ainda hoje uma multidão usa diariamente, é um feito e tanto.

  1. O valor de R$ 65/mês é válido apenas para clientes que tenham a Creative Suite 3 ou posterior.

Telefônica fecha acordo para comprar GVT por R$ 21,9 bilhões

Da Folha:

A Vivendi anunciou nesta sexta-feira (19) que chegou um acordo para vender a GVT, sua operadora no Brasil, para os espanhóis da Telefônica, em um acordo avaliado em € 7,2 bilhões [R$ 21,9 bilhões].

Serão € 4,7 bilhões (R$ 14,3 bilhões) em dinheiro e o restante em ações da Telefônica e e Telecom Italia (TIM), 7,4% e 5,7%, respectivamente. A venda ainda está sujeita à aprovação do Cade e da Anatel.

Sou cliente da GVT há seis anos e pelo que ouço e leio de relatos, ela parece ser uma ilha em meio a serviços absurdamente ruins. Aquela história de garantir no mínimo 10% da velocidade contratada, por exemplo, parece tão surreal… Sempre tive 100% do plano contratado. E o pior é que isso nem deveria ser mérito, afinal, é o que foi acordado entre as partes.

Enfim, agora é esperar e torcer para que a boa qualidade que a GVT sempre teve, de quando era independente e na gestão da Vivendi, seja mantida.

Cabos USB Tipo C, que encaixam dos dois lados, estão prontos para produção em massa

Nunca mais você errará o encaixe do cabo USB.

O Grupo de Promoção do USB anunciou que a especificação USB Tipo C está finalizada e pronta para entrar em produção.

USB Tipo C? O nome não diz muito, mas em breve você deverá vê-lo por aí e agradecer aos deuses da tecnologia pela sua invenção. Tratam-se de cabos encaixáveis dos dois lados. Até hoje, não se sabe bem o motivo, era preciso muita concentração ou sorte para plugar de primeira um cabo USB. O novo padrão acaba com isso, já que funciona de qualquer lado.

A velocidade de transmissão dos cabos USB Tipo C pode chegar a 10 Gb/s. Ele também carrega até 100 watts, suficiente para alimentar um notebook e até monitores, e tem dimensões similares às do micro-USB. Além de mais prático, ajudará a deixar os nossos gadgets mais finos.

O USB Tipo C é similar ao Lightning, cabo proprietário da Apple apresentado junto com o iPhone 5. As dores de cabeça que a transição trará também devem lembrar a migração do cabo de 30 pinos para o Lightning, há dois anos. No caso do USB, em escala maior já que mais fabricantes dependem dele e organizações e governos estabeleceram o micro-USB como padrão para recarregadores de smartphones, tablets e outros gadgets. Não há retrocompatibilidade entre o USB Tipo C e as versões anteriores sem o auxílio de adaptadores (boo!).

Os primeiros gadgets compatíveis com USB Tipo C devem chegar até o fim do ano, mas a transição completa demorará pelos motivos descritos acima. Apesar dos transtornos, tudo indica que no fim terá valido a pena.

Como as empresas de tecnologia se saíram no último trimestre fiscal (2Q2014)

Diversas empresas de tecnologia com capital aberto estão divulgando seus relatórios trimestrais nesta semana. Esses documentos públicos são uma exigência da Bolsa e trazem, resumidamente, números: vendas, faturamento e lucro (ou prejuízo).

Por que você está lendo isso aqui? O site não virou um Manual do Investidor, nem mudou de foco. Esses relatórios, porém, servem ao mesmo tempo de indicativos para o futuro das empresas e termômetro para suas ações mais recentes. Tomemos a BlackBerry como exemplo. As mudanças radicais em comando, estratégia e abertura se devem ao mau desempenho dos seus papéis. Como empresa de capital aberto, agradar aos investidores e manter seu valor de mercado em alta passa a ser uma meta importantíssima, talvez a mais importante.

Abaixo, um resumo das que já divulgaram seus números e seus destaques relativos ao segundo trimestre (terceiro, para a Apple) do ano fiscal1 de 2014. (mais…)

Independente e a caminho do Android e iOS, o futuro do MixRadio é incerto

Tela inicial do MixRadio.
Imagem: Microsoft.

