Com vendas abaixo do esperado, iPad será campo para experimentos em 2015


21/10/14 às 14h52

A divulgação dos números da Apple referentes ao último trimestre fiscal de 2014 reforçaram algumas constantes de longa data. O iPhone segue vendendo como pãozinho quente. Foram 39 milhões de unidades, um recorde para o período. A Apple lucrou bastante também, como sempre. Só nesses três meses, embolsou mais US$ 8,5 bilhões. E o iPad, a despeito dos primeiros trimestres de crescimento incessante, segue a tendência de queda inaugurada esse ano.

A Apple vendeu 12,3 milhões de tablets, número menor que o esperado (13,1 milhões) e 13% abaixo do que foi vendido no mesmo período de 2013 (14,1 milhões). É o terceiro trimestre consecutivo em que as vendas de iPad se retraíram na comparação direta com o ano anterior e não bastasse isso, a lucratividade desse segmento também tem caído sistematicamente.

Fatores externos e internos explicam, em parte, os números frios do iPad. De fora vem a concorrência dos tablets Android (e agora, Windows) super baratos. A experiência não passa nem perto de ser a mesma, mas não raro ela é suficiente. Jogar Angry Birds, acessar o Facebook e ver vídeos no YouTube são situações que não se beneficiam tanto de processadores super avançados, ou de perfis finos e hardware levíssimo. E preço, em mercados emergentes, pesa muito.

Dentro da Apple, o iPad mini, apresentado em 2012, foi um baque nas margens de lucro que antes, apenas com a versão de 9,7 polegadas, eram similares às do iPhone. Nas palavras do então CFO Peter Oppenheimer, a versão pequena do iPad rende à Apple um lucro “significativamente menor” do que outros dispositivos. E segue caindo com o passar do tempo:

Agora temos o iPhone 6 Plus, com uma tela de 5,5 polegadas que desestimula consideravelmente a compra do iPad mini. Pode ser uma estratégia, afinal, para empurrar os clientes à linha Air, mais cara — e mais rentável.

Isso explicaria, inclusive, a falta de atenção dada ao iPad mini 3. Durante a apresentação do produto, semana passada, a Apple dedicou 30 segundos e apenas um slide ao tablet. Pior: as únicas novidades foram a inclusão do TouchID e a nova cor dourada. A estratégia de 2013, de diferenciar iPad mini e iPad Air apenas pelo tamanho da tela, foi totalmente revista e o novo mini pareceu, aos olhos do público e da imprensa, um mero cumpridor de tabela.

A essa altura é consenso que o iPad não é uma máquina de fazer dinheiro similar ao iPhone — no início havia essa perspectiva e os primeiros trimestres a sustentavam bem. O próprio Tim Cook, no papo com investidores após a divulgação dos números desse último trimestre, admitiu:

“O que você vê é que as pessoas ficam com seus iPads mais tempo do que com o smartphone. E por estarmos nesse mercado há apenas quatro anos, ainda não sabemos ao certo como será o ciclo de atualização para as pessoas. É um negócio difícil de dizer.”

Nas outras vezes em que se referiu ao iPad (a Quartz compilou todas), Cook demonstrou otimismo: comparou suas vendas com a do mercado de PCs, lembrou que a Apple já vendeu 237 milhões de tablets em apenas quatro anos e de que acordos corporativos, como o firmado com a IBM, têm potencial para aumentar dramaticamente as vendas no futuro próximo. Deixando as glórias do passado e as promessas futuras de lado, o que sobra são algumas questões difíceis a serem respondidas hoje, no presente.

Em 2012 me dispus a explicar a serventia de um tablet. Ainda hoje, mantenho-me firme à conclusão daquela época: ele pode ser qualquer coisa, depende do que os desenvolvedores conseguem fazer. Só que embora existam aplicações, jogos e maluquices muito legais em tablets, o iPhone segue como referência quando se trata dessas novidades. Aplicativos feitos especialmente para o iPad ou que se destacam mais nele do que no smartphone são cada vez mais raros. Ante a falta de novidade e a incerteza sobre os ganhos concretos que uma pessoa teria com a compra de um tablet, não chega a ser surpreendente a desaceleração nas vendas.

