Com um aviso no Twitter, o OnlyFans reverteu a decisão de proibir conteúdo sexual explícito em sua plataforma, dizendo ter “assegurado recursos” necessários para continuar operando dessa forma. Anteriormente, logo após anunciar a proibição, que seria válida a partir de 1º de outubro, o CEO Tim Stokely havia dito ao Financial Times que os bancos BNY Mellon, JPMorgan Chase e Metro Bank estavam criando obstáculos injustos para o pagamento dos criadores da plataforma devido à conexão do OnlyFans com profissionais do sexo. A forte reação deu resultado, mas fica a dúvida se o estrago já não está feito. Via @OnlyFans/Twitter (em inglês), Insider (em inglês).
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Se você já ouviu falar do OnlyFans, provavelmente conhece a fama da rede permissiva com conteúdo pornográfico. A partir de outubro, porém, o OnlyFans proibirá fotos e vídeos de sexo explícito em sua plataforma. (Ainda será possível publicar “nudes”, porém.) A notícia, dada em primeira mão pela Bloomberg, causa espanto. A guinada, segundo o OnlyFans, se deve à pressão crescente de parceiros financeiros e provedores de pagamentos, como bandeiras de cartões de crédito, contra o conteúdo explícito. Especula-se, ainda, que dificuldades na obtenção de investimentos pelo mesmo motivo também tenham contribuído para a controversa decisão. Via Bloomberg (em inglês), Axios (em inglês).
Streaming nordestino apresenta modelo alternativo na relação entre plataforma e artistas
Em 2013, Roni Maltz foi a um show do Aviões do Forró na cidade de Ipojuca, famosa pelo Porto de Galinhas, no litoral pernambucano. Era uma terça-feira e ele ficou impressionado com o público, de mais de 30 mil pessoas, e com a agenda da banda, lotada nos meses seguintes. Ali, descobriu com seus sócios, Rodrigo Amar e Allan Trope, um negócio local ligado com enorme potencial: a plataforma musical Sua Música. O trio se empolgou tanto com a ideia que comprou a plataforma. Oito anos mais tarde, eles agora dão os primeiros passos para expandir o Sua Música para muito além do Nordeste. Eles querem a América Latina.
A proliferação de serviços de streaming segue alta. No último post livre, perguntaram até onde isso vai, ou quantos serviços de streaming veremos serem lançados antes que eles comecem a fechar ou serem engolidos pelos maiores.
O nicho dos animes e mangás talvez ofereça uma visão antecipada do que pode acontecer a toda essa indústria. Nesta segunda (9), a Funimation, uma joint venture da Sony Pictures Entertainment e Aniplex, subsidiária da Sony Music Entertainment (pensa numa estrutura confusa), comprou o Crunchyroll, até então da AT&T, por US$ 1,175 bilhão. O negócio foi anunciado em dezembro, mas só foi fechado agora. Via Nasdaq (em inglês).

Estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mensurou o impacto da pandemia nas vendas online do varejo. De 9,2% antes da pandemia, elas mais que dobraram e chegaram a 21,2% em junho deste ano. Do Valor (com paywall), via Juliano Nóbrega.
No final de 2020, Jack Ma, fundador do Alibaba, desapareceu durante três meses depois que o governo chinês melou os planos de IPO do Ant Group, seu mais recente empreendimento. Dias antes, ele havia feito duras críticas à maneira como o país lida com inovação tecnológica. Via BBC Brasil.
No início de julho deste ano, foi a vez da China promover uma “revisão de segurança” e tirar das lojas de aplicativos os da Didi, a “Uber chinesa”, alegando que a empresa estava coletando dados pessoais dos usuários ilegalmente. Dias antes, a Didi havia aberto capital nos Estados Unidos e levantado US$ 4 bilhões. Após a devassa, o valor dos papéis despencou abaixo do do IPO. Via Wall Street Journal (em inglês, com paywall).