Como parte do seu plano de reestruturação, a Microsoft se desfará do MixRadio, um app de streaming de música herdado da Nokia.

Ao Guardian, Jyrki Rosenberg, responsável pelo MixRadio, disse que ele se tornará independente, continuará vindo pré-instalado nos Lumias e, talvez o mais importante, deve ganhar versões para Android e iOS.

Embora faça streaming de música, o MixRadio diverge um pouco das ofertas de Spotify, Rdio, Deezer e Xbox Music. Ele não tem música sob demanda, é num esquema mais parecido com rádio — ou, se você estiver familiarizado, com o Pandora. Sempre que testo algum Windows Phone acabo usando-o, e é bem legal por ser “frictionless”: você abre, indica um artista e ele monta a playlist baseada nisso e nas curtidas suas nas músicas. Mais simples, impossível.

No Brasil o MixRadio só está disponível na versão gratuita. Em alguns dos 31 países onde existe, os usuários podem pagar uns trocados por mês (£ 3,99 no Reino Unido) e obter vantagens como cache de playlists para ouvir offline e pular músicas sem limites (na versão grátis o limite é de cinco por hora).

Embora a chegada ao Android e iOS abra possibilidades, o MixRadio terá dificuldades em se manter sem uma gigante por trás. Players muito maiores não têm vida fácil — o Spotify, maior do gênero, já perdeu US$ 200 milhões desde que foi lançado.

Os trunfos do MixRadio são a presença forte no Windows Phone e a facilidade de uso: dispensa cadastro, não exige pagamento, é só abrir e dar o play. Se isso, mais a chegada a outras plataformas mais populares, serão suficiente para ganhar relevância comendo pelas beiradas, ninguém sabe. O futuro do MixRadio é tão incerto quando era o da Nokia pós-aquisição pela Microsoft.

PCs e tablets invertem posições nos últimos relatórios de vendas

Don Clark, no Wall Street Journal:

A Gartner Inc. disse que as unidades de PCs entregues subiram 0,1% no período — basicamente empatadas com o mesmo período um ano atrás — pelo aumento das vendas em economias maduras, enquanto em outros lugares elas permaneceram estagnadas.

A [consultoria] rival IDC disse que as entregas de unidades globais diminuíram 1,7%, o que é bem melhor que as previsões preliminares da empresa de que haveria uma queda de 7,1% nas vendas nesse trimestre.

As três maiores fabricantes de PCs (Lenovo, HP e Dell) demonstraram aumentos consideráveis nas entregas em relação ao ano passado, disseram as duas consultorias.

Enquanto isso, nos tablets…  Adrian Kingsley-Hughes, na ZDnet:

Embora as entregas de notebooks PC no primeiro trimestre de 2014 tenham sido melhor que o esperado graças ao ciclo de atualização de PCs comerciais e à migração do Windows XP, as de tablets, com 56 milhões de unidades, representaram pela primeira vez uma queda anual, de acordo com a NPD.

A redução no interesse dos consumidores em tablets reflete o aumento em popularidade dos smartphones grandes, com telas de 5,5 polegadas. Até então, eram os tablets pequenos, com telas entre 7 e 8 polegadas, que impulsionavam as vendas do setor. Agora, as fabricantes esperam que os tablets maiores ganhem força.

Em relação aos notebooks, o Windows XP tem um papel bem importante nesses resultados, mas especialistas apontam, também, a contribuição dos Chromebooks, equipamentos baratos que rodam apenas o Chrome, nesse número inesperado. Desde o segundo trimestre de 2012 o segmento acumulava resultados negativos.

Yo: o futuro da comunicação ou a agulha que estourará a bolha 2.0?

O logo do Yo é tão simples quanto o app.
Imagem: Yo.

Imagine um app que tem como única finalidade mandar uma notificação que informa em texto e áudio, de um jeito engraçado, “yo”. O usuário adiciona seus amigos e, quando toca em um deles, manda um “yo”. Do outro lado, a única opção para quem recebe a mensagem é responder. Com um “yo”. E é basicamente só isso. (mais…)

O que este Nokia X estava fazendo no Submarino?