E tem mais. Parece-me, pelas conversas que tenho e pelo que leio por aí, que o tablet tem, sim, um caso de uso unânime: computador de sofá. Pela leveza e facilidade de manuseio, o iPad é ótimo para ler e assistir a vídeos, duas ações que dispensam poder de processamento, câmeras novas e qualquer outra melhoria implementada no iPad 3 em diante. Um iPad 2 continua dando conta dessas ações — e falo por experiência própria. É lento? Sim. A tela não-Retina desagrada? Certamente. Mas não são problemas tão urgentes que me faça querer trocá-lo.

Cinco iPads à venda em 2014.
Todos os iPads atualmente à venda.

Apesar do tom pessimista, o iPad é um negócio grande o suficiente para a Apple manter o foco — mesmo vendendo menos, ainda assim foi mais que o dobro de Macs, que desde 1995 não vendiam tanto num trimestre. Mas havia tanto potencial no início que esse desconforto dos últimos tempos se justifica.

A Apple, que normalmente mantém linhas de produtos enxutas, parece estar disposta a arriscar. O lineup desse fim de ano para o iPad soa muito, como sugeriu Stephen Hackett, como um experimento. Afinal, são cinco iPads à venda e alguns sem muita lógica, como o iPad mini 3. Veremos, então, se uma dupla de iPad Air, muito melhores que as versões mini, abocanha vendas desses; se o iPad mini 3, mesmo sem qualquer novidade que justifique sua compra, continuará saindo; ou ainda qual o impacto do iPad mini original, o mais barato já vendido pela Apple (US$ 249), terá na lucratividade.

A essa altura ninguém sabe como será o primeiro trimestre fiscal de 2015 e como os iPads se sairão. Nem a Apple. Com o tanto de dinheiro que tem em caixa e outros segmentos pra lá de saudáveis, é o tipo de aposta que só ela pode se dar ao luxo de fazer.

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7 comentários

  1. Pô, Ghedin, estamos quase em 2015 e ainda tem essa de que a experiência no “resto” não passa nem perto daquela em um iPad? Concordo que tem muito lixo barato por aí, mas você não deve ter tido contato com nada além disso, hein?

    1. Tive sim, @zambeta:disqus. Recentemente testei o Galaxy Note Pro 12. Salvo engano, é o tablet Android mais caro à venda: https://www.manualdousuario.net/galaxy-note-pro-12-review/

      Não é ruim e, definitivamente, bem melhor do que era o Android em tablets há dois, três anos. Para algumas atividades de produção e para quem curte desenhar, é melhor que o iPad. Em resumo, dá para ser feliz com um tablet Android! Mas a grande vantagem da Apple continua sendo ecossistema. Os apps são melhores e o sistema, mais simples de usar.

      1. Ecossistema, apps e especialmente “facilidade de uso” caem na história de Android x iOS, um debate que envolve preferências, vai longe e não é o caso aqui. O que ocorre é que tudo o que você me disse agora vai contra o que escreveu no texto, apenas deixa mais evidente que uma experiência não está a essa distância toda da outra.

        1. Eu não trabalho com música porém, sempre coloco as músicas das festas da família em um ipad2. Não encontrei nenhum aplicativo de qualidade de mixagem para tablet android. Os apps musicais, de desenho profissionais e etc.. são muito melhores para o ios ainda.

  2. Adoro meu iPad Mini 2,
    e ainda me vejo com ele por um bom tempo (eis o problema da Apple),
    acredito em um tempo médio de uso pra um iPad em torno de 3 ou 4 anos,
    mas isso porque eu gosto de celulares menores, com tela de no máximo 4,7″,
    realmente é difícil imaginar alguém com um iPhone 6 Plus ou um G Note comprando um iPad Mini.
    Não faz muito sentido.

  3. o lineup super enxuto, que praticamente salvou a Apple em um momento da história não se justifica hoje. A Apple ainda é um bom exemplo de lineup! (a despeito da Samsung e nesse ponto a Motorola está muito bem, obrigado.) Mas a concorrência se mexeu bem e ela precisa acompanhar.

    Continuo fiel e curtindo o iPad. É o meu computador de sofá, de viagens, alguns games, netbanking, companheiro de receitas malucas na cozinha, musica ligada em caixas de som maiores, etc. Mas concordo: Meu iPad 4 não justifica sua troca ainda. E como o Cook falou, iPad’s não são como iPhones… é outro mercado. Talvez caia um pouco, mas duvido que seja abandonado.