Nesta segunda (26), as plataformas de delivery entraram na mira do Partido Comunista Chinês, que passou a exigir que elas ofereçam aos entregadores um salário mínimo, seguro e prazos de entrega mais flexíveis, o que fez sumir em dois dias US$ 60 bilhões do valor de mercado do Meituan, o “iFood chinês”. Via Reuters (em inglês), Bloomberg (em inglês).
A exemplo do que acontece no Ocidente, a China também parece preocupada e agindo para conter o poder da sua Big Tech. Enquanto nos Estados Unidos e Europa essas coisas se arrastam por anos e costumam terminar em multa irrisórias, na China a máquina antitruste é mais eficiente. Em pouco mais de seis meses, o governo local colocou rédeas em quase todas as gigantes de tecnologia do país e em outras várias upstarts. É o equivalente regulatório daqueles vídeos acelerados que mostram pontes ou prédios construídos em poucos dias — não por coincidência, também na China.
O Clubhouse, lembra dele?, ganhou um novo logo, mensagens de texto e, enfim, abandonou a fila de espera e o sistema de convites para novos usuários. Não que isso importe muito, porque, aparentemente, ninguém mais usa o aplicativo — e as nossas previsões de quanto tempo levaria para o Clubhouse afundar, feitas neste Guia Prático gravado dentro do Clubhouse, meio que se concretizaram. Via Clubhouse (em inglês).
O mais interessante é que o Clubhouse virou o elefante da sala minimalista com decoração escandinava dos investidores de risco e futurólogos que, em janeiro, despejaram US$ 100 milhões no app, avaliando-o em US$ 4 bilhões (!), e profetizavam que este seria o novo Facebook porque… sei lá, Marc Andreessen (investidor do Clubhouse), Elon Musk e Mark Zuckerberg usaram o app uma ou duas vezes.
Vale ler esta boa coluna (em inglês) de Ed Zitron, talvez o primeiro obituário do Clubhouse.
A Automattic, empresa por trás do WordPress.com, anunciou a compra do Pocket Casts, um popular aplicativo de podcasts multiplataforma. Embora o anúncio fale em integrações entre os dois serviços, esta aquisição entra no rol das que não parecem fazer muito sentido, mas que aliviam usuários que gostam de pequenas joias independentes que, de fora, pareciam sem alternativas para continuarem funcionando. Antes do Pocket Casts, deficitário e posto à venda em janeiro deste ano, a Automattic já havia comprado Tumblr, Simplenote e Day One. Via Automattic (em inglês).
Os super apps da América Latina
No processo de educar o consumidor à lógica dos aplicativos de celular, a Apple, nos primórdios do iPhone, lançou um slogan que colou nas nossas cabeças: “existe um app para isso”. Quase 15 anos depois, para algumas empresas um simples app não consegue mais dar conta do que ela deseja oferecer aos usuários. No lugar deles, temos agora os super apps.
O Magazine Luiza anunciou, na manhã desta quinta (15), a aquisição do e-commerce de informática/games Kabum. O valor do negócio é de R$ 3,5 bilhões, incluindo o pagamento à vista de R$ 1 bilhão em dinheiro e transferências pontuais de ações ordinárias até 2024. Via Magazine Luiza (PDF).
Do fato relevante:
Depois da conclusão da aquisição, o Magalu e KaBuM! poderão aproveitar uma série de oportunidades: (i) os produtos do KaBuM! serão oferecidos no SuperApp do Magalu; (ii) os clientes do KaBuM! poderão contar com todos os benefícios da multicanalidade, incluindo a entrega mais rápida do Brasil; (iii) diversos produtos do Magalu, como smartphones e TVs, complementarão o sortimento do KaBuM!; e (iv) produtos financeiros do Magalu, como cartão de crédito e seguros, também serão oferecidos aos clientes do KaBuM!.