Nokia X à venda antes da hora no Brasil.
Imagem: @GordoGeek.

Ontem de manhã um produto curioso apareceu na vitrine virtual do Submarino: o Nokia X, smartphone de baixo custo que roda uma versão especial do Android, por R$ 599 — ou R$ 519 no cartão da loja. Divulguei o link no Twitter questionando se estava diante de um vazamento, um erro operacional ou qualquer coisa do tipo, afinal o Nokia X ainda não foi anunciado oficialmente no Brasil.

A resposta, vi minutos depois, estava na própria página. Não era o Submarino que estava vendendo o Nokia X, mas uma outra loja, a Shopmaxx, através do programa Submarino Marketplace.

Esse programa é parecido com o que a Amazon faz nos EUA. Lojas menores vendem através de uma maior (Amazon ou Submarino, nesses casos) para se aproveitar da exposição e recursos de divulgação mais robustos. Elas expõem seus produtos e lidam com a entrega, mas o processamento dos pedidos é feito pelo Submarino. Para participar do programa, é preciso ser aprovado em uma avaliação da loja maior.

A Shopmaxx é uma dessas. Seus preços estão dentro da normalidade e seus produtos se alternam entre smartphones, equipamentos fotográficos e acessórios. Como o Nokia X foi parar lá, então?

Falsificação ou importação

Existem duas possibilidades. A primeira, que se trata de um aparelho falsificado, como as inúmeras réplicas de iPhone que inundam o mercado cinza. A outra, mais provável, é de que se trata de um produto importado.

Essa prática é relativamente comum em lojas menores, que acabam servindo de atalho para quem quer comprar por aqui, pagando com cartão nacional e podendo parcelar, aparelhos recém-lançados lá fora ou que sequer chegarão ao país.

A própria Shopmaxx, em seu domínio, comercializa vários smartphones da HTC, fabricante que há dois anos abandonou o BrasilOutras também vendem aparelhos da fabricante taiwanesa.

Ah sim, e o Nokia X, que continua disponível na loja da Shopmaxx e por um precinho mais camarada: R$ 397 à vista.

Mesmo sem ter chegado oficialmente ao Brasil, Nokia X já é vendido.
Nokia X à venda no Shopmaxx.

O que dizem Nokia e B2W

Entrei em contato com a assessoria da Nokia para entender se houve equívoco de alguma parte. Eles foram categóricos: “Por enquanto, a Microsoft Devices do Brasil ainda não anunciou preços e disponibilidade dos produto para o mercado.”

Também apontaram que, no anúncio (já removido a pedido da Nokia), a descrição do produto indica que o Nokia X roda Windows Phone, o que não é verdade.

Ao Submarino, mandei um e-mail perguntando quem, nesse caso, arcaria com eventuais reclamações ou problemas com o produto. A página de apresentação do programa diz que a loja parceira determina as condições de venda, os produtos disponibilizados e a entrega, mas não prevê o que acontece em caso de reclamação; no máximo, diz que consumidores em dúvida sobre produtos de parceiros podem recorrer ao SAC para esclarecimentos. A resposta ainda não veio e o post será atualizado quando a receber.

Salvo uma ou outra exceção, o Brasil está bem servido de smartphones e, quando eles chegam, a imprensa cobre com bastante barulho. Embora eu não esteja colocando em xeque a idoneidade da Shopmaxx, comprar um smartphone que não foi lançado oficialmente aqui, nem homologado pela Anatel, implica por si só em alguns riscos — no mínimo a Nokia pode não se sentir obrigada a prestar garantia a um produto não lançado e, nessa, o consumidor ficaria na dependência exclusiva da loja, situação que nunca é uma boa.

Apesar das alternativas gratuitas e na nuvem, o Office segue firme na liderança. Por quê?

Nos domínios da Microsoft, o Office é uma força espetacular. Imparável, implacável, avança e conquista novos territórios sem dar espaço à concorrência. O leitor Paulo Alcantara perguntou, à luz dos recém-anunciados add-ons do Google Drive, se as alternativas à suíte da Microsoft estão maduras o bastante para viabilizar a migração de quem (pessoas e empresas) está habituado ao Office.