Em 2020, impulsionadas pela pandemia, as vendas do KaBuM! mais que dobraram, crescendo 128% em relação a 2019. Nos primeiros 5 meses de 2021, o KaBuM! continuou evoluindo de forma acelerada, com 62% de crescimento comparado ao mesmo período de 2020. Nos últimos 12 meses, o KaBuM! superou a marca de 3,4 bilhões de reais em receita bruta. No mesmo período, com um modelo de negócio altamente eficiente, a KaBuM! obteve lucro líquido de 312 milhões de reais.
Na data desta publicação, eu tinha ações do Magazine Luiza (MGLU3).
O fiasco da nova política de privacidade do Audacity explodiu nas mãos do Muse Group, a nova empresa mantenedora do projeto. (Leia este post.) Embora a discussão tenha aparecido em sites especializados — incluindo este Manual do Usuário — apenas nesta segunda (5), desde maio funcionários do Muse Group estão tentando apagar o incêndio que eles mesmos causaram.
A repercussão de agora motivou Daniel Ray, líder de estratégia do Muse Group, a prestar um “esclarecimentos sobre a política de privacidade”.
As mudanças legais propostas giram em torno da inclusão, a partir da próxima versão do Audacity (3.0.3), de dois recursos que demandam conexão à internet: coleta de erros (telemetria básica) e atualização automática. O único dado identificável coletado seria o IP, que teria uma janela de permanência de 24 horas nos servidores do Audacity.
As alterações têm fundamento. Telemetria tem uma fama terrível e pode ser usada indevidamente, mas também tem usos legítimos, como detectar e corrigir erros que, de outra forma (com fóruns e comentários diretos dos usuários, por exemplo) seriam mais difíceis de sanar. O já mencionado PR #835 detalha outros usos que o Muse Group faria da telemetria do Audacity: estimar com mais precisão o tamanho da base de usuários, auxiliar na tomada de decisão de quais plataformas legadas suportar e corrigir problemas com o novo formato de arquivos introduzido no Audacity 3.
A atualização automática é mais fácil de entender o que é e para que serve. Embora em sistemas *Unix gerenciadores de pacotes que lidam com isso sejam muito difundidos, no Windows eles não são, o que deixa muita gente para trás, usando versões antigas (ainda que funcionais) do Audacity.
Outro aspecto importante dessa confusão toda foi a garantia de que apenas a atualização automática virá ativada por padrão. A telemetria básica seria “opt-in”, ou seja, opcional.
A restrição a menores de 13 anos deriva (ainda segundo Ray) da conexão estabelecida para as atualizações automáticas. Em resposta a um usuário, nos comentários, ele disse que o público infantil ainda pode usar o aplicativo, desde que desconectado. Meio… esquisito, e não parece uma solução ao conflito com a GPL 3, a licença sob a qual o Audacity é distribuído e que veda qualquer restrição ao uso do aplicativo, conectado ou não.
Ray ainda usou a carta de que o Muse Group foi mal interpretado, e que o linguajar jurídico, necessário em documentos legais como uma política de privacidade, não traduz muito bem a leigos a real situação. Pode até ser, mas a carta do “vocês entenderam errado” sempre pega mal e, no mínimo (e como reconhece Tantacrul em seu post, abaixo), sinaliza uma falha grave de comunicação e falta de tato com a comunidade em torno do Audacity.
Neste post de 13 de maio, Martin “Tantacrul” Keary, o rosto público do Muse Group e responsável pelo visual/UX do Audacity, saiu da sua zona de conforto para informar duas reversões de curso no projeto:
- Remoção da telemetria básica proposta no início do mês (4/5), no PR #835.
- Remoção de serviços externos (Google e Yandex) para coleta de dados de erros e mecanismo de atualização automática. Vão usar sistemas próprios, hospedados por eles mesmos.
Em um terceiro post, este com perguntas e respostas, publicado em 25 de maio, Daniel Ray detalha outra questão adjacente importante, a da criação de um Acordo de Licença de Contribuições (CLA). Pelo que entendi, é um documento legal que deve ser assinado por todos os colaboradores do Audacity e que funciona como uma espécie de procuração em branco ao Muse Group. (Mais detalhes.) Nas palavras de Ray, “o CLA nos oferece um caminho para financiar o desenvolvimento futuro do Audacity sem termos que alterar o Audacity em si. Trabalharemos em tempo integral no Audacity, então precisamos de algum tipo de receita”.