O Office não é para mim, nem para você

Antes de qualquer suposição ou fato, é bom esclarecer a quem esses aplicativos se destinam. Eu, por exemplo, não sou público-alvo. Não uso o Office regularmente, embora tenha uma licença da versão 2010 com os apps mais básicos à disposição no meu notebook de trabalho. Vez ou outra recorro ao Word (especialmente para trabalhos acadêmicos) e ao PowerPoint (mesmo motivo); não me recordo da última vez que abri o Excel.

Meu perfil é, para as tarefas que o Office promete dar conta, um tanto simplista. O app que teoricamente eu mais usaria, o Word, é um exagero e um caminho que se fecha em si: dali, ou o texto é enviado para ser lido em outra instância do Word, ou é convertido para PDF ou papel. É possível utilizar o Word a fim de escrever para a web, mas convenhamos: com Markdown, apps mais ágeis e leves na web, e fluxos de trabalho menos complexos, não sobram motivos para recorrer ao Word.

Quando se fala na mítica versão do Office para iPad, o ceticismo de quem desdenha essa investida toma como público perfis parecidos com o meu. Para nós, gente que respira web e consegue viver sem maiores enroscos com ferramentas modernas, livres de legado, o Office de fato não tem lá tanto apelo, e não é de hoje. Olhando em retrospecto, mesmo sempre tendo uma cópia dele instalada nos meus computadores nunca as usei com tanta assiduidade para justificá-las. No passado, com alternativas limitadas em quantidade e qualidade, ele servia a um número maior de atividades; hoje, existe um app para isso — e não é força de expressão.

Nas empresas, o Office reina

Mulher demonstra o Office em uma tela sensível a toques.
Foto: Microsoft/Reprodução.

O que se costuma esquecer é a dimensão que o Office tem onde pagar por software sempre foi um gesto natural: o ambiente corporativo. O Office é uma máquina de fazer dinheiro não por todos os estudantes e blogueiros que compram licenças ou assinam o Office 365, mas pelos contratos de volume que levam Word, Excel, PowerPoint e Outlook para grandes parques de máquinas, para centenas, milhares de computadores de uma só vez, conectados via SharePoint, Exchange, Lync e outros nomes que, para quem conhece o Office de casa, são alienígenas.

Em 2010, a comScore revelou que havia no mundo, englobando todas as situações possíveis (inclusive estimativas da pirataria), mais de 1 bilhão de usuários de Office. Dados mais recentes da Forrester, de outubro do ano passado, mostraram que em três anos o Office 2010 dominou o mercado corporativo. Nessa pesquisa, conduzida com 155 empresas, 85% delas disseram usar essa versão da suíte. A 2013, já respondia por 23% (a soma das porcentagens supera 100% porque várias empresas usam duas ou mais versões em paralelo), quase o dobro da adoção do Google Docs/Drive e muito mais que o OpenOffice e variantes, que despencou no ranking em apenas dois anos.

As soluções na nuvem, personificadas principalmente pelo Google Drive, apesar do “oba oba” não conseguiram fazer a cabeça dos CIOs e penetrar no ambiente corporativo. E não por ignorância ou preconceito. Acontece que o Office da Microsoft tem duas características difíceis de serem batidas: ele é popular e, sejamos honestos, muito bom.

Espaço Office no Shopping Eldorado, em São Paulo.
Espaço Office, no Shopping Eldorado, em São Paulo. Foto: Emerson Alecrim/Flickr.

A popularidade advém da idade — e, créditos à Microsoft pela capacidade de adaptar um software tão antigo a toda e qualquer tendência que emplaque. Ter sido a única opção decente por tanto tempo também criou a cultura da compatibilidade; outros aplicativos, embora conversem com os arquivos gerados no Office, se enrolam com os mais complexos. É um jogo de força bruta, mas que no final pesa a favor da Microsoft.

As mais recentes, nuvem e venda por assinatura, convergiram no Office 365, disponível tanto para empresas quanto para usuários domésticos a preços interessantes. A versão doméstica do Office 365, por exemplo, custa R$ 21 por mês, dá direito à instalação dos apps em até cinco computadores, minutos no Skype, espaço extra no OneDrive e acesso aos apps para iPhone e Android. Para empresas, entram na conta soluções corporativas rodando na nuvem, como o sistema de comunicação Lync, SharePoint e servidor de e-mail Outlook, além do suporte sempre prestativo.

As alternativas são mais baratas, mas também inferiores

Uma planilha complexa no Excel.
Imagem: Microsoft/Reprodução.

As alternativas são gratuitas ou mais baratas? Sim. Mas carecem da maturidade do Office, do poder das suas ferramentas e da integração, entre apps e com as empresas. Para usuários casuais, um Google Drive ou iWork quebra o galho; para quem está inserido em uma grande rede corporativa cheia de protocolos e regras, não.

A última reformulação no iWork simplificou, muito até, os apps. É um caminho contrário ao do da Microsoft, que conseguiu algo raro com seu Office: ser ao mesmo tempo poderoso para quem precisa e simples para quem não o entender. O leitor Gustavo Vieira usa o Office no trabalho e em casa e explicou seus motivos:

“Uso [o Office] tanto na empresa quanto em casa e a justificativa é a mesma: é o que tem os melhores recursos avançados no pacote. Simplesmente não há alternativa decente (principalmente em relação ao Excel — fórmulas matriciais, macros VBA, tabelas dinâmicas) que consiga suplantar a suíte da microsoft. Até o Word, que a maioria acha que é apenas um editor de texto feioso, tem suas vantagens insubstituíveis (opções de formatação, smartart, referências, alterações controladas…).”

O Paulo, que sugeriu esta pauta, detalhou o que torna o Office, em especial o Excel, insubstituível para ele — e é curioso notar como os motivos vão além dos técnicos:

  • Porque quando comecei a trabalhar na área (design de interiores) há 10 anos já faziam assim, então, é algo muito difícil de mudar na cabeça das pessoas.
  • Macros. Querendo ou não, criar uma macro é algo muito difundido e relativamente fácil, então a planilha que eu uso tem macros criadas anos atrás que ainda funcionam muito bem.
  • Velocidade e confiabilidade com planilhas grandes. É sensível a diferença aqui. Uma planilha online como a do Google não tem a mesma velocidade de cálculo, nem a mesma confiabilidade. Já aconteceu de eu ter lançado algumas coisas na planilha do Google, e quando vou abrir, dá algum bug e o dado desaparece! Coisa que NUNCA, NUNCA, aconteceu com o Excel.
  • Fórmulas. As fórmulas do Excel são traduzidas para português, e quando meu pai me ensinou a mexer no Excel, ele me ensinou as fórmulas em… adivinha: português, como SOMA, CALC, etc. As fórmulas do Google Docs estão em inglês e são ligeiramente diferentes, o que me atrapalha um pouco.
  • Ambiente diferente. Querendo ou não, as pessoas ainda se sentem meio coibidas usando uma planilha fora do computador delas. “Mas fica nos Estados Unidos?”, disse uma funcionária aqui. “Mas o arquivo não é mais meu?”, disse outra funcionária. A pessoa perde a ilusão da “posse” daquele arquivo, acha que literalmente pode perder o arquivo ou outras pessoas podem ler. (E isso tem um fundinho de verdade.)
  • Ninguém quer aprender a mexer no Google Script para substituir macros! Sério, nem eu, que gosto de tecnologia, tive paciência de chafurdar em manuais para criar scripts que substituiriam as macros. A Macro é algo tão difundido, que é bem difícil substituir agora. Mas eu tenho uma missão comigo mesmo de resolver isso pelo menos aqui, no escritório.
  • Look and feel diferente. Imagina uma secretária, que faz o trabalho dela, repetitivo e sem criatividade, há 20 anos (uma grande amiga minha, por sinal), ter que se acostumar com os Ribbons do Excel 2007/2010. Não rolou. Ela pediu para trocarem de volta pelo Excel 2003, com os menus que ela estava acostumada.
  • Zoom. É normal fazer uma planilha grande no Excel e diminuir o zoom para ela caber na tela. Esse conceito não existe no Google Docs, a planilha que você tem é sempre 100% da visão, você não consegue reduzir ela na tela. Imagina isso com uma planilha com milhares de entradas!
  • Letargia profissional. Quase ninguém num ambiente corporativo quer melhorar as coisas, são poucos que querem arranjar uma encrenca. As pessoas querem fazer o trabalho delas e ir embora. Ninguém quer encarar o problema de transferir uma planilha monstruosa, com dados de 15 anos, para o Google, adaptar toda a formatação, ajustar as letras, recriar as macros em script, ensinar as pessoas a usar o novo conceito e convencer o chefe. É muito mais fácil simplesmente avisar o pessoal do TI a instalar a mesma versão do Excel 97/2003 no computador dele, que vai funcionar de qualquer jeito.