Essa resposta aponta a motivação por trás de toda essa turbulência. Afinal, até literalmente dois meses atrás o Audacity parecia estar muito bem, sem conexão obrigatória à internet nem políticas de privacidade dúbias ou questionáveis. Por que mexer em pontos tão espinhosos de um aplicativo que, a princípio, não precisa estar conectado à internet e que conta com usuários tão sensíveis a essas investidas corporativas?
Em vários momentos, Ray e Tantacrul reafirmam que o Audacity continuará gratuito e com seu código aberto. Porém, já existe pelo menos um plano traçado para gerar receita com o aplicativo. Resposta de Ray:
Nós provavelmente ofereceremos serviços de nuvem que os usuários do Audacity poderão aproveitar se assim quiserem. Esses serviços financiarão o futuro desenvolvimento do Audacity, da mesma maneira que o MuseScore.com financia o desenvolvimento dos aplicativos de composição do MuseScore.
No mínimo, se não totalmente satisfatórias, as respostas dadas até aqui têm coerência. Se serão suficientes para aplacar a ira de centenas (milhares?) de usuários, é cedo para dizer. Talvez este seja o único caminho para manter o Audacity vivo e saudável? Não sei. Continuaremos de olho.

Desde 2018, a preocupação com o poder crescente e aparentemente sem limites da big tech tem aumentado. Apesar disso, o chamado “techlash” não se nota nos balanços trimestrais dessas empresas, como se nota por este levantamento da lucratividade das quatro mais criticadas — Alphabet, Amazon, Apple e Facebook. Em 2020, primeiro ano da pandemia, elas lucraram juntas US$ 154,6 bilhões. Via Axios (em inglês).
Em paralelo, a OCDE discute um imposto mínimo global para multinacionais, a fim de evitar uma corrida ao fundo do poço entre os países, que baixam os impostos locais do tipo a fim de atraírem as maiores empresas estrangeiras. Na última quinta (20), os Estados Unidos propuseram que a taxa seja de no mínimo 15% — lá, a taxa é de 21%, mas o presidente Joe Biden quer aumentá-la para 28%. A notícia foi bem recebida por outros países, como a Alemanha. Via Associated Press (em inglês), CNBC (em inglês).
Uma pesquisa do IPEC (antigo Ibope Inteligência) apontou que 51% dos brasileiros entre 16 e 24 anos prefere contas bancárias digitais às tradicionais para operações do dia a dia, como depósitos, saques e pagamentos. Via Folha de S.Paulo.
Dinheiro por nada
O recente falatório sobre NFTs produziu, em grande medida, muita confusão. Em quase todos os artigos, NFTs são enquadrados como um fenômeno tecnológico incrivelmente complicado que exige uma explicação cuidadosa, em vez de uma blablablá entediante que nos impede de focar. Essa dissonância gera dúvidas. Você pode dizer a si mesmo(a): “Ok, o que entendi disso parece ridículo, mas é um negócio de alta tecnologia e parece que está rolando uma grana alta, por isso talvez eu esteja deixando escapar alguma coisa?” Leitor(a), você não está. NFTs são tão absurdos e banais quanto você provavelmente acha que são.
Vivendo o bastante para cair no ostracismo
No filme O cavaleiro das trevas, um raro bom filme de super-herói, o personagem Harvey Dent/Duas Caras profere uma frase memorável quando debate o papel do Batman com o próprio, só que à paisana: “Ou você morre como um herói, ou vive o bastante para se tornar o vilão.” É difícil atribuir tais qualidades a empresas, mas lembrei dela quando soube, nesta segunda (3), que a Verizon vendeu a Aol e o Yahoo para um fundo de capital privado. É que no mundo dos negócios, as empresas que não “morrem” no auge correm outro risco: o de cair no ostracismo.