Nem toda empresa precisa de tudo o que o Office oferece, claro. Quanto mais simples as exigências, quanto mais enxuto o workflow e menor o número de funcionários, mais fácil é adotar alternativas. Embora o iWork foque na simplicidade para agradar o usuário doméstico, o Google tem a mesma abordagem de olho no corporativo. E funciona, pelo menos para cinco milhões de empresas — esse número, o último divulgado oficialmente, de junho de 2012.
É muito bom ter opções e não depender apenas de uma fornecedora, mas tratar o Office como uma tecnologia ultrapassada e em desuso é, no mínimo, exagerado, um discurso que não bate com a realidade, ainda que uma restrita à corporativa.

Talvez seja o mesmo caso do Internet Explorer: nos fins de semana, a sua fatia no gráfico de uso dos navegadores despenca. Só que funcionário também é gente e o software que ele usa é real, conta. Google Drive, iWork, OpenOffice e outros estão a quilômetros de distância do Office. Se duvida, tente fazer uma planilha complexa, com macros e outros recursos avançados, nessas alternativas. E boa sorte!

Por que o SkyDrive mudará de nome, para OneDrive, e outros casos similares

OneDrive, novo nome/marca do SkyDrive.
Imagem: Microsoft/Reprodução.

Quem usa o SkyDrive para guardar, acessar e sincronizar arquivos na nuvem terá um trabalho extra em breve. O nome do serviço da Microsoft mudará para OneDrive. Não é o primeiro caso do tipo. Por que essas coisas acontecem?

O SkyDrive é antigo. Ele foi lançado em agosto de 2007 como parte da família de softwares e serviços web Windows Live e, no começo, era apenas um disco virtual: não havia sincronia, nem clientes desktop ou para dispositivos móveis. Você mandava um arquivo e podia baixá-lo ou compartilhar o link com outras pessoas.

A evolução do SkyDrive, aliás, é uma das muitas histórias de conflitos, redundâncias e confusões nas linhas de produtos da Microsoft. A certa altura, ele conviveu com outros dois aplicativos com funções similares e, em alguns casos, replicadas.

Tínhamos o Windows Live Sync (antes, FolderShare) para sincronizar arquivos entre PCs (sem hospedagem online, na nuvem), mais o Live Mesh, que prometia ser uma camada de comunicação e armazenamento de dados na nuvem para aplicativos Windows. Quase um avô do Dropbox e iCloud que fracassou e que, quase como efeito colateral, também servia para guardar e sincronizar arquivos via Internet.

Com o tempo baixou o bom senso em alguém na Microsoft e todos esses deixaram de existir, sobrando apenas o SkyDrive (que perdeu o “Windows Live” do nome) como a solução tudo-em-um para arquivos e dados do usuário na nuvem. Mas demorou, viu!

A Microsoft foi obrigada a alterar o nome do SkyDrive depois de perder a briga pela marca “Sky” na justiça inglesa para a British Sky Broadcasting Group, que a detém. Como não chegaram a um acordo, a única saída para evitar multas milionárias e outras consequências pesadas foi acionar o pessoal do marketing e bolar um novo nome.

OneDrive soa legal, então espero que ele não leve a Microsoft a outra disputa judicial similar. Afinal, como reparou Brian Barret, do Gizmodo, existe um punhado de empresas e instituições que usam “One” em suas identidades.

Reincidência

Lançar um produto global é uma tarefa árdua. É preciso se garantir, verificar em cada país se o nome a ser adotado já está registrado e prever traduções… indesejadas. Parece bobagem, mas imagine se tivéssemos por aqui um “Windows Frango”? Foi o que aconteceu com o Vista na Lituânia.

Os casos envolvendo disputas judiciais são menos engraçados. A Microsoft não tem feito muito bem o dever de casa; a situação tensa envolvendo o Sky/OneDrive é a segunda de grandes proporções nos últimos anos.

Quando despontou no Zune HD, a linguagem visual Metro caiu rapidamente nas graças do público. “Metro” virou um nome fácil na boca de quem acompanha notícias de tecnologia, uma palavrinha mágica que remetia a telas bem desenhadas, com tipografia elegante, muito espaço para respirar. Bom gosto de modo geral.

Se o público gosta, vamos dar mais disso a ele, certo? Pode ter certeza que esse era o desejo da Microsoft. Mas não rolou. “Metro” calhou de já ser uma marca registrada por uma rede de supermercados alemã, a Metro AG. A Microsoft não só parou de usar o nome em seu material de divulgação como orientou desenvolvedores a evitarem seu uso em apps para não terem (desenvolvedores e ela própria) dor de cabeça.

Outras empresas também já tiveram que trocar nomes de produtos

Para não soar injusto, esse tipo de descuido não é exclusividade da Microsoft. O Firefox surgiu com o nome Phoenix. Aí aconteceu que… sim, você adivinhou: ele já estava registrado pela Phoenix Technologies, uma empresa que fabrica(va?) BIOS para computadores.

A grande surpresa, pois, foi descobrir que o novo nome adotado então, Firebird, também não estava disponível — ele já era usado por um banco de dados open source. Felizmente a adoção do nome Firefox, que até onde se sabe nunca foi reclamado, veio antes do lançamento da versão 1.0. Pouca gente conhece essa história e a Mozilla deve agradecer até hoje o fato desses problemas terminológicos terem surgido tão cedo.

Outro caso popular é o do iPhone. Quando Steve Jobs anunciou o smartphone da Apple, a marca “iPhone” era de propriedade da Cisco. O livro Inside Apple conta essa história, que envolve telefonemas de Jobs a Charles Giancarlo, executivo da Cisco, em horários e datas inoportunas, além de interpretações bem abrangentes das leis de proteção de direitos autorais.

No fim das contas Apple e Cisco entraram em um acordo de cooperação mútua em áreas de interesse comum. Mal sabia Jobs que cinco anos depois uma certa empresa brasileira daria o mesmo tipo de trabalho para os advogados da Apple…

Cadê o OneDrive?

O OneDrive ainda não foi lançado. No grosso, ele será parecido com o SkyDrive, mas aproveitando a ocasião, a Microsoft deve fazer algumas mexidas para atrair novos usuários.

Dentre as já sabidas via vazamentos, estão a volta da co-propriedade em pastas compartilhadas e a oferta de espaço gratuito extra para quem convidar amigos e habilitar o backup automático de fotos com os apps móveis.

OneDrive, OneNote, Xbox One, One Microsoft… Uma simples coincidência ou em breve o Outlook.com (que, sim, tem esse “.com” no nome) virará OneMail? Dado o histórico, eu não duvidaria.

O que o fim precoce do Everpix nos diz sobre startups e posse de dados

No final de agosto, Casey Newton e Ellis Hamburger publicaram um belo comparativo de serviços de armazenamento de fotos na nuvem. Um dos três vencedores, a melhor opção para usuários comuns, foi o Everpix, serviço relativamente novo, lançado menos de um ano antes com um modelo freemium e várias boas ideias para resolver o problema crescente que é organizar e revisitar toneladas de fotos digitais.

Ontem, o Everpix anunciou seu encerramento.

O que deu errado? Por que um produto tão bom não conseguiu se manter? Mais importante que essas questões é compreender o que esse fim precoce nos diz sobre a cultura de startups nos EUA e a importância de estar no controle da informação. (mais…)